Estava aqui a pensar...
Em que parte do mundo
Se enquadrariam as minhas idéias,
Em que estado de espírito
Se deitavam as minhas razões,
Criei-as.
Volto, ao lugar do mar,
A voz das sereias
A encantar o meu olhar,
O ondular, a navegar,
O meu coração a criar.
Olho atentamente para os meus dedos
A flutuarem no ar
A escrever o teu rosto
Nas luzes do luar.
Estava aqui a pensar...
Onde está o romantismo,
O cavalheirismo, o sentimento
Que mais forte do que a alma,
Nos transforma, totalmente?
Acendo as velas, tu não apareces.
Bebo o vinho, adormeço.
Onde estás?
Estou aqui
No meu lugar estranho
A desenhar fantasias
Nas paredes que me cercam,
Escondido, nas minhas crenças.
Estava aqui a pensar...
Que outrora mendiguei sentimentos
Transformei o meu mundo
E vesti-me de tormentos.
O passado é indestrutível,
Vivi num lugar com duas faces
Que quase se perdiam.
Algum tempo atrás
Eu... Deixei de ser quem era
Para não saber quem sou,
Onde estou
E por quê.
Entristece-me ter deixado de sentir,
Querer acender o fogo que outrora me alimentava
Quando a sensibilidade para as coisas
Era parte de mim.
Acabou tudo... E eu...
Fiquei assim.
Impávido, sereno, sem forças,
Sem sentimentos.
Estava aqui a pensar...
Por que razão a vida me fez desesperar,
Perder o sentido, nada realizar,
Ficar ferido, não cantar,
Estar vivo e a sonhar.
Pesadelo!...
Não sei no que me tornei,
O que esperam de mim,
Se de alguma forma todo o esforço que fiz
Será recompensado,
Com palavras... Com poesia,
Sem carnavais e mascaradas.
É o meu mundo,
Sou como sou
Nunca saberei para onde vou.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Sou tão pequeno.
Quando me acordas
E não te vejo.
Ando escondido
Sem esperança, perdido,
Porque não me alcanças.
Inverto a fachada das minhas ignorâncias
E refugio o princípio dos receios
Nas imensidões
De mares alheios.
Oh... Sou tão pequeno.
Quando falas
E não ouço a tua voz.
Máscaras no céu
Da cor das nuvens
A confundir o céu
A acalmar o sol
Que se deita, e espreita
A lua dos meus pensamentos
Encantamentos.
Abstraio-me de tudo isto
Deste lugar onde não pertenço,
Olho as estrelas no meu silêncio
E o fogo no meu coração
Ateia-me a alma e cobre o corpo
Da esperança... De te ver... De te olhar... De te sentir...
De te ouvir...
Não sei, não entendo,
Procuro mas não encontro,
Não sei, perdido, onde estou?
Olhas de novo
O céu que me abriga
Estendes-me a mão, dás-me esperança,
E eu não te vejo
Não te sinto.
Trago comigo o teu rosto
A tua lembrança.
É tão óbvio
Que não posso sair daqui
A voar para ti
Com asas silenciosas
Do meu sentir.
O meu mundo é pequeno...
O que sou não esqueço
O que aparento não sei
Onde cresci, descansei,
Acordei.
São mais preciosas mil palavras
Vindas de ti
Do que mil luares onde cresci.
Este é o planeta,
Onde me escondi, onde sofri,
Onde sorri, onde me dei, me ofereci...
Tu... és a minha veia
A inspiração, a alma,
O que de tudo no mundo
Mais careci.
És tu.. És tu...
Onde estás? Não te encontro...
Para onde vou?
Estou perdido, perdido de sentimentos,
Enganado, enfraquecido
No lugar desses destinos,
Onde falhei, onde me desacreditei.
Quem sou eu?
Por que não me acolhes
Me levas contigo e renovas?
Não... Não me perdi de ti,
Só não sei onde estou.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Uma vontade de sentir
Invade esta alma solitária
Que respira na profundidade
Do seu ser

A embriaguez destas quatro paredes
Onde se lêem pensamentos.
Como uma vergonha embaraçosa
De se sair à rua e ver gente
Numa vontade quase perigosa,
Ansiosa, depressiva para o mundo.
O seu rosto já não brilha
A sua voz já não canta
E vive a dar passos no escuro
Onde vive o precipício.
Não era a morte! Não...
Um ser humano
Tão humano que queria sentir
Mas que se quebrou, despedaçou,
Com as palavras e os actos do tempo
Da vida, que o transformou
Num iceberg gigantesco e inamovível.
Era um homem, outrora fora criança,
E a sua vida, sem rumo
Quebrava os sentidos da esperança.
O vazio é intenso,
Feroz,
A alma dissipa-se
E o espírito deita-se
E não acorda.
E quando em tempos áureos
O seu sorriso cobria o dia
Num encanto mágico e sereno
E as suas mãos acariciavam o tempo
Num estado humano puro
Provido de uma fortuna intensa
De existir, de sentir, de vida.
Esse homem deitou-se na estrada
Foi crescendo na berma arrastada
Pontapeado e maltratado
Pelos que por ele passaram.
Viveu todas as luas
Percorreu todas as estações
E descobriu o tempo
E então aí
Saboreou o sol e a chuva
E nunca mais acordou.
Parece impossível... Eu sei.
Quebrar este gelo gigante
Poderia talvez...
As palavras que andam perdidas no passado
Que procura no presente,
Se lhas dissessem... Amor.
O único que sempre prosperou
No seu coração
Que continua a embriagá-lo
Todos os dias...
Todos os dias da sua vida!
Talvez um dia...
Quem sabe!...
Talvez sim
Talvez um dia não seja o fim.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Servido pela luz
Embriago as mágoas
Do passado onde me deitei.
No inesperado agarro o esperado
E na vida descubro mas não alcanço.
O meu dom...
Só ele sabe!
O que me seduz
Me obriga a sentir
Enlouquece e liberta.
A luz, inesperada ausência dela,
A minha presença
O meu destino.
E tu andas por aí
A vestir os rios
A abraçar os horizontes
A saborear a fortuna
Que me ocultou o tempo.
Procuro-te...
Nas estrelas de prata o teu rosto
Uma vontade, um sinal,
É lá que estás... Eu sei.
Mas eu já não sinto
Já me quebro no silêncio
E descubro na escuridão
O meu calor humano imenso.
Parte de mim esta vontade,
Vontade grandiosa de crescer
De te olhar, de te ver,
Sangrar o peito
Sem nunca mais te perder...
Esquecer?... Não... Nunca!
E visto mais um dia
Com o silêncio dos pensamentos,
As lembranças,
Minhas, tuas,
Que não acabam e alimentam esperanças..
Procuro, insisto,
No mundo que deixei
Onde saí derrotado e me quebrei.
Sei que a minha voz
Vagueia nas tuas mãos
Na presença dos teus dias
Nos teus pensamentos
E te eleva a um estado mais puro
Do que foram as nossas vidas.
E o meu rosto é de papel
E nele está a poesia,
As palavras que criei e te ofereci
Para alcançar os teus lábios
Onde me deitei e adormeci.
E a luz esconde o dia
Na sombra envelhecida
Onde tanto tempo vivi,
Não sei... Nasci?...
Que lugar
Que falésia,
Por que me esqueci?
Por quê?... Por quê?!!!...
Por que me perdi de ti?
Andar assim a vaguear
Sem sol, sem lua, sem mar,
Com rosto adormecido
Em raios de nostalgia
Na noite escura que trovoa.
Ser assim... Feito de pedra
A viver uma erosão diária
E a perder o destino.
Eu sei, é este o meu caminho.
E tenho estas memórias antigas
Que não me deixam
Com que acordo todos os dias
E não sei explicar.
Tu és a diva,
O luar, sorriso da minha vida
Que me veio encantar
Para nunca mais me largar.
Quando acordar
Talvez esteja ao teu lado,
Encorajado, vivo,
Com forças novas para sentir
Com uma insanidade perfeita
Para te amar.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Frustração... Engano.
Quem sou?

É fatigante esta vida
Que nos intriga
Com a dor que mexe o Mundo.
Esta é a minha luta
Este é o meu ser.
E essa palavra que não encontro
Para exprimir o que sinto
Essa doçura que defronto
No dia que me eleva
Ao trono da outra vida,
Que dantes vivi.
E a solidão preenche
Este espaço vazio onde me escondo
Incansável toma conta de mim
O sofrimento
A alma que de mim restou
O que sou, o que represento.
E perco os sentidos
Quando olho através das janelas dos teus olhos
E idealizo o futuro que tínhamos tido,
Se eu, se nós,
Não tivéssemos sofrido.
E a verdade é que continuo
Alimentado por esperanças
A viver o mundo sem crenças
Sem vontade, sem sentir.
Aprender a sorrir...
Permanecer na estrada
Onde me deixei
De corpo e alma nas tuas mãos.
Sei que passou algum tempo
Sei que cresci, que mudei,
Que sou outra pessoa, que melhorei.
Também sei que o meu coração sofreu reviravoltas
Enfrentou revoltas, descurou traições
E anda às avessas nas minhas tristezas.
Caí... Ser humano. Caí.
Não foi fácil
Levantar-me do solo escuro
Erguer as minhas mãos e encontrar alguma luz,
Encontrar-me a mim
Que andava perdido.
Eu não era nada
E hoje não sou ninguém.
Mãos esguias
Desfrutam pinturas
Em tela vazia.
Sou eu a desenhar o círculo da minha vida
A começar do início
Para tentar a explicação para o fim.
Mas a explicação sou eu,
Está à vista, e eu não quero ver.
O mundo que tenho
A alma que sangra um amor perdido
Sou eu, o destino fracassado,
O momento, a vida, o instante
Em que grito, e acordo a noite
Onde mergulharam as minhas lágrimas
Se foram no mar esguio
E nunca mais voltaram.
Inspiro... Suspiro...
Penso.

 
     
 
   


 

           

 

 

Paulo Themudo Gomes
Nascido em 20 de outubro de 1968 na cidade de Matosinhos em Portugal, há muito deixou de ser apenas mais uma promessa da pujante literatura portuguesa. Ao lado de outras vertentes da poesia contemporânea, quase não acusa influência de quaisquer escolas literárias, propondo uma poesia elementar, cuja musicalidade só encontra precedentes na lírica poética de Eugénio de Andrade.
Embora esta faceta possa parecer de suspeito gênio, não será por demais reconhecer que sua capacidade de infundir no leitor a percepção de sentimentos absorventes como a vida e a morte, permitindo que em seu espírito se processe uma revolução com momentos profunda meditação, sintetiza o inatismo capaz de desentranhar conhecimentos racionais e idéias verdadeiras que se encontram, a priori, latentes, guardadas no seu mundo interior. Segundo Platão, conhecer é recordar verdades que já existem em nós – teoria que pode ser atestada sempre que nos deixamos guiar pela voz do inconsciente.
Por Antonio Virgilio de Andrade