I – Flora

 
     
 

Olhei para o espelho e passei o batom. Era um batom escarlate como a cor do sangue. Sangue espalhado pela sala. Eram nódoas que manchavam o tapete e encardiam a minha pele. Rastejei um pouco pelo chão e fiquei observando o sangue a correr como se fossem as águas de um rio. Rio da vida. Rio da morte. Rio que faz a passagem de um plano ao outro. Estiquei o braço direito e peguei um cigarro à cabeceira. Acendi e comecei a fumar. Era o último cigarro que eu tinha. A fumaça que saía de minhas narinas e pela minha boca dava a impressão de estar numa outra dimensão. Um tempo descontínuo, desconhecido, estranho. Pela janela, entrava o som de Bolero de Ravel, que tocava no bar da esquina. O telefone tocou. O silêncio, finalmente, havia sido quebrado. Atendi e disse apenas:

– Socorro!

– Quem fala, por favor? – perguntou a voz do outro lado da linha.

– Socorro! Alguém me ajude! – voltei a dizer. Olhei para o meu algoz e fui adormecendo para sempre.

 

 
 

II – Genáro

 
     
 

Foi numa viagem que conheci aquela pessoa. Foi amor à primeira vista. De pronto fomos interagindo nossas preferências.

– O que gosta de fazer? – perguntou ela, naquele momento tão singular.

– Gosto de viajar, cinema, teatro e ópera – respondi.

No outro dia, lá estávamos nós assistindo ao Fausto, de Goethe. Nossas mãos estavam juntas, como dois amantes insaciáveis. Namoramos por cinco anos. Aquilo era mais que um namoro. Só não morávamos juntos. Havia uma invejável cumplicidade entre nós. Traição era um vocábulo inexistente no léxico de nossa vida em comum. Era sexta-feira, treze de novembro. Eu disse a ela que precisava viajar.

– Sentirei tanta saudade sua! – disse ela.

Aquelas palavras tocaram-me. Nunca alguém havia me amado tanto. Peguei as malas. Despedimo-nos com um beijo profundo e doce. Profundo como o infinito do inferno! Doce como o veneno que dilacera, sem que percebamos, a alma. Cheguei ao aeroporto e fui, de imediato, ao check in.

– Sinto muito senhor, mas o seu vôo saiu ao meio-dia – disse-me aquela senhora.

– Como pode, não passa das onze horas!

– Engano, senhor. São treze horas.

Olhei ao relógio fixado à parede e ela estava correta. Eram exatamente 13 horas. Não havia dúvida! O meu relógio estava trabalhando lentamente. Atrasava-se passo a passo, como um coração sem forças, que bate ao descompasso do tempo. Voltei para casa. Quis surpreender minha amada. Fazer-lhe uma surpresa boa! Ao entrar na sala vi os rastros da luxúria pelo chão: o vestido em cima do sofá, a calcinha no chão, uma estranha calça jeans pelo corredor e uma camiseta vermelha, toda amarrotada, no meio da porta entreaberta. Da porta do quarto, vi-a passando um batom escarlate na boca. Mexia os lábios para dentro e para fora como se a dizer que estava louca por sexo. Ele saiu do banheiro. Estava nu. Ela estava apenas vestida com o batom escarlate. O primeiro disparo foi certeiro: ele morreu de imediato. O segundo não a matou. Caiu pelo chão e rastejava tal como uma serpente. Tremendo, talvez pela dor, acendeu um cigarro e começou a fumar. Chorava e fumava. Sentei-me e fiquei a observar a cena. Fazia um silêncio patético. O tempo parecia estático. Um tempo descontínuo, desconhecido, estranho. Pela janela, entrava o som de Bolero de Ravel, que tocava no bar da esquina. O telefone tocou. O silêncio, finalmente, havia sido quebrado. Ela atendeu e disse apenas:

– Socorro!

– Quem fala, por favor? – perguntou a voz do outro lado da linha. Eu consegui ouvir, pois o telefone tinha um som forte.

– Socorro! Alguém me ajude! – voltou a dizer. Olhou para mim e foi adormecendo para sempre.
 

 
  III – Thereza  
     
 

Conheci aquele casal há mais ou menos cinco anos, foi logo após o meu casamento. Diziam-se casados, apesar de não viverem juntos. Sempre achei tudo muito esquisito. Na verdade, fomos vizinhos por dois anos, depois eles se mudaram e nunca mais os vi, muito menos mantivemos contatos. Naquela sexta treze, não fui trabalhar. Meu marido, advogado, disse que iria visitar alguns clientes, sobre o caso que estava a trabalhar. Fiquei em casa, a mexer nas coisas antigas. À altura das treze horas e trinta minutos caíram ao chão alguns papéis que estavam numa de minhas pastas de relíquias. Identifiquei o cartão-postal que eu havia recebido tempos atrás daqueles meus velhos amigos. No cartão constavam algumas palavras de amizade e os fones para contato. Resolvi telefonar, a fim de amenizar a saudade, já que Flora era uma grande amiga do passado. Ao lado dos manuscritos tinha a marca de um beijo que ela fez ao encaminhar o postal. Era a marca de um beijo carinhoso, endereçado a nós: eu e meu marido. O batom era de cor escarlate. Aliás, a Flora adorava batons nessa cor. Disquei os números. Alguém retirou o fone do outro lado da linha, mas nada dizia. Então eu disse:

– Alô.

Fazia um silêncio patético. O tempo parecia estático. Um tempo descontínuo, desconhecido, estranho. Pelo telefone, entrava o som de Bolero de Ravel, que tocava muito longe, como se fosse num bar de esquina. Alguém respirava ofegante ao telefone. O silêncio, finalmente, quebrou-se. Ela disse apenas:

– Socorro!

– Quem fala, por favor? – perguntei aflita.

– Socorro! Alguém me ajude! – voltou a dizer. A impressão que eu tinha é que ela olhava para o assassino antes de adormecer para sempre.
 

 
  IV – O autor: em que ele pode esclarecer.  
     
 

Flora mantinha um relacionamento com Genáro há cinco anos, oito meses e 13 dias. Era sexta-feira treze, de novembro, do ano corrente. Pareciam apaixonados. Contudo, a sujeita mantinha um caso amoroso com o marido de uma antiga amiga, há algum tempo. Genáro e Flora conheceram Baltazar e Thereza na vila das Colinas, onde foram vizinhos por dois anos. Flora e Baltazar: ninguém podia imaginar, muito menos Genáro e Thereza. Os dois últimos confiavam cegamente nos seus companheiros! Tudo começou quando Baltazar ofereceu a Flora um batom, de cor escarlate. Ela o passou nos lábios. Desse dia em diante Flora ficou a imaginar-se beijando Baltazar. Baltazar começou a sonhar com Flora, com aqueles lábios carnudos de cor escarlate. Um dia, os dois lábios tocaram-se. Flora e Baltazar tornaram-se amantes e por quatro anos mantiveram a traição em segredo. Genáro descobriu a traição da esposa com o amigo. Então, assassinou Baltazar com um tiro à queima-roupa. Ele morreu de imediato. Quis assassinar Flora, mas ela resistiu por míseros dez minutos. Genáro, após os disparos, ficou ali, a tudo observar. O amigo traidor caído no meio do quarto, todo nu, coberto de sangue. A mulher, a rastejar em busca de um socorro que nunca viria. Tudo num silêncio patético. O tempo parecia estático. Um tempo descontínuo, desconhecido, estranho. Pela janela, entrava o som de Bolero de Ravel, que tocava no bar da esquina. O telefone tocou. O silêncio, finalmente, havia sido quebrado. Ela atendeu e disse apenas:

– Socorro!

– Quem fala, por favor? – perguntou a voz do outro lado da linha.

– Socorro! Alguém me ajude! – voltou a dizer. Olhou para o seu algoz e foi adormecendo para sempre.
 

 
  V – O narrador onisciente: o fim de toda a tragédia.  
     
 

Quem estava do outro lado da linha era Thereza, a esposa de Baltazar. Ela nem imaginava que estava presenciando, pelo telefone, o assassinato da amiga e a morte do próprio marido. Thereza ligou para a delegacia.

A polícia chegou. Mandou enterrar os cadáveres e prendeu, perpetuamente, Genáro. Ele morreu na prisão. No dia em que morreu, ele escreveu com um batom escarlate na parece da cela: “Eu desculpo a traição”. Ninguém nunca soube como é que aquele batom foi se ter com ele ali naquele lugar. Thereza ficou louca, mas só ela sabia que estava louca. Resolveu ir para um convento. À noite, vestia uma lingerie vermelha e passava um batom escarlate pela boca. Dançava pelo quarto e fingia estar num bordel, traindo ao Baltazar. Beijava os travesseiros imaginando que fossem homens. Sempre colocava ao fundo o Bolero, de Ravel. Assim viveu até os últimos dias de sua vida. Antes de morrer, Thereza tomou banho, vestiu uma lingerie, passou um batom escarlate, pôs de fundo o Bolero, deitou-se na cama e foi ao encontro do marido e dos seus antigos amigos. Às mãos tinha, como se fosse um crucifixo, o batom escarlate. Toda a sociedade ficou escandalizada.

 
     
 
   
           
           

 

 

Agnaldo Rodrigues
É pseudônimo de Agnaldo Rodrigues da Silva. Agnaldo é Professor Assistente de Literaturas Portuguesa, Brasileira e Teoria Literária, na Universidade do Estado de Mato Grosso – Unemat. Dentre as obras publicadas, destacam-se: O futurismo e o teatro (2002), Ensaios de literatura comparada – Org. (2003) e A penumbra – Contos de introspecção (2004). Coordena a Revista Ecos, do Instituto de Linguagem da Unemat, em que recebe artigos nas áreas de literatura e lingüística. Além das atividades que desenvolve enquanto escritor, ensaísta, crítico e contista, Agnaldo Rodrigues faz intervenções no âmbito das literaturas de língua portuguesa, literatura comparada, teatro, história e mito. Os seus contos mais lidos são: “Santos escravizados” e “O requinte da crueldade”, ambos publicados no livro A penumbra, além de “O cacto”, publicado na revista O Caixote 16 e no Informativo Universitário da Unemat.