Essa receitinha, adaptada à gastronomia goiano-mineira, passada de
geração para geração, remonta à infância da humanidade, isso se a
senhora e o senhor tomarem por base o texto bíblico... É a vingança
definitiva de Lilith e Eva sobre o boçal do Adão.
Cansadas de pecados, costelas, maçãs, serpentes e de toda a
baboseira da versão unilateral de Adão sobre o paraíso e decididas a
colocar, de uma vez por todas, os pingos nos “is”, mesmo porque a
tal versão oficial deve-se unicamente à boa relação de Adão com a
imprensa, em um ritual quase catártico Lilith e Eva criaram,
executaram e se lambuzaram com um “celestial” arroz com costelinhas
de porco... de comer de joelhos!
Em uma panela de fundo grosso, de preferência de ferro, doure em
pouquíssimo óleo – algo como uma colher de sobremesa – uma cebola de
estatura mediana, cortada em cubinhos tão pequenos quanto sua
habilidade permitir. Deixe reservada uma outra cebola cortada da
mesma maneira para usar mais adiante.
Junte à cebola da panela um quilo de costelinhas de porco, não muito
gordas e de preferência com muita carne, cortadas em pedaços de
aproximadamente 10 cm de comprimento. No fogo médio, refogue a
costelinha, misturando com paciência, em uma quase meditação, como
quem entoa um mantra... Conforme a carne for grudando na panela
pingue água e novamente misture, e pingue água e novamente misture,
até que se obtenha a cor de bronze. Salgue, então, a gosto e junte a
cebola reservada. Misture novamente para que a cebola nova roube, da
costelinha, o bronzeado.
À parte, lave bem o arroz até sair toda a goma... Quanto arroz? Essa
é uma pergunta deveras complicada... Vale a dica vinda de um
restaurante de Paraty, um dos paraísos terrestres... Dois punhados
cheios de arroz por pessoa e mais dois punhados cheios de arroz para
a panela... Para a receita em questão Lilith e Eva aconselham
aproximadamente 12 punhados, o que vai render cinco porções.
Mas a prova final fica mesmo por conta do olho bom do senhor ou da
senhora, o tanto certo de arroz para essa receita é aquele que fica
proporcionalmente adequado, só de olhar, à quantidade de
costelinhas, nem menos nem mais. Quando cozido, o arroz deve
envolver a costelinha que ficará imersa nele, sacou?!
Volte ao pas de deux da costelinha com a cebola e junte o
arroz, também ansioso por dourar-se... Voilà: temos um
perfeito ménage à trois! Para literalmente apimentar ainda
mais a história, junte três pimentas dedo-de-moça, frescas e
inteiras, e uma pimenta bode, em conserva, sem amassar. Misture mais
um bocadim e junte água suficiente para cobrir a mistura. Prove o
sal, misture mais um pouco e deixe ferver em fogo alto.
Quando a água estiver quase seca e aparecendo os furinhos formados
pelo calor no arroz, tampe a panela e abaixe o fogo ao mínimo. Se
tiver uma chapa de ferro ou alumínio coloque sob a panela. Passados
uns minutos experimente para ver se a água secou totalmente e se o
arroz já está cozido. Polvilhe com salsinha, desligue o fogo e deixe
descansar mais uns cinco minutos. Pratique, então, aquele delicioso
pecado capital...
Mais uma dica: na minha terra, comemos esse prato acompanhado por
uma saladinha de tomate cortado em rodelas finas, cebola, cheiro
verde e pimenta, temperada com limão, sal e azeite. Para completar e
deixar a refeição ainda mais portentosa: depois de pronto, antes de
servir, cubra o arroz com uma camada de bananas-da-terra fritas em
rodelas... Ai, ai, ai...
Lilith e Eva colocariam na salada umas fatias de maçã...
Selenita Telúrica É cozinheira radicada temporariamente
na Candangolândia. Nas horas vagas dedica-se à queima de sutiãs.