Saí do Ministério apressada, não achava táxi, naquela perturbação de
quem sabe que cada minuto é importante quando uma amiga está para
suicidar-se e a mãe dela chama aflita: a única esperança é você,
venha correndo, ela está trancada no quarto chorando e diz que hoje
se mata de qualquer jeito.
Minhas mãos estavam geladas, fui de ônibus mesmo, não havia um ponto
em que ele não parasse; só entrava gente que estava sem pressa, que
não tinha amiga doida, suicidando-se.
Do ponto de ônibus à casa de Leda levei uns três segundos, nunca
corri tanto com as pernas bambas.
Bati na porta do seu quarto. Nada. Nem resposta.
Já se suicidou, pensei.
Insisti, dizendo: Olha, Leda, eu sei que você vai se matar e estou
de acordo, mas quero lhe dizer um segredo que guardei a vida inteira
e não tive coragem de contar. Abriu. Estava de combinação preta
contrastando com os lençóis verde-claro e uma enorme almofada
estampada como travesseiro. Voltou para a cama e mergulhou a cara na
almofada.
Esperou o segredo. Devia estar imaginando que eu a havia traído com
o seu marido, isso lhe daria mais força ainda para executar o gesto
se bem que o suicídio não tivesse nada que ver com o marido. É que
ela cismou que estava com leucemia, o pai havia morrido dessa
doença. Além do complexo de não ter pai, ela sempre teve complexo de
leucemia, fizera exame na véspera e dera uma bruta anemia. Estava
com trinta e dois anos, exatamente a idade em que o pai morrera, os
médicos a estavam enganando, e chorava, chorava.
Acho razoável que você faça de sua vida o que entender, Leda, até
que acabe com ela... mas, e a Susana, sua filha, de nove anos
apenas? Você se esqueceu de que, trazendo-a ao mundo, assumiu
compromissos? Pensa que o negócio é ir morrendo a hora que quer, só
porque acha alguma coisa sem provas, sem certeza? E que a gente tem
liberdade de ir morrendo assim, sem essa nem aquela?
Leda tirou um olho de dentro da almofada, balbuciou qualquer coisa
que não entendi e caiu em soluços.
Leda, se você quer realmente morrer morra, mas pare com este
berreiro. Por que você não deixa para se matar depois do carnaval? A
Susana já fez tantos planos, coitada, quer fantasiar-se de odalisca;
se ficar de luto, não vai poder brincar. Afinal de contas, não custa
nada fazer esse sacrifício por sua filha, só um adiamento, depois
você morre sossegada.
Ela está muito gorda para fantasiar-se de odalisca, escutei entre
soluços.
Então fantasie-se de outra coisa qualquer, sei lá, alguma roupa que
emagreça, mas vá se divertir. É o que ela deseja mesmo, pular com as
amigas, cantar, brincar no carnaval. Mas pare com esta choradeira
porque, além de estar irritante, você vai ficar uma defunta horrível
com estes olhos empapuçados.
Ela se assustou, tirou a cara da almofada e, com a voz agora já bem
macia e seca, foi dizendo: está bem, então deixo para morrer na
Semana Santa, mas você terá de me prometer uma coisa: quando eu
morrer, você casa com o Ênio para cuidar da Susana.
Fiquei abobalhada. Como é que eu podia prometer um absurdo desses?
Casar-me com um marido só para cumprir uma promessa a uma louca
suicida. Não, isso também já era explorar demais a condição de amiga
pré-defunta. Tudo tem um limite na vida. Mas precisava ganhar tempo.
Então propus: vou tentar olhá-lo de forma diferente, daqui por
diante. Se até a Semana Santa eu conseguir sentir por ele alguma
atração, farei a promessa. Agora, é preciso saber se ele também
estará disposto. Afinal de contas, você não pode decidir tudo:
morrer, escolher mulher para ele, escolher mãe para a Susana. Já
está havendo abuso de sua parte. Acho melhor você se levantar, tirar
essa combinação preta, que está horrível, vestir uma roupa razoável,
pois essa sua morte já está se complicando demais Quem está com
vontade de morrer agora sou eu.
Saí do quarto e fui acalmar sua mãe que já estava para ter um
enfarte, de tanta aflição.
Quinze minutos depois, Leda desceu as escadas tranqüilamente, como
se nada daquilo houvesse acontecido. Deu ordens na cozinha, pediu
suco de laranja e ligou a televisão.
Dona Dora, coitada, nem sabia o que fazer para demonstrar gratidão à
salva-vida de sua filha. Já me havia dado laranjada com biscoitos de
nata, licor, e ainda estava me oferecendo coisas.
Susana chegou do colégio e ficou na maior alegria ao ver-me. Deu-me
vários beijos e chamou-me de linda. Como não sou linda coisa
nenhuma, fiquei emocionada.
Ênio chegou tarde e exausto do trabalho, de botas e todo suado,
esteve percorrendo as obras, estava morto de calor e cansaço, os
operários não haviam cumprido suas ordens, o mestre-de-obras
adoecera, as obras se atrasaram, foi falando, falando essas coisas
que engenheiro fala.
Fiquei reparando naquela suadeira toda e quase me safando da
promessa de me casar com ele.
Após o banho, veio mais simpático e descontraído. Mas a conversa
continuou a mesma: construção. Quando conseguiu sair do assunto de
construção em geral, entrou na construção particular. Está com idéia
de fazer uma casa na chácara, casa grande, boa, tipo colonial,
janelas baixas, varandas enormes com várias redes e piscina. Fiquei
mais animada. Piscina? Acho que não vou resistir. Em lugar de ficar
como tola trabalhando a semana toda no Ministério sem ter aonde ir
aos domingos, irei ao fim de semana para a chácara, com rede,
marido, piscina e tudo.
Olhei para a Leda com receio de que ela adivinhasse os meus
pensamentos. Mas, afinal, quem teve a idéia foi ela.
Pela primeira vez na vida eu falava pouco, mas pensava muito. Estava
a maior confusão na minha cabeça.
Lancei um olhar cheio de ondas para o Ênio, na esperança de ser
retribuída. Nada. Mas nada mesmo. O olhar era o de sempre:
indiferente. Olhar de amigo. Olhar que a gente usa para encarar
garfo, faca, prato, copo vazio.
Fiquei arrasada. Não sou nenhum manequim francês, mas meu corpo é
bonito e minha pele macia. Meus olhos, grandes. A boca, farta.
Então... por que aquele olhar de descaso, de peixe morto?
Saí dali com ódio. Nem aceitei que alguém me levasse à minha casa.
À noite, não consegui dormir, tamanha a excitação. Mas, também, ô
diazinho carregado: ameaça de suicídio, correria, choro, suco de
laranja com licor, construção, piscina, casa de campo, marido e a
ducha fria daquele olhar. Uma verdadeira sauna espiritual!
Revirava-me na cama, indócil. Onde aquela paz boba de funcionária
pública sem grandes aspirações? Onde aquele deitar vago e desanimado
de quem sabe o sono um pequeno intervalo de novas mesmices? Aquele
olhar me feriu tanto que percebi o quanto era importante ser amada
por Ênio. Entendi, agora, por que sempre procurei estar perto dele.
Percebi que o criticava intimamente, como necessária defesa, para me
salvar. A mania de ser leal não me permitiria, nunca, ultrapassar os
limites que a amizade me impunha. Como é possível uma leve sugestão,
ou um olhar vazio, fazerem desmoronar esta montanha de limitações,
de barreiras? Como foi possível aquele olhar seco e reto despertar
tanta tormenta?
Quase caí da cama com o tocar da campainha. Olhei o relógio: uma
hora e quarenta minutos.
Ouvi meu nome: Helena. Reconheci a voz do Ênio.
Leda suicidou-se, pensei.
Abri a porta. Ênio tomou-me nos braços, apertando-me. Olhei seu
rosto para descobrir a dor. E o que encontrei foi um olhar
apaixonado, injetado, de tanto amor. Beijou-me os olhos, os cílios,
os cantos, os meios, os cabelos. Carregou-me até a cama,
naturalmente, como quem repete um gesto. O seu beijo, quente,
resultado do encontro com a ternura de minha boca, ia atravessando a
vertical do meu corpo, sem pressa, sem destino, sem fronteiras. Sua
respiração, agitada, contrastava com a languidez do olhar que me
percorria.
Eu me sentia um vulcão, ameaçando explodir. Minhas mãos, acariciando
o seu corpo, modelavam o meu desejo.
Nem uma palavra foi dita, nem sussurrada.
Cada contato era um arrepio, um gozo, um elevado de emoção.
A lucidez, o raciocínio, tudo apagado.
Leda, suicídio, Susana, tudo guardado no escuro da lembrança para
não perturbar o instante.
A única verdade existente era o milagre do encontro de dois corpos
que se afinavam no amor e no sexo.
As realidades menores viriam com os amanhãs, os depois, as horas
seguintes.
Não posso tossir alto, para não acordar a minha tia que já reclamou
duas vezes que não a deixo dormir. Coloquei sal na língua e estou um
tempo enorme assim sem poder mexer com a boca, para que o sal não se
dissolva e entre pela garganta adentro e eu volte a tossir e a
perturbar o seu sono.
Penso, às vezes, que a minha tia podia ter um pouco mais de
paciência comigo e cuidar de minha saúde para eu poder continuar
trabalhando para ela. Porque, se eu morrer, quem irá continuar o meu
serviço? Leda não vai dar conta de fazer tudo o que faço, porque,
além de preguiçosa, não está acostumada a trabalhar. Hoje estou com
dor no corpo, não sei se é da gripe ou de carregar as panelas
d'água, colocá-las no fogão para esquentar e, depois, encher a
banheira para os banhos de minha tia, da Jovita e da Leda. Fiquei
tão cansada que acabei tomando o meu banho de água fria mesmo, nesta
noite gelada. Estive pensando o que seria pior para a minha gripe,
fazer esforço carregando mais peso ou tomar banho frio. Acho que
tudo é a mesma coisa, tudo faz mal.
O sal ainda está na minha língua até agora, de vez em quando vem uma
cócega na garganta, mas eu consigo controlar para não perturbar o
sono de minha tia.
Acho que ela é nervosa assim porque é viúva. Eu não conheço outras
viúvas para comparar com ela, mas acho que devem ser todas nervosas,
não deve ser bom não ter a quem esperar, nunca, nem deve ser bom já
ser mulher feita e dormir sozinha. Tenho visto maridos muito maus,
que dão surras nas mulheres, mas acho que minha tia não pensa nisso
para se consolar. Quando a gente não tem aquilo que deseja, fica
sempre pensando que, se tivesse, seria tudo lindo.
Não sei se o meu tio era bom ou mau marido; só sei que ninguém fala
no seu nome aqui em casa.
Eu vim morar aqui muito depois de sua morte. Vim, mesmo, foi passar
as férias com minha tia e primos, mas depois soube que iria ficar
para ajudá-la nos trabalhos de casa. E fiquei. Ninguém me reclamou
lá em casa, mas eu acho que é porque já tem menino demais; nós somos
seis irmãos, um não deve fazer falta. Eu gostava de lá porque
morávamos num sítio onde meu pai era caseiro, todos nós o ajudávamos
na roça, e eu achava mais leve e variado aquele trabalho de lá do
que o daqui da cidade. À tarde, quando acabávamos de roçar, papai
deixava-nos livres para fazer o que bem entendêssemos. Então, eu ia
para o riacho, nadava, subia nas árvores, comia jambo, nadava de
novo, comia jambo de novo. Só quando o sol desaparecia é que voltava
para casa. Às vezes, quando chegava a casa, todo mundo já havia
jantado, e eu ficava sem comer.
À noite sentia um pouco de dor no estômago vazio, mas não incomodava
muito porque me sentia feliz de tanto ter brincado e nadado.
Eu nunca tinha pensado o quanto lá era bom; só agora, de longe,
lembrando e comparando, é que penso.
Meu pai não era bom, nem ruim, era pai. Dava ordens e batia na
gente, às vezes, quando estava muito irritado e cansado. Minha mãe
era boa, mais ou menos. Conversava, às vezes, comigo. Meu pai não.
Mas acho que devia gostar de mim porque, uma noite, acordei sentindo
alguém me cobrindo com o cobertor. Era ele. Continuei fingindo que
estava dormindo. Mas fiquei sabendo que ele me amava. Agora voltei a
ter dúvidas, pois ele e a mamãe nunca procuraram saber se eu estava
bem aqui e acho que nem sentiram a minha falta. Se não sentiram
falta é porque não gostavam. Eu acho.
Minha tia é boa para as filhas. Não as deixa trabalhar. Dá muita
comida a elas, senta-se à mesa nas refeições e conversa com elas.
Faz seus uniformes e seus vestidos. As minhas roupas são as que
ficam apertadas para as minhas primas, sou mais velha do que elas,
tenho dezesseis anos, Leda treze e Jovita doze. Mas não cresci
muito, tive raquitismo quando pequena, por isso as roupas servem
para mim.
Eu achava que a minha tia me detestava, porque gritava muito comigo
e me punha para trabalhar o dia inteiro, sem parar. Mas um dia a
ouvi gritando e dando umas palmadas na Jovita, então achei que não
era assim tanto ódio de mim. Se ela é capaz de bater na Jovita, a
filha que ela mais ama, então é mesmo porque é capaz de ser má,
mesmo sem odiar.
Não entendo por que minha tia não me deixa freqüentar a escola, eu
poderia ir à aula à noite e estudar de madrugada, para não
atrapalhar os serviços da casa. A escola é do governo, e ela não ia
gastar dinheiro comigo. Não explica por que não pode, mas diz que
não pode, e pronto.
Então, vou ter de ficar a minha vida toda fazendo o que faço hoje,
arrumando casa, lavando e passando roupa, cozinhando, esquentando
água. Pensar nisto me dá um pouco de desânimo de continuar vivendo.
O pouco que aprendi na escola não vai dar para me ajudar na vida. E
esse futuro que me espera não dá muito para animar. Leio, à noite,
livros das minhas primas pra não desaprender o pouco que aprendi,
porque já reparei que, quando fico muito tempo sem ler, começo a
ficar meio burra e as idéias vão ficando muito repetidas na minha
cabeça. Alguns livros são bons e outros são bem aborrecidos. Leio
várias vezes os bons e os ruins só leio uma vez e não penso mais
neles, para guardar só as idéias bonitas.
Acho que já é muito tarde, mas não consigo dormir.
Já fui à cozinha duas vezes e coloquei mais sal na língua.
Aproveitei para tossir um pouco lá no quintal, e acabar com essa
cócega na garganta, pois eu estou vendo a hora em que eu não vou
conseguir controlar-me e vou acabar tossindo e acordando a minha
tia. Mas lá fora está um frio gelado e cada vez que vou, acho que
pioro um pouco. Frio também deve fazer mal e eu não tenho certeza
não, mas acho que estou com febre. O frio que sinto é demais, e pela
minha cabeça estão passando vários pedaços tristes da minha vida que
eu gostaria de esquecer, e, não sei se por isso, além da cócega,
estou sentindo um nó muito grande na garganta.
Não posso tossir alto para não acordar o meu genro que já reclamou,
duas vezes, da minha tosse.
Não posso me levantar e ir à cozinha tomar um copo d'água porque, ao
acender a luz do corredor, irei clarear o quarto dos meus netos que
estão dormindo e, se um deles acordar, levarei, com certeza, uma
bronca.
Coloco o cobertor sobre a cabeça para abafar o barulho da tosse e
fico sufocada de calor e sem ar.
É muito difícil ter que acreditar que os filhos, quando crescem,
deixam de gostar da gente.
É muito triste saber que, quando as filhas se casam e amam os
maridos, ficam apavoradas de a mãe atrapalhar o seu relacionamento,
quando os genros não gostam da sogra.
Eu sempre soube que o meu genro tem um gênio péssimo e que não gosta
de mim. Acho, mesmo, que ele não tem muita capacidade de amar. É
gente que vem ao mundo com uma dosagem de amor muito limitada, muito
reduzida. Deve ser defeito de construção.
Nem com os filhos o meu genro é amoroso. Nem com a Laura, minha
filha.
Quando as crianças eram pequenas tinham verdadeiro pavor do pai, que
as colocava de castigo e era muito bravo. Agora, parece que se
acostumaram com a secura e se dão mais ou menos bem, sem grandes
afetos, sem ternura alguma. A única que ele trata com um pouco de
carinho é a Nora, minha neta. Talvez, por isso, ela distribua afeto
à mãe, aos irmãos e até sobra um pouquinho para mim.
Nora é a única pessoa da casa que tem paciência comigo. É a única
que me dá um beijo quando sai para o trabalho pela manhã, e quando
vai para a faculdade, à noite. Às vezes ela senta-se a meu lado e
conversa, durante longo tempo, contando casos dos seus colegas e dos
seus estudos. E escuta, com paciência, as minhas histórias.
Há dias contei-lhe a morte do meu marido, quando eu tinha apenas
trinta e oito anos e fiquei sozinha, com dois filhos para criar.
Não contei a morte do meu filho, menos de um ano depois da do meu
marido, porque achei que seria morte demais para um dia só e ela
poderia ficar chateada com tanta tristeza e não querer me ouvir
nunca mais.
Não tenho ninguém para ouvir as minhas histórias, fico contando para
mim mesma, recordando.
Às vezes me surpreendo falando sozinha e olho depressa para os
lados, para verificar se alguém percebeu. É o medo que tenho de me
levarem para o asilo dos velhos.
A minha única amiga é Estela, a quem vejo aos domingos. Ela não se
casou e eu já a invejei algumas vezes naquela vidinha sossegada, sem
ninguém para perturbar a sua solidão.
Estela merecia ter tido um montão de filhos, que seriam abastecidos
do amor de que seu coração é gerador. Mas, talvez pelo fato de ser
feia e ter um defeito na perna, não tenha conseguido marido.
O amor e o carinho que ficaram sobrando em seu coração, por falta de
gasto, e que poderiam abastecer uma centena de crianças órfãs, ela
distribui aos seus três gatos.
Talvez por defesa, ou esperteza. Vamos que ela fosse para uma creche
cuidar de um montão de crianças. Ela amaria, profundamente, essas
crianças e, quando elas crescessem a abandonariam e a fariam sofrer.
Já os gatos, não.
Estou pensando tudo isso só para me distrair e não tossir de novo.
Devo ter pegado esta gripe quando fui, ontem à tarde, à padaria
comprar pão e leite. Na volta, choveu e eu achei que não podia
esperar a chuva passar porque a Nora estava esperando o pão para
fazer o seu lanche e seguir para a faculdade.
Cheguei em casa ensopada e sequei os cabelos com uma toalha. Depois,
tomei um chá quente e me deitei.
Já são duas horas da manhã e eu ainda não consegui dormir.
Fico apavorada de pensar que os meus pais morreram muito velhos, com
quase oitenta anos, e eu só tenho setenta.
Se esta história de morrer tarde é de família, ainda vou ter muitas
noites em claro e muita chateação pela frente. E isso me desanima.
Se eu ainda recebesse uma aposentadoria mais digna, de professora
primária que fui, talvez comprasse um presentinho para os meus
netos, de vez em quando, tentando cativá-los. Mas, nem isso eu
posso. O máximo que acontece, raramente, é eu poder comprar uns
novelos de lã e tecer um suéter, para aquecê-los no inverno. Mas,
quando o verão chega, eles já nem se lembram do carinho.
Geralmente só penso para trás, coisas já acontecidas, para não me
chatear com a realidade presente.
Mas, hoje, resolvi soltar a imaginação para, além de me distrair da
tosse, cansar a inteligência e ficar com sono.
Estou com sono.
Vou dormir.
Vera Brant Nasceu em Diamantina, completando
seus estudos em Belo Horizonte. No Rio de Janeiro, para onde se
transferiu a seguir, exerceu o cargo de Inspetora de Ensino do
Ministério da Educação. Mudou-se para Brasília em 1960, trabalhando
então ao lado de Darcy Ribeiro no esforço de criar a Universidade de
Brasília.
Demitida pelo golpe militar em 1964, hoje é empresária do ramo
imobiliário. Além de Ensolarando sombras, Vera Brant publicou
ainda A ciclotímica, A solidão dos outros e Carlos,
meu amigo querido, que reúne treze anos de correspondência com o
poeta Carlos Drummond de Andrade.
Recentemente, publicou dois livros: JK – O reencontro com
Brasília, da editora Record e Darcy, da editora Paz e
Terra.
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