A criança ao chegar à escola para se preparar para seu futuro, se vê
envolta em estruturas criadas para ela, mas tendo como referência o
mundo dos adultos, que ignora suas necessidades enquanto criança,
enquanto um ser unitário, homogêneo.
A criança é arrancada do seu pequeno meio físico e familiar – um ou
dois quilômetros quadrados de área, se tanto – e atirada dentro do
mundo inteiro, até aos limites do sistema solar. A pequena curva de
sua memória pessoal e a sua pequena tradição vêem-se assoberbados
pelos longos séculos da história de todos os povos. (Ibidem, p. 51.)
Neste mundo da escola, o mundo é apresentado à criança de forma
dissociada, desmembrada em disciplinas isoladas.
Diversos estudos dividem e fracionam seu mundo. A geografia
seleciona, abstrai e analisa uma série de fatos, de ponto de vista
particular. A aritmética é outra divisão; outro departamento a
gramática e, assim, indefinidamente.
Não é só isso. A escola classifica ainda cada uma das matérias.
Os fatos são retirados de seu lugar original e reorganizados em
vista de algum princípio geral. Ora, a experiência infantil nada tem
que ver com tais classificações; as coisas não chegam ao seu
espírito sob esse aspecto. Somente os laços vitais da afeição e de
sua própria atividade prendem e unem a variedade de suas
experiências. (Ibidem, p. 52.)
Os alunos estão, como um todo, aprendendo passivamente conteúdos que
não lhes interessam. Elas são obrigadas a memorizar conteúdos em
função de testes que lhes renderão boas ou más notas. Assim que
terminam o teste acabam se esquecendo do que memorizaram, mas que
não apreenderam, não compreenderam porque não lhes interessava, não
fazia parte de seu mundo infantil. Talvez tais conteúdos até mesmo
lhes venham a ser úteis em um momento futuro, mas para elas,
enquanto crianças, nada significam.
Igualmente triste é que o modelo de aquisição de informação que
domina a educação, em vez de estimular as crianças a pensarem por si
mesmas, seja um fracasso até em seus próprios termos, crianças
parecem saber sobre a história do mundo ou sobre a sua organização
política e econômica. (Lipman. 2002, p. 36.)
Os livros e cartilhas utilizadas na alfabetização destinam-se ao
ensino de algumas habilidades necessárias, independentemente do
significado. São, em grande parte, superficiais em substância e
pouco significado pode-se obter delas. Nesse caso a aquisição de
habilidades fica destituída de valor, e o que se aprendeu não
acrescenta nada à vida dos aprendizes. Por isso uma história deve,
de uma vez só, relacionar-se com todos os aspectos da personalidade
da criança, estimular e despertar-lhe a imaginação, o
questionamento, assim auxiliando-a quanto ao desenvolvimento de seu
raciocínio e também das suas emoções. O que auxilia o leitor a não
ser, como afirma Goleman, um “analfabeto emocional” (1995).
Enquanto educadora e formadora de professores, atualmente atuando
com Didática, percebo, impotente, que para a maioria dos
professores, questionar-se sobre quem é o aluno não faz parte de sua
postura pedagógica, na maioria das vezes encara o aluno como aquela
criança que está ali para receber suas lições, seus ensinamentos e
devolvê-los em forma de provas, sem necessitar contribuir em nada. A
contribuição desse aluno se restringirá apenas em aprender bem
aquilo que lhe foi ensinado, o que é motivo suficiente para ser
considerado um bom aluno. Uma vez que o aluno é considerado incapaz
de efetivar qualquer criação, o professor se contenta com suas boas
notas, como se estas fossem a confirmação de sua competência.
Como afirma Luckesi:
Em geral os atos e condutas dos professores dão a entender que
eles querem que os alunos sejam passivos, pois os ativos dão
trabalho, seja na disciplina comportamental, seja na disciplina
intelectual. Usualmente não se tem tido suficiente cuidado com a
produtividade do educando. (Luckesi, Filosofia da educação,
p. 98.)
Ainda contribui para esse fracasso da educação o fato de que o homem
moderno criou mecanismos que agilizam a vida prática, apesar de que
seu resultado seja um homem coisificado, isolado, alienado, não
interligado com a totalidade do mundo, com aparelhos cada vez mais
sofisticados e, humanamente falando, cada vez mais distantes do
mundo próprio de significados e compreensões de cada pessoa.
A criança se acostuma com esse mundo contemporâneo, prático, rápido
e absorve, sem assimilação e contextualização, toda sorte de
conteúdos que lhe chega, principalmente por intermédio da Internet e
da televisão, ficando então confusa e indefesa, sem suportes
teóricos para se defender de toda essa modernidade a que se encontra
exposta. Uma vez que o processo educacional não se transformou de
acordo com essa modernização, o professor continua com o
quadro-negro e o giz, e a criança encontra muito mais interesses nos
métodos de hoje que lhes fornecem informações, do que nas aulas
cansativas e exaustivas, desestimulantes que lhes são conferidas.
Muitos pais, ocupados demais com os afazeres deste mundo
globalizado em que as oportunidades vêm e vão tão rapidamente,
deixam para a escola a tarefa do educar que a eles caberia.
Mas a escola não está preparada para assumir tal função dupla. Os
professores, mal remunerados e com carga horária além de suas
forças, não encontram tempo para se qualificar. E que tipo de
qualificação estes professores necessitam para ficarem preparados
para trabalhar com uma educação holística, uma educação que busca o
desenvolvimento total da criança. (Büttner, Peter, 1999, p. 43.)
Os diversos autores estudados não questionam a importância do
preparo para o mercado de trabalho tão competitivo. O que afirmam é
que isso não é tudo. A criança deverá participar de um processo
criado para que, com o passar do tempo, comece a surgir uma nova
forma de ser no mundo, caracterizada pela atenção, curiosidade,
cooperação, paciência, todas mescladas por um sentimento de
maravilhamento por se estar vivendo neste mundo e pela possibilidade
de transformá-lo.
Lipman criou um método genial que permite à criança que se
socialize, que interaja com seus colegas e que desenvolva suas
habilidades cognitivas e sócio-afetivas, o que auxilia a criança em
toda sua vida escolar e também em sua vida particular, em sua vida
emocional, tão descuidada por pais e professores. Como afirma
Goleman:
Os educadores, há muito preocupados com as notas baixas dos
alunos em matemática e leitura, começam a constatar que existe um
outro tipo de deficiência e que é mais alarmante: o analfabetismo
emocional. (1995, p. 246.)
O método criado por Lipman vem preencher um espaço que estava vago
no sistema educacional. Alias, a obra desse filósofo educador
ultrapassou os limites de método e de simples programa e se tornou
um novo paradigma para a mutação, a transformação genética,
da educação. Este com certeza propicia à criança uma autonomia
intelectual e também emocional, a partir do momento em que aprende a
se pronunciar, a defender o que pensa, a escutar os colegas. Tudo
isto, fará com que ela não aceite passivamente todo o conteúdo que
lhe for imposto sem nexo, fragmentado e, às vezes, com intenções
ideológicas que atentam contra ela mesma.
Em um futuro próximo, os alunos que passaram um bom tempo pelo
processo vivencial do paradigma Filosofia para crianças, ao
se tornarem professores serão diferentes, não serão autoritários e
os únicos donos da verdade, não se tornarão meros repetidores, meros
reprodutores e por meio do cultivo em sala de aula da comunidade
de investigação se afastarão da “educação bancária” que Paulo
Freire tanto condena e que os alunos detestam.
O paradigma-método pode ser usado em outras disciplinas, como Lipman
afirmou por diversas vezes.
Sharp e Splitter questionam o interesse que os alunos possam ter em
relação à literatura. Eles afirmam que alunos, principalmente
aqueles do Ensino Médio, muitas vezes não se interessam pela
literatura clássica preferindo textos mais simples e banais, o que
tem sido motivo de críticas por parte de educadores em geral. Para
esses alunos ”a construção de significado literário não é
simplesmente um processo de análise conceitual”, porque “o fato de
que um trabalho literário é visto como de valor estético e
intelectual não é garantia de que vá ser apreciado e compreendido
pelos alunos”. (1999, p. 65.)
Esses autores são favoráveis à aceitação de textos para discussão,
sejam eles clássicos ou não, desde que funcionem como “estímulo para
pensamento e investigação sistemáticos” (idem). Isto porque,
geralmente, ao se tentar impor textos muitas vezes inacessíveis ao
entendimento dos alunos, pode-se alienar ou frustrá-los. Esses
autores então afirmam que a solução seria:
Estimular os dois lados do debate literário. Encorajar os alunos
a ler e conversar sobre as coisas que interessam a eles, mas
ensiná-los a realizar essas tarefas criticamente e com rigor. Expor
os alunos a obras tradicionais e clássicas, mas encontrar maneiras
de conectar seu conteúdo a idéias e conceitos que importem para os
alunos. (Idem.)
Lúcia Helena Severina de Rezende Nasceu em 23/12/1955, em Mineiros/GO.
É professora na Universidade do Estado de Mato Grosso, Instituto de
Linguagem, Departamento de Letras.