A Machadão não teve como recusar. Veio ministro, figurão, uma gente
vestida de granfino, até o Big Boss lá dos Esteites veio também. E
cada um com seu argumento.
– O Brasil tem que participar – dizia o americano.
– É um esforço para o bem da humanidade – falava o outro, com
sotaque francês.
– Vocês passarão para a História – era o japonês sorridente.
Dona Maria matutava. Sabia que o seu puteiro era famoso, afinal
Jorge Amado passara por ali. Só não imaginava o quanto. E agora
essa! A casa cheia de bacana, uma gente esquisita, falando enrolado.
Mas mudar para as estrelas? Aquilo era demais para sua cabeça.
Os homens insistiam. O programa espacial estava de vento em popa.
Tinha astronauta girando para tudo que era lado, o céu empesteado de
foguete indo e vindo. Nem olhar para a Lua sossegado se podia mais.
Perigava, de repente, cair uma titica qualquer na cabeça. Sim,
porque essa gente de primeiro mundo estava lá se lixando para os que
estavam aqui embaixo.
Era uma realização do G7 e agora tinha chegado a hora de o Brasil
contribuir.
A cidade na Lua era um portento. Toda prateada, cheia dos confortos,
que rico é sempre metido a besta. Tinha de um tudo, até uma fábrica
da coca cola, contribuição dos americanos. Os franceses já tinham
três padarias, os alemães uma salsicharia de dar gosto. Os japoneses
montaram um mix de Sansung e Mitsubishi, a Inglaterra, para
se exibir, levara uma destilaria escocesa e a Itália contava com
meia dúzia de cantinas espalhadas. Até os canadenses já estavam
abastecendo os açougues.
Mas não tinha puteiro!!
A gente sabe que homem é tudo igual, pode ser americano emproado ou
jagunço do sertão pernambucano, na hora do vamos ver ficam pianinhos.
Não havia adiantado muito aquele negócio ensaiado de realidade
virtual, com cheiro de desinfetante ou coisa parecida. Nada disso.
Puteiro é puteiro, não se fala mais nisso.
Foi feita uma reunião dos lideres, representantes dos moradores,
psicólogos, especialistas. A discussão demorou dias. Os homens, na
Lua, andavam meio macambúzios, isso preocupava. A moral em baixa,
nem o beisebol ou o golfe estavam resolvendo.
– Queremos putaria – dizia o bigodudo barrigudo, representante dos
moradores. – E da boa, da melhor que há!
Pensaram em convidar a Holanda, com as famosas ruas de Amsterdã, mas
o dono dos bigodes torceu o nariz.
– Muito raquíticas. Queremos putas com fogo nos olhos e requebro na
bunda. Puta que faz com gosto!
Sem alternativas mandaram emissários para Brasília, o Presidente
ficou todo vaidoso.
– Um convite para o G7! Nosso país construindo o Futuro – anunciou
em rede nacional. – A contribuição brasileira para o mundo!
E despencaram todos na casa de Dona Maria Machadão. Ela ficou
atarantada, mas deslumbrou mesmo, de cair o queixo, quando o
Presidente chegou, barbudo e ciciante, falando da importância do
acontecimento. Veio com uma comitiva de doutor de dar gosto. Tinha
engravatado saindo pelo ladrão!
Dona Maria não resistiu!
Botou todo mundo nos bofes para arrumar a bagagem. Foi um corre-
corre danado, até Vagalume, o cachorro de estimação, embarcou nessa.
E hoje, se a gente, aqui, olhar para a Lua, atento, vai enxergar as
ancas da Caolha, rebolando, para construir o Brasil Grande.
Vera do Val Sobrevivente dos anos 1960, paulista,
perdida na Amazônia. Insana e delirante.
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