Não costumo lembrar muito de meus sonhos, mas há alguns deles que são tão vívidos que, mesmo ao despertar, impregnam meu acordar desta outra realidade. Eu os chamo de sonhos emblemáticos. De uma forma ou de outra, são marcos de um momento de vida e é como se o grupamento daquelas imagens fosse a condensação de uma experiência emocional intensa, desapercebida de outra forma.

Há muito tempo tive um sonho destes e hoje sonhei que o sonhava outra vez.

Caminhava por uma rua de grande movimento aqui no Rio. A rua é conhecida e existe realmente, a pouco mais de um quilômetro de minha casa. Está anoitecendo. As sombras se alongam e se ampliam rapidamente, pessoas correm apressadas ou aguardam, num bloco compacto sob uma marquise, a condução que as levará para casa naquele começo de noite de inverno. Deve ser inverno, todos estão encapotados e tenho a impressão de uma garoa fina que expulsa, com mais pressa, a multidão para casa. Eu também quero ir para minha casa, proteger-me da noite quase hostil. Venho de um encontro com um ex-analista, onde tratei de algo importante. Sinto frio.

Mais uns passos e estou no meio de uma grande obra na rua: entre a calçada estreita e a rua movimentada, um tapume de compensado, velho e manchado, se esparrama a perder de vista. O chão, esburacado, oferece como passagem tábuas estreitas, instáveis e sobrepostas, num simulacro de ponte entre os lugares escavados. Adiante, o caminho se afunila mais ainda, formando um corredor escuro que margeia um paredão de pedra estendendo-se por algumas centenas de metros. O cenário, embora real e conhecido, é tonalizado por um clima fantasmagórico, tornado ainda mais lúgubre por luzes esparsas, colocadas nos mourões do tapume, trêmulas sob a cúpula rústica e opressora de baldes vermelhos em reverso.

Caminhava, ansiosa por me afastar do lugar, quando um presságio de infinito perigo, que só a vulnerabilidade e a ignorância podem oferecer, faz-me apressar os passos e buscar o conforto dos espaços abertos. Alguém me segue.

O frio pela espinha é acompanhado do eriçamento dos pelos da nuca e dos braços, como um felino em alerta. Apresso os passos, aos tropeços, meio que corro, entrando num túnel de medo e adrenalina, gelada pelo suor, surda com o bater frenético do coração, quase cega, ofuscada pela presença incorpórea cada vez mais próxima.

Busco forças para olhar para frente e vejo que, alguns metros além, o paredão de pedra invade a calçada, bloqueando a passagem. O terror é como um vagalhão branco, gelado, vertiginoso. É um afogar-se, onde nada e tudo têm sentido e o corpo quase que anseia por se deixar levar, sem resistência. Não sei como, vinda de algum lugar dentro de mim, minha própria voz ecoa, incisiva:

– Quer morrer assim, como um rato, uma barata esmagada contra a parede? Vai morrer, não vai? Então morre de frente, olhando para aquilo que te mata!

Uma fúria enorme toma conta de mim. Fúria e força.

– Não, não vou morrer de medo. Vou morrer é de outra coisa e o que quer que me mate, não vai ter minha ajuda, não!

Volto-me, num repente, e refaço o caminho, decidida, em direção a meu algoz. Ele está alguns metros atrás, estancando ao perceber meu retorno. Aguarda-me, imóvel e silencioso.

– O que quer de mim? – pergunto, agressiva. – Por que me segue? O que deseja? Não me importo mais com o que vai me acontecer, cansei de fugir, ouviu? Só não vou morrer sem saber a razão.

O desconhecido, tez morena, feições mediterrâneas como eu, ergue o rosto e me olha sem simpatia, hostilidade ou reconhecimento. A voz grave, como a minha, responde serena:

– Eu só queria saber se você era capaz de me encontrar.

Acordo num salto, suando, o coração aos pulos, tremendo, numa mistura de medo e exultação. O ambiente de sonho se desfez, mas aquela força última, encontrada, se manteve. Sabia que algo decisivo se passara dentro de mim. Não entendi bem, nem me preocupei em interpretar as minúcias e significados deste sonho. O que sabia é que eu teria forças para enfrentar o que fosse. E ia viver, até morrer, não abrindo mão de um minuto que fosse, dessa vida. Algum tempo depois, realizei uma mudança radical nela, indo de encontro ao desconhecido. Não morri, muito pelo contrário.

Hoje, vejo que muitos e múltiplos significados podem ser dados a essa experiência onírica. Mas continuo achando que o que importa nela é me mostrar que vale mais morrer viva do que viver morta de medo. Desconfio que o sonho desse sonho vem me lembrar a não esquecer aquilo que, vez em quando, eu me esqueço de lembrar.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Minha idéia de vida selvagem é passeio em zoológico.

Odeio selva. Que que eu tou fazendo aqui?

Por que fui aceitar este convite? Eu? Na África?

No meio dessa savana? No meio dessa estranheza?
Tudo me assusta. A paisagem, o desolamento, os ruídos estranhos, essa imensidão, meu Deus.

Já quase morri de medo naquele avião. Douglas não sei que lá.

Vinte lugares. Eu só via a fuselagem frágil, tão frágil, rebite sim, rebite não. Onde estão os rebites? Será que cai uma asa? E se o motor falhar? Quem tirou os malditos rebites?

Duas horas voando baixo, cada vez mais para dentro da selva, cada vez menos conhecido. Selva, savana, é selvagem, me salvem!

O aeroporto, era o que dizia a placa de madeira debochada, nada mais era que uma imensa palhoça de lado e uma cerquinha vagabunda – para impedir os elefantes de entrar na pista de pouso, me contaram, quinhentos metros de terra batida e olhe lá.

O Land Rover esperando e um guia, quase azul, tão negra a pele, num inglês mais que tosco, só menos tosco que a dentadura feita de massa. Fujo da vastidão e olho a dentadura, fascinada.

Tenho a sensação de que me prendo a detalhes. Não posso encarar a vastidão dessa savana, a ausência de sinais e carros e outdoors. A dentadura parece feita de cimento de dentista sim, um verme esbranquiçado, petrificado, colado na gengiva, um totem bucal, penso meio histérica com o calor, o cansaço e o medo, um totem de sulcos brancos no lugar dos dentes homenageando a Mama África.

E eu, indo para o coração da África, penso nos rebites que faltam e nos dentes que faltam. Penso no que falta, porque eu sei o que falta.

O que eu não penso, não quero pensar é no que não sei até encontrar.

 
     
 
   
           
           

 

 

Neyza Prochet
Carioca de alma inquieta.