O sol era forte no caminho que cortava casebres, rios e montanhas. O
destino de João era quase que ignorado, pois era a primeira vez que
ele se aventurava por aquelas terras que, diziam, abrigava pobreza e
grandeza em sua população. Observava atentamente, de dentro do
ônibus, aquelas pessoas de tez morena e olhares sofridos e
confiantes. Sentia um certo orgulho por estar indo para aquela
região, pois esperava que, com o seu trabalho, aquelas pessoas
poderiam ter seu infortúnio minorado.
João era um rebelde urbano, fruto de uma geração que questionou o
mundo capitalista, consumista e individualista, mas que, entretanto,
não havia conseguido romper com esse mesmo mundo, apesar das
diversas mudanças de comportamento que as pessoas iriam conhecer
como fruto dos questionamentos dessa mesma geração. E João não
suportava imaginar que sua vida se restringiria em reproduzir a vida
de seus honrados e conservadores pais. Desejava ir além, num
sentimento laicamente religioso de romper com o seu vivido e de
construir um novo mundo, imaginário, talvez, mas real em suas
intenções. Passeatas estudantis e participação política faziam parte
do mundo urbano de João, da mesma forma que as angústias incontáveis
deixadas em mesas de bar. Mas nessa hora, nesse momento, não
conseguia pensar em suas limitações, em seu mundo urbano que estava
ficando para trás. Sentia-se ávido por novas experiências e
vivências.
Quando o ônibus parou na beira da rodovia e o motorista avisou que o
seu destino final era ali, João respirou fundo, pegou sua sacola,
sua velha bolsa de couro, reminiscência da moda em sua juventude e
desceu do também velho ônibus. Sua primeira visão foi a de algumas
crianças pedintes, esmolando e das paredes sujas da rodoviária.
Dirigiu-se ao balcão, onde um velho negro contava o dinheiro das
poucas passagens que haviam sido vendidas. Buscou conversar, como
que para inteirar-se da cidade que estava à sua frente. O negro,
impassível, continuava a contar o dinheiro velho e sujo e respondia
laconicamente, o que obrigou João a agradecer e sair da pequena,
suja e velha rodoviária. Apesar desse pequeno contratempo, João
continuava acreditando que ali, naquele pequeno lugar, sua vida
teria algum sentido.
Olhou a sua volta e um misto de perplexidade e temor tomou-lhe
conta. Aquela realidade era completamente desconhecida de João. E
seria ali, naquela pequena cidade, que o seu destino deveria
desenrolar-se. Pensou na sua grande cidade de origem, onde havia
vivido os seus 26 anos anteriores e pôs-se a comparar aquelas duas
situações. Nas pessoas classe média de seu antigo bairro que, perto
daquelas pessoas pobres e morenas, pareciam distantes no tempo e não
apenas no espaço.
Mas logo, logo, os seus pensamentos se encaminharam para a igreja,
grande e central, e para as pequenas casas que circundavam essa
mesma igreja. De início sentiu um certo pavor, um certo medo, mas
aquela nova cultura vinda da cultura sertaneja era um desafio para
João.
João ainda trazia dentro de si a rebeldia que fora característica de
sua juventude. Os cabelos encaracolados já não eram longos, mas a
barba, rala e preta, talvez imitando o símbolo Che Guevara, ainda
marcava o seu rosto. As roupas simples e baratas, que demonstravam
um certo desleixo com a aparência, também simbolizavam um tempo e um
modo simples de encarar a vida. A tez clara e os olhos verdes davam
o diferencial de João naquela região.
Sentindo o vento bater-lhe e refrescar-lhe a face, João adentrou as
ruelas da pequena cidade e procurou um local onde pudesse
abrigar-se. Reparou nas ruas antigas e nos sobrados caiados e
coloridos, uma cidade que poderia conter sonhos, alegrias e
decepções. Perguntou a algumas pessoas com quem cruzou pelas ruas,
sobre um hotel ou algo que o valha. Ficou sabendo que a única
pousada situava-se numa pequena casinha, pintada na cor vermelha,
quase na beira da rodovia que cortava a cidadezinha. Ao chegar,
deparou-se com uma casa humilde, com retratos colorizados e com
antigas molduras. O chão, de piso de cimento “amarelão”, contrastava
com o vermelho da pintura externa da casa mas, talvez, combinasse
com o rosa das paredes internas e davam um clima simples e simpático
para aquela casa. Flores, em vasos de cerâmica típicos da região,
completavam a casa de dona Vitória. Sim, era esse o nome daquela que
o hospedaria.
De início, João já sentiu uma enorme simpatia por aquela senhora de
seus 60 anos e que sempre usava um lenço colorido na cabeça. Tinha
um linguajar característico das pessoas antigas da região, gostava
de contar casos e era uma pessoa aberta a todas as novidades. Também
gostou de seu novo inquilino e, desde esse dia, começaria a preparar
pratos típicos e deliciosos para as refeições de João.
O quarto era pequeno e acanhado, mas João já começava a sentir uma
ponta de orgulho e desafio. Tomou um banho quente, deitou e
adormeceu num sono tão profundo que somente acordou no dia seguinte,
antes de o sol nascer, e os primeiros feirantes começavam a chegar
na cidade para expor e vender seus alimentos e artesanatos.
Tudo aquilo era uma novidade para João. Homens, mulheres e crianças
chegavam das suas roças em ônibus, de caronas em caminhonetes ou no
lombo de animais, como cavalos e jegues. Alguns chegavam a pé e iam
acomodando as suas mercadorias. Começava a amanhecer e a principal
rua da pequena cidade tornava-se um formigueiro humano, com as
pessoas indo atrás da sobrevivência nas vendas dos alimentos que
haviam plantado com tanto sacrifício.
Vila Pequena era muito pobre e seus moradores do campo, aqueles que
viviam na e da roça, eram pessoas muito sofridas, apesar de não
perderem a dignidade e a altivez que os caracterizava.
Chapéu de couro e sandálias de dedo eram uma marca dos homens, além,
é claro, da pele morena curtida pelo sol que envelhecia as pessoas,
fazendo com que elas aparentassem ter muito mais idade do que
tinham. As mulheres, de feições e de uma pele morena muito bonita,
também eram castigadas pela pobreza. As roupas aproximavam aquelas
pessoas dos moradores das cidades, pois a presença do jeans e das
camisetas, muitas com frases em incompreensível inglês, eram comuns,
apesar de puídas e encardidas pelo trabalho, a poeira e o tempo.
João percorria a feira, já com transeuntes e compradores,
maravilhado com a variedade de alimentos naquela terra de clima
ameno e de pessoas pobres. Perguntou preços, conversou, procurou
conhecer melhor aquelas pessoas. Era o seu batismo em seu novo
mundo.
Vila Pequena era uma cidade bonita e bem-cuidada, apesar das ruas
morro acima que circundavam a cidade. Não faltava, é claro, a igreja
e a praça central, que tinha o nome de Praça das Águas Marinhas, em
homenagem às muitas pedras preciosas que eram garimpadas naquela
cidade. Uma televisão, instalada numa torre no meio da praça,
procurava dar um ar de modernidade para aquele lugar onde não
chegavam os jornais editados nas grandes cidades e de que João tanta
falta sentia. Ele temia que a falta desses jornais fizesse com que
se alienasse do mundo. As notícias, suas companheiras para conhecer
as tragédias mundo afora, agora seriam restritas ao seu mundinho.
Mas logo João ouviu a tradicional música do Jornal Nacional e
descobriu que, mesmo no seu isolamento, os laços coloridos da
televisão criavam um anel invisível entre as pessoas daquele lugar e
o seu mundo de cidade grande.
Morro acima, havia um amontoado de casebres que contrastavam com as
escassas casas muito bonitas que também eram avistadas. O posto de
correio, dirigido por uma mulher que nos seus trinta anos de
serviços lambia os selos de todas as cartas para afixá-los, era
pequeno e vizinho do posto telefônico público. No posto de telefone,
um garoto ficava de sobreaviso, pois em troca de gorjetas, ia nas
casas chamar as pessoas quando o telefone, via telefonista, recebia
alguma chamada para algum morador. Ah! João, que havia nascido em
casa com telefone, TV e geladeira conhecia uma realidade que, em
verdade também sempre foi sua, pois a solidariedade fazia com que se
sentisse irmanado daquele mundo mesmo quando não havia a sua
presença física.
Um cinema amplo, na principal rua da cidade, chamava a atenção. O
dono do cinema era um antigo metalúrgico de Belo Horizonte que havia
largado sua profissão e com o fundo de garantia montara o cinema,
apaixonado que era pela sétima arte. Era uma cena um tanto quanto
surrealista aquele grande cinema, quase sempre entregue às moscas,
naquela pequena cidade. Para sobreviver, o ex-metalúrgico cinéfilo
instalou um alto-falante na frente de seu estabelecimento e cobrava
pelo serviço de transmitir notícias. Era a rádio e o jornal da
cidade.
Alguns serviços públicos, de qualidade duvidosa, mantinham
escritório na cidade, buscando amenizar a dor da pobreza. As escolas
abrigavam os meninos e o padre Leonardo passeava e trabalhava
montado em sua bicicleta ou mesmo usando o cavalo como meio de
transporte para confortar almas nas vilas rurais afastadas do centro
urbano. O clima de Vila Pequena era ameno e mesmo chuvoso para
aquela região de clima árido e seco. Era nesse cenário que João iria
transitar.
II
O dia já havia caído e João entrou num bar. Era aconchegante, com
artesanatos regionais enfeitando as paredes. Sentou-se no banquinho
do balcão e foi servido por uma mulher, de nome Marli, que era a
proprietária do bar. Começava a conhecer, naquele momento, diversas
pessoas que seriam seus amigos de “copo e de cruz”. Amigos de bar,
sonhos, alegrias e tristezas.
Quantos desses amigos não havia deixado João mundo afora, apesar de
ser ainda bastante jovem. Quantas vezes não havia planejado e jurado
mudar o mundo, na sua inocência juvenil. Quantas vezes, em quantos
bares, não sonhou estar naquele lugar onde hoje estava, no meio de
gente simples mas que, na inocência de João, carregava a esperança
de um mundo melhor. Sim, esperança religiosa que João dizia não mais
possuir, mas que era nítida em todas as suas ações.
Ainda no balcão do bar da Marli, notou a presença de um homem negro,
ao seu lado, que vendia alguns exemplares de um livro de poesia.
Eram poesias regionais, bonitas, e o homem era o autor do livro.
Conversaram e foi então que o homem apresentou-lhe uma moça que
havia adentrado o bar. João bebeu algumas cervejas, talvez para
disfarçar a timidez que existia no fundo de sua alma e sentou-se
numa mesa com ela. Ali começaria uma grande aventura de amizade e
paixão. Sincera, como talvez era o próprio João, mas também
tortuosa, como era a sua vida.
Luzia era professora na cidade e era uma pessoa com a rebeldia
escrita em seu belo e meigo rosto. Cabelos curtos e pele morena,
Luzia era alta e contrastava com João que era de estatura mediana.
Conversaram sobre a região, suas belezas e seus problemas. João
começava a gostar de Vila Pequena. A cidade, que em princípio
parecia triste, ganhava novos ares.
A noitada prolongou-se e com a madrugada já bem definida, João
despediu-se, um pouco eufórico de sua nova amiga e caminhou para a
sua casa vermelha, onde iria dormir um sono tranqüilo. E João
sonhou, pois sonhos nunca lhe faltaram, mesmo quando a vida insistia
em dizer-lhe não. Mesmo quando a vida negava-lhe o mínimo de
felicidade, João sonhava.
Um banho quente e um bom café, preparado por dona Vitória, já tarde
da manhã, recuperou João de sua primeira noitada. Saiu para a rua
olhando as casas e defrontou-se com a sede do Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Vila Pequena. João, que era economista de
profissão, ainda recente é verdade, estava ali para trabalhar numa
região de conflitos de terras, e sua missão era negociar e
viabilizar assentamentos de trabalhadores do campo.
Trabalhava para um órgão público, o que lhe trazia certo conforto e
certa ironia. Pensava: “Logo eu que tanto combati o governo dos
poderosos sou aqui um representante desse governo”. Mas estava certo
de que não teria uma posição de neutralidade em relação aos
conflitos existentes, pois o seu sonho de transformar o mundo era o
seu combustível de vida, a sua utopia. João, inclusive, na solidão
de suas noites, muitas vezes pensava em qual seria o sentido de sua
vida se não fosse seu idealismo, sua vontade de combater as
injustiças sociais, mesmo que, às vezes, o desespero pessoal o
levasse a questionar o sentido da própria vida e dessas mudanças
sociais.
Quantas vezes não havia perguntado a si próprio se o socialismo –
seu sonho, utopia, religião e amor – resolveria os seus problemas,
mesmo tendo certeza de que resolveria os problemas de todas as
outras pessoas. Lembrava, com freqüência, de um belo filme italiano,
do qual não sabia mais o título, em que a figura central – Marcelo
Mastroiani, que fazia o papel de um militante comunista apaixonado e
não correspondido por uma bela moça, Maria, representada por Sofia
Loren – ia a uma manifestação, carregando uma bandeira vermelha, mas
perguntando aos “companheiros” se quando o comunismo chegasse à
Itália a Maria iria para os seus braços. Essas dúvidas entre o
sujeito e a sociedade, entre o desejo e a razão, assaltavam-lhe o
pensamento rotineiramente. Talvez nem mais acreditasse na
possibilidade da felicidade, mas acreditava, e buscava, em alguma
razão para viver. Mesmo duvidando da própria razão. Mas mesmo quando
suas certezas estavam abaladas, João procurava manter os seus sonhos
intactos.
Luzia, altiva e firme nas suas convicções, pregava a mudança social
e gostava de fazer e discutir política. Idealista, mesmo que
provinciana, gostava de enumerar as injustiças do mundo, mesmo que
seu mundo se restringisse a sua cidade. Gostava de assinalar as
tragédias da pobreza, mesmo pertencendo a uma das famílias mais
abastadas de Vila Pequena. Gostava de falar das carências, mesmo
sendo desejada. Gostava de contestar, mesmo quando era contestada.
Essas posições eram criticadas pela sua família, que achava que
aquilo era uma “bestagem”, como dizia o povo dali, pois desde que o
mundo era mundo as diferenças sempre existiram e iriam existir. Mas,
talvez já acostumados pelos novos e liberais ventos democráticos,
aceitavam os questionamentos e diziam que era coisa de jovem.
Afinal, tudo passa. Mas Luzia continuava a lutar pelos direitos dos
“explorados” e por seus sonhos.
Membro de uma família tradicional no município, família esta dona de
terras e prestígio, o sobrenome Luas era conhecido não só naquela
cidade como em toda a região. Latifundiários há muitas gerações, os
Luas viam seu prestígio declinar com a modernização que começava a
chegar em Vila Pequena. Havia até alguns paulistas comprando terras
naquele lugar e diziam que iriam levar a agroindústria ao campo de
Vila Pequena, o que atemorizava os fazendeiros tradicionais. Essa
história incomodava aos membros da família Luas, apesar de que os
novos hábitos começavam a chegar aos mais novos e, até, aos mais
velhos, influenciados, principalmente, pela televisão, que se
constituía na mais poderosa diversão de Vila Pequena. Por isso, as
idéias de Luzia, a filha mais nova entre seis irmãos, eram
questionadas mas aceitas.
As terras dos Luas eram usadas majoritariamente para pasto de umas
poucas cabeças de gado que ainda restavam. Mas a extensão da terra
era imensa, o que ainda dava àquela família uma aura de prestígio
social e econômico, apesar do evidente declínio que começava a
chegar para aquela família. Uma nascente classe média, concentrada
no comércio que despontava com o primeiro supermercado da região, já
desbancava o prestígio dos Luas.
Além do mais, a história, já comentada na cidade, de que uma empresa
paulista iria comprar-lhe as terras para implantar uma
agroindústria, começava a dar um ar de decadência àquela família que
vivia do prestígio e da extensão das terras. Mas um novo mundo, que
começava a ser novo mesmo em Vila Pequena, fazia com que a grande
placa do supermercado tampasse, pelo menos para os moradores da
cidade, as terras dos Luas. Parecia ser o eclipse do poder da
família tradicional vilapequenense.
III
Quando se preparava para tomar o seu café vespertino, João foi
procurado por alguns homens. Tez morena, roupas simples,
apresentaram-se e disseram ser ligados ao sindicato de trabalhadores
rurais de Vila Pequena. Iniciaram conversa, como que querendo
conhecer melhor o novo hóspede da cidade e, quando veio a confiança,
expuseram para João que seria realizado um ato público pela reforma
agrária e que, quem sabe, o João poderia estar presente, já que,
agora já sabiam, estava naquele município para resolver problemas
ligados à terra. João, como não poderia ser diferente, prontamente
aceitou e dirigiu-se, junto com os sindicalistas, à sede do
sindicato para discutir os detalhes da manifestação. Seria um ato
grande, imaginou João, capaz de “conscientizar” as pessoas para a
importância da distribuição de terras. Como sempre, João recomeçava
a sonhar.
O ato contaria com o apoio das irmãs de caridade que moravam no
município e que inclusive já estavam na roças convocando o povo.
João, ao saber desse fato, sentiu enorme curiosidade, pois a sua
idéia acerca das irmãs de caridade ainda remontava a imagem de
beatas de longos vestidos pretos e véus cobrindo a cabeça.
Foi assim que mal esperou as irmãs chegarem da roça e fez-lhes uma
visita. Irmã Rosa tinha ascendência alemã e era alta e loura.
Nascida e criada no Rio Grande do Sul, era filha de pequenos
produtores de uva da região serrana. Irmã Isaura era filha do
Nordeste, da Bahia, era negra e havia passado grandes dificuldades
na vida, sendo criança de rua em Salvador. Ambas usavam camisetas
com inscrições de defesa da reforma agrária. Interessante, pensava
João, como ali na sua frente apresentavam-se duas mulheres que
carregavam as marcas de suas origens. Era o contraste que
representava quase um estereótipo de duas brasileiras de diferentes
regiões e que se encontravam naquele pedaço de “fim de mundo”.
Apesar das tentativas de João, Rosa e Isaura não queriam conversar
muito acerca de suas vidas. Estavam mais preocupadas em organizar o
ato público que, na leitura que ambas faziam da Bíblia, era um ato
quase religioso no qual Deus concebia sua fome de justiça na terra.
Explicaram que já haviam conseguido permissão do bispo da diocese
para se envolverem na atividade pela reforma agrária. Explicavam que
a Igreja, agora na defesa dos pobres e humildes, daria todo o apoio
ao ato. João não conseguia esconder sua surpresa de conhecer pessoas
religiosas tão envolvidas na ação política. Combinaram que se
encontrariam no dia seguinte pela manhã no sindicato.
Antes de ir embora passou na sede do sindicato e presenciou um fato
que marcaria a sua vida e que precipitaria os acontecimentos que se
desenrolaram posteriormente. Encontrando a porta semicerrada, João
abriu-a devagar e encontrou o Antônio, diretor do sindicato,
chorando num canto. Em seus braços estava sua pequena filha, Fátima,
a quarta de uma família de sete, agonizante. Os médicos haviam
desenganado a menina que estava internada havia uma semana e
deram-lhe alta para que ela falecesse em casa, junto dos seus
familiares. A causa era a desnutrição e diversas outras doenças
causadas pela pobreza. Mas a criança não conseguiria chegar na sua
roça, para morrer em casa. João ainda viu a criança dar o seu último
adeus e falecer. Um sentimento de profunda tristeza se abateu sobre
ele, que ainda viu a raiva que tomou conta de Antônio, que jurou que
as coisas mudariam em Vila Pequena em um curto espaço de tempo.
IV
Alguns dias depois, João acordou com um estranho pressentimento.
Depois de tomar banho e colocar seu surrado jeans, ele foi tomar
café. Enquanto fazia o seu lanche, ouviu uma notícia no rádio que o
deixou apreensivo. Dizia o radialista que, durante a noite,
comandados por Antônio do Sindicato, como era conhecido,
trabalhadores do campo de Vila Pequena haviam ocupado uma área que,
legalmente, pertencia à família Luas. João apressou-se em procurar
Luzia. Ainda era cedo, e ele teve de ir à escola onde Luzia
lecionava para perguntar-lhe se ela já sabia do fato.
Luzia também se assustou. Imediatamente encaminhou-se ao sindicato
de trabalhadores de Vila Pequena, mas encontrou as suas portas
fechadas. Apesar das terras ocupadas serem terras de sua família,
Luzia levantou a cabeça, altiva e rebelde como sempre, passou as
mãos em seus curtos cabelos e disse para João que não restava outra
alternativa para ela a não ser apoiar a ocupação dos trabalhadores,
sendo assim coerente com as suas idéias. Mas não deixava de ficar
apreensiva, pois, para ela, o atrito familiar assumiria proporções
incontroláveis. A liberalidade da família talvez se restringisse na
libertinagem da televisão. Negociar perda de bens, valores e
propriedades era demais para os Luas.
Procuraram as irmãs Rosa e Isaura, que também estavam surpresas e
apreensivas. Não entendiam como aquela ação poderia ter passado
desapercebida delas. João explicou que a decisão havia sido tomada
em um momento de forte abalo emocional de Antônio do Sindicato. De
qualquer forma, elas estavam firmemente dispostas a apoiar os
trabalhadores e já pensavam até em mudar o ato público pela reforma
agrária para um ato público a favor da ocupação das terras dos Luas.
Principalmente porque a morte da criança havia, também, abalado
emocionalmente as irmãs.
João estava feliz. Verdadeiramente feliz. Pela primeira vez sentia
que a sua luta e o seu compromisso estavam se materializando, bem à
sua frente, e por isso, maximizava aquela situação. Seus sonhos de
bares urbanos agora pareciam tornar-se verdadeiros. Cinéfilo,
lembrou-se de alguns filmes, outra das paixões de João. Quem sabe
Sacco e Vanzetti, anarquistas condenados à morte nos EUA e
magistralmente mostrados nas telas do cinema, que ao fim do filme
diziam que poderiam matar a eles mas não suas idéias, estivessem
sendo vingados naquele momento. Quem sabe as greves de Os
companheiros agora tivessem um final feliz. Quem sabe. Quem
sabe.
V
O alto-falante do cinema noticiava a ocupação. As pessoas da cidade
só comentavam aquele assunto. Para as pessoas comuns, o assumir-se
contra ou a favor era um ato sem maiores conseqüências, já que essa
discussão ficava nas casas ou nos bares. Era, na verdade, um
acontecimento importante naquela cidade de poucas novidades.
Inclusive a imprensa já estava começando a chegar na cidade. “Até a
Rede Globo”, diziam alguns mais eufóricos. O dono do cinema até
planejou fazer uma entrevista “ao vivo” com alguns jornalistas no
seu alto-falante. O padre continuava a passear e trabalhar em sua
bicicleta e dizia que o problema dele era salvar almas, mas na
verdade estava apreensivo com a situação.
Mas os Luas já haviam começado a sua mobilização política e
jurídica. Deputados “da região” e caros advogados haviam sido
contatados. Os advogados exigiam que o Estado de Direito fosse
respeitado. Alegavam que reconheciam o problema social, mas que não
caberia aos Luas assumi-lo. Os deputados locais diziam que a
democracia só existia onde o direito de propriedade fosse garantido.
João sentia-se pressionado, pois trabalhava em uma “instituição
pública”, e os deputados começavam a apertar o próprio governador.
Mas estava decidido a continuar apoiando os ocupantes da terra
improdutiva. E assim, procurou novamente as irmãs.
Ao chegar na casa delas reparou que um misto de revolta, apreensão e
tristeza tomava conta das irmãs Rosa e Isaura. João sentiu que
estava perdendo duas grandes aliadas. Procurou saber o que estava
ocorrendo. As irmãs contaram-lhe que haviam recebido um telefonema
do bispo proibindo-lhes de participar de quaisquer ações relativas à
ocupação da fazenda dos Luas. Inclusive, estavam sendo transferidas
de imediato, em caráter temporário, para uma outra cidade, distante
de Vila Pequena. Passaram as faixas, já prontas, do “Ato de Apoio à
Ocupação” para João e pediram-lhe para dar aos trabalhadores o apoio
que elas não poderiam dar.
João viu as irmãs indo embora ao cair da tarde, num carro
pertencente à diocese. Mas jurou: suas ações dali por diante
equivaleriam a de três.
Subiu no morro mais alto que rodeava Vila Pequena para uma reflexão
e, para sua surpresa, avistou ao longe uma desgastada bandeira em um
longo mastro de bambu. Fixou melhor a vista e descobriu que do alto
daquele morro avistava parte das terras ocupadas. Sentiu o coração
disparar e novamente uma alegria inefável tomou-lhe conta do corpo e
da mente. Naquele momento João viu dissipar-se todas as suas dúvidas
e todas as suas contradições. Aquela vista, bela vista, era para ele
o começo de um mundo novo. Fechou os olhos e enxergou, nitidamente,
bandeiras em todos os recantos, em todas as montanhas, em toda a
cidade de Vila Pequena. Viu Antônio acenar-lhe de longe, dizendo que
não poderia ir ao seu encontro, pois teria de levar sua pequena
filha Fátima para a escola, para a boa escola que existia ali.
Pensou em Luzia, professora, sonhadora e, por que não, companheira.
No seu sonho de olhos fechados, viu Luzia se aproximar e beijar-lhe
a boca, a tocar-lhe seu corpo, a fazer amor ali no alto do morro.
Viu cooperativas, viu a igualdade, a liberdade, o amor, o sexo. Até
pensou que a vida era possível na sua plenitude.
VI
O éter da montanha ainda não havia dissipado quando João procurou
Luzia. Queria contar a ela o seu sonho. Porém não conseguia
encontrá-la. A realidade começava a voltar para João. Perguntou por
Luzia para os conhecidos na rua, mas estes não tinham notícias da
moça. Mas tinham outras notícias. Conforme o alto-falante e a
televisão haviam anunciado, o juiz da comarca considerara a ocupação
ilegal e o batalhão de polícia da cidade mais próxima já estava
preparado para retirar os invasores, se estes resistissem à ordem
judicial.
Como não conseguia encontrar Luzia, João foi ao Posto telefônico e
ligou para a casa dos Luas. Foi informado de que Luzia havia
viajado. Tirado umas férias, pois estava esgotada dos nervos. João
não conseguia acreditar. Procurou outros amigos e estes confirmaram
a viagem de Luzia. Informaram que ela estava passando por momentos
difíceis e que acabara cedendo à proposta da família e de amigos de
se retirar de Vila Pequena por uns dias. A euforia de João começava
a desvanecer-se e um sentimento de solidão, tão presente em sua vida
pregressa, novamente tomava conta de sua alma. Dirigiu-se ao bar
mais próximo, bebeu cachaça e saiu embriagado de tristeza e
impotência.
Foi até o seu quarto de hotel e pegou as faixas com dizeres
favoráveis à ocupação das terras. Levou-as até a praça principal da
cidade e num ato solitário e solidário, abriu-as no chão. Pegou um
graveto e escreveu na poeira, que tomava conta de parte da praça, o
nome da menina Fátima debaixo de uma das faixas. O orgulho e o
prazer novamente encheram-lhe o coração, apesar de consciente da
efemeridade desses sentimentos. As pessoas juntavam em volta. Vieram
o padre e o prefeito. Todos olhavam, sem dizer nenhuma palavra.
João olhou para a rodovia e viu passando diversos caminhões com
soldados prontos para fazer cumprir a ordem judicial. João sentiu-se
novamente impotente. As famílias ocupantes tinham decidido,
provisoriamente, desocupar a área. João pensou nas pessoas que
ocupavam aquelas terras, na bandeira vermelha, nas irmãs, no
sindicato, em Luzia. Sim, aquele era o mundo pequeno, tal qual era
Vila Pequena, que João, orgulhosamente, havia conseguido construir
em Vila Pequena.
VII
A terra estava desocupada. Os donos alegaram que era produtiva a
terra de pasto. Mas já negociavam com os paulistas a venda da terra.
Antônio fora preso, mas estava em liberdade provisória. Outros
sindicatos haviam providenciado um advogado para defendê-lo. A
repercussão do fato trouxe também o problema social das famílias
pobres de Vila Pequena. A imprensa já começava a mostrar a situação
de calamidade social de Vila Pequena. Talvez Antônio até virasse,
quem sabe, vereador.
João voltou a olhar para Vila Pequena. Seria a última vez em muitos
anos. Sabia disso. Viu a igreja, as ruas morro acima, o cinema que
agora tocava uma música e não mais noticiava a ocupação das terras
dos Luas. A vida voltava ao normal naquela pequena cidade. Enfiou a
mão no bolso da calça e tirou um papel amassado. Nele estava escrito
o endereço e o telefone dos Luas. Ironicamente, era o endereço dos
decadentes donos de terras que ele levava com carinho. Sim, pois
aquele era o endereço de Luzia.
Pegou a sua sacola, foi para a beira da rodovia esperar o ônibus.
Fazia calor e João estava só. Sentindo-se solitário, nem se despediu
dos amigos que deixava em Vila Pequena. Estava só e a melancolia
invadia-lhe todo o seu ser. Entrou no velho ônibus que o levaria de
volta para o seu mundo de cidade grande.
João recostou-se na cadeira. Levava muitas marcas dessa sua estada.
Como uma sina, sabia que novamente iria recomeçar seus sonhos em
outro lugar. Sempre recomeçar. Sempre.
Antonio Julio de Menezes Neto Nasceu em setembro de 1956. É
sociólogo, mestre em extensão rural e doutor em educação. Professor
na Faculdade de Educação da UFMG, desenvolve pesquisas acerca dos
movimentos sociais no campo. Para quebrar a sisudez da linguagem
acadêmica, escreve contos. Esses contos possuem fortes cores
políticas e existenciais e quase sempre são baseados na sua
vivência.