Lá vinha ela, Isa. Uma visão. Morena das ancas largas, bamboleantes, pele acetinada. Os cabelos, em cachos escuros e brilhantes, caíam-lhe pelas espáduas, emoldurando o belo rosto e balançando no ritmo dos quadris. Os olhos, claros, quase amarelados, marcados por cílios longos e escuros. Os lábios, cor de carne, cheios, convidativos, se abriam num leve sorriso, revelando a fileira de dentes alvos e regulares. As pernas longas se moviam graciosamente, balançando a saia provocantemente em torno dos joelhos. Um animal vigoroso. Uma mulher que incomodava. Fazia latejar desejos insidiosos e impronunciáveis. Deixava um rastro eletrificado pelos olhares cobiçosos que a seguiam. Caminhava despreocupada, o vento brincando-lhe com os cabelos e as roupas, causando uma leve expressão de prazer em seu rosto. E Isa, passando como sempre em frente à minha casa, afigurava-se a cada dia mais irreal e desejável. Um espetáculo irresistível a mim, hipnotizado à janela. Meu sangue se revolucionava e mal podia me mover. Ficava ali, rígido e atormentado, sabendo que à noite, suado e insone, ainda a veria. E o dia demoraria eternamente a chegar, mais uma vez.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Ela se esmerou. Cabelos, unhas, pêlos. Perfume e batom. Veludo encarnado.

Rosas e almofadas. Trilha suave, montes de velas, grandes e pequenas. Cor de sangue. Às dez, o quarto ardia como o inferno.

Nua, ela esperava prostrada aos pés da cama. Humilde. A coleira de veludo em contraste com a pele alva, as chamas crepitavam.

Entrando silenciosamente, ele tomou nas mãos uma das velas. Cutucou-a com o pé e ordenou que deitasse no chão, olhos fechados.

O tempo escoava e nenhum dos dois fazia movimento algum.

Por fim, sem conter a agonia, ela suspirou. Imediatamente, ele tingiu-lhe de rubro a pele, derramando a vela sobre os mamilos.

Gemido, lágrimas, alívio. Agora estava quase em paz. A queimadura atenuava o ardor da alma.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

– Não adianta, nunca consegui. – Apagou o cigarro. Encarou-o, debochada. Postou-se em frente a ele, mãos na cintura, desafiante.
Uma bofetada a atirou contra a parede.

Ele se aproximou, sereno.

Ela, olhos enormes e assombrados, respiração irregular, excitação crescente.

– Peça! – açoitou-a esta única palavra.

Abaixou a cabeça. Ele pisou em seus dedos. Era quase insuportável.

– Mais, por favor!

Com o primeiro chute, sentiu-se flutuar. Gozou seguidas vezes, no ritmo do punho dele.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Estavam juntos há muito tempo, desde que eram pouco mais que crianças. Ele, tímido, inseguro, atormentado. Ela, despachada e confiante. Ele era franco e idealista. Ela sempre sorria. Cru, ele levava a vida em teoria. Ela, a despeito de ter a mesma idade, tinha visto coisas demais. Ele se afligia. Ela não parecia se importar. Os olhos dele interrogavam. Os dela, pestanejavam. Eram facetas diferentes do mesmo mundo. Ambos irradiavam a energia imensa e estúpida da adolescência. Ele começaria a viver a partir dali, ela estava cansada. Alguma congruência: eram inteligentes e tristes. E novamente divergiam: ele ostentava, ela dissimulava. A ele tratavam como aberração, a ela como pedaço de carne. Típicos. Conheceram-se dum jeito nada especial, num dia comum. Conversaram, mediram-se, beijaram-se. Ela nada esperava dele. Ele não sabia o que esperar dela. A reputação dela era péssima. Ele procurava desesperadamente algo em que acreditar. Ele quis dar-lhe o mundo. Ela almejou estar à altura dele. Colocou-o no colo. Colocou-a num pedestal. Iria fazê-la feliz. Viveria para ele. Fundiram-se. Não estariam mais solitários e sempre haveria então um motivo. Ela tornou-o vivo, ele fê-la sentir-se limpa. Aprenderam a ver de outros jeitos. Compartilharam lágrimas, risadas e a maioria dos pensamentos. Amaram-se com sofreguidão. Passaram horas e anos entrelaçados. Apoiaram-se e feriram-se. Amigos, eram perfeitos. Amantes, eram medíocres. Houve pequenas traições. Às promessas, às expectativas, à monogamia. Não sabiam viver de outro modo. Quase repulsa e quase adoração. Ele era dependente. Ela ressentia-se desse peso, mas sentia-se responsável por ele – nunca achara que o merecia. Ele parecia tão perdido quanto antes. Sofria, temia perdê-la. Ela faria qualquer coisa para salvá-los. Algo saíra muito errado e cabia a ela consertar. Desprezou o tempo: engoliu em seco as angústias e voltou a adolescer. Riu alto, alegre e leviana, como no começo. Os olhos dele marejaram-se, saudosos. Mas ela não deixaria que ele estragasse tudo de novo. Arrastou-o para a cama e deu-lhe a dose de sujeira que ele sempre precisara, para entender muita coisa.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Há pessoas que parecem fadadas ao sucesso, marcadas na testa pela boa sorte. Tem-se a certeza de que basta que elas ajudem um pouquinho para que tudo aconteça, da melhor forma. A loura era assim. Durante toda a vida, ela se destacou. Criança, assemelhava-se a criatura celeste. Púbere, já inspirava pensamentos bem menos puros. Alta e bem-feita de corpo, tinha o sorriso largo e as maçãs naturalmente rosadas. Dona de ar infantil e zombeteiro, ostentava sedutora vivacidade. Combinação adorável de charme e presença de espírito. Ao observador desatento parecia desprotegida e, portanto, presa fácil. Ledo engano. A expansividade encobria a natureza reservada. Colecionava marcos significativos e inusitados: nunca tivera um namorado em toda a vida, e, mais ainda, passara incólume pelo meio universitário, imune a todas as tentações sórdidas e saudáveis, comuns ao ambiente. Longe de ser inocente, ela empregava a malícia em despachar o pretendente tão logo o houvesse provado. Assim, eles se sucediam rapidamente, frustrados e perplexos. Não importava o desempenho, eles sempre eram descartados, agradando ou não. A romaria dos preteridos denotava um padrão: a loura escolhia entre os de tenra idade. Colecionava garotos, e quanto mais inofensivos, melhor. Nunca se havia aventurado além deles, não sabia o que um homem poderia oferecer. Não sabia o que era enlouquecer de tesão, nem conhecia a sensação de amar até a dor física. Ouvia os relatos das amigas e sentia que perdia algo, mas não se daria ao luxo de se deixar ser seduzida. O mundo como conhecia ruiria caso se apaixonasse. Estremecia só em pensar em perder o controle, em depender do movimento do oponente. “E se fosse o cara errado?” A dúvida a paralisava. E paralisou até que a vitalidade e o viço se extinguissem e não houvesse mais escolhas. Nem a mais radiante linha do destino pôde com o medo de viver.

 
     
 
   
           
           

 

 

Lívia Santana
É mineira de Uberlândia, tem 21 anos e bacharela-se em Direito. Escreve por compulsão e tudo é motivo, embora seus temas geralmente tenham relação com a dor, seja física ou psíquica. Prefere um estilo conciso, dizendo o máximo através do mínimo. Os textos podem ser encontrados reunidos na página http://garotaestrela.multiply.com onde publica regularmente.