I

O sol era forte no caminho que cortava casebres, rios e montanhas. O destino de João era quase que ignorado, pois era a primeira vez que ele se aventurava por aquelas terras que, diziam, abrigava pobreza e grandeza em sua população. Observava atentamente, de dentro do ônibus, aquelas pessoas de tez morena e olhares sofridos e confiantes. Sentia um certo orgulho por estar indo para aquela região, pois esperava que, com o seu trabalho, aquelas pessoas poderiam ter seu infortúnio minorado.

João era um rebelde urbano, fruto de uma geração que questionou o mundo capitalista, consumista e individualista, mas que, entretanto, não havia conseguido romper com esse mesmo mundo, apesar das diversas mudanças de comportamento que as pessoas iriam conhecer como fruto dos questionamentos dessa mesma geração. E João não suportava imaginar que sua vida se restringiria em reproduzir a vida de seus honrados e conservadores pais. Desejava ir além, num sentimento laicamente religioso de romper com o seu vivido e de construir um novo mundo, imaginário, talvez, mas real em suas intenções. Passeatas estudantis e participação política faziam parte do mundo urbano de João, da mesma forma que as angústias incontáveis deixadas em mesas de bar. Mas nessa hora, nesse momento, não conseguia pensar em suas limitações, em seu mundo urbano que estava ficando para trás. Sentia-se ávido por novas experiências e vivências.

Quando o ônibus parou na beira da rodovia e o motorista avisou que o seu destino final era ali, João respirou fundo, pegou sua sacola, sua velha bolsa de couro, reminiscência da moda em sua juventude e desceu do também velho ônibus. Sua primeira visão foi a de algumas crianças pedintes, esmolando e das paredes sujas da rodoviária. Dirigiu-se ao balcão, onde um velho negro contava o dinheiro das poucas passagens que haviam sido vendidas. Buscou conversar, como que para inteirar-se da cidade que estava à sua frente. O negro, impassível, continuava a contar o dinheiro velho e sujo e respondia laconicamente, o que obrigou João a agradecer e sair da pequena, suja e velha rodoviária. Apesar desse pequeno contratempo, João continuava acreditando que ali, naquele pequeno lugar, sua vida teria algum sentido.

Olhou a sua volta e um misto de perplexidade e temor tomou-lhe conta. Aquela realidade era completamente desconhecida de João. E seria ali, naquela pequena cidade, que o seu destino deveria desenrolar-se. Pensou na sua grande cidade de origem, onde havia vivido os seus 26 anos anteriores e pôs-se a comparar aquelas duas situações. Nas pessoas classe média de seu antigo bairro que, perto daquelas pessoas pobres e morenas, pareciam distantes no tempo e não apenas no espaço.

Mas logo, logo, os seus pensamentos se encaminharam para a igreja, grande e central, e para as pequenas casas que circundavam essa mesma igreja. De início sentiu um certo pavor, um certo medo, mas aquela nova cultura vinda da cultura sertaneja era um desafio para João.

João ainda trazia dentro de si a rebeldia que fora característica de sua juventude. Os cabelos encaracolados já não eram longos, mas a barba, rala e preta, talvez imitando o símbolo Che Guevara, ainda marcava o seu rosto. As roupas simples e baratas, que demonstravam um certo desleixo com a aparência, também simbolizavam um tempo e um modo simples de encarar a vida. A tez clara e os olhos verdes davam o diferencial de João naquela região.

Sentindo o vento bater-lhe e refrescar-lhe a face, João adentrou as ruelas da pequena cidade e procurou um local onde pudesse abrigar-se. Reparou nas ruas antigas e nos sobrados caiados e coloridos, uma cidade que poderia conter sonhos, alegrias e decepções. Perguntou a algumas pessoas com quem cruzou pelas ruas, sobre um hotel ou algo que o valha. Ficou sabendo que a única pousada situava-se numa pequena casinha, pintada na cor vermelha, quase na beira da rodovia que cortava a cidadezinha. Ao chegar, deparou-se com uma casa humilde, com retratos colorizados e com antigas molduras. O chão, de piso de cimento “amarelão”, contrastava com o vermelho da pintura externa da casa mas, talvez, combinasse com o rosa das paredes internas e davam um clima simples e simpático para aquela casa. Flores, em vasos de cerâmica típicos da região, completavam a casa de dona Vitória. Sim, era esse o nome daquela que o hospedaria.

De início, João já sentiu uma enorme simpatia por aquela senhora de seus 60 anos e que sempre usava um lenço colorido na cabeça. Tinha um linguajar característico das pessoas antigas da região, gostava de contar casos e era uma pessoa aberta a todas as novidades. Também gostou de seu novo inquilino e, desde esse dia, começaria a preparar pratos típicos e deliciosos para as refeições de João.

O quarto era pequeno e acanhado, mas João já começava a sentir uma ponta de orgulho e desafio. Tomou um banho quente, deitou e adormeceu num sono tão profundo que somente acordou no dia seguinte, antes de o sol nascer, e os primeiros feirantes começavam a chegar na cidade para expor e vender seus alimentos e artesanatos.

Tudo aquilo era uma novidade para João. Homens, mulheres e crianças chegavam das suas roças em ônibus, de caronas em caminhonetes ou no lombo de animais, como cavalos e jegues. Alguns chegavam a pé e iam acomodando as suas mercadorias. Começava a amanhecer e a principal rua da pequena cidade tornava-se um formigueiro humano, com as pessoas indo atrás da sobrevivência nas vendas dos alimentos que haviam plantado com tanto sacrifício.

Vila Pequena era muito pobre e seus moradores do campo, aqueles que viviam na e da roça, eram pessoas muito sofridas, apesar de não perderem a dignidade e a altivez que os caracterizava.

Chapéu de couro e sandálias de dedo eram uma marca dos homens, além, é claro, da pele morena curtida pelo sol que envelhecia as pessoas, fazendo com que elas aparentassem ter muito mais idade do que tinham. As mulheres, de feições e de uma pele morena muito bonita, também eram castigadas pela pobreza. As roupas aproximavam aquelas pessoas dos moradores das cidades, pois a presença do jeans e das camisetas, muitas com frases em incompreensível inglês, eram comuns, apesar de puídas e encardidas pelo trabalho, a poeira e o tempo.

João percorria a feira, já com transeuntes e compradores, maravilhado com a variedade de alimentos naquela terra de clima ameno e de pessoas pobres. Perguntou preços, conversou, procurou conhecer melhor aquelas pessoas. Era o seu batismo em seu novo mundo.

Vila Pequena era uma cidade bonita e bem-cuidada, apesar das ruas morro acima que circundavam a cidade. Não faltava, é claro, a igreja e a praça central, que tinha o nome de Praça das Águas Marinhas, em homenagem às muitas pedras preciosas que eram garimpadas naquela cidade. Uma televisão, instalada numa torre no meio da praça, procurava dar um ar de modernidade para aquele lugar onde não chegavam os jornais editados nas grandes cidades e de que João tanta falta sentia. Ele temia que a falta desses jornais fizesse com que se alienasse do mundo. As notícias, suas companheiras para conhecer as tragédias mundo afora, agora seriam restritas ao seu mundinho. Mas logo João ouviu a tradicional música do Jornal Nacional e descobriu que, mesmo no seu isolamento, os laços coloridos da televisão criavam um anel invisível entre as pessoas daquele lugar e o seu mundo de cidade grande.

Morro acima, havia um amontoado de casebres que contrastavam com as escassas casas muito bonitas que também eram avistadas. O posto de correio, dirigido por uma mulher que nos seus trinta anos de serviços lambia os selos de todas as cartas para afixá-los, era pequeno e vizinho do posto telefônico público. No posto de telefone, um garoto ficava de sobreaviso, pois em troca de gorjetas, ia nas casas chamar as pessoas quando o telefone, via telefonista, recebia alguma chamada para algum morador. Ah! João, que havia nascido em casa com telefone, TV e geladeira conhecia uma realidade que, em verdade também sempre foi sua, pois a solidariedade fazia com que se sentisse irmanado daquele mundo mesmo quando não havia a sua presença física.

Um cinema amplo, na principal rua da cidade, chamava a atenção. O dono do cinema era um antigo metalúrgico de Belo Horizonte que havia largado sua profissão e com o fundo de garantia montara o cinema, apaixonado que era pela sétima arte. Era uma cena um tanto quanto surrealista aquele grande cinema, quase sempre entregue às moscas, naquela pequena cidade. Para sobreviver, o ex-metalúrgico cinéfilo instalou um alto-falante na frente de seu estabelecimento e cobrava pelo serviço de transmitir notícias. Era a rádio e o jornal da cidade.

Alguns serviços públicos, de qualidade duvidosa, mantinham escritório na cidade, buscando amenizar a dor da pobreza. As escolas abrigavam os meninos e o padre Leonardo passeava e trabalhava montado em sua bicicleta ou mesmo usando o cavalo como meio de transporte para confortar almas nas vilas rurais afastadas do centro urbano. O clima de Vila Pequena era ameno e mesmo chuvoso para aquela região de clima árido e seco. Era nesse cenário que João iria transitar.

 

II

 

O dia já havia caído e João entrou num bar. Era aconchegante, com artesanatos regionais enfeitando as paredes. Sentou-se no banquinho do balcão e foi servido por uma mulher, de nome Marli, que era a proprietária do bar. Começava a conhecer, naquele momento, diversas pessoas que seriam seus amigos de “copo e de cruz”. Amigos de bar, sonhos, alegrias e tristezas.

Quantos desses amigos não havia deixado João mundo afora, apesar de ser ainda bastante jovem. Quantas vezes não havia planejado e jurado mudar o mundo, na sua inocência juvenil. Quantas vezes, em quantos bares, não sonhou estar naquele lugar onde hoje estava, no meio de gente simples mas que, na inocência de João, carregava a esperança de um mundo melhor. Sim, esperança religiosa que João dizia não mais possuir, mas que era nítida em todas as suas ações.

Ainda no balcão do bar da Marli, notou a presença de um homem negro, ao seu lado, que vendia alguns exemplares de um livro de poesia. Eram poesias regionais, bonitas, e o homem era o autor do livro. Conversaram e foi então que o homem apresentou-lhe uma moça que havia adentrado o bar. João bebeu algumas cervejas, talvez para disfarçar a timidez que existia no fundo de sua alma e sentou-se numa mesa com ela. Ali começaria uma grande aventura de amizade e paixão. Sincera, como talvez era o próprio João, mas também tortuosa, como era a sua vida.

Luzia era professora na cidade e era uma pessoa com a rebeldia escrita em seu belo e meigo rosto. Cabelos curtos e pele morena, Luzia era alta e contrastava com João que era de estatura mediana. Conversaram sobre a região, suas belezas e seus problemas. João começava a gostar de Vila Pequena. A cidade, que em princípio parecia triste, ganhava novos ares.

A noitada prolongou-se e com a madrugada já bem definida, João despediu-se, um pouco eufórico de sua nova amiga e caminhou para a sua casa vermelha, onde iria dormir um sono tranqüilo. E João sonhou, pois sonhos nunca lhe faltaram, mesmo quando a vida insistia em dizer-lhe não. Mesmo quando a vida negava-lhe o mínimo de felicidade, João sonhava.

Um banho quente e um bom café, preparado por dona Vitória, já tarde da manhã, recuperou João de sua primeira noitada. Saiu para a rua olhando as casas e defrontou-se com a sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Vila Pequena. João, que era economista de profissão, ainda recente é verdade, estava ali para trabalhar numa região de conflitos de terras, e sua missão era negociar e viabilizar assentamentos de trabalhadores do campo.

Trabalhava para um órgão público, o que lhe trazia certo conforto e certa ironia. Pensava: “Logo eu que tanto combati o governo dos poderosos sou aqui um representante desse governo”. Mas estava certo de que não teria uma posição de neutralidade em relação aos conflitos existentes, pois o seu sonho de transformar o mundo era o seu combustível de vida, a sua utopia. João, inclusive, na solidão de suas noites, muitas vezes pensava em qual seria o sentido de sua vida se não fosse seu idealismo, sua vontade de combater as injustiças sociais, mesmo que, às vezes, o desespero pessoal o levasse a questionar o sentido da própria vida e dessas mudanças sociais.

Quantas vezes não havia perguntado a si próprio se o socialismo – seu sonho, utopia, religião e amor – resolveria os seus problemas, mesmo tendo certeza de que resolveria os problemas de todas as outras pessoas. Lembrava, com freqüência, de um belo filme italiano, do qual não sabia mais o título, em que a figura central – Marcelo Mastroiani, que fazia o papel de um militante comunista apaixonado e não correspondido por uma bela moça, Maria, representada por Sofia Loren – ia a uma manifestação, carregando uma bandeira vermelha, mas perguntando aos “companheiros” se quando o comunismo chegasse à Itália a Maria iria para os seus braços. Essas dúvidas entre o sujeito e a sociedade, entre o desejo e a razão, assaltavam-lhe o pensamento rotineiramente. Talvez nem mais acreditasse na possibilidade da felicidade, mas acreditava, e buscava, em alguma razão para viver. Mesmo duvidando da própria razão. Mas mesmo quando suas certezas estavam abaladas, João procurava manter os seus sonhos intactos.

Luzia, altiva e firme nas suas convicções, pregava a mudança social e gostava de fazer e discutir política. Idealista, mesmo que provinciana, gostava de enumerar as injustiças do mundo, mesmo que seu mundo se restringisse a sua cidade. Gostava de assinalar as tragédias da pobreza, mesmo pertencendo a uma das famílias mais abastadas de Vila Pequena. Gostava de falar das carências, mesmo sendo desejada. Gostava de contestar, mesmo quando era contestada.

Essas posições eram criticadas pela sua família, que achava que aquilo era uma “bestagem”, como dizia o povo dali, pois desde que o mundo era mundo as diferenças sempre existiram e iriam existir. Mas, talvez já acostumados pelos novos e liberais ventos democráticos, aceitavam os questionamentos e diziam que era coisa de jovem. Afinal, tudo passa. Mas Luzia continuava a lutar pelos direitos dos “explorados” e por seus sonhos.

Membro de uma família tradicional no município, família esta dona de terras e prestígio, o sobrenome Luas era conhecido não só naquela cidade como em toda a região. Latifundiários há muitas gerações, os Luas viam seu prestígio declinar com a modernização que começava a chegar em Vila Pequena. Havia até alguns paulistas comprando terras naquele lugar e diziam que iriam levar a agroindústria ao campo de Vila Pequena, o que atemorizava os fazendeiros tradicionais. Essa história incomodava aos membros da família Luas, apesar de que os novos hábitos começavam a chegar aos mais novos e, até, aos mais velhos, influenciados, principalmente, pela televisão, que se constituía na mais poderosa diversão de Vila Pequena. Por isso, as idéias de Luzia, a filha mais nova entre seis irmãos, eram questionadas mas aceitas.

As terras dos Luas eram usadas majoritariamente para pasto de umas poucas cabeças de gado que ainda restavam. Mas a extensão da terra era imensa, o que ainda dava àquela família uma aura de prestígio social e econômico, apesar do evidente declínio que começava a chegar para aquela família. Uma nascente classe média, concentrada no comércio que despontava com o primeiro supermercado da região, já desbancava o prestígio dos Luas.

Além do mais, a história, já comentada na cidade, de que uma empresa paulista iria comprar-lhe as terras para implantar uma agroindústria, começava a dar um ar de decadência àquela família que vivia do prestígio e da extensão das terras. Mas um novo mundo, que começava a ser novo mesmo em Vila Pequena, fazia com que a grande placa do supermercado tampasse, pelo menos para os moradores da cidade, as terras dos Luas. Parecia ser o eclipse do poder da família tradicional vilapequenense.

 

III

 

Quando se preparava para tomar o seu café vespertino, João foi procurado por alguns homens. Tez morena, roupas simples, apresentaram-se e disseram ser ligados ao sindicato de trabalhadores rurais de Vila Pequena. Iniciaram conversa, como que querendo conhecer melhor o novo hóspede da cidade e, quando veio a confiança, expuseram para João que seria realizado um ato público pela reforma agrária e que, quem sabe, o João poderia estar presente, já que, agora já sabiam, estava naquele município para resolver problemas ligados à terra. João, como não poderia ser diferente, prontamente aceitou e dirigiu-se, junto com os sindicalistas, à sede do sindicato para discutir os detalhes da manifestação. Seria um ato grande, imaginou João, capaz de “conscientizar” as pessoas para a importância da distribuição de terras. Como sempre, João recomeçava a sonhar.

O ato contaria com o apoio das irmãs de caridade que moravam no município e que inclusive já estavam na roças convocando o povo. João, ao saber desse fato, sentiu enorme curiosidade, pois a sua idéia acerca das irmãs de caridade ainda remontava a imagem de beatas de longos vestidos pretos e véus cobrindo a cabeça.

Foi assim que mal esperou as irmãs chegarem da roça e fez-lhes uma visita. Irmã Rosa tinha ascendência alemã e era alta e loura. Nascida e criada no Rio Grande do Sul, era filha de pequenos produtores de uva da região serrana. Irmã Isaura era filha do Nordeste, da Bahia, era negra e havia passado grandes dificuldades na vida, sendo criança de rua em Salvador. Ambas usavam camisetas com inscrições de defesa da reforma agrária. Interessante, pensava João, como ali na sua frente apresentavam-se duas mulheres que carregavam as marcas de suas origens. Era o contraste que representava quase um estereótipo de duas brasileiras de diferentes regiões e que se encontravam naquele pedaço de “fim de mundo”.

Apesar das tentativas de João, Rosa e Isaura não queriam conversar muito acerca de suas vidas. Estavam mais preocupadas em organizar o ato público que, na leitura que ambas faziam da Bíblia, era um ato quase religioso no qual Deus concebia sua fome de justiça na terra. Explicaram que já haviam conseguido permissão do bispo da diocese para se envolverem na atividade pela reforma agrária. Explicavam que a Igreja, agora na defesa dos pobres e humildes, daria todo o apoio ao ato. João não conseguia esconder sua surpresa de conhecer pessoas religiosas tão envolvidas na ação política. Combinaram que se encontrariam no dia seguinte pela manhã no sindicato.

Antes de ir embora passou na sede do sindicato e presenciou um fato que marcaria a sua vida e que precipitaria os acontecimentos que se desenrolaram posteriormente. Encontrando a porta semicerrada, João abriu-a devagar e encontrou o Antônio, diretor do sindicato, chorando num canto. Em seus braços estava sua pequena filha, Fátima, a quarta de uma família de sete, agonizante. Os médicos haviam desenganado a menina que estava internada havia uma semana e deram-lhe alta para que ela falecesse em casa, junto dos seus familiares. A causa era a desnutrição e diversas outras doenças causadas pela pobreza. Mas a criança não conseguiria chegar na sua roça, para morrer em casa. João ainda viu a criança dar o seu último adeus e falecer. Um sentimento de profunda tristeza se abateu sobre ele, que ainda viu a raiva que tomou conta de Antônio, que jurou que as coisas mudariam em Vila Pequena em um curto espaço de tempo.

 

IV

 

Alguns dias depois, João acordou com um estranho pressentimento. Depois de tomar banho e colocar seu surrado jeans, ele foi tomar café. Enquanto fazia o seu lanche, ouviu uma notícia no rádio que o deixou apreensivo. Dizia o radialista que, durante a noite, comandados por Antônio do Sindicato, como era conhecido, trabalhadores do campo de Vila Pequena haviam ocupado uma área que, legalmente, pertencia à família Luas. João apressou-se em procurar Luzia. Ainda era cedo, e ele teve de ir à escola onde Luzia lecionava para perguntar-lhe se ela já sabia do fato.

Luzia também se assustou. Imediatamente encaminhou-se ao sindicato de trabalhadores de Vila Pequena, mas encontrou as suas portas fechadas. Apesar das terras ocupadas serem terras de sua família, Luzia levantou a cabeça, altiva e rebelde como sempre, passou as mãos em seus curtos cabelos e disse para João que não restava outra alternativa para ela a não ser apoiar a ocupação dos trabalhadores, sendo assim coerente com as suas idéias. Mas não deixava de ficar apreensiva, pois, para ela, o atrito familiar assumiria proporções incontroláveis. A liberalidade da família talvez se restringisse na libertinagem da televisão. Negociar perda de bens, valores e propriedades era demais para os Luas.

Procuraram as irmãs Rosa e Isaura, que também estavam surpresas e apreensivas. Não entendiam como aquela ação poderia ter passado desapercebida delas. João explicou que a decisão havia sido tomada em um momento de forte abalo emocional de Antônio do Sindicato. De qualquer forma, elas estavam firmemente dispostas a apoiar os trabalhadores e já pensavam até em mudar o ato público pela reforma agrária para um ato público a favor da ocupação das terras dos Luas. Principalmente porque a morte da criança havia, também, abalado emocionalmente as irmãs.

João estava feliz. Verdadeiramente feliz. Pela primeira vez sentia que a sua luta e o seu compromisso estavam se materializando, bem à sua frente, e por isso, maximizava aquela situação. Seus sonhos de bares urbanos agora pareciam tornar-se verdadeiros. Cinéfilo, lembrou-se de alguns filmes, outra das paixões de João. Quem sabe Sacco e Vanzetti, anarquistas condenados à morte nos EUA e magistralmente mostrados nas telas do cinema, que ao fim do filme diziam que poderiam matar a eles mas não suas idéias, estivessem sendo vingados naquele momento. Quem sabe as greves de Os companheiros agora tivessem um final feliz. Quem sabe. Quem sabe.

 

V

 

O alto-falante do cinema noticiava a ocupação. As pessoas da cidade só comentavam aquele assunto. Para as pessoas comuns, o assumir-se contra ou a favor era um ato sem maiores conseqüências, já que essa discussão ficava nas casas ou nos bares. Era, na verdade, um acontecimento importante naquela cidade de poucas novidades. Inclusive a imprensa já estava começando a chegar na cidade. “Até a Rede Globo”, diziam alguns mais eufóricos. O dono do cinema até planejou fazer uma entrevista “ao vivo” com alguns jornalistas no seu alto-falante. O padre continuava a passear e trabalhar em sua bicicleta e dizia que o problema dele era salvar almas, mas na verdade estava apreensivo com a situação.

Mas os Luas já haviam começado a sua mobilização política e jurídica. Deputados “da região” e caros advogados haviam sido contatados. Os advogados exigiam que o Estado de Direito fosse respeitado. Alegavam que reconheciam o problema social, mas que não caberia aos Luas assumi-lo. Os deputados locais diziam que a democracia só existia onde o direito de propriedade fosse garantido. João sentia-se pressionado, pois trabalhava em uma “instituição pública”, e os deputados começavam a apertar o próprio governador. Mas estava decidido a continuar apoiando os ocupantes da terra improdutiva. E assim, procurou novamente as irmãs.

Ao chegar na casa delas reparou que um misto de revolta, apreensão e tristeza tomava conta das irmãs Rosa e Isaura. João sentiu que estava perdendo duas grandes aliadas. Procurou saber o que estava ocorrendo. As irmãs contaram-lhe que haviam recebido um telefonema do bispo proibindo-lhes de participar de quaisquer ações relativas à ocupação da fazenda dos Luas. Inclusive, estavam sendo transferidas de imediato, em caráter temporário, para uma outra cidade, distante de Vila Pequena. Passaram as faixas, já prontas, do “Ato de Apoio à Ocupação” para João e pediram-lhe para dar aos trabalhadores o apoio que elas não poderiam dar.

João viu as irmãs indo embora ao cair da tarde, num carro pertencente à diocese. Mas jurou: suas ações dali por diante equivaleriam a de três.

Subiu no morro mais alto que rodeava Vila Pequena para uma reflexão e, para sua surpresa, avistou ao longe uma desgastada bandeira em um longo mastro de bambu. Fixou melhor a vista e descobriu que do alto daquele morro avistava parte das terras ocupadas. Sentiu o coração disparar e novamente uma alegria inefável tomou-lhe conta do corpo e da mente. Naquele momento João viu dissipar-se todas as suas dúvidas e todas as suas contradições. Aquela vista, bela vista, era para ele o começo de um mundo novo. Fechou os olhos e enxergou, nitidamente, bandeiras em todos os recantos, em todas as montanhas, em toda a cidade de Vila Pequena. Viu Antônio acenar-lhe de longe, dizendo que não poderia ir ao seu encontro, pois teria de levar sua pequena filha Fátima para a escola, para a boa escola que existia ali. Pensou em Luzia, professora, sonhadora e, por que não, companheira. No seu sonho de olhos fechados, viu Luzia se aproximar e beijar-lhe a boca, a tocar-lhe seu corpo, a fazer amor ali no alto do morro. Viu cooperativas, viu a igualdade, a liberdade, o amor, o sexo. Até pensou que a vida era possível na sua plenitude.

 

VI

 

O éter da montanha ainda não havia dissipado quando João procurou Luzia. Queria contar a ela o seu sonho. Porém não conseguia encontrá-la. A realidade começava a voltar para João. Perguntou por Luzia para os conhecidos na rua, mas estes não tinham notícias da moça. Mas tinham outras notícias. Conforme o alto-falante e a televisão haviam anunciado, o juiz da comarca considerara a ocupação ilegal e o batalhão de polícia da cidade mais próxima já estava preparado para retirar os invasores, se estes resistissem à ordem judicial.

Como não conseguia encontrar Luzia, João foi ao Posto telefônico e ligou para a casa dos Luas. Foi informado de que Luzia havia viajado. Tirado umas férias, pois estava esgotada dos nervos. João não conseguia acreditar. Procurou outros amigos e estes confirmaram a viagem de Luzia. Informaram que ela estava passando por momentos difíceis e que acabara cedendo à proposta da família e de amigos de se retirar de Vila Pequena por uns dias. A euforia de João começava a desvanecer-se e um sentimento de solidão, tão presente em sua vida pregressa, novamente tomava conta de sua alma. Dirigiu-se ao bar mais próximo, bebeu cachaça e saiu embriagado de tristeza e impotência.

Foi até o seu quarto de hotel e pegou as faixas com dizeres favoráveis à ocupação das terras. Levou-as até a praça principal da cidade e num ato solitário e solidário, abriu-as no chão. Pegou um graveto e escreveu na poeira, que tomava conta de parte da praça, o nome da menina Fátima debaixo de uma das faixas. O orgulho e o prazer novamente encheram-lhe o coração, apesar de consciente da efemeridade desses sentimentos. As pessoas juntavam em volta. Vieram o padre e o prefeito. Todos olhavam, sem dizer nenhuma palavra.

João olhou para a rodovia e viu passando diversos caminhões com soldados prontos para fazer cumprir a ordem judicial. João sentiu-se novamente impotente. As famílias ocupantes tinham decidido, provisoriamente, desocupar a área. João pensou nas pessoas que ocupavam aquelas terras, na bandeira vermelha, nas irmãs, no sindicato, em Luzia. Sim, aquele era o mundo pequeno, tal qual era Vila Pequena, que João, orgulhosamente, havia conseguido construir em Vila Pequena.

 

VII

 

A terra estava desocupada. Os donos alegaram que era produtiva a terra de pasto. Mas já negociavam com os paulistas a venda da terra. Antônio fora preso, mas estava em liberdade provisória. Outros sindicatos haviam providenciado um advogado para defendê-lo. A repercussão do fato trouxe também o problema social das famílias pobres de Vila Pequena. A imprensa já começava a mostrar a situação de calamidade social de Vila Pequena. Talvez Antônio até virasse, quem sabe, vereador.

João voltou a olhar para Vila Pequena. Seria a última vez em muitos anos. Sabia disso. Viu a igreja, as ruas morro acima, o cinema que agora tocava uma música e não mais noticiava a ocupação das terras dos Luas. A vida voltava ao normal naquela pequena cidade. Enfiou a mão no bolso da calça e tirou um papel amassado. Nele estava escrito o endereço e o telefone dos Luas. Ironicamente, era o endereço dos decadentes donos de terras que ele levava com carinho. Sim, pois aquele era o endereço de Luzia.

Pegou a sua sacola, foi para a beira da rodovia esperar o ônibus. Fazia calor e João estava só. Sentindo-se solitário, nem se despediu dos amigos que deixava em Vila Pequena. Estava só e a melancolia invadia-lhe todo o seu ser. Entrou no velho ônibus que o levaria de volta para o seu mundo de cidade grande.

João recostou-se na cadeira. Levava muitas marcas dessa sua estada. Como uma sina, sabia que novamente iria recomeçar seus sonhos em outro lugar. Sempre recomeçar. Sempre.

 
     
 
   
           
           
   

Antonio Julio de Menezes Neto
Nasceu em setembro de 1956. É sociólogo, mestre em extensão rural e doutor em educação. Professor na Faculdade de Educação da UFMG, desenvolve pesquisas acerca dos movimentos sociais no campo. Para quebrar a sisudez da linguagem acadêmica, escreve contos. Esses contos possuem fortes cores políticas e existenciais e quase sempre são baseados na sua vivência.