Pai,

Sou cristã. E católica. Mas uma católica errática. Vós sabeis disso. Fui batizada na Santa Madre. Fiz a primeira comunhão e confirmei minha Fé, aos 15 anos, numa cerimônia simples, linda e inesquecível. Apenas eu, minha madrinha, Vós e Vosso servo, D. Florêncio. O lugar não poderia ser mais apropriado: a capela particular da Diocese de Amargosa, interior da Bahia, cidade natal de meus pais. Uma capela simples, quase sem ornamentos, de madeira. Foi num final de tarde de janeiro. Tinha 15 anos. Lembrais, Pai? Presenteastes-me duplamente: concedestes-me um entardecer esplendoroso e a oportunidade, ímpar, de receber o sacramento da crisma de um parente – mesmo que distante.

Sabeis, porém, minhas diferenças com a Santa Madre. Seu conservadorismo excessivo, sua persistente e deliberada inadequação às mudanças promovidas pelo Tempo, seu imobilismo diante das profundas diferenças sociais e seu gosto pela ostentação. Minha inconformidade tornou-me uma católica não praticante. A idade e os tempos eram de rebeldia. Não fugi à regra, Pai. Com os anos de afastamento e negação, a fé esgarçou-se. Distanciei-me de Vós e da Igreja. Não sabia eu que a fé ficara em mim, em estado latente. Até eclodir décadas mais tarde, plena de luz, com o nascimento de meu filho. Mas essa é outra história. E Vós, melhor que todos, melhor que eu mesma, conheceis os detalhes. Estivestes comigo, conosco, em mim e nele todo o tempo.

Por um breve período de euforia, minha e de muitos, acreditei que a Igreja houvera encontrado o caminho de volta aos ensinamentos de Vosso Filho. Acreditei que, finalmente, após séculos de desvios, Roma retomara o exemplo Dele e trilharia o caminho a que Ele, para cumprir a missão que Vós traçastes, doara a própria Vida: a opção pelos humildes, pelos homem de fé, pelos que crêem ser ver. A Igreja dos desvalidos. Desses homens e mulheres que, na humildade e na fé inabalável em Vós e em Vosso Filho, encontram alento e esperança para lutar pela sobrevivência. Presunção minha.

Sonhei, Pai, eu e tantos e tantos outros, com a Igreja Católica redimida, caminhando lado a lado com os Homens. Sofrendo nossas dores e oferecendo-nos conforto e estímulo. Conosco lutando contra as injustiças sociais-raciais-econômicas, impostas por humanos que esqueceram de quem são criaturas. Uma Igreja dedicada à pregação da fé e da igualdade – não total, pois utópica – entre os Homens. Acreditei na Igreja que não teme nem se exime da luta santa por oportunidades para todos, indo ao encontro e em defesa de Vossas ovelhas – ovelhas essas, que Vós, por intermédio de Vosso Filho, confiastes a Pedro. Enfim, a Igreja Cristã, aquela que não se furta à tarefa de pastora a conduzir Vosso rebanho.

Nessa época, voltei à Igreja. Recordais desse tempo, Pai? Em que eu era toda alegria e desprendimento? Sabia que a minha participação não era passiva. Executava o Vosso trabalho e o fazia com a alma repleta de uma alegria indefinível. Essa alegria, meu Pai, infelizmente, durou pouco. Vi o sonho, o suor, o esforço de tantos massacrados pelo temor – nada ignorante – do clero conservador. Essa horda de cardeais, arcebispos, bispos, núncios e outros príncipes que, no fausto do Vaticano e das arquidioceses, apegam-se às riquezas e ao poder e renegam, na prática cotidiana, os ensinamentos de Vosso Filho.

Não é a primeira vez que a Igreja é assaltada por interesses materiais, venais, deploráveis. Foi assim, na Idade Média. João XXII e seus seguidores, os guelfos* (baseados em Bonifácio VIII, cuja bula afirmava que o poder do Estado é ordenado e subordinado ao poder eclesiástico), travaram uma guerra insana e nada santa contra os seguidores do Imperador Luís II da Baviera e seus seguidores, os gibelinos** , defensor da ruptura entre Estado e Igreja – tese apoiada pelos franciscanos (e por outros espiritualistas, a maioria de ordens extremistas como a dos fraticellis***) em defesa da igualdade no clero e da pobreza da Igreja; a reafirmação da humildade e do amor a Vós e Vosso filho, sem ostentação ou riqueza. Como dissera Vosso Filho: "A César o que é de César". Assuntos materiais, seculares, que fiquem a cargo dos homens. Nunca, porém, distante de Vossos olhos.

Naqueles séculos de trevas, enquanto uns desejavam uma Igreja monárquica, hierárquica e de poder divino; outros sustentavam, com teses e argumentos, a necessidade de uma Igreja democrática, igualitária, pobre e popular. Intrinsecamente espiritual. Os primeiros preconizavam a união entre Igreja e Estado; os demais defendiam a separação entre o poder eclesiástico e o poder civil. Luta encarniçada. A doutrina Vossa e de Vosso Filho?! Apenas argumentos ad populum**** Batalha sangrenta, Pai – Vós assististes a tudo e bem sabeis que não houve vitoriosos. Apenas derrotados. Entre eles, a própria Igreja e a fé.

O que estava em discussão, de fato, não eram os Vossos ensinamentos, transmitidos por Vosso Filho. Mas apenas e tão-somente a luta pelo PODER. Sem falar, meu Pai, que nessa guerra suja os meios justificavam os fins. E lembrar que em nome da Santíssima Trindade milhares de inocentes foram torturados e mortos pelo braço armado do Santo Ofício – a execrável Inquisição, levada às últimas conseqüências por psicopatas, homens doentes, inescrupulosos e sanguinários, mas que ostentavam as vestes católicas e ousavam falar em Vosso nome e em nome de Vosso Filho.

Por vezes, me indago. O que diria e faria Cristo, nascido outra vez como filho do Homem, após caminhar pelos corredores do Palácio do Sumo Pontífice – a sede do Império Católico – e saber que toda a riqueza e ostentação ali acumuladas, através dos séculos e por meio do genocídio de etnias, foram amealhadas em nome Dele e do Vosso?! Que as intrigas do poder ali proliferam como em qualquer parlamento corrupto de uma republiqueta do Terceiro Mundo – a nossa, brasileira, por exemplo?! Não sei, mas tenho para mim: Ele seria tomado pela mesma ira divina que O fez expulsar do Templo os vendilhões, os mercadores que profanavam Vossa Casa. Vosso Filho sabe. Vós sabeis. Por isso, busco razões onde, em minha limitação, não vejo razões e motivos. Muito menos justificativas.

O sonho de uma Igreja Católica moderna em suas ações e verdadeira em sua doutrinação morreu. A ala progressista da Igreja Católica, sobretudo na América Latina, foi dizimada nos anos 1980/90 pela Corte de Roma, sob as ordens implacáveis de um homem: Joseph Ratzinger – O Grande Inquisidor da atualidade. Agora esse homem atende pelo nome de Bento XVI e detém o mais alto posto da Igreja Católica. Como Arnaldo Jabour – ao menos, estou em boa companhia – custei a entender o trabalho executado por Karol Wojtila. Como ele, Jabour, fiz minha contrição e, consternada, vi o fim de uma era. Percebi que minha intolerância fez-me míope ao observar o trabalho de João Paulo II. Digo isso porque ele morreu? Óbvio. De outra forma, não creio que teria distanciamento ou condições de ver a obra que realizou em sua totalidade.

Observarei Ratzinger, Pai. Distante da Igreja, mas não distante de Vós. Dessa vez, apesar da absoluta antipatia que tenho por esse homem – recuso-me a chamá-lo de papa – tentarei ver com olhos os mais isentos possíveis. Prometo tentar. Não sei se terei sucesso sem Vossa ajuda. As primeiras palavras e gestos desse homem apenas reforçaram o que já pensava sobre esse mortal. Sim: mortal, falho, pecador – o cardinalato não transforma humanos em santos! Nem mesmo papas tornam-se sagrados por ostentarem um anel, quando deveriam, apenas, calçar as sandálias do Pescador. A História da Igreja não permite ilusões. Há exemplo melhor-pior que Alexandre VI, batizado como Rodrigo Borgia e mais conhecido como o pai de Lucrezia Borgia?

Apesar de agora ocupar o lugar de Pedro, não consigo ver nesse homem chamado Joseph Ratzinger qualquer santidade, mínima que seja. Vejo a ostentação do anel e a felicidade do intrigante, que levanta os braços diante da multidão num gesto evidente de quem comemora uma vitória. Jamais a humildade das sandálias. Percebo, meu Pai, somente o ser político de talento e inteligência indiscutíveis, digno da astúcia de um Maquiavel. Um cortesão que soube usar o poder por meio de artimanhas e enredos, ao longo dos anos passados à frente do Santo Ofício, para pavimentar seu caminho e consolidar sua estrada até o trono papal. Mesmo que à custa do sonho de igualdade cristã de tantos e da fé de muitos. Ele, Pai, venceu a disputa, ganhou a eleição. E a comemorou, sem pudor. Os milhões de católicos espalhados pelo mundo viram não o sucessor de Pedro, mas o seguidor de Bernardo de Gui.*****

Recorro a Vós, Pai, em busca paz e alento. Peço-Vos: não permitais que vejamos novamente a Igreja lançada às trevas da Inquisição, em pleno Terceiro Milênio. Não duvido de Vós, meu Deus, mas temo pelo que um homem com tanto poder venha a fazer contra os que Vos amam de forma livre e alegre. Contra esses que ousam adorar-Vos sem submeter-se às regras não estabelecidas por Vós ou Vosso Filho. Contra aqueles que buscam nos ensinamentos de Cristo o estímulo e a força para seguir em frente, confiantes, nesse mundo caótico.

A maioria dos humanos, Vós sabeis e sei que lamentais, já nem se lembra de uma das mais belas frases-mandamento de Vosso Filho: “Amai-vos uns aos outros”. A frase foi esquecida e seu sentido profanado por guerras, egoísmos, torturas, injustiças, individualismo exacerbado, consumo desenfreado e pelo materialismo – Baal desses nossos tempos.

A ti, Ratzinger, como cristã-católica, nego-lhe o meu reconhecimento: Tu non est Petrus! Sobre ti, Joseph Ratzinger, que não és a pedra-alicerce dessa Igreja, nada de mal há de erguer-se. Nem sob teu jugo a Igreja de meu Pai há de sucumbir.

Perdoai-me, Pai, por esse desabafo. Perdoai-me, também, se em minha ignorância e mortalidade não consigo apreender o que Vós, agora, com a escolha desse homem, escrevestes em linhas tortas para nós.

 
     
 

 

“... Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte,
não temeria mal algum, porque tu estás comigo;
a tua vara e o teu cajado me consolam...”
(Livro dos Salmos, 23 – 4.)

 
 

(20/04/2005)

 
     
 

Notas da autora:

 
     
 

* Guelfos – Inicialmente, partidários, na Alemanha, até 1234, do Duque da Baviera, contra os Hoenstaufen, ou gibelinos. Depois dessa época, na Itália, deu-se o nome de guelfos aos partidários do Papa, contra as pretensões dos gibelinos, partidários do Imperador.

** Gibelinos – Nome dado aos partidários do imperador na Alemanha na luta contra os apoiantes (guelfos) do Papa. Essa disputa arrastou-se desde meados do séc. XII a meados do séc. XIV.

*** Fraticellis – Espiritualistas sectários, em sua maioria franciscanos, considerados posteriormente como hereges e excomungados – os que escaparam às fogueiras de Bernardo Gui, o teórico e Inquisidor-mor da época.

**** Argumento ad populum – Sofisma em que se associam ao objeto da argumentação elementos que tocam à sensibilidade, às necessidades, às aspirações, aos temores etc., do público que se quer convencer.

***** Bernardo de Gui (séc. XIV) – Considerado como um dos mais severos e sanguinários inquisidores. Autor de manuais de torturas, por meio das quais se obtinha a "confissão" do herege.

 
     
 
   
           
           

 

 

Simone Salles
Ligeira autobiografia em linhas tortas.
Quando nasci, nenhum anjo me disse para "ser gauche" na vida. Nem me apareceu um "chato de um querubim" para comunicar-me, diligentemente, que eu estaria fadada a ser errada vida a fora. É o que dá não ser Drummond ou Chico Buarque de Hollanda. Ser, apenas, uma mulher comum. Fato é que, até o ano de 2004, com 42 anos anos, nunca consegui viver em linha reta – nem mesmo sóbria de ilusões, sonhos, fantasias e pensamentos.
Ninguém me alertou que trilharia estradas tortuosas, em alguns momentos quase marginais. Nem que esses (des)caminhos da vida seriam acidentados, com trechos de aclives íngremes e de declives sinuosos. Sem esquecer os desvios provocados por avalanches existenciais e as inevitáveis freadas emocionais de arrumação. Um perigoso só. Mas, como atesta a sabedoria do povo, a mulher que andou na linha, o trem matou. E eu estou aqui, vivinha da Silva.
Aventurei-me assim pela existência: às cegas, tateando. Mais abusada e temerária que intrépida e corajosa. Por vezes, impulsionada pelo faro; outras pelo instinto, a maior parte do tempo pela emoção. Hoje, quando me perguntam quem sou, nem pisco para responder: mãe (de um lindíssimo casal de filhos: Laura, fará 10 anos em dezembro; Victor fez 7 em junho passado); solteira oficialmente e descasada oficiosamente; jornalista episódica; artesã por hobby e herança genética; escritora por compulsão e mulher – quando sobra tempo. Sempre sobra. Afinal, nem só de pão e obrigação vive uma mulher. Um tanto de carne e circo são fundamentais na vida.
Sim, sou jornalista há 22 anos. Avisei que a perfeição por mim passou lotada e não parou no ponto. Sorry. Porque, perdoem-me os mais românticos, ser jornalista neste país, nos dias de hoje, é tão-somente saber administrar – com as bênçãos dessa nossa sociedade hipócrita – um desvio de caráter: o interesse pela vida alheia. No popular, o gosto pela fofoca. Como em toda profissão há, ainda, os que dela fazem uma arte.
Nisso e disso sobrevivi, direta e indiretamente, dos 22 aos 38 anos. Até que no final de 2000, recém-chegada de Brasília, após 14 anos de auto-exílio, abandonei de vez as redações. Digitei meu ponto final no terminal da Editoria de Política do jornal O Globo, onde trabalhava no fechamento da edição.
Sem alardes, despedidas ou brigas. Apenas coloquei a bolsa no ombro, desejei boa-noite a todos e virei as costas a uma etapa da minha vida. Desde então, dedico-me exclusivamente a escrever. E ler. E escrever. Pois que escrever é bem mais que inspiração. É compulsão da alma. É necessidade do espírito. É imposição do Ser. E só os que padecem desse mal compreendem o quão imprescindível é transmutar em palavras o que nos vai por dentro. Fiz desse mal, que é bem, meu prazer, meu ofício, minha profissão de fé. E la vie en rose....

Trabalhou no Jornal do Brasil, na Folha de S.Paulo, na Revista IstoÉ, no Correio Braziliense e em O Globo. Tem colunas semanais em diversos sites de Literatura.
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