Sabe, hoje acordei com uma estranha vontade: queria ir lá no morro da Petrobras, sabe? E de lá, gritar teu nome, tão forte e tão alto que ecoasse por Maresias, Juquehy, Boiçucanga...
E que chegasse até o alto-mar e criasse uma tsuname de água morninha pra ir acordá-la, molhando (de mansinho, claro, porque é uma onda de amor, entende?) teu corpo lindo.
E, de repente, fecho os olhos e lá estou!
Mas...
Consigo divisar, ao longe, na linha do horizonte (teu barco), velas ao vento!
Voltas?
Se voltar, não esquece: aporte em meu cais.
Se eu puder ser o porto...
As areias...
Quem sabe, senão, até mesmo as pedras...
Poderei ver.
Voltas!
Trazes velas de outros tempos...
– barris de pólvora –
Camafeus... Rendas... Cortinas de filèt... Brocados...
Trazes vontades represadas...
– portos esquecidos –
Saudades... Lenços de adeus, e lágrimas...
Mulher,
Tenho motores em-ré... espero apenas que este mar me dê um remanso...
Então, juro, lanço âncora!

 
 

 
     
 

 
     
 

Perdemos a Lua. Você a viu? Se viu, lembrou, não lembrou?

Prestenção: a Lua não esquece.

Lembra-se de quantos crepúsculos já perdemos? Foram tantos... de cores variadas... em dias absurdos... belos... enigmáticos... inesquecíveis...

Crepúsculos portenhos – Ah, este azul!

Sim, perdemos um azul-portenho abrindo as portas para noites calientes – azul guardião!

Sim, perdemos alaranjados-caribenhos guardando a bola estupenda de luz e fogo do Sol. Não vimos sequer suas carícias sobre os contornos verdes de florestas-amantes.

Perdemos!

Se nossos pés tocaram areias – foram em mares diferentes. Distantes. Separados pela imensidão.

O Atlântico que me separa de ti é do tamanho exato do Pacífico que não te deixa ver.

Essa distância ainda nos matará. Os dois.

Enquanto você partia, a noite foi esfriando... esfriando... gradualmente. Quanto mais você descia a Tamoios, mais frio ficava. E a Lua, meio triste, foi dormir. Ficou um vazio estranho por aqui... Sabe aquela sensação de amargo na boca? Voltou. Palavras que não disse. Direi algum dia?

Ficou uma preocupação em mim: teu nervoso. Tua voz embargada. Não estavas bem. Aquilo não é jeito de arrumar malas – a gente acaba esquecendo as meias. Aquilo não é jeito de pegar estrada – serra, então, nem pensar. Aquilo não é jeito de me deixar aqui sozinho.

Quando dei por mim, a noite havia chegado por inteiro... já ia longe – paquerando a madrugada... Não teve jeito, não. Fui forçado a admitir: estava profundamente triste.

Havia uma vontade enorme de beber. Ah, beber! Já descobri que isso, além de não resolver, ainda me põe curvado e com o ego diluído frente à solidão. Aumenta consideravelmente a angústia. Não presta. Descobri que beber, nessas horas, não presta!

Não bebi.

Fui irônico contigo. Não deveria. Olhei apenas pro meu umbigo, naquela hora. Ironia (via de mão-dupla – vinculação sacana de enviar uma mensagem) é uma grande merda!

Peço desculpas.

É que quando se quer dizer e não se diz, o “grito fica parado no ar” e, por não ser sólido, não se desmancha; e por não ser líquido, beber, também não dá. É uma rolha. Entope.

Você, por seu lado, também não poderia atender ao apelo do grito. Ele era puro absurdo em sua conotação de desejo e inconseqüência: FICA COMIGO!

Recorro à música, como sempre:

“...

...”

 
     
 

madrugada de 21.04.2005.
Uma homenagem à corda; não ao enforcado.

 
   
 

 
     
 

“Oh, minha senhora,
eu vos amo tanto
que até por vosso marido
já sinto um certo quebranto”.

Mário Quintana

 
     
 

Dia desses, um amigo mineiro – tão bão ter esse amigo; tão bão ele ser mineiro. Então, dia desses, ele a viu: apontei você na rua.

Silencioso (como convém a um bom sujeito mineiro), ficou, por um longo tempo, coçando distraidamente a barba. Quando eu mesmo já havia diluído sua passagem, ele comentou entre os dentes, muito de mansinho: “Bem desenhada, ela”.

Aquele comentário me fez lembrar da primeira vez que a vi. Do seu contorno de deusa inundando as retinas dos meus olhos. Desenhando vontades; mapeando curvas de desejos; descortinando canyons de êxtase.

(Eu chegava de longe, lembra? Havia atravessado desertos – uma travessia desnaturada, sobrevivendo do ato absurdo de chupar recordações mortas – estava vazio... opaco... seco mesmo. Lembra? Lembra que você chegou a comentar sobre a fábula do filme O paciente inglês?: “Às vezes a gente atravessa todo o deserto atrás do nosso grande amor e o reencontramos morto”.)

Teus olhos – tâmaras! –, foram me alimentando lentamente com o néctar de outros tempos. Viestes com cuidados ancestrais e eu não tive tempo. Me debati, claro. Tentei rodeios; inventei razões; falei de desacertos; cantarolei músicas inaudíveis; amarelei gestos...

Tentei conter. Não consegui. A inundação foi inevitável!

Agora, o que realmente faz o outro prato da balança ser um vazio idiota é tua ausência de mulher casada.

 
     
 

 
     
 
   
           
           

 

 

Xico Santos
Jornalista-cinegrafista-fotógrafo, com atuações na TV, no cinema, em revistas e jornais. Atualmente é editor da pequena, mas valente, Editora Altana. Adora ler. Escrever, somente agora, enquanto dura uma recente paixão.