Acabo de ouvir no rádio a leitura dos nomes dos presos políticos que
devem ser trocados pelo nosso embaixador. Sei que não ouvirei o nome
dele, conheço todos os nomes, mas fico ouvindo de um em um, como se
fosse possível acontecer algum milagre. Foram muitas e duras as
discussões no comando da Organização para compor a lista. Fulano é
nosso, um quadro estratégico para continuidade da luta. Precisa sair
para retornar ao Brasil. Fulano é do partidão mas precisamos
incluir. É um ícone. Precisamos mostrar generosidade. Sicrano entra,
foi pedido da organização que é nossa parceira na operação...
Repito o nome dele mas os companheiros prosseguem, como se não
tivessem ouvido.
No final, sessenta nomes fechados, tomo coragem:
– Insisto em Aprígio. Não vejo razão para ele ficar fora. Também
voltará ao Brasil para continuar a luta.
Fiz um jogo arriscado, é tudo ou nada. Se ele entrar no avião,
depois eu dou um jeito de ir para o Chile, nem que precise desertar,
se a Organização não concordar. Sinto os olhares sobre mim.
Compreenderam o que eu não disse: esta é uma exigência minha para
continuar participando da operação. Posso pôr tudo a perder.
Estou nesta casa de subúrbio há mais de trinta dias. Minha função,
cozinhar para todos e para o prisioneiro, lavar a roupa dele,
conversar com ele em meu inglês precário sobre coisas prosaicas.
Levo-o ao banheiro. Jogo cartas com ele, quando os outros dormem,
revezando-se na vigilância. Jogamos pôquer sem conversar, apenas
observando os gestos do outro. Baixamos as cartas na mesa em
silêncio. Falamos com os olhos. Às vezes sorrio e ele corresponde,
entendendo que tenho uma boa jogada. Quase sempre, perco de
propósito. É o mínimo que posso fazer por ele.
Entre as minha funções, agüentar o mau humor dos outros. O
companheiro X é mesmo filhinho de papai. Vícios de classe, como
dizemos. Reclama da comida, não gosta de carne moída, prato que faço
sempre. O companheiro comandante com suas esquisitices, há dias em
que não diz bom-dia, há dias em que parece um pai. É chato ficar
reprimindo o companheirinho Júnior, que está sempre falando alto.
Tem o outro, o obsessivo, que não me deixa ver nada na televisão.
Está sempre mudando de canal mesmo quando sabe que não é hora de
telejornal.
Fiz uma chantagem mal formulada, espero a reação. Vão dizer que
estou misturando questões políticas com pessoais. Sabem de nosso
caso. Sabem que eu faria qualquer coisa por Aprígio. Sabem do que já
fiz. Vão dizer que é uma fraqueza pequeno-burguesa, que na revolução
não há espaço para sentimentalismo. Mas antes que digam qualquer
coisa, o companheiro do comando atalha:
– Vamos incluí-lo sim, é um bom companheiro. O problema é que já
fechamos a lista de sessenta nomes, e precisamos apresentá-la dentro de
uma hora.
A discussão esquenta. Falamos em sessenta, temos que nos fixar em
sessenta
nomes. Se é para incluir Aprígio, alguém tem que sair. E aí é
preciso rediscutir o critério. Mas quem tirar da lista? Alego as
seqüelas de tortura, falo dos informes que recebi da prisão. A
discussão prossegue, não vou opinar sobre quem sai, quero apenas que
ele entre. No fim, decidem. Ele entra no lugar de Samira, que pode
esperar por uma nova operação. Sei que não haverá novo seqüestro.
Este é o último, esta forma de luta contra a ditadura está esgotada.
A população reprova, passa a nos ver como terroristas mesmo. O cerco
está se fechando, a repressão desenvolveu serviços de inteligência
contra seqüestros. Acho que só por milagre este aparelho ainda não
foi descoberto e estourado. Antes de morrer, teríamos que matar o
pobre embaixador.
Samira, com quem aprendi a comer comida árabe no tempo da faculdade.
Samira, das passeatas, das panfletagens pelos bares de São Paulo,
seu namoro tumultuado com aquele bonitão que desbundou. Samira fica
mas haverá de sair.
Tudo resolvido, eu e outro companheiro fomos deixar o manifesto com
os sessenta nomes numa parada de ônibus defronte a uma emissora de rádio.
À tarde, a ducha fria. A ditadura recusou cinco nomes, alegando que
cometeram crimes de sangue. Terão que ser substituídos. Entre eles,
o de Aprígio. Foi tudo em vão e agora ainda terei que ir ao fim
desta loucura. É preciso reincluir Samira, pelo menos.
À noite, a televisão mostrou a partida do avião fretado pelo
Governo, levando os cinqüenta e nove presos libertados em troca do embaixador. Samira não estava entre eles. Preferiu ficar na prisão. Para
surpresa e irritação da organização, alegou ter medo de avião. Não
houve tempo para negociar a troca de seu nome por outro. Ainda
participei da operação de libertação do embaixador. Fomos deixá-lo
numa rua deserta, onde pegou um táxi para casa, sempre cercada de
jornalistas e policiais.
Seis anos mais tarde, em Paris, encontrei Samira e... Aprígio.
Tinham uma filhinha de dois anos. Conversamos como velhos
conhecidos: ela preferiu ficar porque na prisão eles conseguiam se
comunicar de alguma forma. Tinham começado um relacionamento na
clandestinidade, quando ficaram num mesmo aparelho. Coisas da vida,
disse a mim mesma. Eu mancava. Expliquei que levara um tiro na perna
mas conseguira escapar, logo depois de ter participado do seqüestro.
Não me arrependia. Ajudara a libertar cinqüenta e nove prisioneiros.
– Sessenta, se eles não tivessem vetado seu nome – disse a Aprígio.
Tereza Cruvinel É jornalista, com graduação e
mestrado em Comunicação Social pela Universidade de Brasília,
colunista política do jornal O Globo e comentarista da TV
Globonews. Atuando no jornalismo político desde o início de sua
carreira, trabalhou na TV Brasília, Jornal de Brasília, Correio
Braziliense, Jornal do Brasil e O Globo. Como repórter,
cobriu o processo de transição política, os movimentos pela
redemocratização, a abertura do regime, a campanha pelas diretas e a
eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral. A partir de 1986,
passa a escrever de terça-feira a domingo a coluna "Panorama
Político", onde combina análise e informação política, com foco no
processo governamental e legislativo.
Em 2002, ganhou o Prêmio Unisys de Jornalismo por seu trabalho em
favor da inclusão digital.