“A linha da vida é longa, embora tortuosa”.

“Terás dois, não, três filhos. Está bem aqui, não há dúvidas.”

“Fortuna, muita fortuna.”

 

Fátima era conhecida no trabalho e no bairro. Não havia quem não a procurasse. Afinal, saber o futuro é tentador.

Sua figura pequena, magrinha, frágil ganhava proporções enormes quando segurava entre as suas a mão de seu cliente. Até a voz mudava ao longo das previsões; tornava-se mais firme e mais grave. Seu rosto transpirava e percebia-se palpitar-lhe o colo.

Mudara-se ali para o bairro havia uns sete anos. Cidade nova, emprego novo. Nada se sabia de sua vida anterior. Aliás, o que agora importava mesmo era sua atividade. Ganhara notoriedade logo após as primeiras leituras, que ocorreram por acaso, na casa de uma vizinha a quem pedira emprestado um balde, para aparar a goteira que se instalara no meio de sua sala.

Estranha goteira – existia mesmo sem chuva, isto é, mesmo após alguns dias de cessada a precipitação. Talvez a água se acumulasse entre as telhas e, como numa calha, escorresse devagarinho por alguma fenda no teto. Fátima também sentia seus dias correrem lentamente como aquela água: freqüente, mas não tanto; um pouco inconstante. Rumorosa, mas monótona.

No escritório, até a chefe de seção não a deixava trabalhar em paz. Os ofícios a serem datilografados se acumulavam por exclusiva falta de tempo. A rechonchuda dona Dirce logo de manhã solicitava uma “olhadinha”. Mostrava-lhe a mão roliça, coroada por múltiplas pulseiras, cheia de anéis, suada e vermelha. Fátima enxugava-a levemente com o auxílio de um lenço de papel, massageava-a para ressaltar as linhas e começava assim sua incursão pelos montes e declives, interpretando o tracejado.

De dona Dirce às colegas, nem mesmo tempo para um cafezinho. Casadas e solteiras queriam saber de seus amores. Apenas um homem, um colega homem, entrava na fila, discretamente. Era sempre o último.

De poucas falas, magro, sisudo, mansamente lhe perguntava se era por aqueles dias que ele ganharia seu tão esperado prêmio. Jogava, havia anos, o mesmo número na loteria. Uma certeza lhe dizia que ainda ficaria rico, podendo então dispensar-se daquele emprego. Toda vez que tomava as mãos de Cristóvão, uma inquietude em Fátima. Um sentimento misto de euforia e de angústia a invadia. Via de fato muita riqueza por vir. Havia também uma mulher, um encontro com uma mulher, jovem, disponível. Fátima chegou a pensar na possibilidade de ser ela a mulher. Devaneou. Tentou ler a própria sorte, mas em vão. Aliás, nunca o conseguira. Suas mãos, a seus olhos, eram indecifráveis: total ausência de linhas ou qualquer outra marca. Uma dúvida a atormentava: não havia linhas de fato ou somente ela não as via? Uma pergunta impossível de fazer aos outros, afinal aquela arte era de sua competência.

À noite, chuva. Em casa, massageava sem parar as mãos. A palma só mudava de cor, avermelhava-se; nenhuma linha surgia. A goteira recomeçou. Dormiu hipnotizada pelo barulho da água completando o balde. Acabou sonhando com a goteira. O som, inicialmente monótono, tornou-se ritmado. Prestou mais atenção, e mais e mais. Parecia, sim, mensagem cifrada em Morse. Acordou e precipitou-se a anotar a mensagem – em criança gostava de brincar com os irmãos naquela linguagem; não a esquecera. Tratava-se de números com que, repetidamente ao longo do sonho, a água no balde lhe acenava. Eles deveriam significar alguma coisa, mas o quê?

Foi mais cedo para o trabalho e, no caminho, trajeto de quinze minutos de caminhada, parou defronte a uma casa lotérica. Impulsionada, sabe-se lá por quê, entrou e comprou um bilhete com os exatos números do sonho. De relance, a impressão de ter visto Cristóvão, o que seria muito plausível, dada sua obsessão hebdomadária.

Satisfeita, Fátima foi para o escritório, aguardando ansiosamente o resultado da loteria no dia seguinte. Prendeu o bilhete em um pregador de papéis, forma de mão, sobre sua mesa de trabalho. Como de costume, o dia transcorreu com as habituais “leituras” matutinas, ofícios datilografados etc. etc. A lembrança de sua goteira em Morse transformara-se quase em canção. Gostou daquilo; chegou a esboçar de quando em quando um discreto sorriso.

No dia seguinte, cedo se levantou e saiu. Precisava saber do resultado do sorteio. Havia esquecido o bilhete sobre a mesa, mas sabia os números de cor. Na parede da casa lotérica, o tão desejado resultado: era seu bilhete o premiado. Correu para o escritório, contudo o bilhete desaparecera de sua mesa. Tudo vasculhou, mas nada encontrou.

Cristóvão não veio trabalhar naquele dia, nem nos subseqüentes. Aliás, ele sumiu. Na loteria, Fátima ficou sabendo que já haviam retirado o prêmio, discretamente, como deve ser nesses casos.

Naquela noite, de volta a casa, a chuva foi violenta. Mas goteira não houve. Permaneceu sentada na beirada da cama, esperando que alguma coisa, qualquer que fosse, acontecesse, para preencher o vazio que sentia. Nem mesmo o barulho da água locupletando o balde. Sem querer, olhou as próprias mãos, abertas sobre o colo, em atitude de total desamparo. Assustou-se: pela primeira vez começou a enxergar linhas e mais linhas.

 
     
 
   
           
           

 

 

Teresa Coutinho Andrade
Carioca, de nascimento e de coração, professora em ensino médio (português e literatura), resolveu trocar um pouquinho de lugar, aliás, acrescentar mais um: não ficar só teorizando sobre as letras, mas nelas mergulhar.