A bola rolou macia e o garoto soltou o pé. No ângulo! Gol. Ele saiu
correndo para cumprimentar o irmão mais novo pelo passe.
– Eu sabia que você ia dar esse passe! – Abraçaram-se.
Haviam ganhado a pelada contra a turma da rua de cima; usariam o
campinho de futebol por um mês sem serem enxotados.
De noite, em suas camas, Saulo, o mais velho, perguntou:
– O que você faria se não pudesse mais jogar futebol?
– Vou jogar futebol para sempre! – respondeu Mauro, o mais novo.
– Mas e se ficasse doente? – insistiu o mais velho.
– Jogo no gol! – troçou o mais novo. Saulo também achou graça. Riram
e dormiram.
A idéia de não mais poder jogar futebol ficou na cabeça do garoto.
Passaram alguns meses e ele leu nos jornais o caso de um espanhol
que havia ficado tetraplégico e lutava nos tribunais de seu país
para que o deixassem morrer.
– Por que ele não pode morrer? – perguntou aos pais.
– Porque seria homicídio matá-lo – respondeu o pai. Ele nunca tratou
os filhos como crianças bobinhas.
– Homicídio? – disse Saulo, sem entender o sentido da palavra.
– Claro! – continuou o pai. – Se alguém desligar seus aparelhos
estará matando o rapaz!
– Mas ele quer morrer! – Saulo sacou que homicídio era o mesmo que
matar alguém.
– Ajudá-lo a morrer chama-se eutanásia! – O pai olhava para o filho.
Sabia que aquele jovem curioso estava com as pestanas em chamas.
– Pode ser um ato misericordioso mas algumas religiões acham que
ninguém tem o direito de abreviar a vida de outra pessoa.
– Quais religiões? – A pergunta de Saulo servia mais para prolongar
a conversa que para elucidar uma dúvida. Sua cabeça estava anuviada
de tantas informações.
– Acho que todas. – O pai voltou os olhos ao jornal. – Nenhum país
reconhece a eutanásia. – O jovem olhou admirado para o pai. – O
espanhol talvez não consiga morrer mais cedo para diminuir o próprio
sofrimento.
Seu pai sabia sobre tudo, além de ter opiniões bastante
interessantes, pensou Saulo.
Eutanásia! Ajudar alguém a morrer. Um ato de misericórdia suprema!
Saulo resolveu que se um dia ficasse tetraplégico, preferiria
morrer, para isso precisaria da ajuda de alguém. Procurou o amigo da
mesma sala.
– Fábio, vamos fazer um pacto! – Conversavam no ônibus de volta para
casa.
– Qual?
– Se eu ficar tetraplégico, você faz eutanásia em mim – explicou.
O amigo caiu na gargalhada.
– O que é eutanásia? Punheta em aleijados? Hahaha.
Saulo explicou o que era eutanásia e o amigo concordou em puxar a
tomada se fosse preciso. Alguns anos se passaram e o amigo sumiu do
mapa. Saulo percebeu que os amigos iam embora na mesma medida em que
os anos passavam.
Resolveu confiar seu pacto com quem nunca o abandonava.
– Mauro, vamos fazer um pacto!
– Não temos mais idade para isso, mano. – O irmão lavava o carro.
– É sério. Presta atenção! – Esperou o irmão desligar a torneira. –
Se algum dia eu ficar tetraplégico, quero que você faça eutanásia.
– Eutanásia? – assustou-se o irmão. – Mas seria crime. Eu seria
preso.
– Você tem que arranjar um jeito.
– Ok, eu dou um jeito – Mauro concordou com o pacto. Talvez mais
para encerrar aquele papo chato do que por concordar com o assunto.
– E tem mais: se eu virar um vegetal também! – O mais velho se
lembrou que havia outras condições. – Ou se eu perder os braços e as
pernas.
– Se você perder os braços e as pernas vou te usar como mesa de
centro da sala! Hahahaha. – O mais novo já havia voltado à lavagem e
nem dava mais atenção.
Certo dia Saulo chegou em casa eufórico.
– Comprei uma moto! – anunciou aos pais. A mãe foi para o quarto
chorar. O pai quis saber qual a cilindrada da moto. O irmão o chamou
num canto.
– Bonita. – Abaixou a voz. – Mas e aquela história de pacto?
– Eu não quero morrer, irmãozinho. – Soltou um peido. – Tá sentindo?
O que comi?
– Bosta! – gritou Mauro. – Deve ter comido bosta, pra peidar desse
jeito.
Os anos se passaram. Saulo se casou e Mauro era conhecido como o
Giovani Casanova da região. O mais velho quis melhorar a renda de
sua nova casa e estudou arduamente para passar em um concurso
público. Nunca ficava entre os classificados. Um dia viu que estava
aprovado.
– Vou ser policial civil! – explicou à esposa. Ela foi para o quarto
chorar. – O que foi, benzinho?
– Você vai é ser morto por esses bandidos. – Ela alternava as
palavras com os soluços. – Não quero que você morra.
– Nem eu quero morrer, meu amor! – Saulo tinha bastante ternura na
voz, quando queria. – Ainda tenho muito o que fazer.
Com o incremento na renda, a primeira coisa que Saulo fez foi
realizar um sonho antigo: comprou uma asa delta. Fez aulas durante
meses até sentir-se preparado para voar sozinho. Voava sempre que
tinha tempo livre, em poucos meses já era um mestre. Comprou um
cockpit auxiliar e levava a esposa sempre que conseguia convencê-la
de que não havia perigo. O irmão mais novo nunca aceitou um convite
para voar.
– Se fosse para a o ser humano voar, teria nascido com asas – dizia
o irmão.
– Mas a gente sabe nadar e não vive na água – retrucou um dia uma
namorada de Mauro.
– Se você reparar, minha gata – o mais novo chamava todas as
namoradas de gata, "para não trocar os nomes", dizia ele –, os
homens se parecem com anfíbios. Pernas mais compridas que os braços.
– Mauro agachou-se e pulou como um sapo. – Burd – coaxou.
– Tá me chamando de sapa? – perguntou a namorada, divertida.
– Não, de mariposa apaixonada! – Mauro pulou sobre ela e a lambeu no
rosto – Burd.
No ano que a mãe completaria sessenta anos, os filhos, homens
feitos, decidiram fazer uma bela surpresa: um passeio pela Europa
para toda a família. Compraram as passagens, reservaram os hotéis,
discutiram roteiros.
O mais novo resolveu finalmente aprender inglês e o mais velho o
acompanhou nas aulas.
No dia do embarque, subiram a escada rolante do aeroporto orgulhosos
da diversão que teriam em família. Animados, os seis viajantes
conferiam horários, passaportes e o resto na porta do embarque
quando Saulo resolveu esvaziar a bexiga. Dizia que não conseguia
mijar em banheiro de avião, sentia pressão no amiguinho.
– Onde é o banheiro? – perguntou a uma funcionária com os cabelos
tão puxados num coque que seus olhos ficavam parecidos com os de
japoneses.
– Só no térreo, senhor. – Tinha voz de japonesa.
– Vou de escada-rolante. – Correu para a lá e tropeçou no primeiro
degrau em movimento. Só o irmão o viu sumindo pela escada.
– Saulo caiu! – gritou, correndo para a escada-rolante.
Mauro entrou na sala da UTI. Avistou o irmão entre tapumes de pano,
deitado numa maca. Havia um grosso tubo sobre seus lábios e um fino
cano em cada narina. O corpo estava esticado, os braços ao lado do
tronco, com as mãos esticadas. Os pés tinham os dedos caídos para
frente. O mais novo mexeu em alguns equipamentos sobre o balcão da
enfermaria e depois conferiu o soro que estava sendo injetado na
veia do irmão.
Ele acordou.
– Mauro, você sabe o que você tem que fazer. – A voz do mais velho
estava clara, embora fraca e fina por causa do tubo de oxigênio.
– O quê? – Os olhos apertaram de espanto.
– Você não lembra do nosso pacto? – Saulo engrossou a voz.
– O pacto? Claro! – Mauro parecia animado. – Mas aquilo era coisa de
criança.
– Não éramos tão crianças assim!
– E daí? – A voz estava desdenhosa. – Você tá querendo que eu faça
alguma coisa?
– Presta atenção! – O irmão mais velho estava com o cenho franzido.
Falou em voz dura. – Logo vou tirar este tubo de oxigênio pois meu
corpo... – parou para respirar – ... vai se acostumar a respirar
sozinho. Estou tetra. – Aumentou a voz. – Pentaplégico, se contar
também a inutilidade do meu pau! – Olhou com carinho para o irmão.
– Faça o que combinamos. Basta você desligar o aparelho de
respiração. Tire-o da tomada.
– E a polícia?
– Dane-se a polícia! – O rosto ficou vermelho e Saulo tentou se
controlar. – Irmão, presta atenção: dá tempo de você desligar a
máquina, esperar eu morrer e religar a máquina. Ninguém vai notar.
– Ele falava rápido e o esforço o fez tossir compulsivamente.
– Não, Saulo, não dá para fazer isso não! – Foi até a máquina de
respiração e a olhou com cuidado. – Não, não dá mesmo!
– Porra! – explodiu Saulo. – Eu sabia que você ia arregar. Sempre
foi um bundão. – Tossiu. Respirou fundo e a máquina operou com mais
rapidez. – Puta que pariu! Eu não vou agüentar viver assim!
– Irmão, eu te amo! – disse Mauro.
– Eu tenho o direito de morrer! – O irmão o olhou fixamente. – Vai
me desligar a máquina de respiração?
– Não.
– Então vá embora. – Saulo fechou os olhos e suspirou. – Estou
cansado.
O irmão mais novo caminhou até a beirada da cama e segurou a mão do
irmão.
Sabia que ele não poderia senti-lo, mas queria apertar aquela mão
tão conhecida. Arrumou os cabelos do mais velho em desalinho sobre
os olhos.
Sentindo o toque em seu rosto, Saulo tentou abrir os olhos e não
conseguiu. Estava cansado.
– Saulo, conversei com os médicos – disse Mauro calmamente – sobre
formas de abreviar sua dor. Muitos são a favor. – Respirou e
continuou. – Se eu desligasse a máquina de oxigênio seria descoberto
pela lei, pois há um registro na máquina que marca os horários de
funcionamento. – Passou a mão pelo peito do irmão. – Quando entrei
no quarto injetei heroína no tubo do seu soro. – Esticou o dedo
apontando o coração do irmão deitado. – Como você nunca se picou com
heroína, a dose que eu te injetei lhe provocaria uma overdose no
momento que entrasse na sua corrente sanguínea. Estouraria seu
coração. – Abaixou-se e beijou a testa do irmão. Continuou abaixado
e cochichando em seu ouvido. – Entrei no quarto e fingi que iria
deixá-lo fodido desse jeito. – Engrossou a voz. – Você ficou puto!
Produziu adrenalina, que é o antídoto da heroína. – Voltou a falar
com calma. – Resistiu ao infarto inicial e agora está tendo a maior
viagem da sua vida. Talvez até goze nas calças! – Beijou o irmão na
bochecha. Não conseguiu segurar as lágrimas. – Em poucos minutos sua
mente vai enrolar, seu coração vai parar e você vai morrer. –
Apertou a mão do irmão.
Um leve silvo saiu da boca do irmão deitado na maca.
Mauro sempre gostou de lembrar desse silvo como as palavras "eu
sabia".
O cara acordou assustado! Sonhou que não conseguia respirar.
– Arf.
No sonho, ele caía num rio e ficava no fundo até conseguir respirar.
Saía da água mas não sabia mais respirar no ar, apenas na água.
Acordou suando na cama.
– Que porra de sonho escroto! – A voz sonolenta era grossa, soltava
ar.
Respirou e o ar não entrou. Respirou novamente e o oxigênio não
entrou no pulmão. Pulou assustado da cama. Foi ao banheiro e viu que
a cara estava boa, apenas amassada. O ar não entrou com a
respiração.
Caiu no azulejo. As mãos tentando abrir o pescoço. Desespero. Olhou
a privada, cheia de água e mijo. Apertou a descarga, quase
desfalecendo.
Abaixou a cabeça e respirou, com o nariz enfiado na água da privada.
Inspirou profundamente, sentindo todo o prazer de encher os pulmões.
Inspirou outras muitas vezes.
Pensou no que fazer. Tirou o nariz da água e tentou respirar. Nada.
Marcou no relógio quanto tempo conseguia ficar sem respirar na água:
dois minutos.
Passou pelo armário do quarto, pegou a máscara de mergulho e o
snorquel e foi para a cozinha. Lá adaptou uma garrafa de
refrigerante de dois litros cheia de água no bocal do snorquel.
Vestiu-se e saiu.
Chegou na casa da namorada.
– Oi, querido. Que troço é esse na sua cara? – disse a namorada,
pensando em qual era a onda da vez.
– Oi, amor. Posso ir ao banheiro?
– Você viu o Oscar?
– Quando? – perguntei.
– Ontem.
– Onde?
– Na tv, oras!
O Oscar na tv? Que legal! Oscar Júnior é o dono do campo de futebol
onde joguei por anos. Ele tem uma banda.
– Ele tava tocando guitarra?
– Tocando? Tá doido. Tô falando do prêmio Oscar de cinema americano.
– Ah, cinema norte-americano... É claro que não vi!
Brasileiro tem mania de babar nos ovos dos norte-americanos e depois
xingam quando não são atendidos.
– Sacanagem! Não deram o Oscar para a Fernanda Montenegro!
– Putz, uma velha brasileira! Por que deveriam premiá-la?
– Ela é a melhor atriz!
– Do filme, do Brasil, do mundo ou da família dela?
Brasileiro tem mania de eleger as unanimidades nacionais. O melhor
isso, o maior aquilo, todos brasileiros. Sei.
– Você viu o Ari Cunha no jornal?
– Não o vi, apenas o li.
– Falou sobre os menores infratores. Disse que sofrem no sistema.
– Uma amiga minha também sofreu com três menores viciados e tarados.
– Rangi os dentes. – Menoridade é bobagem! Apenas uma maneira de o
governo eximir-se de construir cadeia pra esse povo todo!
A voz do povo é a voz dos deuses, mas ela é inaudível aos poderosos.
– Prisão pra esse povo todo? – duvidou. – Qual nada! Mata tudo!
– Como é?
– Olho por olho, dente por dente!
– Ai, cruzes! Hamurábi, você voltou?
Assassinos e estupradores devem pegar pena máxima. Qual? Ele sairá
reeducado para a sociedade ou pós-graduado em bandidagem? Mata,
então. Por que não?
Minha vida não valeria a de quem a tirasse?
Pensei na minha vida. Ainda tenho muito o que ver. Tenho torque.
Torque, mulheres, é a força que o motor possui de manter-se no mesmo
funcionamento enquanto a dificuldade aumenta. O carro mil da minha
mulher tem pouco torque mas a SilverFênix tem um torque gigantesco
para uma moto. Muita energia!
Vou viver até os oitenta anos.
Será que o país ainda será soberano até lá?
O garotão, metido a galã de novela, adentrou na festa e logo avistou
um grupo de garotas. Chegou para uma que estava na periferia da
roda.
– Oi, gatinha, como eu posso te chamar?
– Pode me chamar de Gatinha mesmo – disse a garota.
O grupo parou de conversar e olhou o garotão.
– E você, meu bem, como se chama? – falou com outra, meio sem graça.
– Me chamo Meu Bem. – As meninas estavam adorando rir da cara dele.
O rapaz, controlando-se, percebeu que deveria ser um grupo de
reprimidas.
Olhou para a que parecia ser a líder.
– E você, sua vaca, qual é o seu nome?
Silêncio geral.
O garotão resolveu deixar o grupo a sós para poderem falar mal dele.
De saída, entornou o caldo.
– Com licença, garotas, que eu vou ali bater uma punheta pensando em
vocês.
Saiu assobiando.
Ele parou na frente do bar e viu que havia uma mulher servindo os
convidados. Tinha cerveja, vinho e coquetéis para beber.
– Oi, o seu patrão mandou você me servir uma dose do uísque que ele
escondeu debaixo da pia. – Mandou.
– Que patrão?
– O dono da casa, oras.
– Ele é meu filho, não meu patrão.
Ih, confusão. Ele confundira a dona da casa com a empregada.
– É mesmo? Que safado. O seu filho tá dizendo pra todo mundo que a
senhora é a empregada – explicou. – Sua mãe não seria tão escrota.
– Ah é? Toma aqui a garrafa que eu vou lá falar com aquele moleque.
Ele escondeu o uísque dentro do casaco e foi para a cozinha. A moça
humilde que encontrou devia ser, finalmente, a empregada.
– Oi, me dá um gelinho, por favor.
– Tá. – A moça virou para pegar o gelo na geladeira. Ele deu um
confere no porta-malas dela.
– A minha vez pode ser agora?
– Sua vez de quê?
– Ué? O dono da festa falou que a empregada dava pra todo mundo, era
só pedir.
– O quê?
– É – continuou. – Disse também que depois a gente vai invadir o seu
quarto e todo mundo vai te comer.
– Ai minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, me socorra agora que
chegou a hora. – A coitada saiu chorando em busca da patroa para
dedar o futuro estupro.
Ele se serviu de uma dose tripla e foi para o interior da casa à
procura do banheiro. Deu de cara com um senhor.
– Procura alguma coisa, jovem?
– Procuro sim, senhor.– Com voz de bêbado. – O quarto da filha do
dono da casa. Disseram que ela cheirou uma carreira e tá dando pra
todo mundo.
– Minha filha? – O homem disparou para dentro da casa. – Ai meu
deus.
O rapaz usou o banheiro e não deu descarga. Voltou para a sala. Uma
garota se aproximou.
– Você veio do banheiro, né! Viu um senhor por aí?
– É o seu pai? – Ela assentiu. – Eu não devia dizer mas ele falou
que vai comer a empregada.
A moça, assustada, chamou o irmão e foi correndo procurar a mãe.
– O que é que houve? – perguntou o dono da festa.
– O problema é que sua irmã está muito doida! – explicou o garotão.
–Disse que sua mãe tem casos fora do casamento por causa da
carreira.
O garoto, estarrecido com a revelação sobre sua família, nem lembrou
de perguntar quem era aquele cara que ele não conhecia. O garotão
metido a galã foi para a porta, para o caso de uma saída estratégica
pela esquerda, e ficou olhando a quizumba.
– Seu moleque! Falou que eu tenho jeito de empregada, hein? – disse
a mãe.
– Ele falou que eu dava pra todo mundo – chorou a empregada.
– A mamãe chifrou o papai – gritou o rapaz.
– Hein? Eu chifrei o seu pai? Moleque – urrou a mãe.
– Ele falou que vai me comer – lacrimejou a empregada.
– Quem vai te comer? – perguntou o garoto.
– O papai. O papai vai comer a empregada – berrou a filha.
– Ela estava dando pra todo mundo – trovejou o pai.
– Quem? – indagou a filha.
– A mamãe. A mamãe – soluçou o filho.
– Era por causa da carreira! – explicou o pai.
– Não acredito, a mamãe chifrou o papai por causa da carreira? –
assustou-se a filha.
– Ele disse que eu dou pra todo mundo – derretia-se a empregada.
– Quem? O papai? – questionou o filho.
– O seu pai está com a empregada? – alarmou-se a mãe.
– Não! A cocaína a deixou doida – disse o pai.
– Hein? Você deixou a empregada doida com cocaína? – esbravejou a
mãe.
– Não, a nossa filha – falou o pai.
– Papai, você deu cocaína para a minha irmã? E eu? – bronqueou o
jovem.
E a discussão foi por aí afora. O galã garotão estava quase indo
embora quando viu novamente o grupo de garotas que encontrara ao
chegar.
Acenou e despediu-se da líder.
– Tchau, mimosa.
Pelo menos foi gentil.
Eu cutucava uma lacraia com uma varinha quando meu tio me chamou lá
da casa da fazenda. Subi no Rebelde – o cavalo que eu montava – e
galopei de volta.
Meus pais estavam ao lado do tio Lavim e minha mãe logo reclamou.
– Ele está correndo muito com esse cavalo.
– O Rebelde é bom cavalo! – disse tio Lavim, segurando o freio na
boca de Rebelde para eu desmontar num pulo.
– Não importa. – Mães são sempre preocupadas. – Ele só tem sete
anos! – Não entendi a reclamação. Sete anos era a idade de toda uma
vida.
– Sete? – perguntou o tio. – Então tá na hora de ganhar um presente.
– Ele voltou-se para dentro da casa. Depois eu soube o que ele fez;
como grande fazendeiro da região, sempre ganhava presentes dos
comerciantes e industriais com que se relacionava e redistribuía
esses presentes. Trouxe de dentro de casa uma faca de vinte
centímetros com bainha de couro preto. O cabo era de madrepérola –
imitação, é claro – também preto e a lâmina, com uns quatorze
centímetros, era de metal vagabundo. Para mim, contudo, o presente
era mágico.
Uma faca preta! Olhei a bainha de couro e percebi que ela tinha um
contorno arredondado, com várias pregas. Parecia a capa do Batmam!
Nem liguei para a propaganda da casa de ferragens que presenteou o
tio Lavim com a faca. Logo raspei a tinta.
Colocava a faca presa ao cinto da bermuda e me embrenhava nos
matagais da fazenda. Algumas vezes cortava o mato com a faca, como
os caçadores de safári que via na tv. Usava a faca para abrir e
limpar os peixes que pescava. Algumas vezes amarrei a faca na ponta
de uma vara e a fincava nos peixes como os índios sioux, dos livros
dos Texas Rangers. Dava trabalho, mas eu tinha todo o tempo do
mundo.
A faca era minha companheira inseparável. Mesmo quando voltava para
a cidade, durante a semana, eu a guardava no estojo de lápis de cor.
Nunca pensei nela como uma arma, mas como a ferramenta mais útil em
qualquer situação: apontava lápis, limpava o barro do tênis,
descascava frutas, cortava papelão – para descer encosta de
gramados, oras – e muitas outras coisas. As professoras nem ligavam
para a faca, nem minha mãe, mas meu pai ligava.
– Isso é uma arma branca! – ele disse.
Uma arma branca. Fiquei até meio apreensivo em relação à minha
faquinha.
Decidi usá-la apenas na fazenda.
Um dia fui para a casinha no quintal da casa da fazenda. Meu tio
estava lá.
– Vai demorar, tio?
– Moleque – gritou meu tio de dentro da casinha – vá cagar no rio! –
E gargalhou.
– Pô, tio, anda logo – gemi.
Ouvi uns peidos espremidos e logo meu tio abriu a porta.
– É melhor você acender um fósforo – alertou-me.
– Eu não fumo.
– Então tá lascado! – Riu novamente, de boca aberta, mostrando os
fortes dentes amarelados. – Olha, tira a faca da cintura para cagar!
Nem prestei atenção ao aviso. Será que ele me considerava muito
criança para usar a faca enquanto cagava? Fechei a porta. A luz
vinha apenas das frestas entre as tábuas do teto. A casinha era toda
construída com tábuas. O piso ficava sobre uma fossa sanitária. No
meio do chão da casinha havia um buraco do tamanho do pé de um
adulto. Ao lado, pendurado por um barbante, um papel higiênico. O
interior era meio escuro, quente e definitivamente fedorento.
Abaixei as calças e posicionei a bunda sobre o buraco. Antes de
soltar qualquer coisa escutei um tchibum na água. Nem precisei olhar
para a fossa para ver o que havia caído. Olhei diretamente para a
bainha de couro. Eu não a havia fechado corretamente e a faca preta
havia caído na fossa logo após uma cagada do tio Lavim, o homem que
me presenteou com ela.
Ponderei rapidamente sobre minha próxima ação. Subi as calças sem
fechá-las e corri para fora da casinha. Abaixei-me ao lado de uma
goiabeira e fiz o que devia ser feito.
– Se eu tivesse cagado aqui não estaria com esse problema – falei em
voz alta.
Como eu havia esquecido o papel dentro da casinha, voltei com as
calças pelos joelhos de volta à casinha para limpar a bunda.
Limpei-me e voltei para o lugar onde havia cagado para deixar o
papel sujo.
– Não vou cagar sobre a faca. – Eu me explicava meus atos. – Nem
jogar papel higiênico sujo. – Olhei de volta para a casinha. – Inda
mais agora que tenho uma missão de resgate.
Anos depois, meu tio contou que aquele dia me viu saindo da casinha,
cagando no mato, voltando para a casinha com as calças arriadas e
depois voltando para onde havia cagado com os papéis sujos na mão.
Disse que quase morreu de rir. Achou que a própria cagada havia sido
tão fedida que eu não havia conseguido fazer o serviço dentro da
casinha.
Aprontei-me! Peguei um pedaço de corda no curral e voltei para a
casinha.
Amarrei a corda numa viga de madeira que sustentava o piso e
enfiei-me entre as tábuas, segurando na corda, atrás da minha faca.
Desci mais de um metro mas a escuridão me assustou. Voltei para
fora.
Procurei na casa da fazenda alguma lanterna, mas a que achei não
tinha pilha. Peguei uma vela e uma caixa de fósforos.
Risquei um fósforo dentro da casinha para me certificar que não
haveria nenhuma explosão. Joguei o fósforo pelo buraco e o vi
apagar-se na água cheia de bosta a uns dois metros abaixo. Guardei o
fósforo e a vela no bolso. Fiz um nó na ponta da corda para prender
os pés e a joguei no buraco.
Ela acabava a um palmo da água. Agilmente me enfiei novamente entre
as tábuas e desci pela corda até o final. Prendi os pés no nó ao
final da corda e peguei a vela e o fósforo.
Acendi a vela e olhei ao redor. Um buracão escorado por vigas de
madeira. A água do buraco na verdade não era uma água; era uma gosma
formada por urina e umidade de cocô. O fogo da vela queimava o
cheiro do lugar, mas o aspecto era inacreditável. Fiquei uns bons
minutos ali observando as esculturas multicoloridas feitas pelas
bostas e pelos fungos que proliferavam. Alguns vermes e outros
pequenos insetos andavam nas margens, não muitos, pois meu tio
derramava cal de tempos em tempos. O cal servia para "limpar a
bosta", como dizia ele.
Procurei pela faca. Sabia que ela devia estar de ponta para baixo,
fincada no fundo do buraco, atolada de merda. Eu estava já sem
camisa, pois imaginei que tivesse que melar os braços. Prendi os pés
firmemente no nó, segurei-me com a mão esquerda e estiquei o braço
direito em direção à água, preparando-me para submergi-lo e procurar
a faca.
De repente um brilho metálico chamou minha atenção. Olhei com mais
atenção e consegui ver a lâmina da faca ao fundo da fossa. A
iluminação da casinha batia exatamente na faca ao fundo do buraco.
Prendi-me melhor na corda, limpei a superfície da água, empurrando
os cocôs que flutuavam para longe de mim e mergulhei a mão na água.
Nem tive tempo de reagir quando meus pés se soltaram do nó e caí de
uma vez.
Submergi completamente na fossa sanitária. Tive a sensatez de fechar
os olhos e a boca. Ainda de olhos fechados tateei o fundo e segurei
o cabo da faca. Prendi-a na bainha, usando o fecho e conferindo para
ver se estava realmente travado. Limpei os olhos com as costas das
mãos. Segurei na corda e comecei a me puxar para cima. No meio da
subida, caí novamente. Minhas mãos estavam escorregadias por causa
do musgo de bosta, mijo e outras nhecas.
Sai da casinha. Eu não me atrevia a conferir meu estado. Vi meus
braços marrons de cocô e minhas pernas com pedaços de bosta
escorrendo para dentro da bota. Corri para o rio para me limpar. A
cada pisada no chão sentia algo escorrendo pelo meu corpo. Vi um
grande pedaço de merda enrolado na minha meia. Tentei livrar-me dele
chutando o ar, mas ele acabou voando para cima e quase acertou meu
rosto.
Ao menos eu havia recuperado minha preciosa faca.
Meu tio também contou que me viu tomar banho no rio de bermuda e
bota. Achou que eu estava mais moreno que o costume mas nem ligou
para isso. Eu estava sempre aprontando alguma coisa.
Guardei a faca com carinho. Cresci. Com quase dezoito anos e já
saindo da tropa escoteira, recepcionei um jovem papatenra que queria
ser da minha patrulha. No primeiro acampamento descobri que ele não
possuía faca nem canivete, a ferramenta mais utilizada por um
escoteiro. Ele era de uma família carente. Na reunião seguinte
entreguei-lhe minha faca preta.
– Isso é só um empréstimo. Você usa a faca quanto tempo precisar. Um
dia me devolve. – Contei para ele a importância daquela faca.
– Obrigado. Tomarei todo o cuidado com ela. Tem minha palavra.
Anos se passaram. Nunca mais vi o papatenra nem minha querida faca
preta, mas sei que um dia a encontrarei novamente. Essas coisas
acontecem!
Giovani Iemini É escritor, peladeiro, motoqueiro,
cachaceiro, leitor voraz, cactólogo, historiador, gibizeiro,
roqueiro, (ex) cabeludo, marido, enxadrista, pintor, músico
(frustrado), crítico de tudo e todos, tem o nariz grande e é
conhecido nas redondezas como o amigão de todas as horas.