“Para Plínio Marcos, Carlito Maia e Betinho.
(A Saudade é a mais profunda forma de eterno amor,
respeito e admiração.)

 

     
   

“Amamos a vida, porque estamos
acostumados não à vida, mas a Amar...”
(Nietzsche)

 

     
 

Todos os Domingos descansamos os remos da sobrevivência possível. Alguns coiós tiram colônias de cupins das portas de cedro, outros capiaus podam a roseira, há quem escove máscaras, e eu confesso que até tiro Glen Miller para dançar na imaginação algo salobre.

Todos os Domingos, por excelência
Visitamos a sogra, o barzinho Fecha Nunca
Vamos à cata de ícaros selvagens
Cantamos no chuveiro – Saravá Luís Melodia (ou Jards Macalé)
Passeamos com o cachorro Beethoven (é assim que se escreve?)
E, às vezes, românticos como poemas etílicos
Chamamos a patroa, musa vítima (mulher amada, adorada, salve! salve!)
De... pasmem: “Raio de Sol” (Aleluia, Um a Zero!)

Todos os Domingos vamos à igreja Catedral de Lírios
Lemos Salmos de David, Poemas de Neruda ou Garcia Lorca
Compramos um monte de cacarecos de um dólar (Ai Malan!)
Ligamos para a mãe distante (À bênça, Dona Eugênia!)
Tomamos todas e mais algumas
(Sou da Igreja Universal do Reino da Skol – desce redondo)
E ainda escrevemos cantos líricos aos anjonautas íntimos.

Todos os Domingos cheiramos a sovaco vencido depois dos atropelos de última hora (Ai que preguiça!), lemos pela enésima vez o velho e encardido gibi do Flecha Ligeira, jogamos erros e lamentos no ralo das inquietudes, coçamos a bereba imaginária e assobiamos Elis Regina com saudade e sofrência.

Todos os Domingos RESISTIMOS, cara-pálida
Entre a colméia de cimento armado, a gaiola de janelas de acrílico
A cruz, a tevê, o sanduba vegetariano (logo vamos ficar verdes e fazer fotossíntese)
Pinchamos longe os remorsos sublimados
Entre gols, afetos, riscos sem cálculos
E uma total falta de perspectiva para o humanismo
(Depois de oito anos, é difícil ver o sr FHNistão como um Ser Humano).

Todos os Domingos vadiamos
Vemos o antigo filme predileto (Ensina-me a viver)
Fazemos faxina – e depois churrasco
(Não necessariamente nessa ordem)
Tocamos clarineta ou bandolim
Brincamos de roda-cotia com os guris serelepes dos vizinhos alumbrados
E ainda aguamos a samambaia e recolhemos os lixos de pertences e tropeços

Todos os Domingos conversamos
Com os nossos fantasmas sagrados
Lemos vários sites (Bendita seja a Irene Serra)
Mandamos vários e-mails
Pagamos promessas secretas
E até xingamos o governo neoliberal cheio de fricotes e polentas azedas nas estúpidas bandas cambiais furadas...

Todos os Domingos evacuamos a Metrópole (paulicéia desvairada)
Que cheira a detergente e óleo diesel com ranço
E vamo-nos a zoar, felizes como vacas loucas
Pelos pomares, praias, butiques e chalés (e uma baita Lua Cheia, claro!)
Atrás de frustrações e fugas que nunca resolvem nada, mas nos fazem hospedeiros de uma entojada angústia-vívere

Todos os Domingos acordamos
Da ressaca do sábado – cheirando a cabo de guarda-chuva
A mulher reclama cheia de bobes e esmaltes
(A TPM, ou algum ranço de dezelo presencial)
E ainda sobrevivemos, destemperados
Contando palha que vamos votar na única utopia da oposição limpa

Todos os Domingos por excelência, ligamos para o amigo distante (Olá Pintor Jorge Chueri de Itararé), lavamos o carro fedorento, tiramos o ceroto do banheiro, praticamos cooper (com a enorme barriga de cerveja – Bavária Júnior, dizem os boêmios caçoadores), relemos Sócrates, Pessoa, Borges, Brecht, e ainda temos um tempinho para a sinuca ou para o pôquer.

TODOS OS DOMINGOS APRONTAMOS
(Macarrão com xingos na sogra)
O gol do Timão Fiel Corinthians
A tristice da saudade jururu
(Itararé é tão longe)
Mas ainda encontramos forças para gostosamente conspirar contra o governo...

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Na sagrada Segunda-feira, Dia do Senhor
Marmita, Sonrisal, Tiket-nervoso, Vale-Ressaca, Passe Espelunca (Aspirina e Chá de Boldo)
Começamos tudo outra vez – como uma roda de remorsos e moinhos de insatisfações
Feito um curtume, uma purgação, um desencanto de foro íntimo resignado
Até o próximo DOMINGO DE DESCANSO – de novo
Entre céus, encantários, santerias e bebemorações
E a mesma eterna metralhadora cheia de Lágrimas!

 
     
 

[Texto da série "Confesso que bebi"]

 
     
 
   
           
           

 

 

Silas Corrêa Leite
Poeta, educador, jornalista. Pós-graduado em Literatura, Comunicação, Relações Raciais e Inteligência Emocional. Autor de Trilhas & Iluminuras, poemas, Editora Grafite (RS), 1995. Autor dos e-books (livros virtuais) Ele está no meio de nós e o pioneiro, de vanguarda e único no gênero chamado O rinoceronte de Clarice – onze ficções fantásticas com três finais cada, um feliz, um de tragédia e um politicamente incorreto (mais de 60 mil downloads), ambos no site www.hotbook.com.br.
Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm
Romance Ele está no meio de nós no site
www.hotbook.com.br/int01scl.htm