O rio que passa pela minha aldeia não tem nada a ver com o Tejo. Mesmo porque começa na encosta de uma serra à qual minha aldeia serve de sopé. Ao contrário do Tejo, que parece eterno, o meu rio nasce e morre; morre e renasce. Como se estivesse condenado a eternas reencarnações fluviais. Cuja periodicidade varia com a mesma freqüência com que as lágrimas rolam no rosto dos sertanejos, a quem deveria servir de consolo e esperança.

Quem percorrer os caminhos do sertão nordestino durante os meses de agosto a dezembro, ou em qualquer outra época, nos anos de seca feroz, vai deparar com uma paisagem lunar. Tão angustiante quanto o de um deserto. Tudo o que era vegetação se resume a um cipoal sem o menor vestígio de clorofila. A fauna se restringe a pequenos répteis e escassos roedores que a população esfaimada devora, no afã de obter um mínimo de suprimento de proteínas. O solo sugere o rescaldo de um incêndio de proporções apocalípticas.

A secura nos olhos do sertanejo dura, por conseguinte, muito mais do que o pranto. Mas, de vez em quando, as lágrimas são tantas, que transformam em mar aquela planície ressequida. Quando isto sucede, o sofrimento daquela gente não escasseia nem um pouco: apenas muda de perfil. A diferença é que na primeira circunstância trata-se de uma dor cansada, seca, ardorosa, prolongada. Quando a inundação das lágrimas prepondera, a dor se torna aguda, lancinante, urgente. Semelhante àquelas crises que requerem ajuda imediata: uma questão de vida ou morte.

Foi numa dessas enchentes que o barraco foi levado de roldão. A inundação surgiu subitamente. Toda a família sucumbiu. Os corpos foram carregados pela correnteza. Não houve tempo sequer para se abraçarem. Só ele logrou sobreviver. A princípio pensou em se deixar afogar também, porém o instinto de sobrevivência foi mais forte. Depois de muito lutar contra a força das águas, deixou-se sobrenadar e se abandonou ao sabor da corrente. Como acabaria aquele caos, não sabia.

Durante o percurso, deparava com toda sorte de complicações. Ora, eram as águas que se tornavam mais turbulentas e rodopiavam com o corpo esquelético sobre alguma depressão no leito do riacho. Ora, eram escolhos pontiagudos dos quais por pouco conseguia se esquivar. Ou répteis venenosos que tentavam atacar. Ou o cansaço, a desesperança, a falta de vontade de lutar. Não via perspectiva de salvação. Sequer visualizava as margens, um galho de arbusto onde pudesse se amparar, um caule que servisse de embarcação provisória, alguém que prestasse socorro. Somente quando já se encontrava exausto, e depois de dois dias de distância do lugar onde existira a casa, surgiu um tronco de árvore a flutuar.

Atracou-se, como um náufrago em desespero, que de fato era, e continuou o percurso. Tinha feito a sua parte. Esgotara as energias. Ultrapassara limites. O acaso, portanto, que se encarregasse do que haveria de vir. De repente surgiram relâmpagos e trovoadas. E mais chuvas continuaram a desabar.

A luta do homem contra a natureza é desigual. É semelhante à do Diabo contra o Deus. Não obstante a insistência com que os humanos procuram se opor às suas leis, a natureza leva sempre a melhor. E é a senhora absoluta do destino. Atracado ao seu tronco de árvore se sentia cada vez mais ameaçado pela tempestade e pelas águas revoltas. A certa altura daquela travessia do incerto para o desconhecido, cochilara um pouco. E sonhou que a água doce do rio tinha se transformado em salgada. Não era sonho. Já se encontrava em pleno mar. Então, avistou, ao longe, uma nesga de terra. Desesperado, nadou para lá e foi ter a uma praia.

Tratava-se de uma ilha deserta. A angústia diante da solidão naquela terra de nada e de ninguém, não era menor do que a que sentira quando a casa fora invadida pelas águas do rio da minha aldeia. E assim permaneceu para sempre.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Quando criança costumava caçar lagartas. Tinha a curiosidade de um pequeno cientista. Diziam que algum dia teria uma surpresa, pois delas nasceriam borboletas. Era muito desconfiado: “Só acredito se eu vir”, costumava dizer. A desconfiança tinha razão de ser. Já tinham dito que sementes viravam plantas, ovinhos viravam pássaros e homens viravam lobisomens. Jamais testemunhara algo parecido. Ainda assim, cultivava lagartas em vidros incolores e transparentes. Punha folhas para servir de alimento e permitia a entrada de ar através de pequenos orifícios. Apesar de toda essa dedicação, nunca viu borboleta alguma sair voando de dentro daqueles vidros. Mais tarde, quando adolescente, afirmaram que sonhos viravam realidade. Continuou desconfiando, porém não perdia a esperança. Depois de homem feito, alguém veio contar que esperança virava felicidade. Então, resignava-se ao instante. Mas sentia saudades do futuro.

Durante a juventude, escrevera versos. E os temas da poesia eram sempre associados à natureza e à condição humana. Jamais haveria como dissociar o homem do substrato. Ora, raciocinava, se os nossos corpos, tais como a Terra, não passam de fragmentos de corpos celestes, e se um dia retornaremos para o mesmo lugar de onde viemos, como ter a pretensão de sermos superiores a alguma coisa? A vida e a natureza, portanto, se confundem. Num dos seus mais belos poemas, comparava a primeira com as estações do ano:

 
     
   

“Quatro são as estações do ano!
Do mesmo modo, são quatro as do homem:
Sua Primavera quando, pleno de esperanças,
Tudo concebe eternamente belo e perfeito.
Seu Verão quando, exuberantemente
Afagado pela Primavera e acalentando sonhos, adora
Deixar-se arrebatar por estes altos sonhos juvenis
E se imagina às portas do Paraíso, transpondo nas alturas,
Sua alma através do Outono, enquanto as asas
Ele recolhe, satisfeito apenas em contemplar
Desdenhosamente, o nevoeiro – deixando tudo
Passar despercebido, como a nascente de um regato.
Mas tem também o seu Inverno de doloroso frio,
Que prenuncia, implacável, sua transitória natureza”.

 
     
 

Não abandonou as lagartas. Embora desconfiado, como sempre, esperava um dia vê-las transformadas em borboletas. Continuou a alimentá-las, a cuidar para que nada faltasse. Zelava pelo biotério larvar como se fosse parte de si mesmo. Apesar dos versos que falavam da transitoriedade da existência, aquele inverno metafórico parecia tão remoto quanto as estrelas. Por outro lado, o verão era sufocante. A primavera, pouco florida. Os ferimentos dos cardos superavam o prazer do colorido, da beleza e do perfume das flores. O outono nunca se aproximou de algo assemelhado ao Paraíso. Pelo contrário, o desfolhamento das plantas sonegava, cada vez mais, o verde das larvas e das esperanças. Umas e outras sequer esboçaram o colorido e o contorno esvoaçantes que prometeram. Somente o inverno implacável, enfim chegou. Muito mais depressa do que imaginara. As lagartas não viraram borboletas, como desconfiava. Numa incerta manhã particularmente cinzenta, fria e chuvosa, foi ao seu encontro. Mas todas estavam mortas.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Cálido calabouço. Misteriosa masmorra. Trevas, isolamento, opressão. O espaço que ocupo é exíguo e limita os movimentos. Tinha tudo para estar desesperado. Objetivamente, estou preso. Algo fora do alcance dos sentidos diz que não. Nenhum desconforto. Portanto, não sinto medo. Não tenho consciência de quase nada. Exceto de me encontrar entre essas quatro paredes que parecem prestes a me esmagar. No entanto, são elásticas.

Não sei quem sou, nem como vim parar aqui. E não tenho a menor idéia de como sairei. Sequer se irei sair, pois não vejo por onde. Outra sensação muito estranha: não obstante esteja relatando tudo isso, essa é a primeira vez que experimento algum tipo de percepção. Sinto-me confortável. Entretanto, uma premonição me diz que, aqui para sempre, não estarei. Sinto que se aproxima o tempo em que serei. Se dependesse de mim, ficaria. Meu futuro é o agora.

Curiosamente, apesar de não enxergar, escuto. Durmo bem e até sonho. Sou capaz de deglutir alimentos, embora não sinta fome. Também posso respirar, conquanto a atmosfera seja praticamente nula. Mesmo assim não sinto falta de ar. Não me preocupa nem um pouco estar sozinho. Outra pessoa aqui traria desconforto. E perigo. A solidão não me entristece. Pelo contrário: é minha companheira e aliada.

Meu dia se aproxima. O que é o meu dia? Aquele em que tudo mudará. Quando perderei essa identidade e ganharei outra: estranha, confusa, imprevisível. Enfim, o dia em que serei em vez de estar. Amo este lugar, onde nada me perturba. Como não conheço outro, me apego, sofregamente, a ele. Em vão.

Estou sentindo as paredes me imprensando cada vez mais. É com surpresa que constato que elas são ainda mais elásticas do que supunha. Apesar da pressão, sinto que não vou ser esmagado. E ainda que sentisse, nada poderia fazer. Não posso pedir socorro. Não conseguiria emitir qualquer ruído. Estou preocupado. Não apavorado.

Acabo de perceber que debaixo de onde estou, existe uma passagem. E que o chão da cela começa a se fender, formando uma espécie de funil. A pressão das paredes contra o meu corpo é cada vez maior. Estou com mais medo do que antes. Não porque esteja sofrendo: tenho medo de vir a sofrer. Os batimentos do coração começam a acelerar e a desacelerar, conforme a intensidade das compressões.

Começo a entrar no funil. É, exatamente, isso mesmo. A boca é larga, mas a passagem é muito estreita. Além disso, as paredes da cela não são mais maleáveis como eram antes. E sinto que vou atravessar esse túnel que parece não comportar o meu corpo. Sinto-me apavorado. O funil vai se estreitando cada vez mais. E estou mergulhando nele.

Experimento angústia nas duas acepções da palavra: pela redução do espaço físico e pelo tormento emocional. Vou descendo lentamente empurrado pelas forças das partes moles, contra a resistência das duras. O túnel mal me comporta. Entre o meu corpo e as paredes não há espaço livre. É como se um trem, em baixíssima velocidade, estivesse atravessando uma via subterrânea que mal o comportasse. Como se a locomotiva e os vagões deslizassem pelas paredes. Sinto o gotejar da passagem do tempo. E as gotas são espessas, pegajosas e lentas como as do sangue.

Ainda assim, estou conseguindo passar. Se parasse no meio do trajeto, e ninguém me socorresse, seria o fim. Essa viagem jamais teria retorno. Enfim, uma luz no final do túnel. Mas a saída ainda não está tão próxima quanto parece. Desço cada vez mais. Sempre impulsionado pelas paredes do antigo albergue que, agora, funcionam como um motor. Enfim, a saída. Ponho a cabeça pra fora. Que ambiente estranho! Quanta luminosidade! Que frio! Não estou gostando nada disso e choro copiosamente. Agora é tarde: nasci.

 
     
 

06/05/2005

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Narciso nato, sempre fui cuidadoso quanto à aparência. A cabeleira, especialmente, era o centro das atenções. Aparava a cada dez dias, ainda que o cabeleireiro não achasse necessário. Sou assim desde criança. Sofria de insônia, falta de apetite e sentia dores fortíssimas se passasse desse prazo.

Estive num analista. Jamais porei os pés ali outra vez. O médico mandava deitar num sofá e pedia para falar qualquer coisa a cada palavra que pronunciasse. Imediatamente. Sem pensar em nada. Tudo ia muito bem. Estava me sentindo melhor. Cogitava mesmo a idéia de ir ao cabeleireiro apenas de quinze em quinze dias... Quem sabe, mensalmente.

Até que o dia terrível aconteceu. Estávamos praticando livres associações, quando, de repente, pronunciou a palavra “cabelo”. Respondi: “Mamãe”. Ficou calado. Subitamente uma ansiedade intolerável. Poucos minutos depois, insistiu para dizer por que associei “mamãe” à palavra “cabelo”. Foi uma das coisas mais dolorosas que aconteceram até hoje. Não queria falar naquilo. Não podia. O analista declarou que a cura dependia disso. Saí quase correndo.

Há alguns meses venho percebendo que o cabelo não cresce como antes. Não é mais possível cortá-lo sequer a cada quinze dias sob pena de ficar sem nenhum fio. Já sei o que está acontecendo. Tenho certeza de que cresce. Só que cresce pra dentro. Sinto uma coceira estranha no interior da cabeça. Na verdade, é mais do que uma coceira: é uma irritação insuportável. São os fios de cabelo, com as pontas crescendo invertidas, a arranhar. Aranhas tétricas a tecer teias no tecido cerebral. Ninguém me convence do contrário.

Sinto que isso vai me matar. Os cabelos não cabem na cabeça. O crânio não comportará, por muito tempo, o volume, nem suportará o traumatismo dos pêlos que se acumularão continuamente entre os miolos. Por esse motivo, resolvi contar tudo neste escrito. Jamais falaria dessa coisa para quem quer que fosse. Devia ter entre quatro e cinco anos, mas me lembro de tudo. Numa incerta noite, empurrei, sem querer, a porta do quarto dos meus pais. Eles estavam fazendo uma coisa que nunca tinha visto. Pensei que estivessem brigando. Claro que hoje sei que estavam copulando.

Mas isso não aterrorizou tanto quanto o que vi pouco depois. Meu pai saiu de cima da minha mãe. Então, ela se levantou e se acocorou numa bacia. E lavava aquela pentelheira preta e nojenta. Era como se estivesse tentando extrair uma imundície que tivesse acabado de introduzir. Senti náuseas e corri, em pânico, para o quintal. E vomitei. Desde aquele instante senti pavor de que meus cabelos crescessem demais e ficassem iguais àquela coisa escabrosa. Dias depois, fui ao cinema. Tratava-se de um filme sobre a Revolução Francesa. Cada cabeça que rolava da guilhotina, o carrasco suspendia pelos cabelos. Não pude deixar de associar aquelas cenas hediondas à minha própria cabeça degolada e recoberta com os pêlos pubianos de minha mãe.

Daí a razão de mandar cortar o cabelo de dez em dez dias. Estava certo de que se deixasse crescer espontaneamente, além desse tempo, ia ficar igual àquilo. Essa idéia nunca me abandonou. Mesmo quando já era adolescente e, portanto, tinha conhecimento dessas coisas, o medo permaneceu. Acontecia outro fenômeno muito estranho. Enquanto, sentia esse terror, uma força estranha me impelia a imaginar o meu couro cabeludo igual àquilo que vi entre as pernas de minha mãe. Cheguei a ponto de simular, no computador, a minha imagem assim configurada. Quase enlouqueci ao me ver recoberto por aquela peruca asquerosa. Foi isso que não tive coragem de contar para o analista.

 
     
 

03/05/2005

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Soberba

 
     
 

"You must bear with me.
Pray you now, forget and forgive.
I am old and foolish."

(W. Shakespeare, King Lear)

 
     
 

Chamava-se Amadeus. Professor / Doutor. Membro da Academia Nacional. Sócio das mais prestigiosas entidades internacionais. Meia dúzia de idiomas. Conferências Magistrais nas Universidades de Heidelberg, Uppsala, Berkeley, Princeton, Harvard, Sorbonne, Oxford e Cambridge. Prêmios sem conta. Ainda assim, se sentia frustrado: faltava o Nobel. O céu era o limite para as ambições. Não falava com alunos. Nem mesmo com colegas de pouco destaque. Certa feita – no centro cirúrgico –, um assistente o interpelou entre uma operação e outra: "Professor, encontra-se na recepção um sheik árabe insistindo em conhecê-lo. O que devo dizer?" "Que existem fotografias minhas na butique do Hospital para serem vendidas.”

Vangloriava-se dos títulos que já tinha e ansiava pelos que ainda faltavam. Discursava solenemente, sem o menor constrangimento ou pudor: "Sou Professor / Doutor; Fellow pela Universidade de Harvard e Master pela de Londres. Mas ainda chegarei a 'Sir' do Império Britânico”. Os médicos mais mordazes ousavam pilheriar às escondidas: "Não! Falta, também, ser membro da Câmara dos Lordes, Primeiro Ministro, Rei e suprimir as duas primeiras sílabas do nome!”

Quando tratava pacientes famosos e era convocado para dar entrevistas, fazia questão de se apresentar impecavelmente vestido, era o único a falar e respondia às perguntas dos repórteres com arrogância, prepotência e onipotência. Insistia em ser chamado pelo título predileto: Professor / Doutor. Nos bastidores, antes que as luzes dos refletores se acendessem, reivindicava a presença de um assistente e, sob as vistas dos profissionais da imprensa, interpelava-o: "Sou Doutor ou Professor / Doutor?" O outro já sabia o que dizer: "Doutor, senhores, é um médico qualquer. Não é, em hipótese alguma, o caso do entrevistado de vocês. Ele é sim, Professor / Doutor. Está anos-luz acima de meros ‘doutores’. Portanto, todo cuidado é pouco quando o estiverem inquirindo diante das câmeras de televisão!"

Os clientes menos ilustres eram os parlamentares do chamado "baixo clero". Mas só eram atendidos cerca de noventa a cento e vinte dias depois de marcar consultas. Comentava-se, à boca miúda, que cantava as clientes. Proclamava aos quatro ventos que comia quase todas. Como se fizesse um favor... Contudo, suas pretensões não se limitavam à estadia neste planeta. Prestígio póstumo não estava descartado. Mandara erigir, no "cemitério dos ricos", imponente mausoléu, que era uma réplica mirim do Partenon. Construído em mármore de Carrara. Cariátides esculpidas pelos artistas mais caros do mundo. Supunha que tal “viagem” só aconteceria depois dos oitenta. Levava vida saudável. Não admitia que acidentes acontecessem... consigo. Mas esqueceu de comercializar tal produto com o destino. Uma noite mal-humorada decidiu cobrar a sua parte... Pilotava a Mercedes a mais de cento e vinte por hora. Tráfego traidor... Traseira de trator...

Dez dias inconsciente, mas se recuperou. Contudo, os membros superiores e inferiores tiveram de ser amputados. Hoje, se resume a um tronco e a uma cabeça. Vive completamente isolado. Salvo pela companhia fortuita de serviçais indiferentes. Depende de empregados pra tudo: locomover-se, alimentar-se, vestir-se, cuidar da higiene e cumprir necessidades fisiológicas. Eventualmente, prostitutas são convocadas para satisfazer o que resta da libido. Algumas o masturbam até a iminência do orgasmo. Então, param de repente. Como já foram pagas com antecedência, retiram-se do quarto bruscamente. Às gargalhadas...

 
     
 

Avareza & cobiça

 
     
 

Foi, ao mesmo tempo, o homem mais rico e mais pobre de sua terra. Mais rico, porque tinha mais dinheiro; mais pobre, porque era o que menos gastava. Ao sentir dor de cabeça, atava um comprimido de aspirina à ponta de um barbante e deglutia. Quando a dor passava, retirava e guardava o resto do remédio. À noite, ao papear com amigos, fazia dupla economia: apagava as luzes e descia as calças. Chegou a comprar um automóvel... E o emparedou. Preferia saltar a grade de ferro do jardim, a ter de abri-la. Para não corroer a dobradiça.

Certamente, há algum exagero nessas histórias. Mas são caricaturas aproximadas do seu perfil de consumo. Não há dúvida de que privava a si e a família do mínimo necessário para sobreviver com certa dignidade. Morava com a mulher e um casal de filhos num pardieiro situado no subúrbio duma cidade litorânea. A alimentação consistia de um cardápio tão invariável quanto escasso e intragável.

Entretanto, o patrimônio era avultado. Avaliava-se em cerca de quatro milhões de dólares americanos. E era a única razão do seu existir. Jamais o confiou a bancos. Era quase todo constituído de lingotes de ouro pesando, cada um, mais ou menos, quinhentos gramas. Conservado num silo sepultado a vários metros de profundidade, ao qual somente ele tinha acesso. Apesar das doenças e dos sessenta e seis anos, só temia a morte por um único motivo: ter de se separar do tesouro. Bastava pensar que herdeiros pudessem um dia vir a usufruí-lo, para sentir calafrios, insônia, falta de ar e palpitações.

A esposa tinha 57 anos. A filha, 19. E o rapaz, 24. Tinham todos os sentimentos possíveis e imagináveis em relação àquele homem, exceto afeição. Sequer se comunicavam. Quando conversavam entre si, a palavra mais utilizada era o advérbio "depois". "Depois, nós vamos viver melhor. Depois viajaremos pelo mundo inteiro. Depois, vamos nos mudar para uma mansão. Depois, vestiremos roupas da moda. Depois, vamos jantar fora todos os finais de semana. Depois, compraremos um automóvel. Depois, nossa vida será um mar de rosas." Por "depois" entenda-se "quando o velho morresse”.

Num incerto dia ele viu o "depois" se aproximar. As palpitações aumentaram e sentia fortes dores no peito. Os tornozelos começaram a inchar. E a falta de ar se tornou quase insuportável. Entrou em pânico ao pressentir, para breve, a cruel separação de sua amada fortuna. Doía, porém, muito mais, a perspectiva de sua fruição por parte de terceiros. Mas disfarçou o quanto pôde. Contratou uma microempresa, especializada em escavações. E mandou cavar um túnel partindo de cerca de quatrocentos metros do seu "santuário" e desembocando lá. Eram três as cláusulas mais rigorosas do contrato: as horas de trabalho só aconteceriam na alta madrugada e com um mínimo de ruído. A obra teria, também, de ser camuflada. Estaria, para todos os efeitos, perfurando um poço profundo a serviço da Prefeitura.

Logicamente, para isso, teve de subornar o funcionário público responsável. Ao cabo de noventa dias o túnel estava pronto e somente cinco pessoas sabiam da sua existência: ele próprio, o funcionário corrupto, o proprietário da escavadeira e os dois operários responsáveis pela execução dos serviços.

Deste dia em diante, um véu de mistério desceu sobre o velho. Durante as madrugadas se levantava pé ante pé, descia para o subterrâneo e envolvia lotes de peças de ouro em lonas de enfardar algodão. A seguir, com esforço sobre-humano, e utilizando um carrinho-de-mão, transportava até a entrada do túnel, onde já estacionara, previamente, uma picape. Punha tudo na carroçaria, assumia o volante e partia.

Repetiu a operação, em noites alternadas, até esvaziar o depósito. Contratou novamente os serviços da microempresa para desfazer o túnel, recheando-o com o material escavado. E deixando o cofre como se não tivesse sido tocado. Evidentemente, teve de se desfazer de boa parte dos quatro milhões. Para comprar os serviços, e, sobretudo, o sigilo dos quatro cúmplices.

Oito meses e nove dias após o término da operação, aconteceu o "depois". Não agonizou. Pelo menos, assim interpretaram os familiares. Deitou-se às dez da noite, dormiu, e, ao amanhecer, a esposa o encontrou morto. Foi o dia mais feliz na vida dela e na dos rebentos. No dia seguinte às exéquias, mãe e filhos se reuniram e concordaram em viajar pelo mundo para inaugurar os "depois". Sequer ocorreu-lhes visitar o cofre, pois davam como favas contadas o montante do conteúdo. Certa vez, num gesto de raríssima bonomia, o marido tinha mostrado tudo à companheira. Tal qual um adolescente a exibir o primeiro automóvel à namorada.

Para os círculos financeiros do lugar, também não era segredo a fortuna do morto. Embora ignorassem onde ele a depositava. Foi, portanto, com extrema presteza, que gerentes de bancos e agentes de turismo acolheram os pedidos de financiamento da trinca. "Como não, por aqui. Aceitam um cafezinho? Um chá gelado? Um refrigerante? Um uisquinho?" Um tratamento principesco que jamais ousaram pensar em receber. Cartões de crédito, das empresas mais famosas do planeta, foram visados e masterizados, expressamente, para cada um. Diante de créditos tão fáceis quanto fartos, os três viajaram durante quatro meses.

Conheceram o extremo e o médio Oriente. A Europa e os Estados Unidos. No dia seguinte ao da chegada, fizeram as contas e tinham gastado duzentos mil dólares. Para ter acesso ao silo tiveram de dinamitá-lo e, evidentemente, encontraram-no vazio. Choro, desmaios, gritos, imprecações, fúria, ranger de dentes, desespero... Um detetive particular foi contratado. Ao cabo de duas semanas, ficou-se sabendo da "operação túnel", graças à língua solta de um dos operários escavadores, quando este se encontrava sob o efeito da pinga de cada dia. "Ah velho escroto!" Repetia continuamente o filho. "Maldita esteja a tua alma no inferno, seu sacana", secundava a mãe. Só a moça permanecia calada. Olhos fitos no horizonte vazio, completamente imóvel e indiferente a tudo. Mas permanecia uma dúvida. E junto com ela, uma esperança: para onde ele teria levado o tesouro? Mediante acordo prévio – uma divisão meio a meio, caso fosse encontrado –, o detetive prosseguiu a busca.

Seguindo pistas vagas e dispersas; ouvindo comentários de vizinhos madrugadores, investigando, interrogando... Conseguiu reunir algumas peças e montou um quebra-cabeça que o levou a uma praia afastada e inóspita. Quase desabitada. E encontrou um barqueiro. Ficou tudo esclarecido. "Sim, conhecera muito bem o homem." "Sim fora ele quem o contratara durante alguns meses para jogar sacas de entulho em alto mar." "Não, nunca suspeitou de nada, pois chamava de ladrões os removedores de escombros, porque teriam lhe cobrado os 'olhos da cara' para retirá-los de uma construção." "Não! Como poderia desconfiar, se a sua avareza era conhecida em toda a região?”

 
     
  Luxúria  
     
 

Marido e mulher há mais de cinco anos. Casamento em crise. Encontravam-se naquela fase de quase desespero, na ânsia de salvar a relação. Pensaram em tudo... Criatividade sobrando. Ambos escritores de romances e contos eróticos. A sugestão partiu dela. Quem sabe aquela seria a solução. Pelo menos a última tentativa. Conhecia casais amigos que se tinham reconciliado depois de experiências semelhantes. Às quatro horas de um sábado à tarde saíram sozinhos. Mas separados. Ela no Honda. Ele no Vectra. A intenção era se reencontrarem depois de dez da noite. E experimentarem algo nunca imaginado. Cada um criaria a sua própria fantasia. Mas só depois que se afastassem. Apenas dois detalhes estavam previamente combinados: horário e local exato do encontro. Ele chegaria primeiro. Daí por diante tudo ficava por conta das fantasias.

Ele deu partida no automóvel sem mesmo saber que destino tomar. Depois de rodar alguns quilômetros decidiu visitar um casal amigo. Conversaram o que conversam dois homens e uma mulher jovens numa tarde de sábado: banalidades. Sequer os temas prediletos podiam ser abordados. Os deles futebol e política. Os dela, novela e casa bonita.

A outra saiu já sabendo exatamente para onde ir. Seguiu também para a residência de uma amiga. Era divorciada. O marido não a conhecia. Saíram juntas poucos minutos depois. E foram fazer o que fazem duas mulheres jovens, com bastante dinheiro, num sábado à tarde. Não precisava dizer que foram compras. Como já foi dito, fica assim mesmo. Antes de irem para o Center, passaram num sex shop. A companheira sabia da intenção da outra e ajudou a escolher. Era mais experiente.

O marido e o casal amigo ficaram a bebericar. Dentro de algum tempo, a conversa mudou de rumo. Em vez de banalidades, literatura. Em vez de brasileira, americana. Em vez de Poe, Henry Miller. Em vez de Trópico de Câncer, Nexus, Plexus e Sexus. Todos concordaram que, depois de Miller, o mundo não seria mais o mesmo. E as cremalheiras do tema se encaixaram como o côncavo no convexo. Durante todo o restante do tempo. Lubrificadas por pequenos goles de Logan.

O álcool é uma espécie de soro espontâneo da verdade. Depois da terceira dose confessou, primeiro ao amigo e depois à esposa deste, o que planejava para aquela noite. Melhor dizendo, o que não planejava. Pois, simplesmente, nada lhe ocorrera ainda. Os dois, a princípio, riram muito. Logo depois marido e mulher se tornaram pensativos, enquanto se entreolhavam de esguelha. “Se nos deres dez ou quinze minutos a sós, talvez tenhamos uma solução para o teu impasse.”

As duas amigas voltaram exaustas. Mergulharam na piscina enquanto conversavam. O tema não diferia muito da outra conversa que se passava a quilômetros dali. Amadeus, o mordomo, se empenhava em servir bebidas e canapés. Comentava-se, à boca pequena, que havia um caso entre ele e a patroa.

Às dez em ponto o esposo chegou ao motel escolhido para o encontro e informou ao porteiro que esperava a esposa. Deixou um envelope lacrado contendo as seguintes instruções: "Não nos veremos. Tudo se passará às escuras. Nada de perguntas. Nada de palavras. Seremos como dois estranhos. Só que estaremos cegos e surdo-mudos. O gerente indicará o quarto em que me encontro. Entre sem bater".

A esposa entrou meia hora depois e chaveou a porta. O quarto imerso em trevas. Demorou um pouco a adaptar a visão ao escuro. Do marido, só o vulto. Mal ela entrou, ele foi lhe tirando a roupa com uma violência que ela desconhecia. Fez o mesmo com ele e se pôs de costas, como costumava fazer. Algo morno e roliço se insinuou entre as nádegas e parou. Duas surpresas a aguardavam. Ele não costumava fazer assim. Ia logo às vias de fato. “Está tentando ser paciente e criativo”, pensou. “Melhor assim. Talvez me excite mais e melhor.” Havia outra estranheza. O volume era absurdamente grande. “Deve estar usando um pênis artificial. Nem precisava... Trago na minha bolsa.”

Como parecia não haver espaço para uma boa acomodação, ela tomou as duas nádegas com as mãos e as afastou. O pênis penetrou um pouco A impressão era a de que o tamanho da glande fosse o mesmo do de uma bola de tênis. Aquele volume descomunal, jamais experimentado antes, acariciava os bordos do ânus. Do meato brotavam longos filamentos de muco que tornavam aquelas carícias mais macias, deslizantes, deliciosas. Parecia um lubrificante natural. Ambos se tremiam de tesão.

Ele forcejou um pouco. Não progrediu um centímetro. Relaxou o mais que pôde e empinou um pouco o bumbum. Agora sentia que a extremidade afastava as margens do esfíncter e sentiu dores. Tentou recuar. Ele não permitiu. Permaneceram nessa posição durante cinco minutos. Somente então a glande ficou rente ao orifício. Não penetrou ainda. Ela pôs as mãos pra trás e apalpou os testículos. E então teve certeza: não era o marido. Tentou escapar. Ele a segurou firmemente pelas ancas, imobilizando-a. Tracionou-as. E com um só impulso, fez a cabeça atravessar o esfíncter. Um grito de dor. Já era tarde para recuar.

Debruçou-se aos pés da cama como se fosse apanhar um objeto caído ao chão. Esse movimento sugou todo o pênis para dentro. Como se tivesse se formado um vigoroso vácuo. Então se entregou completamente. As estocadas tiveram início. A princípio lentas e suaves; quase paradas. Depois com a violência dos desesperados de desejo. Ela não suportou e pediu mais... Rouca, trêmula... Também desesperada. Nesse instante sentiu um enorme volume de líquido morno e espesso esguichando no âmago das suas entranhas. O marido acendeu as luzes. Ele também gozava. Mas se encontrava a cerca de cinco metros de distância. As luzes voltaram a se apagar. O estranho desapareceu.

 
     
  Ira  
     
 

Eu não nasci. Jamais tive mãe. Muito menos, um pai! Desde que me entendo por gente ouço dizerem que sou fruto de um ovo podre que estourou num terreno baldio. Palavras como esperança, fé, carinho, solidariedade, compaixão, justiça e caridade não fazem, para mim, o menor sentido. Cresci num orfanato onde a Madre Ritinha me disse que se eu me comportasse direito seria gente; caso contrário, um bicho. Como hoje dizem que sou um bicho, devo ter-me comportado esquerdo. Não me sinto um bicho. Sou muito diferente deles. Embora, instintivamente, esbocem algum sinal de afetividade. Eu não! Para mim, a palavra amor tem o mesmo significado de coisa nenhuma.

Vejo o valor que os outros dão à vida humana com absoluta indiferença. Não. Estou mentindo. Não vejo com indiferença, não. Na verdade, odeio gente. Comecei a trabalhar aos oito anos porque fugi do internato e não dispunha da menor chance de subsistência. Era moleque de recados de um bordel. Um cliente me disse certa vez: “Meu filho, seja tudo na vida, menos pobre. Neste país o homem pobre é burro, preguiçoso ou azarado”. Jamais esqueci a lição. Prometi a mim mesmo ficar rico ou então me tornar uma pessoa muito importante. Pouco me interessam os meios.

Nunca freqüentei uma escola, mas aprendi a ler. Sozinho. Pois ouvia a Madre Ritinha falar que sem saber ler a gente não pode ser nem ladrão. E eu queria ser ladrão! Hoje vivo de pequenos furtos, mas pretendo me tornar um profissional. Para isso tenho de planejar um grande golpe. Do contrário, nunca vou dispor de recursos para investir em bens de capital. Então, até pra se começar a roubar é preciso ter dinheiro. Desde que aprendi a ler nunca mais parei. A leitura é a única coisa que me faz tolerar a ira que sinto da humanidade.

Não leio qualquer coisa, não. Sou bastante seletivo quanto a leituras. O melhor livro que li até hoje foi Crime e castigo, de Dostoiévski. Não entendo por quê, mas me identifico demais com o personagem principal, Raskolnikoff. Esta identificação costuma suceder mais freqüentemente quando estou sozinho e, paradoxalmente, me assusta. Porque junto com ela acontece uma coisa muito estranha. A primeira vez aconteceu quando eu tinha de sete para oito anos. Daí em diante foi-se tornando cada vez mais freqüente. O inusitado do fenômeno me apavorava tanto a ponto de evitar comentá-lo.

Tenho muita dificuldade de explicar através de palavras. É uma espécie de cisão virtual da personalidade. Não, não é bem isso. É uma divisão real. Sinto-me duas pessoas. E a alucinação parece tão verdadeira que chego a me enxergar e, inclusive, me comunicar comigo próprio. Como se fosse dois diferentes indivíduos. Quando acontece num ambiente solitário, no banheiro, por exemplo, a angústia é tão intolerável que tenho de sair dali imediatamente. Pois tenho medo de perder a razão para sempre. Evito ficar sozinho por esse motivo. A simples idéia de ter de me isolar já provoca ansiedade.

Não se trata, entretanto, de nenhuma claustrofobia, senão de um terror insuportável de mim. Outro autor que leio muito é o Rubem Fonseca. Na minha opinião, seu melhor conto é “O cobrador”. Já li e reli mais de dez vezes. Chego a me excitar sexualmente durante os trechos onde o personagem principal mata gente sem qualquer motivo. Não gosto de ler poesias. O único poeta que me atrai um pouco é Augusto dos Anjos. Ainda assim detesto a musicalidade e a rima dos seus sonetos. Certa vez me deram para ler uma tradução de um poeta idiota dizendo que “nenhum homem é uma ilha”. Ele até pode ter razão quanto ao fato em si, porém fala uma aberração quanto à idéia. Para mim, vale exatamente o oposto: cada ser humano deveria ser uma ilha.

Tenho lido um filósofo alemão que pensa quase assim também. Seu nome é Arthur Schopenhauer. Sinto um certo orgulho por pensar igual a ele muito antes de o conhecer. Há outro de que também gosto. Chama-se Nietzsche. Seu único defeito foi querer substituir a ridícula filosofia cristã pela arte. Gosto da arte, mas acho que ela só tem valor para quem a produz, ou seja, para o artista.

O que é a arte? Para mim, é toda realização humana que emociona. Assim, um assassinato bem perpetrado pode vir a ser uma obra artística. Acordei hoje de manhã com uma vontade incontrolável de produzir tal obra. Venho acalentando há muito tempo essa idéia. Será uma ação digna de um super-homem se eu conseguir aniquilar, sozinho, uma quantidade de pessoas como ninguém ainda foi capaz de fazer até agora. Experimento uma espécie de frenesi só em pensar como meu nome será, primeiro, divulgado nos jornais. Depois, lembrado para sempre.

Tenho assistido, nos noticiários da televisão, a vários episódios onde um único indivíduo consegue matar muita gente reunida. Andei fazendo umas pesquisas para saber qual foi o recorde. Só encontrei números inexpressivos. Para mim só seria uma obra de arte se eu conseguisse matar, no mínimo, uma centena. Detive-me vários dias a planejar. Primeiro teria de descobrir onde encontrar essas pessoas agrupadas na maior densidade possível. Cheguei à conclusão de que só é possível numa grande escola infantil. Já escolhi qual será. E estou preparado.

 
     
  Gula  
     
 

Todas as manhãs enfileirava, na vitrine, infindáveis tortas, bolos, cremes, doces, tentações aos passantes. Era uma loja aconchegante, aromatizada de gula. Oferecia prazer ao paladar. Sua rotina vinha de muitos anos. Abria a porta, num ritual organizado, como organizada era toda a sua vida, e repetia, gesto por gesto, as primeiras tarefas do dia: varria a sala, tirava o pó das prateleiras, repunha alguma peça no lugar... Depois era a vez do cão. Não resistira em acostumar o animal ao mimo. Achava graça em seu olhar pedinte e escolhia um biscoito, que só entregava se ele estendesse a pata. Dava a guloseima e afagos. Depois, entrava no banheiro, desembaçava os óculos e retocava o discreto coque para que não sobrasse nenhum fio rebelde, asseada que era. Maquilagem, nem pensava em usar. Sua pele de ratazana esbranquiçada era alérgica. Às nove, pontual como um relógio, entrava na vitrine.

Assim, sua historia simples de moça feiosa e sem sonhos se desenrolava. A doçura de sua vida tinha sabores diferentes. Na escola, nunca teve namorado. Fugia de bailes, piqueniques, aniversários. Não ficava à vontade. Sempre deslocada, triste, sozinha. Os rapazes não a tiravam pra dançar. Sequer percebiam sua presença. Tinha se acostumado assim. A ser um elemento a compor o fundo das imagens mais importantes. Suas noites eram sem suspiros, sem devaneios inúteis. Nem ler, lia, ou meditava, pois inteligência não era seu forte. Apenas a espera do dia de trabalho. As novidades eram comentadas com os fregueses de sempre, pois quem de seus doces provava, voltava.

Então, sentiu aquele olhar vesgo, através da vidraça. Sorriso, gestos estranhos: mordia os lábios, dilatava as narinas e ofegava. Fingiu que não tinha visto. Não é comigo! Não pode ser. Corava, perdia o rumo, derrubava as coisas, morta de medo de que ele percebesse.

Até então, homem nenhum demonstrara interesse...
Um conflito de emoções se instalou. Não sabia o que, de fato, estava acontecendo. Sentia-se vaidosa. Sentia-se ridícula. Achar que pudesse estar sendo alvo da atenção de um homem. Passado um tempo, agora também atraída pelo estranho, mais do que isso: quase apaixonada. Dedicava a maior parte do trabalho à vitrine. Já não disfarçava pequenas delicadezas. Correspondia um pouco aos seus sorrisos.

Por sua vez, o homem insistia. Passava horas... Manhãs inteiras, diante da loja. Sondava, através da transparência dos vidros. Cada vez mais ansioso. Como se implorasse. Como se dissesse: vem, estou aqui para te abraçar. Para te beijar. Para te pedir em casamento. O semblante inspirava ternura. Parecia um menino abandonado a implorar carinho. Cada vez mais simpático e insinuante. A comportada donzela caiu. Foi vencida.

Num incerto dia, estava sozinha. Talvez por sentir que o rapaz era muito acanhado, uma ousadia inédita a invadiu. Resolveu dar um empurrão na sorte. Sorriu um pouco mais e se espelhou nas vidraças, enquanto fingia cuidar do penteado, como um convite.

O convidado foi entrando. Pela primeira vez o veria de perto... Seu coração estava aos pinotes. Sentia as pernas moles e uma sensação de ser mulher, de estar pronta para o amor, que explodia dentro e iluminava seu olhar. E se ele a atacasse sem ao menos saber seu nome? E se fosse tímido demais? Ela teria que tomar a iniciativa. E se fosse casado? Pouco importava. Sua cabeça fervilhava. Nem percebeu que o pretendente tinha se enfiado na vitrine, sofregamente, e caído de boca nas tortas de morango. Mordia com volúpia, resultado do desejo alimentado por tantos dias. Devorava sem pudores, num selvagem banquete, onde o vermelho escorria sensualmente pelos cantos da boca. E queria mais, mais ainda. Se empanturrava com a terceira e já cobiçava a próxima. Insaciável. Mergulhado, rodeado, inebriado, mastigando o prazer açucarado...

 
     
  Inveja  
     
 

Sem mais nem menos o tamanho do clitóris se desenvolvia. Crescia, proporcionalmente, com as unhas. Antes não era assim. Quem primeiro percebeu foi o parceiro. “Teu grelo tá muito grande. Já percebeste?”. “Não. Não percebi nada. Deves estar exagerando.” “Toma um espelho: vê.” “Meu Deus! Não tinha percebido ainda...” “Vamos ao médico.” “Não! Não precisa... Vou sozinha.” “Precisa, sim. Quero estar a par dessa história. Nunca vi isso antes. Afinal, sou teu marido.”

“A senhora não tem percebido outras alterações? Voz grossa, pêlos em excesso, sobretudo na face...?”. “Não, senhor.” “Menstrua todos os meses?” “Mais certo do que a chegada da conta da luz.” “Bem, obviamente é uma anormalidade. Falta descobrir a causa. Há várias hipóteses. A mais comum é de natureza indeterminada e a medicina ainda não chegou a uma conclusão... Mas outras doenças não podem ser descartadas. Variam desde um desequilíbrio de hormônios até... Tenho de ser honesto... Até um tumor. Somente depois de uma série de exames teremos o diagnóstico.”

Negligenciaram a orientação profissional. Não voltaram. Iludiam-se: “com o tempo, cura”. Cerca de um trimestre depois, a anomalia era aberrante. E dificultava o coito. O clitóris era uma imensa “verruga”. Mais se assemelhava a um pênis vestigial.

“Todos os exames estão normais. A conduta, em casos como este, é expectante. Temos de ter paciência e vigiar cuidadosamente. Volte de hoje a dois meses.” Não voltou. O órgão continuou a crescer, embora mais discretamente. Ainda assim, as relações sexuais se tornaram impraticáveis. Por motivos mecânicos e psicológicos. O esposo deixou de sentir desejo. Aquela enormidade lhe causava repulsa. Por sua vez, a esposa estava cada vez mais ansiosa. Parecia observar o pênis flácido do marido como um jardineiro que vê murchar a mais bela flor. Sentindo-se impotente para impedir.

“Amanhã voltaremos ao médico.” “Não! Não quero. Não vamos pagar mais nada só para ouvir conversa fiada.” E um conflito se instalou entre o casal. Depois de três meses, desde a última consulta, o órgão parou de crescer. Apesar disso, o tamanho podia ser comparado ao de um quiabo médio. Mesmo assim, o homem parecia mais tranqüilo. Só a esposa continuava cada vez mais aflita.

Era dona do seu segredo. Até a última fase de crescimento estava muito feliz, mas dissimulava. A angústia era mera encenação. Agora, ao contrário, era pra valer. Estava desesperada. Tudo o que tinha acontecido fora promovido artificial e deliberadamente. Usava trações: atava pesos ao órgão e deixava durante horas. Suportando toda dor, em troca de algum alongamento. Comprava e lia aqueles folhetos, tão divulgados na Internet, destinados a homens, para incrementar a envergadura do pênis. E punha em prática. Obsessivamente. Quando o órgão parou de crescer, da aflição passou ao desespero. Começou a tomar hormônios masculinos. Parece que o tamanho do clitóris havia atingido o limite. Os hormônios tinham efeitos colaterais: engrossavam a voz. Faziam aparecer pêlos, escuros e grossos, na face. A droga aumentava, não o tamanho do órgão pretendido, mas o do pomo de Adão.

Foi, literalmente, arrastada ao médico. Repetidos os exames, estavam lá, no sangue. Doses cavalares de testosterona. Mais testes. Não dormia. Na véspera das tomografias e de outros exames por imagem, perdeu a razão. O esposo dormia. Levantou-se pé ante pé e se dirigiu ao banheiro. Apanhou o estojo de barbear e retirou de dentro uma navalha afiada. Amolou ainda mais. Dirigiu-se para a cama. O marido fingia dormir. Ainda assim, suportou que descesse o pijama e apanhasse o pênis pela raiz. Quando já partia para o ataque foi contida. Hoje reside num hospício. Mesmo sob vigilância quase contínua ainda apresenta inchações imensas no clitóris. Resultado dos pesos que usa para repuxar. E repete como um disco aranhado: “Terei meu pênis. Juro que terei. Do contrário, amputarei o de todos os homens... Ou tudo, ou nada”.

 
     
  Preguiça  
     
 

Era uma manhã de domingo como poucas. Um sol de almirante brilhava num céu de brigadeiro. A cor da água do mar, ao longe, era de um azul- marinho tão marinho que só em se fitar a paisagem sentia-se como se a Terra inteira fora um só oceano. Isso originava, em quem a contemplasse, uma aura sensual a se disseminar através de todos os sentidos e produzia um bem-estar incomum. Uma espontânea alegria de viver como raramente costuma suceder aos habitantes das grandes metrópoles.

Enrodilhado em seu leito de cetim, ignorava por completo aquele cenário paradisíaco acessível apenas a pouquíssimos privilegiados. Morava numa cobertura duplex e se vangloriava de que o vizinho dianteiro habitava o litoral africano. Apesar disso, raramente assomava à panorâmica janela. Nunca descia para a praia, pois dizia detestar areia, sol e água salgada. Ignorava, portanto, aquela tal sensualidade a que as outras pessoas se referiam ao fitarem aquele deslumbrante panorama tão ao alcance do desdenhoso interesse. Aliás, o único interesse era quase uma monomania. Apesar dos quarenta e sete carnavais, de uma vida faustosa onde nunca conhecera a escassez material, uma saúde férrea e o exemplo e incentivo duma família ilustrada, só se interessava praticamente por sexo.

A estréia nas lides deste mister se dera bem precocemente e tivera como “preceptora” uma prima mais velha. Também devotada cultora de Vênus desde a mais tenra idade. Era uma morena linda de olhos verdes, cujo perfil lembrava o da estátua famosa representativa da divindade por ela cultuada e oriunda da ilha grega de Milo. Tais dotes eram assessorados por um caráter lúbrico tão exuberante a ponto de rivalizar com outra divindade: Ninfa, deusa dos rios, dos bosques e das montanhas. Seduziu o primo quando este mal ensaiava os primeiros passos no terreno minado da puberdade. Aos catorze anos incompletos. Mal havia colhido a décima quinta flor de primavera no jardim da existência, já tivera um número equivalente de amantes. Tratava-se, portanto, de uma especialista. E, como todo especialista, fazia questão de gerir, unilateralmente, o ofício.

Quando iniciou o primo nas delícias da fornicação, o rapaz estava quase a dormir, mas exibia uma ereção de Príapo. Ao perceber aquela monstruosa protuberância, ficou extremamente excitada. Uma onda de desejo perpassou-lhe o corpo, pondo em êxtase todos os sentidos. Não se conteve. “Sou eu. Não se mexa. Finja estar dormindo e deixe tudo por minha conta.” Jogou fora a calcinha e cavalgou o rapaz durante deliciosos quinze minutos. Como, para ele, estava sendo a primeira vez, não pôde reprimir um grunhido rouco e prolongado.

A partir daquela noite transaram quase todos os dias e, em alguns dias, mais de uma vez. Sempre sob o domínio, a iniciativa, a técnica e o controle absoluto da moça. Aos dezesseis anos, já conhecia o prazer físico com mais freqüência e intensidade do que qualquer homem comum na casa dos trinta. Com uma única diferença: jamais participara do ato sexual com o mais leve movimento. Portanto, literalmente, nunca trepara, pois essa tarefa era executada meticulosa e exclusivamente pela prima. Gostou tanto que cultivou esse hábito para sempre. Não que fosse a única parceira. Pelo contrário, o moço era promíscuo até a raiz dos cabelos. Nos finais de semana dava conta de duas, três ou mais mulheres.

Contudo, a técnica copulativa utilizada era sempre inversa à modalidade convencional. Isto é, executada exclusivamente pela fêmea. Todas as amantes eram previamente instruídas a esse respeito. Algumas protestavam, mas aquelas que ousavam recusar eram descartadas. Os companheiros sabiam disso e faziam assuadas: “Já vai, hein, estátua!” “Tu nunca ‘comeste’ ninguém, cara, as mulheres são que te ‘comem’.” “Olá, espinhaço de hipopótamo!” “Ei ferreiro, me empresta teu torno pra eu fazer uma torneira.”

Passou-se, passou-se, mas aquele hábito nunca passou. Pelo contrário, se estendeu a todo tipo de atividade física ou mental. Possuía empregados e, sobretudo empregadas, para tudo: dirigir, abrir a porta do automóvel, barbear-se, vestir-se, calçar os sapatos, pentear os cabelos, pressionar o botão da descarga sanitária. Diziam que até pra urinar existia uma serviçal encarregada da execução de parte da tarefa. Não obstante, o moço era um autêntico Casanova. Traçava tudo! Não precisava conquistar, pois era sempre conquistado. Muito rico, jovem, bonito como Apolo, mulheres para ele nunca foram problema. Isto é, problemas foram sim, mas pelo excesso, nunca pela escassez.

Como já foi dito, era uma manhã de domingo como poucas. Um sol de almirante brilhava num céu de brigadeiro. A cor da água do mar, ao longe, era de um azul-marinho tão marinho que só em se fitar a paisagem sentia-se como se a Terra inteira fora um só oceano. Pouco antes desse dia conhecera Camila. Uma linda inglesinha por quem, afinal, se apaixonara. Além de lindíssima, era inteligente, culta e alta executiva de famosa empresa multinacional. Em função disso, era também muito viajada. Conhecia, como a palma da mão, as principais cidades dos cinco continentes.

Mesmo habituado às facilidades das conquistas, imaginara o quanto seria difícil levar aquela moça para a cama. Foi, com efeito, o que sucedeu e quanto mais ela recusava, mais intenso era o desejo. Pois na noite anterior àquela manhã de domingo, alcançara, afinal, o tão ansiado intento. Não! Jamais exigiria dela aquilo que fora a tônica de toda a vida sexual. Nessa noite pretendera ser o melhor dos amantes. Não ousaria submeter aquela mulher, a quem tanto amava, ao indolente capricho. Infelizmente, pela primeira vez broxara.

 
     
 
   
           
           

 

 

Raymundo Silveira
Nasceu em Massapê, vilarejo cearense no Nordeste do Brasil. Cursou a primeira fase do segundo grau no Seminário São José, na cidade de Sobral (CE). A segunda fase (curso científico) se processou no Colégio João Pontes, em Fortaleza. Foi o sexto colocado no concurso vestibular de 1965 para a Faculdade de Medicina da UFC – uma façanha, se forem considerados a feroz concorrência a uma vaga e o seu trabalho de carteiro: seis horas por dia, sem descanso aos sábados ou domingos. Colou grau como médico em de 20 dezembro de 1970.
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