A.
Zarfeg
1.
A literatura e as demais expressões
artísticas sempre foram vistas como atividades afins, criadas
pelo homem para os momentos do ócio, para as horas vagas da diversão
e do lazer. Com efeito, quando nos dirigimos à arte, vamos em
busca de prazer, contemplação e satisfação
superiores, nunca visando ao toma-lá-dá-cá da ciência.
Porque a arte, ao contrário das disciplinas pragmáticas,
apresenta-se como conhecimento intuitivo do mundo, tendo sempre o sentimento
como ponto de partida. Aliás, como refletiu Pessoa, a sensibilidade
é a alma da arte.
Semelhante à arte, a filosofia não promove nenhuma alteração
imediata nas coisas à nossa volta. Assim como a obra artística
ou literária, que tem um fim em si mesma, a atividade filosófica
surge como prática humana ligada aos seres especiais que voluntariamente
se entregam à radicalidade do pensar, não em busca de
retorno material, mas de algo muito mais valioso, do "caro deleite"
(segundo Platão), através de uma postura de abnegação
total. Nesse sentido, arte e filosofia se parecem; mas as semelhanças
param por aí.
Pois, enquanto a arte se funda no sentimento, a filosofia finca suas
raízes na razão, para proceder a uma investigação
crítica sem precedentes sobre o homem e as coisas dele, a cultura,
a religião, a educação, o trabalho, a ciência,
etc. (pois nada lhe escapa). Então, o papel do filósofo
não é outro senão se atirar à história
à procura do homem total, que se acha fragmentado, perdido nos
labirintos da imanência, a fim de lhe dar a chance de transcender
todos os determinismos, tornando-se um ser de projeto e, portanto, capaz
de liberdade. E, uma vez livre, o homem poderá de novo brilhar,
construindo seu futuro, seu destino, consciente de ter cumprido a sua
tarefa da melhor maneira possível.
Portanto, aí está a importância da filosofia, sem
a qual o homem estaria condenado para sempre à dimensão-do-agir-imediato,
preso ao imobilismo do dia-a-dia e à estagnação
das coisas feitas e desprovidas de novidade. De modo que, graças
à atitude filosófica (e ser filósofo, advertiu
Thoreau, não é apenas ter pensamentos sutis, nem mesmo
fundar uma escola, mas amar o saber a ponto de viver, segundo os ditames
desse saber, uma vida de simplicidade, independência, magnanimidade
e confiança), o homem pode dar sentido à sua existência,
posicionando-se crítica e racionalmente diante de si mesmo e
da história.
2.
O filósofo pergunta sobre as
coisas e, sobretudo, sobre seus semelhantes. Uma vez de posse dessas
respostas, ele se orienta criticamente em face dos acontecimentos. De
sorte que, ao perguntar, o filósofo abre as portas do conhecimento.
É por isso que ele está sempre perguntando, afinal quer
conhecer mais e mais. Até porque é buscando conhecer as
coisas, íntima ou exteriormente, que o homem melhor se define.
Está aí a sua grandeza ou pequenez.
Qual filósofo, um belo dia, Z. se viu se perguntando sobre tudo
à sua volta. Pois não se contentava mais com o que sabia,
nem com o mundo em que vivia. Tudo se lhe afigurava comum, medíocre.
E, ao contrário da grande maioria das criaturas humanas, Z. agora
queria experimentar o estranho, o diferente - custasse o que custasse.
Em outras palavras, ele tinha sede de conhecimento. E conhecer, para
ele, significava transcender a mediocridade e o senso comum, empreendendo
uma caminhada sem trégua rumo ao novo e ao sublime.
Todavia, exercitar esse "perguntar cognoscitivo" significa
entrar em choque com outrem, uma vez que as pessoas se encontram tão
apegadas à rotina e à mesmice, que jamais vão admitir
ser importunadas pela filosofia. E perguntar, numa atitude filosófica,
significa provocar as convenções, desafiar o senso comum,
buscar o horizonte longínquo e, sobretudo, desvendar aquilo que
se acha por trás da aparência das coisas. Ou seja, quem
pergunta se aproxima da essência dos fenômenos, gradual
e dialeticamente.
Z., ao ambicionar um novo sentido para sua vida, passou a ser visto
como alguém indesejado, rebelde e até perigoso. Aliás,
esse é o preço pago por todos aqueles que, corajosamente,
optaram por viver uma "vida de simplicidade, independência,
magnanimidade e confiança", como Sócrates - mártir
da filosofia -, condenado à morte sob a acusação
de ateísmo e subversão.
(No fundo, o ansioso Z. assimilara muito bem o conselho do mestre Sócrates
acerca do melhor método para se aprender filosofia: "Sê
razoável, então, e não te preocupes se os professores
de filosofia são bons ou ruins, mas pensa apenas na Filosofia
propriamente dita. Tenta examiná-la bem e com sinceridade; e
se ela for má, procura afastar dela todos os homens; mas se ela
for o que acredito que é, segue-a e serve-a, e fica contente".)
Moral da história: tanto o filósofo quanto Z. têm
algo precioso em comum. Nos dois casos há uma ruptura radical
com a submissão e a rotina alienantes, em favor do perguntar
consciente e criterioso, visando à liberdade, à descoberta
e, portanto, ao conhecimento. Que filosofar é, antes de qualquer
coisa, exercer a humana racionalidade (elementar, não?), com
independência e radicalidade (difícil, não?), tendo
sempre em vista um sentido superior para a existência.