Quando você, com seus olhos escuros profundos, olha pra trás e
percebe que, ainda pequeno, com cabelos de índio, foi morar fora do
país e lá, na terra de parques e neves, enfrentou a nova língua e a
velha desconfiança, encantou a todos com seu jeito moleque de ser,
deixando marcas onde passava ( – e saudades quando voltou), você
percebe mais do que nunca que é um vencedor. Vencedor porque lidou
com o desconhecido de forma tão íntima que anos depois voltaria
àquele lugar pra concretizar sua conquista, fazendo coleções de
sorrisos, amigos mais, e mais... Você não sabia, mas já tinha
deixado sua marca no coração de cada um que te conhecia. Ali
começara mostrar ao mundo que por trás de um menino havia um grande
homem, e talvez por isso, hoje o grande homem não saiba viver sem
ser menino.
Quando você, com olhos que enxergam além do que se vê (é preciso
saber ler nas entrelinhas!) olha pra trás e se dá conta de que
aquele garoto que veio do interior, da roça, do campo, foi morar no
Rio, na cidade grande, capital cultural, onde Cristo o recebeu de
braços abertos, sobreviveu aos modismos e estereótipos, fez do
sorriso um abraço e cativou a todos. Foi cúmplice do mar e amigo do
sol (o refúgio do campo agora se encontrava nas brisas da orla do
Leblon). Você fez história na João Lira. Foi o primeiro. Seu sucesso
foi inspiração pra todos ali. Você sabe que fez diferença. Você faz
diferença.
Quando você, agora na faculdade, assume de forma única sua postura "che-guevariana"
(afinal de contas és filho da revolução, prole refém da ditadura) e
comanda uma faculdade inteira, faz laranjadas de suor, e se vê
aplaudido, de pé, por toda uma instituição. Você sabe representar.
Sua fama desce a Serra, corre ao Rio, toma o Brasil. Te ligam e
convidam a assumir novos cargos. Você recusa, pois sabe que já deu
sua parcela de contribuição. Novos horizontes te esperam (seria o
universo em expansão?) Seu nome já está guardado. Sua história já
está escrita.
Agora você lembra de tudo isso. E lembra mais. Lembra das dúvidas,
incertezas, invejas, calúnias, mentiras e coisas mais a que
sobreviveu. Mas está tudo aí pra quem quiser conferir. Você
sobreviveu porque simplesmente não tinha como ser diferente. Você
sabe que pra cada porta fechada Deus te abriu duas janelas, e você
ajoelha, ora, agradece. Ainda que tenhas andado no vale da sombra da
morte, Ele sempre esteve do seu lado, te guardando e consolando.
Deus é fiel, você sabe disso.
Você leva tudo como lição. Aprendeu muita coisa. Aprendeu a amar.
Você ama demais. Tudo e todos. Mas não se arrepende pois tem peito
pra assumir os riscos que corre, e são tantos, você sabe...
Você acerta. Você erra. Sabe que erra muito e disso sim se
arrepende. E esse arrependimento é o espelho da hombridade que te
envolve. Reconhecer os erros é o primeiro passo pro acerto, você
diz. Você saiu na frente, mais uma vez.
Alguns te tomam como exemplo, mas você não quer ser exemplo de nada.
Outros te chamam de bobo. O que de mal há nisso?, você pensa. Nada
demais. Sua bobeira levanta tristeza e tira sorriso de pedras e
isso, pra você, vale muito mais...
Pra outros você é indiferente. Isso é bom. Aliás, isso é ótimo. Você
também sabe ser discreto e, nessas horas, o seu silêncio fala muito
mais aos ouvidos dos sensíveis de coração...
Tenta ser racional. Mas como ser racional amando sempre tudo e
todos? Você não sabe, por isso só tenta. Sua emoção lhe tira o sono,
mas também dá noites de alegria. Te desespera da mesma maneira com
que te consola. Você vive intensamente cada segundo. E, se por algum
segundo se torna frio, você novamente olha pra trás e vê tudo o que
passou. Volta a amar demais. Aliás, é isso que o torna um
vencedor...
Augusto Filho (Guto) Me chamo Augusto Filho, mas respondo
por Guto. Tenho 22 anos. Moro em Teresópolis, RJ. Curso medicina por
vocação. Me formo em 2007.
Geralmente me dá vontade de escrever quando estou estudando. Algumas
vezes escrevo, outras continuo estudando. Dizem que é fuga. Talvez
seja. Talvez não.