A voz mansa do dia claro não diminuía a tristeza que sentia. Teriam
se amado da maneira que temia? Com o tempo dona Adelaide foi
esquecendo perguntas como essa, já não pensava e a dor se confundia
com a rotina de acordar e não encontrar ninguém ao seu lado
esquerdo, botar sempre uma xícara a mais na mesa para os filhos não
perceberem a ausência do pai, que dormira fora de casa mais uma
noite, quando mais uma manhã ela não se perguntava nada e só sentia
as mãos trêmulas lavando a xícara suja do café que Orlando não havia
tomado. Saiu cedo pra ferrovia, respondia se algum dos filhos
perguntava pelo pai.
E depois que saíam, um a um na ordem de nascimento, primeiro Dinho,
o primogênito triste e que desconfiava ser um único que sabia,
depois Fernando, o que seria médico do coração, por fim Toninho,
desgostoso de mulheres desde menino. E depois que os filhos saíam a
rua Joaquim Nascimento Lourenço perdia todas as suas vozes, emudecia
aos vivos e decerto os fantasmas estariam passeando tagarelas sobre
seus pedregulhos. Ficava sempre, nessa hora da manhã, a olhar pela
janela. Quem sabe avistaria um deles e o chamaria de pai, mãe ou
qualquer outro nome cheio de saudade e consolo. Poderia ouvi-los
também, haveria festa na rua, o cheiro da poeira crescida da véspera
seria de jasmim e o do leite derramado, grama molhada e pés
descalços.
Mas o que havia era cheiro de alho fritando, a paciência com que
recolhia os grãos pretos de arroz, a certeza de que o almoça estaria
delicioso e a esperança de que ele estivesse à mesa.
A casa limpa e a comida na mesa, os filhos grandes, grandes e bons,
mesmo distantes em seus planos, esquecidos ou não de seus sonhos,
eram verdadeiramente bons, trabalhavam e estudavam, tinham namoradas
boas à exceção do caçula que pela repulsa escolhera não uma mulher,
mas um grito histérico que ouviria pelo resto de sua vida. Calças
passadas, sapatos brilhando, tudo para ela se convencer da própria
importância: a de ser mãe já que fora tão breve o seu tempo de
mulher. Desde o início sabia da presença robusta da cunhada, da
presença constante esmagando seu corpo pequeno, o que um dia também
fora amado e um dia também se cansara abraçado ao dele.
Às vezes diante do espelho, abotoando o vestido de chita ou apenas
de passagem, não quer ver os detalhes da magreza envergonhada, não
quer ver fios brancos tentando nascer sobre a cabeça nua, não quer
ver a moribunda que mesmo curada ainda tem cheiro de morta.
Deve ter sofrido muito nesses vinte e sete anos de casamento para
trazer o riso empoeirado como o das caveiras do laboratório
ginasial. Os olhos dele, porém, eram ainda vivos e brilhavam nas
madrugadas chegando exaustos de prazer. Ela nunca abria os olhos,
mas sabia que na noite escura dois olhos a olhavam com cuidado e
tinham piedade, com morosidade talvez ainda sentissem saudade. Ela
sabia o que ele pensava e ele esperava inútil que ela um dia se
salvasse, punindo-se ao lembrar que só a morte assim faria.
Parece feliz ao jogar o lençol branco sobre o varal, ainda podia
continuar com as tarefas do lar, ainda podia jogar para longe a
sujeira dos móveis e a poeira do assoalho, e com rodo, vassoura, pá,
queria jogar para longe os nodos formados a partir da dor.
Mas numa manhã de outono, e o relógio nem havia chegava perto das
seis, desafiou as folhas vermelhas da castanhola passando os dedos
sobre o orvalho gelado que escorria desapercebido pelo caule. Seu
desejo era de nua abraçar sua aspereza, era ser ainda jovem, nua e
jovem para abraçar o tronco áspero depois correr pelo dia até
sangrarem os pés, e quando sangrassem abraçar a rua e abraçar seu
próprio corpo abraçando Deus. Embevecida ouviu longe um apito, era o
trem que deixava a estação levando dona Adelaide sem destino sentada
à janela de um de seus vagões. O vento remexendo o cabelo
recém-nascido, cidades passando e pessoas chorando a seus olhos, e
livre, o mundo em movimento, o orvalho escorrendo...
Nesse dia os meninos também saíram bem cedo, a rua ficou outra vez
povoada de fantasmas, e ela se fechou no banheiro como quem quer
contar um segredo. E o segredo ficou no espelho. Foi caindo por ali
mesmo, nem pensou, como já era de costume antigo e ouviu pela última
vez o canto desdenhoso do sabiá que criavam. Do ocre de suas costas
surgiu um canto um tanto triste, pela última vez ouvia. Adelaide
morreu no ano de 1979. Não mais que dois meses depois foi Orlando
que por ali caiu. Dizem que deixou uma carta por remorso, quem sabe
por amor. A ruiva chorou muito. Adelaide deve estar entre os anjos.
E, livre, a gota de orvalho ainda desce pelo caule.
Leticia Frazzi Tem os olhos voltados para grandes
prédios e se entristece. A cidade grande corrompe seu coração porque
cada mansarda é um quadro triste. Para que o mundo lhe doa menos
tenta aprender a não sentir as dores de cada passante... por tudo
isso tem se deparado com a folha de papel branca e muda, e que assim
permanece; seu coração também está mudo.