O rio que passa pela minha aldeia não tem nada a ver com o Tejo.
Mesmo porque começa na encosta de uma serra à qual minha aldeia
serve de sopé. Ao contrário do Tejo, que parece eterno, o meu rio
nasce e morre; morre e renasce. Como se estivesse condenado a
eternas reencarnações fluviais. Cuja periodicidade varia com a mesma
freqüência com que as lágrimas rolam no rosto dos sertanejos, a quem
deveria servir de consolo e esperança.
Quem percorrer os caminhos do sertão nordestino durante os meses de
agosto a dezembro, ou em qualquer outra época, nos anos de seca
feroz, vai deparar com uma paisagem lunar. Tão angustiante quanto o
de um deserto. Tudo o que era vegetação se resume a um cipoal sem o
menor vestígio de clorofila. A fauna se restringe a pequenos répteis
e escassos roedores que a população esfaimada devora, no afã de
obter um mínimo de suprimento de proteínas. O solo sugere o rescaldo
de um incêndio de proporções apocalípticas.
A secura nos olhos do sertanejo dura, por conseguinte, muito mais do
que o pranto. Mas, de vez em quando, as lágrimas são tantas, que
transformam em mar aquela planície ressequida. Quando isto sucede, o
sofrimento daquela gente não escasseia nem um pouco: apenas muda de
perfil. A diferença é que na primeira circunstância trata-se de uma
dor cansada, seca, ardorosa, prolongada. Quando a inundação das
lágrimas prepondera, a dor se torna aguda, lancinante, urgente.
Semelhante àquelas crises que requerem ajuda imediata: uma questão
de vida ou morte.
Foi numa dessas enchentes que o barraco foi levado de roldão. A
inundação surgiu subitamente. Toda a família sucumbiu. Os corpos
foram carregados pela correnteza. Não houve tempo sequer para se
abraçarem. Só ele logrou sobreviver. A princípio pensou em se deixar
afogar também, porém o instinto de sobrevivência foi mais forte.
Depois de muito lutar contra a força das águas, deixou-se sobrenadar
e se abandonou ao sabor da corrente. Como acabaria aquele caos, não
sabia.
Durante o percurso, deparava com toda sorte de complicações. Ora,
eram as águas que se tornavam mais turbulentas e rodopiavam com o
corpo esquelético sobre alguma depressão no leito do riacho. Ora,
eram escolhos pontiagudos dos quais por pouco conseguia se esquivar.
Ou répteis venenosos que tentavam atacar. Ou o cansaço, a
desesperança, a falta de vontade de lutar. Não via perspectiva de
salvação. Sequer visualizava as margens, um galho de arbusto onde
pudesse se amparar, um caule que servisse de embarcação provisória,
alguém que prestasse socorro. Somente quando já se encontrava
exausto, e depois de dois dias de distância do lugar onde existira a
casa, surgiu um tronco de árvore a flutuar.
Atracou-se, como um náufrago em desespero, que de fato era, e
continuou o percurso. Tinha feito a sua parte. Esgotara as energias.
Ultrapassara limites. O acaso, portanto, que se encarregasse do que
haveria de vir. De repente surgiram relâmpagos e trovoadas. E mais
chuvas continuaram a desabar.
A luta do homem contra a natureza é desigual. É semelhante à do
Diabo contra o Deus. Não obstante a insistência com que os humanos
procuram se opor às suas leis, a natureza leva sempre a melhor. E é
a senhora absoluta do destino. Atracado ao seu tronco de árvore se
sentia cada vez mais ameaçado pela tempestade e pelas águas
revoltas. A certa altura daquela travessia do incerto para o
desconhecido, cochilara um pouco. E sonhou que a água doce do rio
tinha se transformado em salgada. Não era sonho. Já se encontrava em
pleno mar. Então, avistou, ao longe, uma nesga de terra.
Desesperado, nadou para lá e foi ter a uma praia.
Tratava-se de uma ilha deserta. A angústia diante da solidão naquela
terra de nada e de ninguém, não era menor do que a que sentira
quando a casa fora invadida pelas águas do rio da minha aldeia. E
assim permaneceu para sempre.
Quando criança costumava caçar lagartas. Tinha a curiosidade de um
pequeno cientista. Diziam que algum dia teria uma surpresa, pois
delas nasceriam borboletas. Era muito desconfiado: “Só acredito se
eu vir”, costumava dizer. A desconfiança tinha razão de ser. Já
tinham dito que sementes viravam plantas, ovinhos viravam pássaros e
homens viravam lobisomens. Jamais testemunhara algo parecido. Ainda
assim, cultivava lagartas em vidros incolores e transparentes. Punha
folhas para servir de alimento e permitia a entrada de ar através de
pequenos orifícios. Apesar de toda essa dedicação, nunca viu
borboleta alguma sair voando de dentro daqueles vidros. Mais tarde,
quando adolescente, afirmaram que sonhos viravam realidade.
Continuou desconfiando, porém não perdia a esperança. Depois de
homem feito, alguém veio contar que esperança virava felicidade.
Então, resignava-se ao instante. Mas sentia saudades do futuro.
Durante a juventude, escrevera versos. E os temas da poesia eram
sempre associados à natureza e à condição humana. Jamais haveria
como dissociar o homem do substrato. Ora, raciocinava, se os nossos
corpos, tais como a Terra, não passam de fragmentos de corpos
celestes, e se um dia retornaremos para o mesmo lugar de onde
viemos, como ter a pretensão de sermos superiores a alguma coisa? A
vida e a natureza, portanto, se confundem. Num dos seus mais belos
poemas, comparava a primeira com as estações do ano:
“Quatro são as estações do ano!
Do mesmo modo, são quatro as do homem:
Sua Primavera quando, pleno de esperanças,
Tudo concebe eternamente belo e perfeito.
Seu Verão quando, exuberantemente
Afagado pela Primavera e acalentando sonhos, adora
Deixar-se arrebatar por estes altos sonhos juvenis
E se imagina às portas do Paraíso, transpondo nas alturas,
Sua alma através do Outono, enquanto as asas
Ele recolhe, satisfeito apenas em contemplar
Desdenhosamente, o nevoeiro – deixando tudo
Passar despercebido, como a nascente de um regato.
Mas tem também o seu Inverno de doloroso frio,
Que prenuncia, implacável, sua transitória natureza”.
Não abandonou as lagartas. Embora desconfiado, como sempre, esperava
um dia vê-las transformadas em borboletas. Continuou a alimentá-las,
a cuidar para que nada faltasse. Zelava pelo biotério larvar como se
fosse parte de si mesmo. Apesar dos versos que falavam da
transitoriedade da existência, aquele inverno metafórico parecia tão
remoto quanto as estrelas. Por outro lado, o verão era sufocante. A
primavera, pouco florida. Os ferimentos dos cardos superavam o
prazer do colorido, da beleza e do perfume das flores. O outono
nunca se aproximou de algo assemelhado ao Paraíso. Pelo contrário, o
desfolhamento das plantas sonegava, cada vez mais, o verde das
larvas e das esperanças. Umas e outras sequer esboçaram o colorido e
o contorno esvoaçantes que prometeram. Somente o inverno implacável,
enfim chegou. Muito mais depressa do que imaginara. As lagartas não
viraram borboletas, como desconfiava. Numa incerta manhã
particularmente cinzenta, fria e chuvosa, foi ao seu encontro. Mas
todas estavam mortas.
Cálido calabouço. Misteriosa masmorra. Trevas, isolamento, opressão.
O espaço que ocupo é exíguo e limita os movimentos. Tinha tudo para
estar desesperado. Objetivamente, estou preso. Algo fora do alcance
dos sentidos diz que não. Nenhum desconforto. Portanto, não sinto
medo. Não tenho consciência de quase nada. Exceto de me encontrar
entre essas quatro paredes que parecem prestes a me esmagar. No
entanto, são elásticas.
Não sei quem sou, nem como vim parar aqui. E não tenho a menor idéia
de como sairei. Sequer se irei sair, pois não vejo por onde. Outra
sensação muito estranha: não obstante esteja relatando tudo isso,
essa é a primeira vez que experimento algum tipo de percepção.
Sinto-me confortável. Entretanto, uma premonição me diz que, aqui
para sempre, não estarei. Sinto que se aproxima o tempo em que
serei. Se dependesse de mim, ficaria. Meu futuro é o agora.
Curiosamente, apesar de não enxergar, escuto. Durmo bem e até sonho.
Sou capaz de deglutir alimentos, embora não sinta fome. Também posso
respirar, conquanto a atmosfera seja praticamente nula. Mesmo assim
não sinto falta de ar. Não me preocupa nem um pouco estar sozinho.
Outra pessoa aqui traria desconforto. E perigo. A solidão não me
entristece. Pelo contrário: é minha companheira e aliada.
Meu dia se aproxima. O que é o meu dia? Aquele em que tudo mudará.
Quando perderei essa identidade e ganharei outra: estranha, confusa,
imprevisível. Enfim, o dia em que serei em vez de estar. Amo este
lugar, onde nada me perturba. Como não conheço outro, me apego,
sofregamente, a ele. Em vão.
Estou sentindo as paredes me imprensando cada vez mais. É com
surpresa que constato que elas são ainda mais elásticas do que
supunha. Apesar da pressão, sinto que não vou ser esmagado. E ainda
que sentisse, nada poderia fazer. Não posso pedir socorro. Não
conseguiria emitir qualquer ruído. Estou preocupado. Não apavorado.
Acabo de perceber que debaixo de onde estou, existe uma passagem. E
que o chão da cela começa a se fender, formando uma espécie de
funil. A pressão das paredes contra o meu corpo é cada vez maior.
Estou com mais medo do que antes. Não porque esteja sofrendo: tenho
medo de vir a sofrer. Os batimentos do coração começam a acelerar e
a desacelerar, conforme a intensidade das compressões.
Começo a entrar no funil. É, exatamente, isso mesmo. A boca é larga,
mas a passagem é muito estreita. Além disso, as paredes da cela não
são mais maleáveis como eram antes. E sinto que vou atravessar esse
túnel que parece não comportar o meu corpo. Sinto-me apavorado. O
funil vai se estreitando cada vez mais. E estou mergulhando nele.
Experimento angústia nas duas acepções da palavra: pela redução do
espaço físico e pelo tormento emocional. Vou descendo lentamente
empurrado pelas forças das partes moles, contra a resistência das
duras. O túnel mal me comporta. Entre o meu corpo e as paredes não
há espaço livre. É como se um trem, em baixíssima velocidade,
estivesse atravessando uma via subterrânea que mal o comportasse.
Como se a locomotiva e os vagões deslizassem pelas paredes. Sinto o
gotejar da passagem do tempo. E as gotas são espessas, pegajosas e
lentas como as do sangue.
Ainda assim, estou conseguindo passar. Se parasse no meio do
trajeto, e ninguém me socorresse, seria o fim. Essa viagem jamais
teria retorno. Enfim, uma luz no final do túnel. Mas a saída ainda
não está tão próxima quanto parece. Desço cada vez mais. Sempre
impulsionado pelas paredes do antigo albergue que, agora, funcionam
como um motor. Enfim, a saída. Ponho a cabeça pra fora. Que ambiente
estranho! Quanta luminosidade! Que frio! Não estou gostando nada
disso e choro copiosamente. Agora é tarde: nasci.
06/05/2005
Narciso nato, sempre fui cuidadoso quanto à aparência. A cabeleira,
especialmente, era o centro das atenções. Aparava a cada dez dias,
ainda que o cabeleireiro não achasse necessário. Sou assim desde
criança. Sofria de insônia, falta de apetite e sentia dores
fortíssimas se passasse desse prazo.
Estive num analista. Jamais porei os pés ali outra vez. O médico
mandava deitar num sofá e pedia para falar qualquer coisa a cada
palavra que pronunciasse. Imediatamente. Sem pensar em nada. Tudo ia
muito bem. Estava me sentindo melhor. Cogitava mesmo a idéia de ir
ao cabeleireiro apenas de quinze em quinze dias... Quem sabe,
mensalmente.
Até que o dia terrível aconteceu. Estávamos praticando livres
associações, quando, de repente, pronunciou a palavra “cabelo”.
Respondi: “Mamãe”. Ficou calado. Subitamente uma ansiedade
intolerável. Poucos minutos depois, insistiu para dizer por que
associei “mamãe” à palavra “cabelo”. Foi uma das coisas mais
dolorosas que aconteceram até hoje. Não queria falar naquilo. Não
podia. O analista declarou que a cura dependia disso. Saí quase
correndo.
Há alguns meses venho percebendo que o cabelo não cresce como antes.
Não é mais possível cortá-lo sequer a cada quinze dias sob pena de
ficar sem nenhum fio. Já sei o que está acontecendo. Tenho certeza
de que cresce. Só que cresce pra dentro. Sinto uma coceira estranha
no interior da cabeça. Na verdade, é mais do que uma coceira: é uma
irritação insuportável. São os fios de cabelo, com as pontas
crescendo invertidas, a arranhar. Aranhas tétricas a tecer teias no
tecido cerebral. Ninguém me convence do contrário.
Sinto que isso vai me matar. Os cabelos não cabem na cabeça. O
crânio não comportará, por muito tempo, o volume, nem suportará o
traumatismo dos pêlos que se acumularão continuamente entre os
miolos. Por esse motivo, resolvi contar tudo neste escrito. Jamais
falaria dessa coisa para quem quer que fosse. Devia ter entre quatro
e cinco anos, mas me lembro de tudo. Numa incerta noite, empurrei,
sem querer, a porta do quarto dos meus pais. Eles estavam fazendo
uma coisa que nunca tinha visto. Pensei que estivessem brigando.
Claro que hoje sei que estavam copulando.
Mas isso não aterrorizou tanto quanto o que vi pouco depois. Meu pai
saiu de cima da minha mãe. Então, ela se levantou e se acocorou numa
bacia. E lavava aquela pentelheira preta e nojenta. Era como se
estivesse tentando extrair uma imundície que tivesse acabado de
introduzir. Senti náuseas e corri, em pânico, para o quintal. E
vomitei. Desde aquele instante senti pavor de que meus cabelos
crescessem demais e ficassem iguais àquela coisa escabrosa. Dias
depois, fui ao cinema. Tratava-se de um filme sobre a Revolução
Francesa. Cada cabeça que rolava da guilhotina, o carrasco suspendia
pelos cabelos. Não pude deixar de associar aquelas cenas hediondas à
minha própria cabeça degolada e recoberta com os pêlos pubianos de
minha mãe.
Daí a razão de mandar cortar o cabelo de dez em dez dias. Estava
certo de que se deixasse crescer espontaneamente, além desse tempo,
ia ficar igual àquilo. Essa idéia nunca me abandonou. Mesmo quando
já era adolescente e, portanto, tinha conhecimento dessas coisas, o
medo permaneceu. Acontecia outro fenômeno muito estranho. Enquanto,
sentia esse terror, uma força estranha me impelia a imaginar o meu
couro cabeludo igual àquilo que vi entre as pernas de minha mãe.
Cheguei a ponto de simular, no computador, a minha imagem assim
configurada. Quase enlouqueci ao me ver recoberto por aquela peruca
asquerosa. Foi isso que não tive coragem de contar para o analista.
03/05/2005
Soberba
"You must bear with me.
Pray you now, forget and forgive.
I am old and foolish."
(W. Shakespeare, King Lear)
Chamava-se Amadeus. Professor / Doutor. Membro da Academia Nacional.
Sócio das mais prestigiosas entidades internacionais. Meia dúzia de
idiomas. Conferências Magistrais nas Universidades de Heidelberg,
Uppsala, Berkeley, Princeton, Harvard, Sorbonne, Oxford e Cambridge.
Prêmios sem conta. Ainda assim, se sentia frustrado: faltava o
Nobel. O céu era o limite para as ambições. Não falava com alunos.
Nem mesmo com colegas de pouco destaque. Certa feita – no centro
cirúrgico –, um assistente o interpelou entre uma operação e outra:
"Professor, encontra-se na recepção um sheik árabe insistindo em
conhecê-lo. O que devo dizer?" "Que existem fotografias minhas na
butique do Hospital para serem vendidas.”
Vangloriava-se dos títulos que já tinha e ansiava pelos que ainda
faltavam. Discursava solenemente, sem o menor constrangimento ou
pudor: "Sou Professor / Doutor; Fellow pela Universidade de Harvard
e Master pela de Londres. Mas ainda chegarei a 'Sir' do Império
Britânico”. Os médicos mais mordazes ousavam pilheriar às
escondidas: "Não! Falta, também, ser membro da Câmara dos Lordes,
Primeiro Ministro, Rei e suprimir as duas primeiras sílabas do
nome!”
Quando tratava pacientes famosos e era convocado para dar entrevistas, fazia questão de se apresentar impecavelmente vestido,
era o único a falar e respondia às perguntas dos repórteres com
arrogância, prepotência e onipotência. Insistia em ser chamado pelo
título predileto: Professor / Doutor. Nos bastidores, antes que as
luzes dos refletores se acendessem, reivindicava a presença de um
assistente e, sob as vistas dos profissionais da imprensa,
interpelava-o: "Sou Doutor ou Professor / Doutor?" O outro já sabia
o que dizer: "Doutor, senhores, é um médico qualquer. Não é, em
hipótese alguma, o caso do entrevistado de vocês. Ele é sim,
Professor / Doutor. Está anos-luz acima de meros ‘doutores’.
Portanto, todo cuidado é pouco quando o estiverem inquirindo diante
das câmeras de televisão!"
Os clientes menos ilustres eram os parlamentares do chamado "baixo
clero". Mas só eram atendidos cerca de noventa a cento e vinte dias
depois de marcar consultas. Comentava-se, à boca miúda, que cantava
as clientes. Proclamava aos quatro ventos que comia quase todas.
Como se fizesse um favor... Contudo, suas pretensões não se
limitavam à estadia neste planeta. Prestígio póstumo não estava
descartado. Mandara erigir, no "cemitério dos ricos", imponente
mausoléu, que era uma réplica mirim do Partenon. Construído em
mármore de Carrara. Cariátides esculpidas pelos artistas mais caros
do mundo. Supunha que tal “viagem” só aconteceria depois dos
oitenta. Levava vida saudável. Não admitia que acidentes
acontecessem... consigo. Mas esqueceu de comercializar tal produto
com o destino. Uma noite mal-humorada decidiu cobrar a sua parte...
Pilotava a Mercedes a mais de cento e vinte por hora. Tráfego
traidor... Traseira de trator...
Dez dias inconsciente, mas se recuperou. Contudo, os membros
superiores e inferiores tiveram de ser amputados. Hoje, se resume a
um tronco e a uma cabeça. Vive completamente isolado. Salvo pela
companhia fortuita de serviçais indiferentes. Depende de empregados
pra tudo: locomover-se, alimentar-se, vestir-se, cuidar da higiene e
cumprir necessidades fisiológicas. Eventualmente, prostitutas são
convocadas para satisfazer o que resta da libido. Algumas o
masturbam até a iminência do orgasmo. Então, param de repente. Como
já foram pagas com antecedência, retiram-se do quarto bruscamente.
Às gargalhadas...
Avareza & cobiça
Foi,
ao mesmo tempo, o homem mais rico e mais pobre de sua terra. Mais
rico, porque tinha mais dinheiro; mais pobre, porque era o que menos
gastava. Ao sentir dor de cabeça, atava um comprimido de aspirina à
ponta de um barbante e deglutia. Quando a dor passava, retirava e
guardava o resto do remédio. À noite, ao papear com amigos, fazia
dupla economia: apagava as luzes e descia as calças. Chegou a
comprar um automóvel... E o emparedou. Preferia saltar a grade de
ferro do jardim, a ter de abri-la. Para não corroer a dobradiça.
Certamente, há algum exagero nessas histórias. Mas são caricaturas
aproximadas do seu perfil de consumo. Não há dúvida de que privava a
si e a família do mínimo necessário para sobreviver com certa
dignidade. Morava com a mulher e um casal de filhos num pardieiro
situado no subúrbio duma cidade litorânea. A alimentação consistia
de um cardápio tão invariável quanto escasso e intragável.
Entretanto, o patrimônio era avultado. Avaliava-se em cerca de
quatro milhões de dólares americanos. E era a única razão do seu
existir. Jamais o confiou a bancos. Era quase todo constituído de
lingotes de ouro pesando, cada um, mais ou menos, quinhentos gramas.
Conservado num silo sepultado a vários metros de profundidade, ao
qual somente ele tinha acesso. Apesar das doenças e dos sessenta e
seis anos, só temia a morte por um único motivo: ter de se separar
do tesouro. Bastava pensar que herdeiros pudessem um dia vir a
usufruí-lo, para sentir calafrios, insônia, falta de ar e
palpitações.
A esposa tinha 57 anos. A filha, 19. E o rapaz, 24. Tinham todos os
sentimentos possíveis e imagináveis em relação àquele homem, exceto
afeição. Sequer se comunicavam. Quando conversavam entre si, a
palavra mais utilizada era o advérbio "depois". "Depois, nós vamos
viver melhor. Depois viajaremos pelo mundo inteiro. Depois, vamos
nos mudar para uma mansão. Depois, vestiremos roupas da moda.
Depois, vamos jantar fora todos os finais de semana. Depois,
compraremos um automóvel. Depois, nossa vida será um mar de rosas."
Por "depois" entenda-se "quando o velho morresse”.
Num incerto dia ele viu o "depois" se aproximar. As palpitações
aumentaram e sentia fortes dores no peito. Os tornozelos começaram a
inchar. E a falta de ar se tornou quase insuportável. Entrou em
pânico ao pressentir, para breve, a cruel separação de sua amada
fortuna. Doía, porém, muito mais, a perspectiva de sua fruição por
parte de terceiros. Mas disfarçou o quanto pôde. Contratou uma
microempresa, especializada em escavações. E mandou cavar um túnel
partindo de cerca de quatrocentos metros do seu "santuário" e
desembocando lá. Eram três as cláusulas mais rigorosas do contrato:
as horas de trabalho só aconteceriam na alta madrugada e com um
mínimo de ruído. A obra teria, também, de ser camuflada. Estaria,
para todos os efeitos, perfurando um poço profundo a serviço da
Prefeitura.
Logicamente, para isso, teve de subornar o funcionário público
responsável. Ao cabo de noventa dias o túnel estava pronto e somente
cinco pessoas sabiam da sua existência: ele próprio, o funcionário
corrupto, o proprietário da escavadeira e os dois operários
responsáveis pela execução dos serviços.
Deste dia em diante, um véu de mistério desceu sobre o velho.
Durante as madrugadas se levantava pé ante pé, descia para o
subterrâneo e envolvia lotes de peças de ouro em lonas de enfardar
algodão. A seguir, com esforço sobre-humano, e utilizando um
carrinho-de-mão, transportava até a entrada do túnel, onde já
estacionara, previamente, uma picape. Punha tudo na carroçaria,
assumia o volante e partia.
Repetiu a operação, em noites alternadas, até esvaziar o depósito.
Contratou novamente os serviços da microempresa para desfazer o
túnel, recheando-o com o material escavado. E deixando o cofre como
se não tivesse sido tocado. Evidentemente, teve de se desfazer de
boa parte dos quatro milhões. Para comprar os serviços, e,
sobretudo, o sigilo dos quatro cúmplices.
Oito meses e nove dias após o término da operação, aconteceu o
"depois". Não agonizou. Pelo menos, assim interpretaram os
familiares. Deitou-se às dez da noite, dormiu, e, ao amanhecer, a
esposa o encontrou morto. Foi o dia mais feliz na vida dela e na dos
rebentos. No dia seguinte às exéquias, mãe e filhos se reuniram e
concordaram em viajar pelo mundo para inaugurar os "depois". Sequer
ocorreu-lhes visitar o cofre, pois davam como favas contadas o
montante do conteúdo. Certa vez, num gesto de raríssima bonomia, o
marido tinha mostrado tudo à companheira. Tal qual um adolescente a
exibir o primeiro automóvel à namorada.
Para os círculos financeiros do lugar, também não era segredo a
fortuna do morto. Embora ignorassem onde ele a depositava. Foi,
portanto, com extrema presteza, que gerentes de bancos e agentes de
turismo acolheram os pedidos de financiamento da trinca. "Como não,
por aqui. Aceitam um cafezinho? Um chá gelado? Um refrigerante? Um
uisquinho?" Um tratamento principesco que jamais ousaram pensar em
receber. Cartões de crédito, das empresas mais famosas do planeta,
foram visados e masterizados, expressamente, para cada um. Diante de
créditos tão fáceis quanto fartos, os três viajaram durante quatro
meses.
Conheceram o extremo e o médio Oriente. A Europa e os Estados
Unidos. No dia seguinte ao da chegada, fizeram as contas e tinham
gastado duzentos mil dólares. Para ter acesso ao silo tiveram de
dinamitá-lo e, evidentemente, encontraram-no vazio. Choro, desmaios,
gritos, imprecações, fúria, ranger de dentes, desespero... Um
detetive particular foi contratado. Ao cabo de duas semanas,
ficou-se sabendo da "operação túnel", graças à língua solta de um
dos operários escavadores, quando este se encontrava sob o efeito da
pinga de cada dia. "Ah velho escroto!" Repetia continuamente o
filho. "Maldita esteja a tua alma no inferno, seu sacana", secundava
a mãe. Só a moça permanecia calada. Olhos fitos no horizonte vazio,
completamente imóvel e indiferente a tudo. Mas permanecia uma
dúvida. E junto com ela, uma esperança: para onde ele teria levado o
tesouro? Mediante acordo prévio – uma divisão meio a meio, caso
fosse encontrado –, o detetive prosseguiu a busca.
Seguindo pistas vagas e dispersas; ouvindo comentários de vizinhos
madrugadores, investigando, interrogando... Conseguiu reunir algumas
peças e montou um quebra-cabeça que o levou a uma praia afastada e
inóspita. Quase desabitada. E encontrou um barqueiro. Ficou tudo
esclarecido. "Sim, conhecera muito bem o homem." "Sim fora ele quem
o contratara durante alguns meses para jogar sacas de entulho em
alto mar." "Não, nunca suspeitou de nada, pois chamava de ladrões os
removedores de escombros, porque teriam lhe cobrado os 'olhos da
cara' para retirá-los de uma construção." "Não! Como poderia
desconfiar, se a sua avareza era conhecida em toda a região?”
Luxúria
Marido
e mulher há mais de cinco anos. Casamento em crise. Encontravam-se
naquela fase de quase desespero, na ânsia de salvar a relação.
Pensaram em tudo... Criatividade sobrando. Ambos escritores de
romances e contos eróticos. A sugestão partiu dela. Quem sabe aquela
seria a solução. Pelo menos a última tentativa. Conhecia casais
amigos que se tinham reconciliado depois de experiências
semelhantes. Às quatro horas de um sábado à tarde saíram sozinhos.
Mas separados. Ela no Honda. Ele no Vectra. A intenção era se
reencontrarem depois de dez da noite. E experimentarem algo nunca
imaginado. Cada um criaria a sua própria fantasia. Mas só depois que
se afastassem. Apenas dois detalhes estavam previamente combinados:
horário e local exato do encontro. Ele chegaria primeiro. Daí por
diante tudo ficava por conta das fantasias.
Ele deu partida no automóvel sem mesmo saber que destino tomar.
Depois de rodar alguns quilômetros decidiu visitar um casal amigo.
Conversaram o que conversam dois homens e uma mulher jovens numa
tarde de sábado: banalidades. Sequer os temas prediletos podiam ser
abordados. Os deles futebol e política. Os dela, novela e casa
bonita.
A outra saiu já sabendo exatamente para onde ir. Seguiu também para
a residência de uma amiga. Era divorciada. O marido não a conhecia.
Saíram juntas poucos minutos depois. E foram fazer o que fazem duas
mulheres jovens, com bastante dinheiro, num sábado à tarde. Não
precisava dizer que foram compras. Como já foi dito, fica assim
mesmo. Antes de irem para o Center, passaram num sex shop. A
companheira sabia da intenção da outra e ajudou a escolher. Era mais
experiente.
O marido e o casal amigo ficaram a bebericar. Dentro de algum tempo,
a conversa mudou de rumo. Em vez de banalidades, literatura. Em vez
de brasileira, americana. Em vez de Poe, Henry Miller. Em vez de
Trópico de Câncer, Nexus, Plexus e Sexus. Todos concordaram que,
depois de Miller, o mundo não seria mais o mesmo. E as cremalheiras
do tema se encaixaram como o côncavo no convexo. Durante todo o
restante do tempo. Lubrificadas por pequenos goles de Logan.
O álcool é uma espécie de soro espontâneo da verdade. Depois da
terceira dose confessou, primeiro ao amigo e depois à esposa deste,
o que planejava para aquela noite. Melhor dizendo, o que não
planejava. Pois, simplesmente, nada lhe ocorrera ainda. Os dois, a
princípio, riram muito. Logo depois marido e mulher se tornaram
pensativos, enquanto se entreolhavam de esguelha. “Se nos deres dez
ou quinze minutos a sós, talvez tenhamos uma solução para o teu
impasse.”
As duas amigas voltaram exaustas. Mergulharam na piscina enquanto
conversavam. O tema não diferia muito da outra conversa que se
passava a quilômetros dali. Amadeus, o mordomo, se empenhava em
servir bebidas e canapés. Comentava-se, à boca pequena, que havia um
caso entre ele e a patroa.
Às dez em ponto o esposo chegou ao motel escolhido para o encontro e
informou ao porteiro que esperava a esposa. Deixou um envelope
lacrado contendo as seguintes instruções: "Não nos veremos. Tudo se
passará às escuras. Nada de perguntas. Nada de palavras. Seremos
como dois estranhos. Só que estaremos cegos e surdo-mudos. O gerente
indicará o quarto em que me encontro. Entre sem bater".
A esposa entrou meia hora depois e chaveou a porta. O quarto imerso
em trevas. Demorou um pouco a adaptar a visão ao escuro. Do marido,
só o vulto. Mal ela entrou, ele foi lhe tirando a roupa com uma
violência que ela desconhecia. Fez o mesmo com ele e se pôs de
costas, como costumava fazer. Algo morno e roliço se insinuou entre
as nádegas e parou. Duas surpresas a aguardavam. Ele não costumava
fazer assim. Ia logo às vias de fato. “Está tentando ser paciente e
criativo”, pensou. “Melhor assim. Talvez me excite mais e melhor.”
Havia outra estranheza. O volume era absurdamente grande. “Deve
estar usando um pênis artificial. Nem precisava... Trago na minha
bolsa.”
Como parecia não haver espaço para uma boa acomodação, ela tomou as
duas nádegas com as mãos e as afastou. O pênis penetrou um pouco A
impressão era a de que o tamanho da glande fosse o mesmo do de uma
bola de tênis. Aquele volume descomunal, jamais experimentado antes,
acariciava os bordos do ânus. Do meato brotavam longos filamentos de
muco que tornavam aquelas carícias mais macias, deslizantes,
deliciosas. Parecia um lubrificante natural. Ambos se tremiam de
tesão.
Ele forcejou um pouco. Não progrediu um centímetro. Relaxou o mais
que pôde e empinou um pouco o bumbum. Agora sentia que a extremidade
afastava as margens do esfíncter e sentiu dores. Tentou recuar. Ele
não permitiu. Permaneceram nessa posição durante cinco minutos.
Somente então a glande ficou rente ao orifício. Não penetrou ainda.
Ela pôs as mãos pra trás e apalpou os testículos. E então teve
certeza: não era o marido. Tentou escapar. Ele a segurou firmemente
pelas ancas, imobilizando-a. Tracionou-as. E com um só impulso, fez
a cabeça atravessar o esfíncter. Um grito de dor. Já era tarde para
recuar.
Debruçou-se aos pés da cama como se fosse apanhar um objeto caído ao
chão. Esse movimento sugou todo o pênis para dentro. Como se tivesse
se formado um vigoroso vácuo. Então se entregou completamente. As
estocadas tiveram início. A princípio lentas e suaves; quase
paradas. Depois com a violência dos desesperados de desejo. Ela não
suportou e pediu mais... Rouca, trêmula... Também desesperada. Nesse
instante sentiu um enorme volume de líquido morno e espesso
esguichando no âmago das suas entranhas. O marido acendeu as luzes.
Ele também gozava. Mas se encontrava a cerca de cinco metros de
distância. As luzes voltaram a se apagar. O estranho desapareceu.
Ira
Eu não
nasci. Jamais tive mãe. Muito menos, um pai! Desde que me entendo
por gente ouço dizerem que sou fruto de um ovo podre que estourou
num terreno baldio. Palavras como esperança, fé, carinho,
solidariedade, compaixão, justiça e caridade não fazem, para mim, o
menor sentido. Cresci num orfanato onde a Madre Ritinha me disse que
se eu me comportasse direito seria gente; caso contrário, um bicho.
Como hoje dizem que sou um bicho, devo ter-me comportado esquerdo.
Não me sinto um bicho. Sou muito diferente deles. Embora,
instintivamente, esbocem algum sinal de afetividade. Eu não! Para
mim, a palavra amor tem o mesmo significado de coisa nenhuma.
Vejo o valor que os outros dão à vida humana com absoluta
indiferença. Não. Estou mentindo. Não vejo com indiferença, não. Na
verdade, odeio gente. Comecei a trabalhar aos oito anos porque fugi
do internato e não dispunha da menor chance de subsistência. Era
moleque de recados de um bordel. Um cliente me disse certa vez: “Meu
filho, seja tudo na vida, menos pobre. Neste país o homem pobre é
burro, preguiçoso ou azarado”. Jamais esqueci a lição. Prometi a mim
mesmo ficar rico ou então me tornar uma pessoa muito importante.
Pouco me interessam os meios.
Nunca freqüentei uma escola, mas aprendi a ler. Sozinho. Pois ouvia
a Madre Ritinha falar que sem saber ler a gente não pode ser nem
ladrão. E eu queria ser ladrão! Hoje vivo de pequenos furtos, mas
pretendo me tornar um profissional. Para isso tenho de planejar um
grande golpe. Do contrário, nunca vou dispor de recursos para
investir em bens de capital. Então, até pra se começar a roubar é
preciso ter dinheiro. Desde que aprendi a ler nunca mais parei. A
leitura é a única coisa que me faz tolerar a ira que sinto da
humanidade.
Não leio qualquer coisa, não. Sou bastante seletivo quanto a
leituras. O melhor livro que li até hoje foi Crime e castigo, de Dostoiévski. Não entendo por quê, mas me identifico demais com o
personagem principal, Raskolnikoff. Esta identificação costuma
suceder mais freqüentemente quando estou sozinho e, paradoxalmente,
me assusta. Porque junto com ela acontece uma coisa muito estranha.
A primeira vez aconteceu quando eu tinha de sete para oito anos. Daí
em diante foi-se tornando cada vez mais freqüente. O inusitado do
fenômeno me apavorava tanto a ponto de evitar comentá-lo.
Tenho muita dificuldade de explicar através de palavras. É uma
espécie de cisão virtual da personalidade. Não, não é bem isso. É
uma divisão real. Sinto-me duas pessoas. E a alucinação parece tão
verdadeira que chego a me enxergar e, inclusive, me comunicar comigo
próprio. Como se fosse dois diferentes indivíduos. Quando acontece
num ambiente solitário, no banheiro, por exemplo, a angústia é tão
intolerável que tenho de sair dali imediatamente. Pois tenho medo de
perder a razão para sempre. Evito ficar sozinho por esse motivo. A
simples idéia de ter de me isolar já provoca ansiedade.
Não se trata, entretanto, de nenhuma claustrofobia, senão de um
terror insuportável de mim. Outro autor que leio muito é o Rubem
Fonseca. Na minha opinião, seu melhor conto é “O cobrador”. Já li e
reli mais de dez vezes. Chego a me excitar sexualmente durante os
trechos onde o personagem principal mata gente sem qualquer motivo.
Não gosto de ler poesias. O único poeta que me atrai um pouco é
Augusto dos Anjos. Ainda assim detesto a musicalidade e a rima dos
seus sonetos. Certa vez me deram para ler uma tradução de um poeta
idiota dizendo que “nenhum homem é uma ilha”. Ele até pode ter razão
quanto ao fato em si, porém fala uma aberração quanto à idéia. Para
mim, vale exatamente o oposto: cada ser humano deveria ser uma ilha.
Tenho lido um filósofo alemão que pensa quase assim também. Seu nome
é Arthur Schopenhauer. Sinto um certo orgulho por pensar igual a ele
muito antes de o conhecer. Há outro de que também gosto. Chama-se
Nietzsche. Seu único defeito foi querer substituir a ridícula
filosofia cristã pela arte. Gosto da arte, mas acho que ela só tem
valor para quem a produz, ou seja, para o artista.
O que é a arte? Para mim, é toda realização humana que emociona.
Assim, um assassinato bem perpetrado pode vir a ser uma obra
artística. Acordei hoje de manhã com uma vontade incontrolável de
produzir tal obra. Venho acalentando há muito tempo essa idéia. Será
uma ação digna de um super-homem se eu conseguir aniquilar, sozinho,
uma quantidade de pessoas como ninguém ainda foi capaz de fazer até
agora. Experimento uma espécie de frenesi só em pensar como meu nome
será, primeiro, divulgado nos jornais. Depois, lembrado para sempre.
Tenho assistido, nos noticiários da televisão, a vários episódios
onde um único indivíduo consegue matar muita gente reunida. Andei
fazendo umas pesquisas para saber qual foi o recorde. Só encontrei
números inexpressivos. Para mim só seria uma obra de arte se eu
conseguisse matar, no mínimo, uma centena. Detive-me vários dias a
planejar. Primeiro teria de descobrir onde encontrar essas pessoas
agrupadas na maior densidade possível. Cheguei à conclusão de que só
é possível numa grande escola infantil. Já escolhi qual será. E
estou preparado.
Gula
Todas
as manhãs enfileirava, na vitrine, infindáveis tortas, bolos,
cremes, doces, tentações aos passantes. Era uma loja aconchegante,
aromatizada de gula. Oferecia prazer ao paladar. Sua rotina vinha de
muitos anos. Abria a porta, num ritual organizado, como organizada
era toda a sua vida, e repetia, gesto por gesto, as primeiras
tarefas do dia: varria a sala, tirava o pó das prateleiras, repunha
alguma peça no lugar... Depois era a vez do cão. Não resistira em
acostumar o animal ao mimo. Achava graça em seu olhar pedinte e
escolhia um biscoito, que só entregava se ele estendesse a pata.
Dava a guloseima e afagos. Depois, entrava no banheiro, desembaçava
os óculos e retocava o discreto coque para que não sobrasse nenhum
fio rebelde, asseada que era. Maquilagem, nem pensava em usar. Sua
pele de ratazana esbranquiçada era alérgica. Às nove, pontual como
um relógio, entrava na vitrine.
Assim, sua historia simples de moça feiosa e sem sonhos se
desenrolava. A doçura de sua vida tinha sabores diferentes. Na
escola, nunca teve namorado. Fugia de bailes, piqueniques,
aniversários. Não ficava à vontade. Sempre deslocada, triste,
sozinha. Os rapazes não a tiravam pra dançar. Sequer percebiam sua
presença. Tinha se acostumado assim. A ser um elemento a compor o
fundo das imagens mais importantes. Suas noites eram sem suspiros,
sem devaneios inúteis. Nem ler, lia, ou meditava, pois inteligência
não era seu forte. Apenas a espera do dia de trabalho. As novidades
eram comentadas com os fregueses de sempre, pois quem de seus doces
provava, voltava.
Então, sentiu aquele olhar vesgo, através da vidraça. Sorriso,
gestos estranhos: mordia os lábios, dilatava as narinas e ofegava.
Fingiu que não tinha visto. Não é comigo! Não pode ser. Corava,
perdia o rumo, derrubava as coisas, morta de medo de que ele
percebesse.
Até então, homem nenhum demonstrara interesse...
Um conflito de emoções se instalou. Não sabia o que, de fato, estava
acontecendo. Sentia-se vaidosa. Sentia-se ridícula. Achar que
pudesse estar sendo alvo da atenção de um homem. Passado um tempo,
agora também atraída pelo estranho, mais do que isso: quase
apaixonada. Dedicava a maior parte do trabalho à vitrine. Já não
disfarçava pequenas delicadezas. Correspondia um pouco aos seus
sorrisos.
Por sua vez, o homem insistia. Passava horas... Manhãs inteiras,
diante da loja. Sondava, através da transparência dos vidros. Cada
vez mais ansioso. Como se implorasse. Como se dissesse: vem, estou
aqui para te abraçar. Para te beijar. Para te pedir em casamento. O
semblante inspirava ternura. Parecia um menino abandonado a implorar
carinho. Cada vez mais simpático e insinuante. A comportada donzela
caiu. Foi vencida.
Num incerto dia, estava sozinha. Talvez por sentir que o rapaz era
muito acanhado, uma ousadia inédita a invadiu. Resolveu dar um
empurrão na sorte. Sorriu um pouco mais e se espelhou nas vidraças,
enquanto fingia cuidar do penteado, como um convite.
O convidado foi entrando. Pela primeira vez o veria de perto... Seu
coração estava aos pinotes. Sentia as pernas moles e uma sensação de
ser mulher, de estar pronta para o amor, que explodia dentro e
iluminava seu olhar. E se ele a atacasse sem ao menos saber seu
nome? E se fosse tímido demais? Ela teria que tomar a iniciativa. E
se fosse casado? Pouco importava. Sua cabeça fervilhava. Nem
percebeu que o pretendente tinha se enfiado na vitrine,
sofregamente, e caído de boca nas tortas de morango. Mordia com
volúpia, resultado do desejo alimentado por tantos dias. Devorava
sem pudores, num selvagem banquete, onde o vermelho escorria
sensualmente pelos cantos da boca. E queria mais, mais ainda. Se
empanturrava com a terceira e já cobiçava a próxima. Insaciável.
Mergulhado, rodeado, inebriado, mastigando o prazer açucarado...
Inveja
Sem
mais nem menos o tamanho do clitóris se desenvolvia. Crescia,
proporcionalmente, com as unhas. Antes não era assim. Quem primeiro
percebeu foi o parceiro. “Teu grelo tá muito grande. Já
percebeste?”. “Não. Não percebi nada. Deves estar exagerando.” “Toma
um espelho: vê.” “Meu Deus! Não tinha percebido ainda...” “Vamos ao
médico.” “Não! Não precisa... Vou sozinha.” “Precisa, sim. Quero
estar a par dessa história. Nunca vi isso antes. Afinal, sou teu
marido.”
“A senhora não tem percebido outras alterações? Voz grossa, pêlos em
excesso, sobretudo na face...?”. “Não, senhor.” “Menstrua todos os
meses?” “Mais certo do que a chegada da conta da luz.” “Bem,
obviamente é uma anormalidade. Falta descobrir a causa. Há várias
hipóteses. A mais comum é de natureza indeterminada e a medicina
ainda não chegou a uma conclusão... Mas outras doenças não podem ser
descartadas. Variam desde um desequilíbrio de hormônios até... Tenho
de ser honesto... Até um tumor. Somente depois de uma série de
exames teremos o diagnóstico.”
Negligenciaram a orientação profissional. Não voltaram. Iludiam-se:
“com o tempo, cura”. Cerca de um trimestre depois, a anomalia era
aberrante. E dificultava o coito. O clitóris era uma imensa
“verruga”. Mais se assemelhava a um pênis vestigial.
“Todos os exames estão normais. A conduta, em casos como este, é
expectante. Temos de ter paciência e vigiar cuidadosamente. Volte de
hoje a dois meses.” Não voltou. O órgão continuou a crescer, embora
mais discretamente. Ainda assim, as relações sexuais se tornaram
impraticáveis. Por motivos mecânicos e psicológicos. O esposo deixou
de sentir desejo. Aquela enormidade lhe causava repulsa. Por sua
vez, a esposa estava cada vez mais ansiosa. Parecia observar o pênis
flácido do marido como um jardineiro que vê murchar a mais bela
flor. Sentindo-se impotente para impedir.
“Amanhã voltaremos ao médico.” “Não! Não quero. Não vamos pagar mais
nada só para ouvir conversa fiada.” E um conflito se instalou entre
o casal. Depois de três meses, desde a última consulta, o órgão
parou de crescer. Apesar disso, o tamanho podia ser comparado ao de
um quiabo médio. Mesmo assim, o homem parecia mais tranqüilo. Só a
esposa continuava cada vez mais aflita.
Era dona do seu segredo. Até a última fase de crescimento estava
muito feliz, mas dissimulava. A angústia era mera encenação. Agora,
ao contrário, era pra valer. Estava desesperada. Tudo o que tinha
acontecido fora promovido artificial e deliberadamente. Usava
trações: atava pesos ao órgão e deixava durante horas. Suportando
toda dor, em troca de algum alongamento. Comprava e lia aqueles
folhetos, tão divulgados na Internet, destinados a homens, para
incrementar a envergadura do pênis. E punha em prática.
Obsessivamente. Quando o órgão parou de crescer, da aflição passou
ao desespero. Começou a tomar hormônios masculinos. Parece que o
tamanho do clitóris havia atingido o limite. Os hormônios tinham
efeitos colaterais: engrossavam a voz. Faziam aparecer pêlos,
escuros e grossos, na face. A droga aumentava, não o tamanho do
órgão pretendido, mas o do pomo de Adão.
Foi, literalmente, arrastada ao médico. Repetidos os exames, estavam
lá, no sangue. Doses cavalares de testosterona. Mais testes. Não
dormia. Na véspera das tomografias e de outros exames por imagem,
perdeu a razão. O esposo dormia. Levantou-se pé ante pé e se dirigiu
ao banheiro. Apanhou o estojo de barbear e retirou de dentro uma
navalha afiada. Amolou ainda mais. Dirigiu-se para a cama. O marido
fingia dormir. Ainda assim, suportou que descesse o pijama e
apanhasse o pênis pela raiz. Quando já partia para o ataque foi
contida. Hoje reside num hospício. Mesmo sob vigilância quase
contínua ainda apresenta inchações imensas no clitóris. Resultado
dos pesos que usa para repuxar. E repete como um disco aranhado:
“Terei meu pênis. Juro que terei. Do contrário, amputarei o de todos
os homens... Ou tudo, ou nada”.
Preguiça
Era
uma manhã de domingo como poucas. Um sol de almirante brilhava num
céu de brigadeiro. A cor da água do mar, ao longe, era de um azul-
marinho tão marinho que só em se fitar a paisagem sentia-se como se
a Terra inteira fora um só oceano. Isso originava, em quem a
contemplasse, uma aura sensual a se disseminar através de todos os
sentidos e produzia um bem-estar incomum. Uma espontânea alegria de
viver como raramente costuma suceder aos habitantes das grandes
metrópoles.
Enrodilhado em seu leito de cetim, ignorava por completo aquele
cenário paradisíaco acessível apenas a pouquíssimos privilegiados.
Morava numa cobertura duplex e se vangloriava de que o vizinho
dianteiro habitava o litoral africano. Apesar disso, raramente
assomava à panorâmica janela. Nunca descia para a praia, pois dizia
detestar areia, sol e água salgada. Ignorava, portanto, aquela tal
sensualidade a que as outras pessoas se referiam ao fitarem aquele
deslumbrante panorama tão ao alcance do desdenhoso interesse. Aliás,
o único interesse era quase uma monomania. Apesar dos quarenta e
sete carnavais, de uma vida faustosa onde nunca conhecera a escassez
material, uma saúde férrea e o exemplo e incentivo duma família
ilustrada, só se interessava praticamente por sexo.
A
estréia nas lides deste mister se dera bem precocemente e tivera
como “preceptora” uma prima mais velha. Também devotada cultora de
Vênus desde a mais tenra idade. Era uma morena linda de olhos
verdes, cujo perfil lembrava o da estátua famosa representativa da
divindade por ela cultuada e oriunda da ilha grega de Milo. Tais
dotes eram assessorados por um caráter lúbrico tão exuberante a
ponto de rivalizar com outra divindade: Ninfa, deusa dos rios, dos
bosques e das montanhas. Seduziu o primo quando este mal ensaiava os
primeiros passos no terreno minado da puberdade. Aos catorze anos
incompletos. Mal havia colhido a décima quinta flor de primavera no
jardim da existência, já tivera um número equivalente de amantes.
Tratava-se, portanto, de uma especialista. E, como todo
especialista, fazia questão de gerir, unilateralmente, o ofício.
Quando
iniciou o primo nas delícias da fornicação, o rapaz estava quase a
dormir, mas exibia uma ereção de Príapo. Ao perceber aquela
monstruosa protuberância, ficou extremamente excitada. Uma onda de
desejo perpassou-lhe o corpo, pondo em êxtase todos os sentidos. Não
se conteve. “Sou eu. Não se mexa. Finja estar dormindo e deixe tudo
por minha conta.” Jogou fora a calcinha e cavalgou o rapaz durante
deliciosos quinze minutos. Como, para ele, estava sendo a primeira
vez, não pôde reprimir um grunhido rouco e prolongado.
A
partir daquela noite transaram quase todos os dias e, em alguns
dias, mais de uma vez. Sempre sob o domínio, a iniciativa, a técnica
e o controle absoluto da moça. Aos dezesseis anos, já conhecia o
prazer físico com mais freqüência e intensidade do que qualquer
homem comum na casa dos trinta. Com uma única diferença: jamais
participara do ato sexual com o mais leve movimento. Portanto,
literalmente, nunca trepara, pois essa tarefa era executada
meticulosa e exclusivamente pela prima. Gostou tanto que cultivou
esse hábito para sempre. Não que fosse a única parceira. Pelo
contrário, o moço era promíscuo até a raiz dos cabelos. Nos finais
de semana dava conta de duas, três ou mais mulheres.
Contudo, a técnica copulativa utilizada era sempre inversa à
modalidade convencional. Isto é, executada exclusivamente pela
fêmea. Todas as amantes eram previamente instruídas a esse respeito.
Algumas protestavam, mas aquelas que ousavam recusar eram
descartadas. Os companheiros sabiam disso e faziam assuadas: “Já
vai, hein, estátua!” “Tu nunca ‘comeste’ ninguém, cara, as mulheres
são que te ‘comem’.” “Olá, espinhaço de hipopótamo!” “Ei ferreiro,
me empresta teu torno pra eu fazer uma torneira.”
Passou-se, passou-se, mas aquele hábito nunca passou. Pelo
contrário, se estendeu a todo tipo de atividade física ou mental.
Possuía empregados e, sobretudo empregadas, para tudo: dirigir,
abrir a porta do automóvel, barbear-se, vestir-se, calçar os
sapatos, pentear os cabelos, pressionar o botão da descarga
sanitária. Diziam que até pra urinar existia uma serviçal
encarregada da execução de parte da tarefa. Não obstante, o moço era
um autêntico Casanova. Traçava tudo! Não precisava conquistar, pois
era sempre conquistado. Muito rico, jovem, bonito como Apolo,
mulheres para ele nunca foram problema. Isto é, problemas foram sim,
mas pelo excesso, nunca pela escassez.
Como
já foi dito, era uma manhã de domingo como poucas. Um sol de
almirante brilhava num céu de brigadeiro. A cor da água do mar, ao
longe, era de um azul-marinho tão marinho que só em se fitar a
paisagem sentia-se como se a Terra inteira fora um só oceano. Pouco
antes desse dia conhecera Camila. Uma linda inglesinha por quem,
afinal, se apaixonara. Além de lindíssima, era inteligente, culta e
alta executiva de famosa empresa multinacional. Em função disso, era
também muito viajada. Conhecia, como a palma da mão, as principais
cidades dos cinco continentes.
Mesmo
habituado às facilidades das conquistas, imaginara o quanto seria
difícil levar aquela moça para a cama. Foi, com efeito, o que
sucedeu e quanto mais ela recusava, mais intenso era o desejo. Pois
na noite anterior àquela manhã de domingo, alcançara, afinal, o tão
ansiado intento. Não! Jamais exigiria dela aquilo que fora a tônica
de toda a vida sexual. Nessa noite pretendera ser o melhor dos
amantes. Não ousaria submeter aquela mulher, a quem tanto amava, ao
indolente capricho. Infelizmente, pela primeira vez broxara.
Raymundo Silveira Nasceu em Massapê, vilarejo cearense
no Nordeste do Brasil. Cursou a primeira fase do segundo grau no
Seminário São José, na cidade de Sobral (CE). A segunda fase (curso
científico) se processou no Colégio João Pontes, em Fortaleza. Foi o
sexto colocado no concurso vestibular de 1965 para a Faculdade de
Medicina da UFC – uma façanha, se forem considerados a feroz
concorrência a uma vaga e o seu trabalho de carteiro: seis horas por
dia, sem descanso aos sábados ou domingos. Colou grau como médico em
de 20 dezembro de 1970.
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www.raymundosilveira.net
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