Prezo o silêncio como quem reza. É como se só aqui estivesse com vontade de estar. Calada, neutra, interna: silenciosa. Mas sei que não. Precisar de silêncio tornou-me parcialmente surda? Então não ouço. Desejaria não ouvir muita coisa. Mas entristecerei se não puder ouvir algumas vozes que tanto amo. A minha nem tanto. Falo por aqui mesmo.

Eu quero inventar um quarto silencioso e literário onde eu possa me deitar e me expressar cada vez que esse barulho estranho do mundo tenta me corromper. Eu necessito desse lugar, amplo, infinito, literário e único. Um lugar onde eu possa me criar sozinha.

E em silêncio.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

No meio da madrugada ela contou-lhe um segredo:

– Escute, todas as minhas palavras são autobiográficas, entendeu? Todas, mesmo que não sejam, se é que você me entende.

– Claro, entendo – ele respondeu.

Acabaram de beber seus chopes, ele sorridente como sempre, ela um tanto embriagada, feliz e cansada, também como de hábito. O garçom trouxe a conta.

– Não sei mais escrever – ela disse, de repente.

Ele sentou-se de novo. Pediram outro chope. Deram-se as mãos e ela chorou, dizendo estar com saudade de alguém. Explicou ser uma dor profunda de não mais encontrar as palavras desse alguém que partiu.

Ele então pegou um guardanapo e escreveu: jóia. Ela olhou para a imagem da palavra formada no papel. Significado? Então, dobrou o guardanapo e guardou no bolso a única jóia que poderia inspirá-la, naquele dia.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Preciso escrever, preciso escrever, preciso escrever. Estou com falta de ar, falta de mar, falta de rima. Preciso escrever, preciso escrever, preciso escrever.

Escrever preciso.

Dois parágrafos para baixo de mim mesma.

Há um filho no meu ventre e dele extraio palavras já que de mim ele extrai sua criação e seu alimento. Estou me nutrindo de amor e de palavras soltas, de incertezas e de inovações, estou engatinhando por significados, por vida, por batimentos cardíacos.

Há.

Ah! Lua crescente.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Cria, deleta, cria, deleta. Mas que eu ainda estou tentando ser de outra forma. Então, estou de novo aqui, com novo título, ânimo e texto. Devagar, sim. Mas o meu mote é esse mesmo: divagar.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

... beijo na boca, chocolate, cafuné, olhos nos olhos, trabalho, ler, sexo, sexo oral, sorvetes de creme, praias, sol, dinheiro, filtro solar, paz, verde, azul, amarelo, silêncio, laranja, Paineiras, palavras, avião, música, cinema, praia, mãe, pai, irmãos, amigos, sopas, medos, água, médicos, remédios, espelhos, indignação, livros, mais palavras, mais beijos na boca, mais chocolate, gargalhada, mais beijos, desta vez na nuca, nudez, sensibilidade, sinceridade, imaginação, realidade, comunicação infinita, meu corpo sob o seu, ou o seu corpo sob o meu: amor.

 
     
 
   
           
           

 

 

Alessandra Archer
Carioca, graduada em jornalismo e escritora por paixão.