Paulo já demonstrava sinais de estresse, à medida que os ponteiros do relógio se aproximavam da hora do almoço.

"Não suporto mais Zé Henrique. Tô de saco cheio de ver o cara encher o prato, misturar tudo, até transbordar arroz, macarrão, saladas e fatias de carne seca na mesa. Que droga! Nenhuma mulher se aproxima quando estou com ele. E ainda fica chupando o dente com aquele barulho irritante depois que acaba de comer. Que vergonha! O que adianta eu vir ao melhor self-service da cidade? Ele estraga qualquer parada!"

Zé Henrique nunca percebeu o que o suposto amigo pensava. Achava que o mal-estar que às vezes aparentava tinha motivos de ordem íntima.

Não suportando mais a situação, pois até o cheiro que o colega exalava lhe causava mal-estar, Paulo articulou um plano para mudar seu horário de almoço e, dessa forma, se afastar do Zé. Matriculou-se numa academia de ginástica, no horário de meio-dia, e ficou com apenas quinze minutos para seu almoço que, a partir de então, passou a ser calmo e saudável. Nunca mais encontrou Zé Henrique no restaurante. Na repartição, pouco se falavam. Tudo fluía muito bem, até que... um dia, deu de cara com o colega na mesma academia, fazendo esteira e acenando para ele.

– Oi, mano! tive que vir também, pra sofrer um pouco. Tô com diabetes, e o médico disse que tenho de malhar!

– Mas por que a essa hora? – perguntou Paulo, muito contrariado.

– Eu não tenho opção, pois faço curso de idiomas após o expediente – continuou Paulo –, mas você nada faz que impeça seus exercícios físicos num horário mais conveniente. Minha taxa de colesterol está altíssima e preciso fazer atividade. Questão de sobrevivência, amigo! Ainda estou dez quilos acima do peso.

Zé Henrique disse logo que sabia que teria de haver um motivo justo para que se privasse da companhia dele, à hora do almoço, hábito que tanto curtiam.

E assim a via crucis de Paulo continuou. Zé começou a acompanhá-lo religiosamente ao almoço, todos os dias. Algo, porém, havia mudado nele. Para pior. Além de todas as suas grosserias à mesa, agora palitava os dentes, hábito execrável na opinião de Paulo, e, segundo os cânones de etiqueta, altamente condenável. Chegou a tal ponto que Paulo, um dia, não se conteve, e em alta voz lhe perguntou:

– Por que agora palita os dentes, Zé? Que coisa nojenta! Por que não vai ao banheiro e usa fio dental, como eu faço?

Muitos pararam de comer e olharam para eles.

– Mano, tenho que palitar, não notou que fiz cinco implantes dentários? Não posso acumular resíduos entre os dentes. Economizei durante cinco anos para fazer isso. Quer ver tudo estragado? Era meu grande sonho!

E abriu a boca para mostrar os dentes a Paulo, que não sabia o que fazer, diante de fato tão insólito.

– Por que todos têm que ver o que você tira dos dentes? Por quê? Isso é patético. Vou ser sincero. Tô cheio! Não quero mais comer com você. Me dá nojo seu jeito de peão.

Pagou a conta e saiu abruptamente. Zé Henrique o seguiu, murmurando frases ininteligíveis. Quando entrou na porta da repartição, Paulo sentiu uma forte pressão na nuca e olhou para trás, vendo a cara de ódio do Zé. Ele havia lhe desferido um soco, e ainda mostrava as mãos estendidas e fechadas, e dizia:

– Isso é pra você não humilhar mais ninguém, seu idiota, paspalhão!

Havia, em contrapartida, muita ira acumulada em Paulo e o máximo que podia fazer em resposta, ele fez: desferiu um soco em sua boca, vendo pedaços dos dentes saltando. Pareciam pipocas! Zé começou a urrar. Não pela dor. Urrava pelo dinheiro gasto nos implantes dentários e que agora Paulo jogava fora.

Rindo, Paulo entregou a ele uma caixa de fio dental, dizendo:

– Use. Ótima marca. Sabor menta.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Eta dias chatos! Essas pessoas não têm mais o que inventar e criam brigas. Eu, que não sou dada a essas coisas, me encolho que nem um caramujo e sequer telefone atendo.

No momento, arrumo minhas malas pra sumir de tudo e de todos. Ando com uns lapsos de memória desde que tive aquele choque durante minha última viagem a Nova York, no Natal. A turbulência no avião, aliada a uma crise de coluna me tirou do ar, estando eu em pleno ar. Chorei tanto que cheguei a pensar que me colocariam deitada numa poltrona na primeira classe. Doce ilusão! Desci, sentindo a perna repuxar; dor ciática. Chegando ao hotel, senti-me, como sempre que me hospedo ali, em pleno século 19. Só gosto daquele hotel mesmo.

Lembro-me que, da primeira vez em que ali me hospedei, deixaram-me tocar o piano que fica na recepção. Pedi a meu marido que filmasse e fotografasse tudo, pois contando ninguém acreditaria. Até hoje, passados oito anos do evento, tenho que mostrar a filmagem. Eu, com cabelos ruivos e longos, bem mais jovem, claro!, nem pareço a mulher que sou hoje. O mais interessante na filmagem é quando, ao final de meu recital, ele, meu marido, juntou-se ao público, enquanto um americano bonachão nos filmou abraçados e felizes. Eu tinha uma taça de champanhe na mão, e estava linda! Não vou negar que houve pedido de bis! Então, como numa luz que se abria diante de mim, comecei a cantar: "Tall and tan/ and young and lovely/ The girl from Ipanema/ goes walking/ And when she passes, each one/ she passes goes a-a-ah!/"*... Foi inenarrável o sucesso que eu fiz! Ele ainda tinha tanto cabelo... Hoje, diria que está quase careca mesmo. O tempo é inexorável. Mas quem disse que não gosto de carecas? Adoro!

Continuando a minha linha de raciocínio, nesse momento em que ainda experimento um déficit de memória, ao arrumar minhas malas: – não sei se levo meu casacão negro da grife Liz Claiborne. Já o levei umas dez vezes e só usei três. Não levo, não! Vou levar aquele pulôver que comprei para meu marido naquela loja masculina chiquérrima e o amarelinho era tão feminino, que achei que caía melhor em mim, assim como o relógio carésimo que disse a ele que era presente de nossas bodas de prata. Ai, ele entende essas discrepâncias!

Mas como as pessoas gostam de criar intrigas, armar enredos sórdidos...

Certa vez, lá na Big Apple, encontrei Woody Allen na rua e fui falar com ele. Sempre o achei antipático, nunca fui fã de sua arte, mas ele foi de uma simpatia tão grande comigo, que não hesitei em aceitar o convite para assistir a uma sessão de jazz na qual ele se apresentaria naquela mesma noite. As pessoas famosas, na verdade, são mais simples que as normais. Tenho inúmeras provas do que falo.

Bem, não lembro se foi Ray Charles ou Frank Sinatra que me ofereceu uma rosa ao final de um show, e me roubaram, quase me jogando ao chão. Tive uma crise de nervos! Gritava a plenos pulmões: – A rosa é minha! Ele me deu! – Tive que ser retirada do local, e me deram maracujina pra ver se me acalmava. Maracujina??? Foi aqui! Gente! Foi Roberto Carlos! Agora lembrei! Confesso que a emoção ao ouvir Ray e Sinatra foram indescritíveis, mas receber a rosa do Rei Roberto não ficou atrás! Não fosse pelo absurdo do roubo...

Quem sabe dessa vez algo inusitado aconteça? Ando tão sem paciência com as pessoas. Uma mesmice anda corroendo esses dias que passam lépidos e logo serei uma anciã. Sinto uma vontade tão grande de ir para um tugúrio, e, quem sabe, tocar um pianinho, tomar champanhe...

Minha memória parece ainda tão comprometida... Só espero não encontrar turbulências no vôo, pois minha coluna anda bem, obrigada.

Good-bye, fofocas! Good-bye, aves de mau agouro! Eu não vou perder o resto de minha memória. Voltarei cheia de novidades!

Fui!
 

 
 

* "The girl from Ipanema", Jobim, Vinicius de Moraes e Norman Gimbel, 1963.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

E as pessoas partem
tão inesperadamente,
sem nenhum sinal –
fica apenas
o sabor amargo
do não dito,
e a certeza plena
do nunca mais.

 
   

 

 

Quando uma pessoa se vai, inesperadamente, seja através da morte ou por voltas que a vida dá, muitos se deparam com a consciência gritando em desespero: “Por que não disse o quanto era importante para mim? Por que me foi difícil elogiar aquela gravatinha borboleta que ele usava? Por que não disse a ela o quanto era corajosa por cada mês aparecer com o cabelo de uma cor? Por que nos calamos e omitimos nosso bem querer?”

Sinto muito, mas não faço parte desse time. Sempre fui efusiva, de dizer “te amo” aos que realmente amo, elogiar as qualidades, e até os defeitos pequeninos das pessoas, defeitos esses, que, no fundo, têm seu encanto.

Por isso, quando alguém se vai, sempre estou em paz comigo mesma. Nunca sinto o remorso a corroer minhas entranhas. Fica, e forte, uma saudade boa!

Sempre gostei de exercitar o amor, nas suas mais variadas nuanças.

Lembro-me de um fato ocorrido há muitos anos, quando eu ainda era uma mocinha, cheia de sonhos com finais cinematográficos. Apaixonada por Edson Alvarenga, e não sendo correspondida, tive uma briga feia com ele, prometendo a mim e a todos os amigos que jamais voltaria a olhá-lo. O mundo parecia que havia ruído, tamanha a minha dor! Meus olhos viviam inchados e eu a dizer: – Mil vezes a morte!

Os anos passaram. Numa tarde de verão, caminhando no calçadão da praia, encontrei-o. Fiquei tão feliz que não me contive e abracei-o, falando da minha saudade. Vibrava com o encontro! Havia, ainda, amor dentro de mim, porém diferente, mais amadurecido, sem possessividade. Fiquei em estado de graça com a felicidade do amado. Como estava belo, risonho como nos velhos tempos! Havia casado e tinha um casal de filhos, me contou cheio de orgulho. Fiquei absurdamente feliz com a felicidade dele.

Poucos meses depois, soube da partida de Edson, vitimado por uma terrível forma de leucemia, aos vinte e cinco anos.

Fiquei em paz. Na minha concepção, partira com as asas íntegras, pois eu não as havia ferido naquele último e inesquecível encontro na orla.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

leitos perfeitos, seus peitos direitos me olham assim
fino menino me inclino pro lado do sim
"Camaleoa", Caetano Veloso

 
     
 

Vivia na Internet, como se não houvesse vida fora dos limites que a máquina impõe. Tinha por nick "Sybil Crabs, a camaleoa". Por que camaleoa?, perguntarão vocês. Eu direi: para se moldar a todas as situações que o mundo virtual oferece. Podemos ser excelentes poetas, plagiando, ou roubando textos. Podemos ser lindos, pegando imagens em sites longínquos e nos apoderando delas, sem nenhum pudor. Através desse virtualismo, viramos juizes, algozes ou anjos.

Assim era Sybil Crabs, a camaleoa. Havia semanas em que postava textos divinos, que tempos depois algum leitor mais dedicado descobriria serem de antigos escritores, ou mesmo de escritores modernos, mas pouco conhecidos pela maioria. As descobertas de suas fraudes nunca eram expostas, ficando em mensagens privadas (pvt) entre amigos, fazendo assim, a fama da camaleoa crescer. Sentia-se acima do bem e do mal. Quando tecia críticas aos textos que pegava nas listas, dissecava-os, de forma mortífera. Sabia escrever, só não tinha talento para prosas ou versos.

A coisa tomou um rumo diferente quando, certa vez, usando um poema de Safo, colocou seu nome abaixo. Aí, Jair Paulo, um respeitado escritor no meio virtual, sentiu que era tempo de tomar uma posição e sair de sua inércia. Interpelou-a corajosamente. Mostrou quem foi Safo, a época em que viveu, e ainda enviou outros poemas para que visse que não falava com qualquer pessoa. Nunca recebeu resposta, nem ela parou de enviar suas fraudes.

O tempo foi passando, e, há cerca de oito meses, ela enviou a alguns amigos mensagem na qual dizia estar doente, deprimida, cansada da vida.

Jair Paulo, então, decidiu que era a hora de desmascarar Sybil Crabs, a camaleoa. Ficou quatro meses junto a seu amigo e webdesigner Lippe B., procurando pela Internet a dona do rosto com o qual Sybil fazia figuração. E a farsa foi descoberta. Exultaram! O rosto vinha de um site americano e a moça era uma modelo fotográfico. Decidiram fazer um minucioso trabalho, mostrando algumas de suas fraudes. Enviaram o endereço do site do qual tirara sua imagem à maioria das listas de literatura da net, aos sites seletivos, e aos contatos pessoais. A mensagem era enfática: Sybil Crabs, a camaleoa, nunca existiu. Narraram, implacavelmente, toda sua saga.

Exatamente um mês depois, todos receberam a mensagem de uma suposta amiga, na qual havia a informação: "Faleceu, aos trinta anos, a grande escritora e crítica literária Sybil Crabs, vítima de acidente automobilístico. Seu e-mail será desativado. Guardem as boas lembranças que ela deixou. Um abraço. Helena". A mensagem vinha num belo papel de carta, onde havia uma imagem de um campo florido e o fundo musical Tears in heaven.

Sei que uma legião de viúvos lamentou a partida da "bela e profícua escritora".

Sybil Crabs, a camaleoa, já não faz parte do universo virtual.

Que nome e enredo esse ser humano, decididamente multifacetado, terá escolhido para sua nova empreitada?

 
     
 
   
           
           

 

 

Belvedere Bruno
Poeta e cronista, reside em Niterói.
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