Eu estava sentada na minha velha cadeira de balanço olhando pela
janela do meu quarto a chuva fina que caia lá fora, escutando, ao
longe, o barulho de uma sirene de ambulância que passara em alta
velocidade. Comecei a recordar algo que aquela chuva me trazia de
volta à mente, de modo doloroso.
Doce figura
Tudo começou naquele ponto de ônibus do final da rua. Ele sempre
chegava depois de mim. Poucas vezes me dirigiu a palavra. Era um
tímido bom-dia por entre os dentes. Às vezes, ficava tão distraído,
lendo algo na banca de jornal ao lado, que nem me cumprimentava.
Ele vinha todos os dias muito bem-vestido. Trajava terno muito bem
alinhado, com os acessórios sempre combinando, óculos de aro fino e
uma pasta de couro marrom na mão. Era a única coisa que destoava do
conjunto, pois às vezes não combinava com o cinto e os sapatos.
Tinha os cabelos bem cortados e a barba muito bem-feita. Não era
muito bonito, mas tinha um rosto marcante.
Chegava no ponto no mesmo horário todos os dias. Podia-se até
acertar o relógio pela sua chegada, exatamente às 6:45. Ali ficava
em pé, com sua pasta de couro colada ao corpo, como se fosse sofrer
um assalto a qualquer minuto.
Os dias que não dirigia uma palavra sequer a ninguém, seu rosto não
aparentava nenhuma emoção. Ficava ali de pé, imóvel até a chegada de
nosso ônibus. Cavalheiro, sempre permitia que as mulheres e pessoas
idosas subissem primeiro, para depois subir e permanecer em pé todo
o trajeto, mesmo que houvesse poltronas vazias. Nunca sentava.
Talvez ele tivesse medo de amassar seu terno impecavelmente passado.
Por semanas eu vi aquela figura aparecer no mesmo horário e fazer as
mesma coisas todo o santo dia. Passei a vê-lo com carinho e
admiração. Às vezes tentei pousar meu olhar no dele mas parecia que
ele estava distante e não me via. Parecia um príncipe. Meu príncipe.
Maus pensamentos
Foi com certa preocupação que naquela quarta-feira cinzenta eu não o
vi chegar. Quando nosso ônibus chegou, eu ainda demorei um pouco
para entrar para que ele não o perdesse. Em vão. O ônibus arrancou e
nada de ele aparecer. Notei também que o motorista também olhou
atentamente para os lados, como se procurasse seu passageiro
perdido. Fui todo o meu trajeto pensando no que teria acontecido com
ele.
Será que ele morava sozinho e foi vitimado à noite por um infarto
fulminante. Não! Não! Eu acho que ele tinha perdido a hora pela
primeira vez... É, deve ser isso, pensei, ou talvez...
Diabos!, eu pensei. Que obrigação eu tenho de ficar me preocupando.
Pensando tolices se nem mesmo o conheço direito. Não sabia onde ele
morava nem onde ele trabalhava e o que fazia. Só via quando descia
no ponto da Praça da Árvore e eu o seguia com o olhar quando ele
atravessava a praça em direção ao centro comercial.
Seria um advogado, trabalharia num banco ou seria gerente de alguma
loja? Devia ter um bom emprego, pelo modo de se vestir...
– Diabos! – disse eu, agora em voz alta, assustando uma
velhinha que estava sentada ao meu lado com meu palavrão impensado.
Um dia irritante
MEU DEUS! Já eram 6:50 e ele ainda não tinha aparecido. O dia estava
feio. Tinha chovido a noite toda e as poças de água que ainda
teimavam em permanecer refletiam as fachadas escuras dos prédios.
Seria mais um dia daqueles. Atrasos, engarrafamentos e irritações.
Será que realmente aconteceu alguma coisa ruim com ele? Como
perguntar para aquelas pessoas que sempre estavam ali no ponto, se
nem ao menos eu sabia o seu nome.
E lá novamente veio o nosso ônibus e ele não apareceu.
Fim da estação
E assim foi por vários dias. Na esquina, antes de chegar ao ponto,
eu agora sempre dava uma paradinha e olhava as ruas que cruzavam
para ver se ele não estava descendo uma delas. Nada. Cheguei até a
tomar o ônibus mais cedo e depois mais tarde para ver se o
encontraria e nada. O verão já estava terminando e ia começar o
período chuvoso. Meu Deus, o que teria acontecido com ele. Será que
fora despedido?
Beleza escondida
Nessa época eu trabalhava como secretária de uma firma de advocacia.
Já estava com trinta anos e morava sozinha. Meus pais moravam no
interior em um pequeno sítio que eu visitava quase todos os finais
de semana. A rotina de minha vida quase nunca era alterada. Não
tinha namorado e quase não saía à noite, a não ser quando o pessoal
do escritório se reunia em algum barzinho para comemorar o
aniversário de alguém.
Apesar dos trinta anos eu ainda conservava a beleza de minha
juventude, mas que passava despercebida pelo meu modo discreto de
vestir, meu jeito tímido de falar e também porque sempre dizia não
quando alguém me convidava para sair.
Um belo casal
Naquele dia, eu estava descendo a minha rua em direção ao ponto de
ônibus, quando notei à minha frente um casal em passo apressado
seguindo na mesma direção. Estavam bem juntinhos. Percebi o braço do
homem segurando fortemente na cintura dela. Ela estava com um
vestido estampado que balançava de um lado para o outro com seu
caminhar. Como estava garoando, ele com a outra mão segurava um
guarda-chuva que protegia cuidadosamente o traje fino da moça.
Ela era loira, cabelos longos que repousavam preguiçosamente sobre
seus ombros descobertos.
Desci a rua seguindo-os distraidamente até chegar ao ponto de
ônibus. Fiquei de pé na extremidade do abrigo. Quando ele fechou o
guarda-chuva debaixo da cobertura do abrigo eu o reconheci.
– MEU DEUS. É ele! – falei quase gritando.
Estava ele ali na minha frente finalmente. Tinha passado mais de um
mês desde que eu o tinha visto pela última vez. Forte e com um
sorriso feliz naquele belo rosto. Feliz todo esse tempo e eu todo
esse tempo preocupada à toa, pensei.
Teve uma noite, confesso que passei chorando baixinho pensando no
que poderia ter acontecido com ele, achando que estaria doente em um
quarto solitário sem ninguém para ajudá-lo ou que poderia até ter
morrido. COM QUE DIREITO ele aparecia agora na minha frente com
aquela garota? E ainda por cima lindíssima.
Fiquei ali remoendo meu ciúme que chicoteava as entranhas a cada
riso da garota. Aquele gesto largo que ele fez contando algo a ela
foi a gota d'água.
Dirigi-me até eles. Passei por ela sem olhar, desprezando-a
completamente. Olhei profundamente nos olhos azuis do meu príncipe e
gritei bem alto.
– TRAIDOR! COMO VOCÊ PÔDE FAZER ISsO COMIGO...
Levantei meu braço, possessa, e o tapa no rosto foi fulminante.
Ele era meu...
Ainda sentia na mão a ardência do tapa desferido, enquanto corria
desesperada, de volta a minha casa, deixando os dois ali parados
boquiabertos. Quando dobrava a esquina virei e ainda vi os dois com
os olhos arregalados, olhando um para o outro como se não tivessem
dado nenhum motivo para o que eu tinha feito.
– CACHORRO! – gritei para mim mesma.
Jairo Feliciano de Faria Natural de Paraibuna, SP, nascido em
12 /12 /1949. Atualmente mora em Jacareí, SP. Trabalha como
projetista da construção civil desde 1970.Tem escrito pequenos
contos, poesias, enredos de escola de samba. É autor de um auto de
Natal que foi encenado em 1975 pelos próprios pacientes do Hospital
Vicentina Aranha, em São José dos Campos. Sempre escreveu como
hobby, não tendo nada publicado, talvez por falta de incentivo
ou conhecimento. Morou dois anos fora do país e isso o fez valorizar
mais a sua terra e o seu modo de vida. Tem criado textos sobre a
vida difícil de um brasileiro em terra estranha.