O transformista... é isso? Levantei cedinho, era um domingo. Agarrei da mão dela e fomos passear. Fazia tempo que não ia pra uma praça. Observei os velhinhos, as pombas, os milhos, os milhos, os velhinhos e as pombas. Era uma manhã de inverno. Entre um beijo e outro resolvemos comer pipoca.

O pipoqueiro me parecia ser o mais inerte dos seres deste mundo.

Cara de pipoqueiro, roupa de pipoqueiro, chapéu de pipoqueiro, carrinho de pipoqueiro, pipoca de pipoqueiro.

Até seu avental branco era um avental de pipoqueiro.

Compramos a pipoca do mais inofensivo dos seres.

Crença e desgraça.

Quando peguei a pipoca, ele me olhou com olhos que pensei serem conhecidos. Os olhos, não o olhar: olhar cínico, que não entendi.

Depois de pagar, veio na minha cabeça uma imagem: Aquele "bigode de pipoqueiro" não parecia ser um bigode de verdade. Perguntei a ela. Já suando, respondeu que nem havia reparado que o pipoqueiro tinha bigode. É, não era bigode de verdade. Com certeza era postiço. Àquela altura, eu já havia metido pra dentro da goela metade do saco de pipoca. Comecei a sentir gotas de suor escorrendo na face. Algo acontecia com meu estômago que denunciava falsidade.

Tirei da cara do pipoqueiro aquele bigode postiço. Imediatamente veio à cabeça a cara e a coragem do “fudido”. Ontem à noite ele esteve em um dos meus sonhos. Dizia petulante: "Sonhos não se roubam". Afirmou que haveria réplica. Eu não acreditei. Como veio parar no meio dessa praça? Fantasias usam bigode?

Queria dizer pro mundo que estava pressionado por aquelas imagens que se repetiam e se repetiam e se repetiam na minha imaginação. Queria explicar pros dois, ou pro "um", ou pro nada, que eu não havia roubado a fantasia deles intencionalmente. De onde vinha a certeza de que essas fantasias foram roubadas? Lembrei do filho da puta do analista que tinha jurado, de pés juntos, que todos os personagens dos meus sonhos eram eu mesmo. Que sem eles, os sonhos e não seus personagens, eu ficaria maluco de vez.

Já tremulando, percebi que alguma coisa me puxava pra baixo. Era o meu amor, minha paixão, que tremendo, suando e vomitando agarrara na minha cintura. Balbuciava apenas. Seus lábios eu li. E sobre os lábios, uma espuma esverdeada e cremosa colocava um bigode na minha amada. E entre dentes cerrados tentava dizer que não tinha culpa das minhas loucuras. Que não podia ser punida pelas coisas que eu fazia nos sonhos. (O que sabia ela dos meus sonhos?) Que não queria morrer. Por mais que se esforçasse não saía uma palavra inteira. A boca estava torta, o corpo em frenesi já não parava em pé. E o bigode lá, o falso e o espumoso.

O pipoqueiro, digo, o “fudido” olhava com ironia. Os vincos de seu rosto foram se aprofundando. Sumiram os olhos. O nariz ficava cada vez mais opaco. Mas o bigode, o maldito bigode permanecia incólume. Na praça já não se viam as pombas. Nem os velhinhos nem o milho. Haviam sido substituídos por esculturas de papel. Todas com mais de dois metros de altura e em trajes negros. Para meu desespero ornavam poeticamente com o sol vermelho, sol de inverno. A luz e as esculturas ajudavam a destacar o negro bigode postiço do agora pálido pipoqueiro.

Eu e meu amor estávamos dentro de uma instalação poética surrealista, de uma bienal de arte mórbida. E um bigode impassível nos olhava com a frieza de um matador de pombos.

Implorava ao pipoqueiro, digo, pro “fudido”. Gritei: "Ela não tem nada com isso. Ela não tem culpa das minhas loucuras... (não existem culpas no amor e na insanidade). A voz foi amainando, quase já não saía da boca. A língua ficou enorme, a razão desapareceu de vez. Parei de suar. Meu corpo e o dela começaram a espichar. O transformista ofereceu trajes pretos, de papel. Em segundos, inerte, mudo e perplexo, virei paisagem. E pombos reais me sobrevoavam.

Maldita pipoca envenenada de fantasias, de um pipoqueiro que tinha cara de pipoqueiro, roupa de pipoqueiro, carrinho de pipoqueiro, só não tinha o bigode... e eu não percebi.

 
     
 
   
           
           

 

   

Bia Rodrigues
Nasci perto de um rio. Cresci olhando montanhas e procurando pássaros. Convivo com miudezas e texturas. Choro com gestos de solidariedade. Gosto de corações mansos, olhares profundos e risos largos. Noves fora, sou quieta. Quase sempre, sou feliz.

   
           
   

William Martani
Paulistano, 52 anos, matemático, joga e brinca irresponsavelmente com cores, joga e brinca afetivamente com palavras (pretexto: articular, no som e na disposição estética, texto e contexto), conta causos, ouve impropérios e não é causídico, inimigo marcado do mercado e seu main stream, viveu em Cuba de 73 a 79, insiste em acreditar nas utopias, não dispensa Minister e Bourbon.