Sempre no mesmo horário, ao cair da tarde, por volta das cinco, ela pára em frente à loja, pelo lado de fora e através da vitrine observa as pessoas lá dentro. Com um olhar terno, interrogativo, tímido mas insistente... mudo.

 

A princípio Clara não havia percebido a menina na vitrine, tamanha correria era seu dia com os afazeres da loja. O magazine ocupava uma quadra no centro de Londres. Primeiro emprego de Clara, estava feliz, radiante. Começou no departamento de confecções femininas e fora transferida para o departamento de aparelhos de som, CDs e DVDs, no meio da grande loja. Ela comandava as vendas e compras.

Atenciosa, alegre, cheia de vida, não fazia idéia de como os homens ficavam fascinados com sua beleza. Viveu até os 19 anos no interior, em meio à natureza, ao lado dos pais e irmãos. Ainda havia nela uma beleza quase selvagem.

No setor onde trabalhava dividia o espaço com dois colegas também da mesma idade. Um tinha namorada e era bagunceiro, o outro era tímido e pouco falava.

Era comum as pessoas pararem e ficarem algum tempo observando as vitrines da loja, em toda a sua extensão e em cada setor havia uma, com produtos e promoções da semana.

No segundo dia em que Clara notou a presença da menina observou-a melhor. Como gostava muito de ler desde criança, procurava nas pessoas traços de personagens de filmes e livros. Sempre achara que cada pessoa tem sua história, seus segredos. Gostava de observar e tentar adivinhar suas vidas, suas história e personalidades.

Era uma menina de cabelos pretos, lisos, pelos ombros, pele morena e olhos verdes, vestia-se de forma simples e carregava uma pasta branca do colégio, provavelmente estava vindo de lá nesse momento.

Não era como as outras pessoas que paravam ali para observar a vitrine. Olhava para dentro da loja, sempre na mesma direção. Por um momento Clara achou que ela a estava olhando.

Um dos colegas a chamou e quando voltou a olhar para a vitrine ela já não estava mais lá. Mas seus olhos de interrogação ficaram na mente de Clara naquele final de tarde.

Ficou imaginando se a menina estaria interessada em alguém da loja, se um namoradinho trabalhava ali e ela o estava vigiando. Não duvidava que fosse Luiz, mas sua desconfiança não se confirmou. Pois Luiz, o rapaz mais extrovertido e brincalhão, também notou a presença da menina e comentou com Clara:

– Essa menina vem todos os dias aqui, vocês notaram? Acho que fica olhando pra mim, fica parada ali, olhando pra cá.

– Você a conhece de algum lugar? – pergunta Clara.

– Não, mas espero conhecer logo – fala Luiz, convencido da fácil conquista.

– Ela parece querer mais que isso. É estranho, pois ela fica parada ali olhando pra cá mas não sorri, não entra na loja, só olha, parece querer dizer algo – comenta Clara mais para si do que para Luiz.

 

Clara acha que vê coisas que uma pessoa normal não veria, tem uma sensibilidade muito grande, talvez intuição, o fato é que não acha normal ver aquela menina ali todos os dias, às cinco, com aquele olhar perdido.

Já havia pensado em ir até lá, conversar com ela, perguntar seu nome, sua história.

 

Os dias foram passando e numa tarde muito fria de inverno, a chuva fina cobria a cidade. Quando chove os carros invadem as ruas, as pessoas em frente à loja com seus capotes pretos e ombros encolhidos procuram refúgio e andam apressadas.

Clara adora dias de chuva, ao contrário da maioria das pessoas. Vê uma beleza triste na chuva que cai, na loja o som baixinho de um piano faz Clara sentir saudades de um amor que nunca viveu, sonhando um grande amor futuro, lembra de cenas de filmes, personagens dos livros...

Ouve o som abafado de uma batida de carro, estilhaços de vidro pelo chão, gritos de socorro e depois... o silêncio.

Em frente à loja as pessoas se aglomeram ao lado dos carros que colidiram, algumas mulheres cobrem seus rostos com as mãos, horrorizadas. No chão, ao lado de um dos carros, uma pasta branca do colégio e o corpo já sem vida da menina. Clara olha para a pasta entreaberta e vê um envelope de carta com desenhos de borboleta e corações... e seu nome? Aproxima-se da pasta e pega, sem que ninguém veja, o envelope, ainda em dúvida, mas algo a faz acreditar que a menina queria lhe dizer alguma coisa.

Os bombeiros chegam e a levam dali, as pessoas nas ruas não se mexem, ainda em choque. Clara corre para dentro da loja, seus colegas ainda na porta comentam o que aconteceu. Clara vai para uma sala no segundo andar e fecha a porta. Ao longe ainda se ouve o piano de Erik Satie, Gnossienne N5, triste e belo. A chuva fina não deu trégua e agora está muito frio.

Na sala, numa mesinha perto da janela, Clara olha a cartinha. O envelope ainda molhado, com desenhos de borboletas azuis e coraçõezinhos vermelhos parece ter sido fechado há tempos, já meio amarelado.

Clara abre o envelope e nota a data em que foi escrito, em janeiro. Oito meses se passaram desde que foi escrito.

Em letrinhas miúdas e redondinhas, pareciam pequenas pétalas de erva-doce, as palavras foram formando uma confissão que Clara não esperava.

A carta era para Clara, uma declaração de amor, falava dos dias em que a loja fechava e ela não podia ver Clara, do medo, incerteza e depois a confirmação... Conheceu Clara ali mesmo na loja. Quando a viu pela primeira vez sentiu algo estranho, parava ali todos os dias para observá-la, para ver que estava errada, não era possível, mas a cada dia foi sentido algo mais forte.

Clara notara-lhe a presença algumas vezes mas em outras nem sequer percebera as lágrimas nos olhos interrogadores que procuravam os seus.

Precisava falar com Clara mas não tivera coragem. Guardou a carta numa gaveta com chave mas havia decidido, seria hoje, depois sumiria para sempre. Morava com a tia mas voltaria para a casa dos pais no interior.

Clara termina de ler a carta e chora.

No relógio da catedral o sino bate... cinco horas.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Ela sobe as escadas apressada, o corpo todo está em fogo, ajeita os cabelos que caem em seu rosto. Agora falta pouco!

Contou as horas e cada minuto e agora está ali, tão perto dele.

Está especialmente elegante nessa tarde de outono, sempre gostou muito dessa estação, a brisa fresca, o sol ameno. Experimenta uma certa insegurança e ao mesmo tempo algo muito maior a impulsiona, não tem dúvidas, quer chegar logo.

 

Ele está ansioso, sabe, sente que ela está chegando. Será que vem mesmo? Não se viam há quinze anos, mas não houve um dia sem que tivesse pensado nela com saudade. Voltava aos lugares por onde ela andou, o prédio onde morou, procurava-a em meio à multidão. Depois que ela foi embora da cidade, sem se despedir dele, essa procura não teve fim.

Gil, um amigo que sabia de sua procura, encontrou-a por acaso, ela estava trabalhando em uma loja do shopping da cidade onde foi morar. Ela o reconheceu mas não se falaram.

Três dias depois Marcos esteve na loja à procura de Lia, mesmo que não falasse com ela, alimentaria seu coração, acalmaria sua alma ver seus olhos negros novamente, adoraria sentir seus lábios quentes, seu cheiro, tocar sua pele macia, escutar seu riso, sua voz... e quem sabe recomeçar. Mas ela não estava mais trabalhando na loja. Ele andou pela cidade à procura dela... Chamando seu nome e nada.

 

Lia sobe as escadas enquanto relembra o que a levou até ali naquele momento.

Chorou muito de saudade, deixou tudo para trás, o trabalho, a família, os amigos, o apartamento onde morava, vendeu tudo, o aquário com os dois peixinhos vermelho-laranja, os quadros, tudo. Começou do zero, só levou as roupas, os discos e a desilusão.

Muitas vezes pensou em voltar, em todas as longas noites sozinha em seu quarto, chorava de saudades dele. Ele estava em todos os seus sonhos e neles nunca conseguia encontrá-lo, uma ponte quebrada separava os dois, ela chamava seu nome, o via de longe em meio à multidão mas ele não a ouvia. Acordava triste e nesses dias era só ele que ficava em seus pensamentos. Não conseguia se envolver com outros homens.

Acordou certa manhã decidida, ligaria para ele, sabia o número mesmo depois de tanto tempo.

 

Na porta do apartamento 906 Lia respira fundo, os pensamentos todos agora dão lugar à vontade de vê-lo logo. Toca a campainha, agora não tem mais volta. Marcos abre a porta. A princípio uma troca de olhares, de reconhecimento, as palavras são desnecessárias. Os dois se abraçam, as bocas se encontram ardentes, sedentas.

Ela reconhece a correntinha de ouro, a pele, os óculos, é ele afinal ali na sua frente, tão real.

Ele reconhece nela a pele macia, a boca deliciosa, os olhos... É ela afinal.

Se amam ali mesmo no chão, com paixão, a mesma paixão de quinze anos atrás, é como se o tempo tivesse parado e este fosse mais um encontro de tantos outros dos três anos que passaram juntos.

Conversaram durante horas, tudo foi dito, relembrado, os momentos bons que passaram juntos, a saudade, as buscas e o tempo parou enquanto eles se amavam nessa tarde de outono.

 

– Preciso ir embora, Marcos.

– Não, fique mais um pouco, vamos nos ver novamente?

– Preciso pensar, queria te ver para tentar resolver este sentimento, era como se amasse alguém que só existia em meus pensamentos. Agora que te encontrei novamente descobri que ainda estou magoada por tudo o que aconteceu.

Os dois ficam em silêncio, algo se perdeu para sempre.

Cai a tarde em Copacabana, a luz dourada do sol sobre as ondas, a música de Tom Jobim. "O amor é a coisa mais triste quando se desfaz"... Ele ao seu lado, tão perto e tão longe... A despedida adiada por quinze anos está se realizando agora, Lia já pode seguir sua vida sem esse fantasma do passado. Uma lágrima rola em seu rosto.

– Não fique assim, nosso amor foi lindo, um sonho, o amor mais puro que já vivi, verdadeiro, tínhamos um mundo só nosso, não vai acabar assim, logo agora que nos reencontramos.

 

... Encontraram-se muitas outras vezes... Sempre com a mesma paixão, até que naturalmente cada um seguiu o seu caminho...

 
     
 
   
     
   

 

     
 

... Ainda sente o cheiro forte e ácido do éter, o gosto amargo que penetrou suas entranhas, não pôde lutar, não viu ninguém, só a mão com um pano branco aproximando-se de seu rosto incrédulo.

Acaba de abrir os olhos, recobra os sentidos e olha em volta ainda assustada.

O cômodo iluminado apenas por um lustre antigo dá ao lugar uma atmosfera melancólica e assustadora. As paredes e o chão de pedra, várias mesas antigas de madeira estão organizadamente lotadas de vidros cheios de líquidos de todas as cores e tubos de ensaio.

Anna tenta levantar-se, só então se dá conta de que está com as mãos amarradas à cama. Seus instintos a avisam, preciso sair daqui, quem quer que seja, vai voltar. Depois de várias tentativas para se libertar, seu corpo frágil deixa-se levar pelo cansaço e a fome e adormece profundamente.

 

... Vincent pára o Sedan preto em frente ao pequeno castelo, vai até o porta-malas e retira uma maleta de primeiros-socorros e uma mala de madeira escura com alças de couro.

Aproxima-se da porta lateral, olha ao redor, entra no castelo e sobe as escadas com pressa, vai até a porta no final do corredor e entra sem fazer barulho.

Logo percebe que a moça tentou soltar-se, os pulsos ainda estão vermelhos. Olha para Anna com carinho e desamarra as cordas com cuidado. Admira seus traços delicados por alguns instantes, nunca esteve tão perto dela. Passava dias, horas... observando Anna de longe. Quando ela saía para o trabalho, quando voltava, se estava sozinha, feliz ou triste. Sabia de cada passo que ela dava, o que gostava de fazer. Quando estava triste, Anna fechava toda a casa e quando estava feliz abria todas as janelas, cantarolava, lia algum livro sentada no banco em frente a casa e nos infinitos dias de chuva de inverno, lia em frente à lareira, até tarde.

A primeira vez que viu Anna foi quando ela mudou-se há dois anos para a casa em frente à sua.

Vincent gostava de contemplá-la inteira, os ombros nus, a beleza feminina dos seios, mas o que mais o encantava nela eram os olhos, sinceros, misteriosos, que falavam por ela e o transportavam para um mundo de magia em que se sentia envolvido como raras vezes se lembrara de ter se sentido.

Nas longas noites de angústia, vigiava a janela de Anna e trabalhava em suas pesquisas. Vincent é professor de Biologia, escritor e nos finais de semana sua paixão é viajar para o pequeno castelo no campo onde estuda e cuida de borboletas feridas. As que não sobrevivem são catalogadas e eternizadas por ele.

 

Anna acorda com os pulsos doloridos e atônita nota que alguém esteve ali e a desamarrou. Vê a mala branca de medicamentos, a caixa de madeira chama sua atenção, tem a nítida impressão de que já viu aquela mala antes mas não lembra onde. Puxa a alça de couro e a caixa abre em pequenos compartimentos e em cada um deles uma borboleta azul com seu nome científico, local e data em que foi encontrada: "Castelo de Bodiam".

Anna corre até a porta, surpresa vê que está aberta, passa pelo longo corredor, desce a escada e entra no salão de paredes forradas de tecidos escuros e o chão coberto de tapetes espessos. Grandes lustres iluminam a sala com uma luz transparente.

A grande biblioteca na sala perto da lareira, os quadros antigos...Tudo naquele lugar fascina Anna, mesmo com medo está encantada, sente-se bem agora que pode se mover livremente pelo castelo.

Vai até a grande porta de madeira antiga que dá para o jardim e quando a abre, um vento frio balança seu vestido de seda azul.

Anna vê o jardim de grama verde e vários canteiros de flores coloridas: margaridas, lírios amarelos, tulipas vermelhas, borboletas de todas as cores e tamanhos voam suavemente e aglomeram-se ao redor de um homem embaixo de um ipê amarelo. Mesmo de longe Anna o reconhece: é Vincent!

Ele vai em direção ao carro estacionado perto do portão de ferro e sai sem olhar para trás. Anna corre até o portão mas é tarde demais, ele deixou o portão fechado...

O castelo, o jardim de flores e as borboletas azuis...

Ela é sua borboleta mais preciosa, rara, frágil, bela e misteriosa...

Anna sabe que ele vai voltar...

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Todos brindam e festejam a aniversariante. O apartamento está lotado, na sala com sofás de corino branco e decoração com detalhes em vermelho nota-se o bom gosto, um certo requinte, muitos livros e obras de arte fazendo contraste com o colorido dos balões.

Vânia está fazendo 18 anos, seus olhos verdes brilham de alegria, seu corpo miúdo e delicado contrasta com seus longos cabelos loiros. Mas algo a está incomodando, está impaciente.

– Será que ele não vem mesmo? Ele prometeu que hoje estaria aqui – fala magoada. Conheceu Fábio no colégio e estão namorando escondido, havia prometido que hoje seria o dia de falar com os pais dela.

– Não se preocupe, logo ele estará aqui, você vai ver – diz Paula, sua melhor amiga e confidente.

Paula tem a mesma idade de Vânia, conheceram-se também no colégio da última série do colegial. Paula fugiu das regras rígidas impostas pelo pai: nada de estudar, trabalhar, namorar, ler... E isso na cabeça sonhadora de Paula era algo impossível... Estava passando pela fase das descobertas mais transformadoras... o amor.

Paula saiu de casa deixando para trás os pais em prantos, mas nenhum argumento a fez desistir da idéia de seguir seu caminho... sozinha. Morava na casa de Vânia.

Confessa à sua amiga:

– O Pedro também sumiu... Já faz uma semana que ele não me liga.
As duas amigas se olham e no mesmo instante começam a rir da situação.

– Quer saber?...Vamos nos divertir que hoje é um dia especial – diz Vânia. Paula concorda e as duas amigas chamam os outros convidados para dançar. A música alegre fez as pessoas se unirem no meio da sala e a festa continua.

 

Pedro estaciona a moto CB-400 preta em frente o prédio onde Vânia e Paula moram, olha para o alto e vê que todas as luzes estão acesas. Escuta o som abafado de música e vozes. Agora se lembrou, Paula havia falado que hoje seria o aniversário de Vânia.

– Está tendo uma festa, como vou falar com Paula?... Não tenho cabeça para subir e nem posso...

 

No apartamento o interfone toca insistente sem que ninguém atenda. Pára por alguns momentos e recomeça a soar, em vão.

Pedro desce da moto, mas não tira o capacete, precisa tomar cuidado, estão atrás dele. Vai até a portaria do prédio falar com o porteiro. O homem de meia-idade olha Pedro sem sorrir, está vendo o jogo de seu time predileto, os movimentos lentos e entediados de quem está ali há muito tempo.

– O senhor pode chamar a Paula no 403, é urgente, chamei pelo interfone mas ninguém atende – fala Pedro com pressa.

Seu Jonas já viu Pedro por ali com Paula, mas hoje ele parece agitado, seu Jonas não sabe se o rapaz está diferente ou ele que está de mau humor e está achando tudo estranho esta noite.

– Está bem, aguarde aqui que eu irei chamá-la.

O homem entrou no elevador resmungando e sumiu.

 

Pedro ficou andando de um lado para o outro, pensativo, nervoso, tentando buscar as palavras certas para contar a Paula o que aconteceu, sem chocá-la, mas como?... Foi horrível, uma tragédia, será que ela vai me perdoar? Será que vai acreditar em mim?... Tudo aconteceu tão depressa...

 

Alguém bate na porta, Paula e Vânia correm para atender, alegres, sorrindo.

– Seu Jonas?... Alguém está reclamando do som? Aconteceu alguma coisa? Entre por favor – diz Vânia, surpresa.

– Não, está tudo bem, Vânia, é seu aniversário?

– Sim.

– Meus parabéns!

– Obrigada.

– Bom, tem um homem lá embaixo, Pedro, tentou falar com Paula pelo interfone mas ninguém atendeu, parece que é algo urgente.

Paula não terminou de ouvir o que o porteiro acabou de dizer, saiu correndo, entrou no elevador e desceu.

Seus pensamentos estavam embaralhados, pressentia o pior, conhece Pedro, ele não age normalmente dessa forma, é sempre tão calmo, a menos que algo muito sério estivesse acontecendo.

Na portaria viu Pedro e correu para abraçá-lo, não precisaram dizer nada, um beijo, um abraço apertado, o cheiro dele, queria fica ali para sempre...

– O que aconteceu? – pergunta Paula.

– Precisamos conversar, já deveria ter falado sobre isso com você, estava esperando o momento certo, mas tive medo de perder você, o tempo foi passando e agora... – Pedro olha para o chão, mas não vê nada... Não sabe por onde começar.

– Fala logo, por favor! O que aconteceu?... – Paula está impaciente, mas não tem idéia do que possa ter acontecido... Outra mulher?... Pode ser... Mas não é só isso, desconfia.

– Você sabe que eu te amo, não sabe? – pergunta Pedro.

– Não sei, eu sempre achei que sim... Mas agora já não sei mais nada.

– Paula, há um ano conheci uma mulher, eu nunca gostei dela, ela me procurava, me mandava cartas, presentes, me fez uma proposta e eu acabei fraquejando e aceitei. Passava algumas noites no apartamento dela, é como se fôssemos casados, porém podia ter minha vida, meus amigos, ela aceitou tudo só para me ter algumas vezes. Esta moto, roupas, dinheiro, eu sei que é horrível e me arrependi, não estava agüentando mais. Amo você e queria ter você o tempo comigo, não ela, brigamos muito, pois ela queria meu amor e isso ela nunca teve. Hoje quis pôr um basta nisso tudo, falei de você, falei que nunca mais queria vê-la na minha frente. Paula, você entende? Eu trabalhava naquela mina de ouro, a cada dia minha vida estava por um fio, vivia sujo e estressado...

– Seu monstro, você não tem vergonha de falar isso pra mim, me enganou esse tempo todo, ficava comigo e depois voltava para dormir com ela?... Eu sempre achei que você me amasse de verdade... – Paula está atônita... Parece um pesadelo, não pode ser real, como algo tão bonito não era nada mais que mentiras e traições?

– Paula, não terminei ainda, não sei como te falar mas... Aconteceu uma tragédia agora há pouco, brigamos muito, eu acabei o relacionamento, falei que queria viver com você, que nunca a amei, que o dinheiro dela poderia comprar tudo, menos meu amor. O problema é que ela estava grávida... Grávida de nove meses... Estava muito deprimida, estava na sala chorando, e eu no quarto arrumando minhas malas. Por um tempo ficou tudo em silêncio e depois um barulho estranho, o choque de alguma coisa contra o chão. Gritos em frente ao prédio, fui até o quarto e ela não estava lá. Olhei pela janela, foi quando a vi... Ela se jogou do oitavo andar.

– Que horror, Pedro. Meu Deus! Como isso aconteceu?... Você não foi até o hospital, não foi ver como ela estava?... – Paula não sabe o que pensar... Não acredita que uma mãe de nove meses faça uma coisa dessas.

– Não posso, Paula, nem pude socorrê-la, no prédio os vizinhos acham que fui eu quem a jogou lá de cima, escutavam nossas brigas e esta de hoje foi a pior de todas. Os irmãos dela estão atrás de mim, preciso fugir, vim aqui te buscar, vamos embora comigo?

– Embora pra onde, e minha família, minhas amigas... Não posso! – Paula não sabe o que pensar, sente vontade de sair com ele pelo mundo mas algo no mais íntimo do seu ser lhe diz que alguma coisa está errada. Então só vê uma saída.

– Pedro, não posso ir com você, preciso pensar, não podemos sair assim sem ter pra onde ir. Você arruma tudo e volta pra me buscar.
– Paula, você tem que ir embora comigo, você também está correndo risco de vida, eles sabem de você.

– Mas eu não fiz nada, Pedro.

Os dois se abraçam, ele promete voltar amanhã. A moto sai em alta velocidade e desaparece no meio da noite.

Paula volta para o apartamento mas entra pela cozinha, só umas duas pessoas conversam enquanto abrem mais um refrigerante, nem notam sua presença. Paula vai direto para o quarto.

– Será que ele a matou? Quanto sofrimento essa mulher deve ter passado. Como ele conseguiu me enganar esse tempo todo?

Vânia entra no quarto, já estava estranhando a ausência da amiga.

– O que aconteceu, Paula?

– Preciso partir, aconteceu uma coisa horrível.

– Para onde?... O que aconteceu? – pergunta Vânia, notando que a amiga está pálida.

Paula conta para Vânia o que aconteceu, as duas se abraçam e choram...

 

Tempos depois Paula descobre que nada aconteceu com Pedro, fugiu por um tempo, voltou para sua cidade. Mas até hoje acha que foi ele quem jogou a mulher grávida do oitavo andar.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Ele está sozinho em sua enorme sala de pé-direito duplo e paredes brancas. Quadros coloridos quebram a monotonia, no canto perto da escada o bar, um de seus cantos prediletos. É ali que em suas noites solitárias gosta de tomar seu uísque com pouco gelo. Na parede perto do hall um sofá preto com almofadas coloridas e no canto da sala perto da janela descansa majestoso o piano de cauda preto. Mork passa suas noites de insônia e solidão estudando música horas a fio, ou lendo.

A noite está chegando, as noites de inverno são as mais difíceis para quem está só. A chuva caindo leve, contínua...

O telefone toca insistente, Mork atende e espera que não seja alguém querendo contratá-lo para alguma apresentação, prefere ficar em casa, sozinho e só faz consertos em teatros, faculdades e festas quando precisa muito.

Era a nova aluna, já haviam conversado, ela ligou para confirmar a primeira aula na manhã seguinte. Mork resolveu dar aulas em sua casa, talvez assim seus dias passem mais rápido.

Na manhã seguinte, ainda sonolento, pois foi dormir quase de manhã, Mork desce as escadas para abrir a porta, a nova aluna chegou.

O brilho nos olhos não esconde o nervosismo e a ansiedade do primeiro dia de aula.

Tudo está indo bem, Mork se surpreende, pois achava que a presença de outra pessoa em sua casa o incomodaria... Mas ela chegava todos dias, pontual, metódica, poucas palavras. Enquanto ela estudava, ele acompanhava de longe, no sofá da sala, com um livro nas mãos... Mas o ouvido lá no piano, por vezes ele a flagrou observando-o. Sentia seu olhar, notou que ela também o estava analisando.

 

Dois meses depois do início das aulas os dois já se entendem pelo olhar, uma nota errada, ele levanta os olhos, ela pára e recomeça de onde errou, em silêncio.

Ele já ansiava pelas horas em que passava com ela em sua casa, em seu mundo. Se antes não dormia porque a insônia não deixava agora não dorme pensando nela.

Quando Kate chega o sol entra junto pela casa, tudo brilha. Muitas vezes passavam mais que uma hora juntos, o tempo combinado, paravam de estudar e ficavam sentados no bar perto da escada, conversando. Ele não se reconhece mais, antes introspectivo, quieto, agora quer falar sobre tudo, busca assunto para não pensar que é hora de Kate ir embora.

Enquanto passa os trechos mais difíceis Mork se aproxima dela, já era quase um escravo do cheiro de anis que os cabelos dela exalavam, quando ela prendia o cabelo e deixava a nuca inteira nua, a pele branca, já imaginava beijá-la devagar na nuca, soltar seus cabelos, segurar com carinho seu rosto e tocar seus lábios sem pressa, suavemente...

 

Quando conheceu Mork, Kate o achou misterioso, triste, fechado e fascinante, sempre gostou de descobrir o que vai dentro de cada um, desvendar seus segredos. Quando começaram a conversar nos finais de tarde, Kate descobriu um homem inteligente, sensível, a presença dele a deixava confusa, sentia-se calma e excitada ao mesmo tempo.

Percebia a respiração dele ao seu lado, quando sua mão tocava a dele algo forte e inexplicável a fazia se sentir mais viva do que nunca. Ela já sabia que estava envolvida mas não sabia se toda a atenção dele com ela era amizade ou algo mais.

 

Numa tarde fria de inverno e sem sol, Mork anda pela casa, esperou o dia todo mas ela não apareceu, já está anoitecendo, se arruma e sai, vai até a casa de Kate mas ela não está, foi ao teatro. Anda pelas ruas sem entender o que pode ter acontecido, o que fez de errado, não imagina mais seus dias sem a presença dela naquela casa, sem seu sorriso, ela mudou sua vida que antes era cinza, agora se sentia vivo, adorava encher a casa com as flores do campo de que ela gostava, o vinho tinto, as frutas, a casa já tinha o perfume dela no ar...

Mork decide ir até o teatro, está lotado, então lembra que Kate comentou que gosta de sentar-se nas últimas poltronas, ele entra na sala escura, espera alguns minutos até os olhos se acostumarem com a escuridão. Mas não a encontra.

Volta pra casa, seu único refúgio e pensa viver agora da lembrança dela naquela casa.

Quando abre a porta vê a bolsa de Kate no sofá da sala e escuta do piano um dos noturnos de Chopin.

– Você precisa tomar mais cuidado, a porta estava aberta – diz Kate.

Mork corre até ela, se abraçam e nada mais é preciso ser falado, os dois se amam ali mesmo no piano. Kate veio para ficar.

 
     
 
   
           
           

 

 

Eliane Cândido
Aos poetas, aos amigos, aos anônimos, aos que gostam de serpentear por aí, aos que vêm em silêncio de madrugada, aos que navegam por páginas e páginas de palavras e imagens lindas mas que param seus olhos aqui por um momento:
Quero dizer que este espaço não tem compromisso com nada é livre e cheio de paixão, um termômetro do que sinto em cada letra e em cada imagem, aqui nada é por acaso.
Aqui estão meu corpo e alma,
um momento de paixão,
um momento de solidão,
um momento de saudade,
uma lágrima que teima em voltar, de amor, tanto amor,
momentos de silêncio, turbilhão de emoções à flor da pele
na loucura que é ser
simplesmente mulher.

http://contosdevenus.blogspot.com/