No apartamento em que eu moro tem um arremedo de varanda. Na suposta
varanda tem uma rede. Esta, eu não uso. Costumo dizer que rede é
coisa para quem está com a vida ganha; e este não é o meu caso.
Deixo a rede para as amigas que aparecem por aqui quando o tédio ou
a saudade ou mesmo as dúvidas sobre a minha permanência na Terra as
assaltam.
Da varanda eu vejo alguns prédios e muitas casas. O bairro é pobre.
Os prédios são de classe média baixa (ou eu não estaria aqui). Entre
os prédios e casas eu vejo ruas, carros, pessoas e, para servir de
pano de fundo a tudo isso uma serra, cujo nome eu não sei (se
soubesse eu não seria Cláudio). Catorze andares abaixo de mim vejo
uma quadra de futebol de salão cuja pintura está desbotada como eu;
só que tem mais utilidade.
Agora pouco estava lá, vendo um grupo de adolescentes se divertindo
com bolas e skates na quadra de futsal quando me
chamou a atenção um casal. Foi aí que descobri que em quadras de
futsal também se pratica este esporte perigoso, mas fascinante,
chamado amor. Estão no auge de sua paixão juvenil. Não ficam dez
segundos sem um abraço, um beijo, um afago. Ela se derrama sobre
ele. Ele a recebe como quem recebe a própria essência...
É natural que seja assim. Tem 15, talvez 16 anos e a vida (e os
hormônios) pulsa loucamente dentro deles.
A inexperiência. A descoberta do prazer. A descoberta da paixão. O
prazer de sentir a pele tocar a pele do outro.
Tudo isso inunda este casal que vejo do alto da minha varanda
improvisada.
E, confesso, tenho alguma inveja deles. Eu não tive adolescência.
E, mesmo assim, eles me trazem recordações. Houve, na minha
conturbada vida, um tempo-sem-fim em que tudo era assim, uma
explosão de sentimentos, descobertas, prazeres.
Alegria de viver!
Sim! Exatamente isso! Eu sentia alegria em viver e não percebia...
Como era tolo!!
De toda forma o velho sempre abre passagem para o novo. E o novo
estava ali, bem diante de mim, no dia 12 de março de 2003.
Noventa e dois dias depois de você ter me dito adeus e nunca mais
ter aparecido.
Duas mil, duzentas e oito horas sem uma palavra sua; sem uma
notícia, sem um quê qualquer. Sem nada.
E mesmo assim, eu continuo te amando e não posso negar isso diante
de mim ou do mundo; e evoco os céus por testemunha da minha saudade,
da minha angústia, da minha solidão.
Seria fácil para mim pegar este texto e botar num e-mail e mandar
para você.
Mas eu o deixo no blog e deixo isso à mercê do acaso que muitas
vezes me protegeu por eu andar distraído... Acho que meu maior erro
foi começar a prestar atenção na vida e no mundo. Eles não perderam
a chance de me ensinarem lições mais duras e, naturalmente, ainda
derramo minha cota de lágrimas...
Quando vi o casal de adolescentes, observei-os prolongadamente.
Choveu e eles permaneceram na quadra. Que importa uma chuva a quem
ama?!
Mas, honestamente, eu não via o casal. Eu sonhava; e sonhava
conosco, ali, já na dita idade madura (risos) fazendo as mesmas
estripulias. Sonhava com teus beijos, abraços, carinhos e afagos...
Mas como a vida só me deixou a alternativa do sonho intangível, a
realidade me chamou através de uma campainha de telefone (muitas
vezes penso em jogar meu celular no aquário...) e quando voltei à
varanda já se fazia noite e não havia sombra do casal.
Melhor assim.
Que se amem enquanto possível. Sei, de antemão, que a vida deles
ainda vai sofrer muitas reviravoltas, que muitas coisas ainda vão
mudar e que a vida pode fazer com eles o mesmo que fez conosco:
abrir um abismo intransponível.
Então, minha querida, eles acabarão sendo como nós, que tivemos mais
que muitas pessoas puderam ter e, infelizmente, perderam tudo para a
vida e o destino que fazem de nós o que bem entendem e depois deixam
duas alternativas: rir ou chorar.
Às vezes eu sorrio de felicidade com alguma lembrança. (Lembra
aquela noite que eu estava em um hotel e conversamos a noite toda
por telefone até que a linha cruzou com a de um argentino? Pois é...
eu me lembro do quarto do hotel e da tua voz mansa e meiga por toda
uma noite.) Outras vezes eu choro, desesperado, as saudades que
tenho de ti.
Choro copiosamente, como uma criança e fica difícil explicar ao
mundo que é "a depressão"... (ainda bem que eu tenho esse álibi).
E assim vivo, minha amada, contando dias, horas e minutos sem você.
Quem sabe um dia?
Quem sabe?
Quem?
Deus.
Claudius É ex-DJ na noite paulista e contraiu
HIV não sabe onde. Sabe apenas que tinha muitas namoradas. Hoje
mantém um site –
www.soropositivo.org – voltado à prevenção à Aids e à
recolocação dos portadores de HIV no mercado de trabalho. Sonha em
fundar uma ONG cujo projeto está registrado no sétimo Cartório de
Registro de Títulos e Documentos da capital paulistana (Rua 15 de
Novembro, 251 Centro. Fone (11) 3106 1010), sob os números 1067081 e
1067082. Até hoje a ONG não foi fundada por falta de recursos.