O dia é quente. Do asfalto sobe um vapor denso que parece sólido.
Parado na esquina ele acompanha o movimento com os olhos. Carros,
pessoas, buzinas, policiais, ônibus, pizzas e auto-falantes...
cotidiano puro e cristalino. Ele se sente entediado... não sabe bem
por que esse vazio o consome... decide então se movimentar...
caminha por alamedas, ruas tortuosas, passeios públicos.... casas
caindo na calçada, uma mansão, uma visão, outra vida, observação...
cachorros, postes, uma aglomeração... semáforo, esquinas, faixa de
pedestres, vento quente e uma divagação... fim da calçada... chega
na beira do rio... senta em uma pedra, a mais alta que ele consegue
encontrar. Olha o horizonte: um pássaro, um lixo que bóia, uma vela,
margem e correnteza, uma fortaleza. Por uns minutos esquece da
confusão se perdendo no emaranhado de sua própria memória. Lembra do
tempo em que as coisas eram feitas para durar... da época em que
tudo parecia ser mais simples, menos tumulto, menos agressão, menos
excesso. Então subitamente acordado da viagem mental, volta a
encarar a realidade suja e abafada da quarta-feira de verão na
cidade. Inicia uma busca, uma caçada pela culpa dentro de si mesmo.
Onde no caminho teria ele perdido a trilha que leva à felicidade?
Por mais longa que fosse a conexão de seus pensamentos não conseguia
encontrar coisa alguma que fizesse sentido. Ele tinha um bom
emprego, dinheiro não faltava, tinha uma família, carinho, atenção,
admiração, sucesso, respeito e acima de tudo vida... sim... por mais
esvaziado que estivesse sabia estar vivo e isso representava toda a
esperança que nutria nesse momento. Quantos não dariam tudo para ser
ele? Quantos não tinham uma inveja visceral de sua condição? Não,
não, não... estaria ficando louco? O que seria então a loucura?
Rejeitava completamente a possibilidade de que naquele dia, naquele
momento, houvesse uma saída para sua agonia... tinha lutado por toda
sua vida para alcançar status... para ascender, subir, atingir o
ápice... e agora o alpinismo social tinha feito dele uma
marionete... sim... sim... sim... alpinismo social que tirou o
oxigênio de sua alma como ocorre com os montanhistas nas grandes
altitudes... todos os seus atos regidos por uma demoníaca ambição
alimentavam seu ceticismo frente à metafísica... sua descrença no
ser humano... sua ausência de valores... então de repente ele
pára... fica imóvel... nem as idéias passam... olha no relógio
cabisbaixo, é hora de ir ao supermercado... hora de voltar a ser um
ser qualquer... mas ele não tem vontade... preferia continuar
indiferente mas dirige seu carro pelas ruas movido pela energia da
inércia... de novo passa por avenidas, esquinas, futebol, telenovela
na vitrine, pessoas apressadas, pessoas exageradas... chegando no
templo do consumo ele pega um carrinho e inicia a jornada pela terra
das marcas... primeiro corredor: queijo, presunto, uma fila, pão,
salsichas e calabresa... segunda corredor: massa, queijo ralado,
molho de tomate, milho, ervilha, uma lata cai no chão, aspargos (ele
adora aspargos)... terceiro corredor: suco, refrigerantes, cervejas
e uma garrafa de vodca... quarto corredor: escova de dente, pasta de
dente, escolhe o desodorante, o shampoo está acabando, fio dental,
rolo de papel higiênico... se sente cansado... chateado...
agoniado... caminha até a fruteira e compra ovos, alface, tomate,
cebola, batata, couve-flor... queria rabanete, mas acaba levando
quiabo... chegando no açougue escolhe o bife, o frango, pede
guisado, espera olhando para a parede descascada... queria tanto
saber voar, saber separar o corpo da alma para levitar por campos de
flores amarelas e vermelhas na infinitude de seu paraíso pessoal...
lentamente se arrasta até o caixa... já não se sente tão mal, agora
está pior... seus olhos piscam freneticamente, sua boca se contrai
espontaneamente... ele pode sentir a pressão da tensão que quase
arrebenta seus músculos rígidos... em sua cabeça uma dor... em sua
testa uma tonelada de preocupações... a última compra... passa pelo
caixa que diz o valor... tira seu cartão de crédito do bolso com as
mãos trêmulas e estende para o atendente... assina o comprovante,
guarda a nota... vai até o carro... abre o porta-malas... joga as
sacolas... um fluxo de energia vindo do umbigo sobe até os
cabelos... ele bate a porta... esmurra o volante... sente sua apatia
se transformar em raiva... liga o carro, sai da garagem e olha o
relógio... é hora de buscar a mulher e os filhos... é hora de ser o
bom marido novamente... de representar o papel mais conhecido de sua
pífia vida... dobra uma esquina... sinal vermelho... ele pára... ele
escuta... ele pensa... longe ouve gritos... ouve uma buzina... o
sinal abriu e ele não viu.... arranca, corre, acelera... quer
atingir a velocidade de escape... sim... velocidade de escape... em
sua mente essa última palavra brilha intensamente... como se
acendesse uma luz na escuridão de uma caverna: ESCAPE! E então ele
vira à direita... e outra direita... está na estrada... se
distanciando... se distanciando... passa uma hora e ele continua
dirigindo... o celular toca... ele olha... é sua esposa... num
movimento arremessa o aparelho pela janela... se sente mais leve...
mais calmo... abre os olhos... levanta a cabeça... estufa o peito...
se sente em controle... expandindo... crescendo... na beira da
estrada um menino sentado... ele pára... quer fazer algo por
alguém... abre o porta-malas... tira as compras e deixa do lado do
garoto... entra no carro correndo e rindo... um riso histérico
lisérgico... uma leveza transcendental... dirige mais um pouco...
encosta o carro na beira da lagoa... coloca o ponto morto ... sai do
carro e empurra, empurra, empurra... assiste o carro afundando
lentamente... lentamente... lentamente... e ri... ri tão alto que
cansa... o sol está se pondo... pela primeira vez nas últimas
décadas está alegre... tranqüilo... quieto... completo... caminha
sem direção... lembra do gato de Alice: tanto faz o caminho para
quem não sabe aonde quer chegar... uma última risada... um último
suspiro... e ele entra noite adentro destemido... indo para algum
lugar onde se possa ser feliz...(o que quer que isso signifique)...
janeiro de 2005
Abriu os olhos ainda deitado na cama e ficou a meditar. De alguma
forma sabia que finalmente havia chegado a hora de seu fim. Por toda
sua vida havia se concentrado em ser alguém íntegro, único, completo
e vacilava nos momentos de decisão. Hoje seria diferente, pensava
ele, só hoje, amanhã não mais existirá. Todos têm em algum momento
de suas existências um encontro inevitável com o desconhecido.
Aquele instante que dissolve todas as diferenças expondo o ser
humano a sua fragilidade carnal, a sua insignificância mundana, a
realidade orgânica por trás dos ornamentos materiais. Todos sem
exceção, independente de classe, cor ou crença, enfrentam a provação
do ritual de passagem que é a única coisa certa em meio a tantas
convicções que se acabam como castelos de areia à beira-mar. Ele
imaginava de que cor seria o final de tudo... Achava que para muitos
a lembrança deveria ser o devastador e onipresente preto, mas não
para ele... Ele via o branco, branco como tudo aquilo que não pode
ser descrito. Preferia assim, a claridade era bem mais confortável,
bem mais cheia de sentido que o peso da escuridão eterna. Uma rajada
de vento interrompeu suas divagações. A natureza avisava que uma
chuva estava próxima. Lentamente levantou e se vestiu, não tinha
pressa, não existe tempo nem caminho certo para quem não sabe aonde
vai. Tanto faz! Essa incerteza soava como uma poesia para seus
ouvidos. A brisa, a dúvida, o momento, o fim: tanto fez, tanto faz!
Fechou as janelas, fechou o roupeiro, fechou a porta da frente,
estava na rua. Olhava incrédulo para as nuvens no céu. Nunca antes
havia percebido tantas cores em um dia cinzento, afinal, pensava
ele, no fim de tudo as cores estão nos olhos de quem vê, assim como
a beleza, assim como a pureza. Caminhou até a beira da praia. Era de
uma vasta imensidão sua alma. Respirava fundo e quando inspirava
tinha a nítida sensação de que o universo inteiro entrava por suas
narinas se espalhando por todos seus poros. Era uma energia forte
que pendia sua cabeça para trás em um gesto de êxtase pleno. Fechava
os olhos para enxergar melhor com a alma. Queria ver mais e mais
longe onde fica algo próximo do que todos insistem tanto em chamar
de verdade. Viu claramente que a única verdade é ser feliz... ah
sim... deveria existir uma única palavra para os dois termos...
verdade = felicidade... uma equação tão próxima e tão distante dos
que ainda têm a vida inteira pela frente para se complicar. Dias
antes, planejando esse momento, lhe ocorrera uma dúvida reticente:
sentia que em seu derradeiro existir deveria buscar seu amor mais
profundo para dizer adeus. Decidiu que seria apenas uma pessoa, pois
não teria tempo para mais do que isso. Ele ia e voltava andando em
círculos tentando responder essa pergunta: quem seria seu verdadeiro
amor? Mulheres inesquecíveis haviam passado por sua vida, lembrava
de sua família e sentia seu coração apertar... Não seria justo fazer
tal escolha, acabou desistindo... ah, mas naquele dia, o dia D,
naquele instante, parado à beira-mar sob a linha cinza do céu, teve
a certeza de estar no lugar certo. Somente ali, diante da vasta
imensidão oceânica poderia abraçar a todos que quisesse ao mesmo
tempo com toda sua força. Suspirava... ergueu as mãos aos céus... um
arrepio em sua pele... o barulho das ondas, o vento em seus cabelos
e a ampla solidão calma da água sem fim... se emocionou... estava
pulsando... podia ouvir em seu peito a batida de mil tambores
ecoando na tarde de outono... caminhou até próximo do mar...
agradecia por tudo que a vida havia lhe proporcionado, amigos,
amores, viagens, conversas, conhecimento, experiência... tantas
coisas... turbilhão... em sua mente um filme acelerado rodava sem
parar... rostos, lugares, sorrisos, alegrias... também lembrava das
mágoas, mas preferia fingir que essas não existiam... chorava uma
cachoeira... entrou na água gelada... suas lágrimas de misturaram
com o mar e as duas se confundiram... ambas salgadas, poderosas e
cheias de significado... mãos ao céu, um grito mudo em sua garganta.
Era um momento único onde sentia-se mais próximo do que nunca do
segredo da criação, do âmago da terra, da essência. Virou de costas,
seguiu de volta para casa e foi logo dormir. Deitado na cama
meditando teve a certeza de que sua passagem seria tranqüila, como
aquele dia havia sido. Tudo tem seu tempo, inclusive as pessoas, e o
seu havia chegado. Fechou os olhos pela última vez na terra para
abri-los tão-somente na leveza da eternidade.
fevereiro de 2005
Paulo Ricardo Zílio Abdala Sou formado em administração de
empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pesquisador
com interesse na área de cibercultura, trabalho com marketing e
acabei de entrar no mestrado de comunicação social da PUC – RS.
Tenho 25 anos e escrevo desde os 14. Minha referência poética é o
onipresente Fernando Pessoa e meu estilo tem muito a ver com os
escritores contemporâneos (textos curtos, densos e cheios de
simbologias, metáforas...) Sou um "viajante" mental e
espiritual....Creio no poder das energias, na dança das almas, na
paisagem que os olhos não vêem. Escrevo compulsivamente dois, três,
quatro textos, como quem cospe, aí fico dias sem escrever nada... aí
faço de sopetão mais cinco... Funciono assim em pulsões criativas...
efervescência pura.