Falando sério...

A Cabala (mística judaica) nos diz que, seis meses antes de nascermos, Deus nos reserva nossa alma gêmea...

Acho bonita essa idéia... Imagine só: enquanto estamos sonhando no útero da mãe, Deus nos destina alguém nesse mundo tão grande e vasto...

Deve ser por isso que, às vezes, não entendemos as razões de gostarmos tanto de uma pessoa, de termos essa sensação de já conhecê-la há muito tempo...

Deve ser por essa razão que, às vezes, basta um olhar ou um simples pensamento para reconhecermos o amor da nossa vida...

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Estou voltando da Universidade, tarde da noite. Na avenida Bandeirantes, numa casa comercial, andar de cima, o homem arruma a vitrine que faz às vezes de parede da construção.

São móveis de escritório. Ele ajeita a mesa, coloca cadeiras em exposição, distribui outros objetos. A luz da vitrine-parede me hipnotiza, e estaciono o carro na esquina, apenas para poder contemplar melhor.

Acendo um cigarro, deixo o sinal de alerta acionado, e coloco o espelho retrovisor em posição que permita ver a aproximação de qualquer pessoa. Fico ali, por uns dez minutos, admirando a cena. Quando acabo de fumar, ligo o carro. Dirijo, encasquetada: a imagem não me sai da cabeça, os móveis movendo-se em torno do homem, no meio da nuvem amarela.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Eu a vi chegar de carro, o rosto enevoado, os ombros curvados. Era manhã, ainda o mundo se colocando em movimento, e estávamos no penhasco, final da estrada do morro, procurando um local adequado para observar o mar. Da murada de pedras, podia-se ver a praia lá embaixo, a maré tranqüila, a rotina da pequena cidade litorânea.

Pensei em me apresentar, falar qualquer coisa sobre a beleza da paisagem; no entanto, a sisudez da mulher, o seu ar preocupado e os olhos com marcas de uma noite insone me paralisaram: era melhor que ela ficasse sozinha, na quietude da tristeza, pensei.
Ela se aproximou da beirada do muro e tive a impressão de ver lágrimas. Ficamos ali, paradas, imóveis. Ao final de meia hora, ela suspirou. Sem virar o rosto para mim, murmurou: "Difícil aceitar...". Não tive tempo de responder: em instantes, ela voltou para o carro e partiu.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Estava quase chegando ao escritório e desisti: dei meia-volta com o carro, peguei a estrada e segui em frente. No pedágio, ainda pensei em ligar, avisando da minha ausência, da impossibilidade de comparecer ao serviço. A beleza da paisagem me distraiu e só fui lembrar novamente dos adiados compromissos profissionais quando avistei a praia.

O mar estava particularmente bonito naquela manhã. As ondas, preguiçosas, lambiam a areia; um ou outro banhista, idosos, crianças, um cachorrinho passeando solto, sem coleira. Sentei-me na murada de pedra, retirando os sapatos. Abri a bolsa e tirei dinheiro. O gelo do sorvete de limão acalmou minha boca, a sede de verão e de brisa marítima. Lá longe, um navio, um iate veloz e vestígios de uma ilha.

Permaneci ali até a hora do almoço e, quando a fome apertou, entrei no bar e pedi mariscos. Senti o gosto da areia, do sal, do vinagre, e me senti bêbada de vida. Esperei o sol se pôr. Na viagem de volta, relaxei meu olhar com a reta de asfalto que via à minha frente. Cheguei em casa feliz.

 
     
 
   
           
           

 

 

Ivy Knijnik
É escritora, autora de Debora fala reservadamente com todos, lançado pela Editora Altana, SP.
Professora universitária e mestranda em História da Ciência e Tecnologia na PUC/SP, publica regu-larmente em seu blog www.ivyjk.blogger.com.br