“Narradores de Javé” l 2004 l Brasil l Comédia Diretor:
Eliane Caffé l
Roteirista:
Eliane Caffé, Luiz Alberto de Abreu Atores Principais:
José Dumont – Antonio Biá l Raul Cortez – Camargo
... Sempre querendo fazer de nossas humildes vidas – que são, na
maioria das vezes, trajetórias sem rumo – uma história importante
para os outros... De verdade, nossa vida é importante para nós,
devendo estar de acordo com nosso eu interior, com nossos objetivos
mais primários e prioritários – o problema é que estamos, na maior
parte do tempo e na maioria das vezes, obnubilados e cegos para
podermos perceber esses objetivos – isto é, nos anestesiamos para
não senti-los e nos incapacitamos para vê-los, pelos mais diversos
motivos... Trazemos marcas, individuais, familiares e sociais, não
somos uma tábula rasa, como eram designados os índios pela pobre
visão de José de Anchieta.
Temos em nós, a história dos fundadores de Javé, aqueles que não
fugiram, mas que saíram atentamente caminhando de costas e olhando
para os invasores que buscavam as riquezas da terra... Mas que de
fato fugiram, fugimos... Fugimos do nosso passado alegremente, e não
o enfrentamos. Montamos personagens mirabolantes, todos heróicos,
para nos iludirmos. Geralmente os personagens mais lúdicos – como o
bufão ou o bobo da corte do Rei Lear – dizem a Verdade... Verdade
que está dentro de nós mesmos, e que precisamos de outros – o
escritor – para nos dizer... Mas também o escritor, mesmo consciente
da Verdade, chora pelos mesmos sentimentos e emoções dos que a
ignoram.
Bonito filme que mostra a simplicidade e singeleza do povo humilde
que vive a cada dia o seu mal; que traz os dirigentes para o papel
de ilusionistas; que mostra a clarividência vindo através de um
carteiro mentiroso e banido, alguém de formação moral duvidosa, mas
necessário ao grupo... os vários e todos os homens são importantes,
no mínimo, para se mostrar a diferença entre nós... bons e maus,
altos e baixos, gordos e magros... dicotômica e complementarmente se
mostram na diferença...
Os vários Brasis são assim... os vários eus também. Temos que ter
nossa identidade clara e plenamente individualizada para podermos
ter a dimensão de quem somos e onde queremos chegar... se isso num
ser humano, de forma individual, já é difícil – imaginemos num
organismo social... Mas o desafio é nosso... não é dos argentinos,
americanos ou judeus.
Ver o filme foi voltar ao interior deste país, onde estive tantas
vezes, ver gente humilde, sábia em seus sentimentos e plena de
sentidos. Nós citadinos e cariocas, muitas vezes ocos... Vazios de
sentimentos, cheios de arrogância e prepotência, pouco respeitosos!
Aqueles, gente mestiça, com a face marcada pela secura do sol e do
ar. Gente alegre, pela credulidade e ingenuidade dos humildes. Almas
boas, pelo prazer de estarem vivos e se sentirem fortes diante da
crueldade da vida...
Parabéns aos brasileiros humildes!
09/05/2004
“À la Foile... Pás du Tout” l 2002 l França l Drama Diretor:
Laetitia Colombani l
Roteirista:
Caroline Thivel e Letitia Colombani Atores Principais:
Audery Tautou – Angélique l Samuel Le Bihan – Loic
“Embora meu amor seja insano, minha razão alivia a dor intensa do
meu coração dizendo-lhe para ter paciência e não perder a
esperança...”¹
Erotomania... Loucura... crença de estar sendo amada por uma
determinada pessoa geralmente de status superior. Apesar da aparente
puerilidade desse delírio, suas conseqüências podem ser tão danosas
quanto às do delírio de perseguição, a partir do momento em que a
amada intervêm diretamente na vida daquele que julga esteja
apaixonada por si.
Angélique, estudante de arte e pintora talentosa, vive um grande
caso de amor imaginário. No momento em que recebeu a rosa da mão do
vizinho, o cardiologista Loic, ofertada num ato espontâneo de
extrema felicidade por saber da gravidez da esposa, um elo
patogênico foi disparado em sua mente. Alguns indícios²
foram deixados ao longo do roteiro que nos fazem perceber a origem
do problema: amando e odiando seu pai, ela passa a construir com
pedaços, partes, lascas de objetos figuras, seres que a
acompanhavam, diminuindo sua solidão de criança e constituindo-lhe
como amigos – como o Mister Cat. Loucura??
De que vestígios nos utilizamos para construir nossa personalidade
adulta? Que momentos marcantes de nossa vida nos modelam? Que
conseqüências trazemos para aqueles que convivem conosco? E para
aqueles que apenas cruzam “azaradamente” nosso caminho? Loic e sua
esposa têm suas vidas completamente transtornadas por Angélique. Uma
amiga, um estudante enamorado e a dona da casa onde ela mora passam
por situações bastante desagradáveis. E a vida de Angélique ganha
contornos inimaginados, não concretizando seu trabalho artístico e
tendo sua liberdade cerceada. Loucura!!
O filme pode ser dividido em três partes: a visão de Angélique, a
visão de Loic e o que acontece depois de tentativa de suicídio dela.
Ato humano complexo, o suicídio gera polêmica quanto sua motivação,
podendo estar ou não ligado à doença mental³.
O suicídio racional é a designação dada para o ato quando o mesmo
for considerado como escolha livre e premeditada, não relacionada à
doença da psiquê. Estudos qualitativos enfocam o significado da
morte e do suicídio para os pacientes quando a tentativa foi
frustrada. Loucura...
Loucura... acontece quando o ser perde a capacidade de escolher e
agir de acordo com sua vontade; a doença limita a liberdade de ação:
quando se deixa de sair por pânico, ou se acha que o mundo vai
acabar, ou se é comandado por vozes. Estudiosos alegam que nos
suicídios patológicos os temas são de certa forma homogeneizados
pela doença: perseguições, niilismos, desesperos que impedem o
raciocínio e geram confusão mental. Quando o ato do suicídio
expressa a vontade dos pacientes, a análise de conteúdo expresso por
eles identifica motivações variadas: fuga ao sofrimento causado por
doenças sem prognóstico; saída romântica de adolescentes incapazes
de enunciar seu amor; opção por parte de pessoas sem coragem de
expor atitudes que elas consideram impróprias às pessoas que
respeitam. Portanto pode não ser loucura...
O título do filme em francês nos traz esse sentido dúbio:
“loucamente, perdidamente... absolutamente nada”. Uma erotomaníaca
com mais de 50 anos de doença declara que embora seu amor seja
insano, é ele que alivia a dor intensa do seu coração, dizendo-lhe
para ter paciência e não perder a esperança, apostando num futuro
inexistente...
Oxalá NÃO encontremos alguém assim em nosso caminho...
15/11/2004
¹Texto de encerramento do filme.
² Ginzburg, Carlo. Sinais: raízes de
um paradigma indiciário. In iden, Mitos, emblemas e sinais:
morfologia e história, São Paulo, Cia das Letras, 1989.
³ Mello, Marcelo Feijó. O suicídio
e suas relações com a psicopatologia: análise qualitativa de seis
casos de suicídio racional. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro,
16 (1): 163-170, jan-mar, 2000.
“O outro lado da rua” l 2004 l Brasil l Drama Diretor:
Marcos Bernstein l
Roteirista:
Marcos Bernstein Atores Principais:
Fernanda Montenegro – Regina l Raul Cortez – Camargo
Somos de fato assim... Temos “memória de elefante” para as mágoas e
“passos de tartaruga” para as ações positivas! Às vezes, por causa
disso, sofremos mais do que o necessário...
Quanta sutileza ao tratar temas tão complexos como a solidão, a
velhice e a morte! O amor e o sexo na velhice! O perdão a si mesmo e
aos outros! Família, gerações, doença... Tudo em meio a uma cidade
grande – violência, prostituição, drogas, promiscuidade, vícios...
... o Neto e Betina, criança e cadela, são os únicos seres felizes
da história, mostrando que a consciência humana e adulta adultera
muitas das nossas possibilidades de sermos simplesmente
felizes!
... a velhice não necessariamente precisa ser solitária e, por outro
lado, jovens não estão sempre acompanhados. Adolescentes nas “boates
e inferninhos” das cidades grandes – onde ninguém conhece ninguém –
partilham sexo barato e sem sentimento, drogas que anestesiam a
solidão e música rude que impede os sentidos e sentimentos de
amadurecerem.
... a doença, vivência solitária, provoca reações estranhas nos
pacientes e parentes... Uns a aceitam com inteligência e “contornam”
a sua presença e as limitações que ela provoca; outros entram em
linha de colisão direta ou buscam a fuga; parentes e amigos podem
ser cúmplices dessas posições – mas a dor, explícita ou camuflada,
está sempre presente. Até que um dia, por doença ou não, provocada
ou espontânea, solitária ou acompanhada, violenta ou calma, a morte
nos acolhe em seus braços.
... flores, bombons, cartões, convites para jantar, água de coco,
caminhada na praia, passeios na serra – coisas simples que provocam
emoções e percepções. O rosto, já com rugas, e o corpo flácido,
homens com poucos cabelos e mulheres com os seus pintados – nada
impede que trocas verdadeiras aconteçam, que a entrega num contato
intimo e afetivo gere prazer. Sempre é possível começar e recomeçar,
apesar do passado e do sofrimento.
... incompreensões de mãe para filho e de filha para pai, distintas
gerações com amadurecimento e expectativas diferentes; quando apenas
a humildade de se sentir “humano” e o perdão a si mesmo podem
superar as diferenças e recompor as rupturas.
Quando nos damos a chance de nos colocarmos no lugar do outro,
quando entregamos o binóculo para que os outros nos vejam e quando
nos mostramos para alguém é que há a possibilidade real do Amor.
30/05/2004
Maura Soares Sou médica – estudei, cliniquei,
administrei, questionei... Resolvi então fazer o curso de História –
estudei, refleti, critiquei, escrevi... Gosto de cinema, os filmes
retratam realidades diversas, denunciam, alegram, agridem,
fantasiam, nos fazem viajar... Descobri também que escrever é uma
das formas da "realidade" conversar com o "inconsciente"...