É minha,
a sede
que te seca
os lábios.
É o meu ar
que te falta
e sufoca.
São teus,
os seixos
do meu rio,
são minhas,
as marés
que te alagam.
É a melodia
das minhas águas,
esse teu riso.
É a tua palavra
não dita,
a minha mordaça.
É teu,
o nome
que me cala,
é minha,
a fome
que te abrasa.
É meu suor,
o sal
que te satura,
é o teu sabor,
esse doce
da minha saliva.
A saudade
que te mora,
também
me faz cativa.
São tantos
os teus sinais
pelo meu corpo,
pelos meus dias...
Tão profundas
as marcas
dos meus pés
no teu caminho.

 
     
 
   
     
 

 

 

     
 

E, quando
tua ânsia
me toca,
viro água.
E, porque
és terra,
invado teus leitos,
percorro
os segredos
das tuas entranhas,
inundo-te
com a minha fluidez.
E, porque
sou água,
misturo-me
ao teu sal,
enrosco-me
nos teus seixos,
farto-me
dos teus humores.
E, porque
me queres água,
entorno
os teus sentidos,
inundo teus veios,
faço brotar
tuas vertentes.
E faço-me eterna,
ampla,
plena,
largo e caudaloso rio
para abarcar-te
inteiro.

 
     
 
   
     
 

 

 

     
 

Escrevo
como o náufrago,
que lança ao mar
um pedido de socorro
e não espera resposta
ou aceno.
Escrevo como
quem ora
a um deus
em que não crê,
como o cego
que adivinha cores,
sem nunca as ter.
Escrevo
como quem
tece horas
na urdidura
de uma noite
sem sonhos
ou estrelas.
Escrevo
como quem chora.
Escrevo ao vento...
Inútil
esse meu
rasgar sentimentos.
Nenhuma palavra
que me resgate
ou cure.
Ou salve.

 
     
 
   
     
 

 

 

     
 

Arde em mim,
o desejo
de tocar-te
com dedos
de seda e flor.
De adentrar
teu silêncio
e tua alma,
profanando
teus segredos,
decifrando-os
com a minha
língua
ávida,
faminta
dos teus sabores.
Arde em mim,
o desejo
de horas
partilhadas,
sede e fome
saciadas.
Arde em mim,
o desejo
de buscar-te
na noite
em que te guardas,
arredio,
da minha palavra.
Porque
começo
onde termina
o teu silêncio.
E termino
onde cala
a tua voz.

 
     
 
   
     
 

 

 

     
 

Às vezes,
crio asas,
noutras,
tenho
pés de barro.
Às vezes,
meus olhos
se iluminam,
noutras,
sou só
tempestade.
Às vezes,
minha alma canta,
noutras,
um silêncio abissal
me invade.
Às vezes,
sou luz,
noutras,
monocromática.
Às vezes,
sou eu,
noutras,
falto um pedaço.
Às vezes, cantar,
noutras,
deixo que
a saudade fale
e espalhe poesia
no ar
(que me falta).

 
     
 
   
     
 

 

 

     
 

Planta em mim
tuas vertentes,
tuas tempestades,
teus ventos.
Vem crestar
minha pele
com teu carinho
brando
ou não.
Vem desgovernar
os meus rumos,
desnortear
os meus sentidos,
embriagar
a minha alma.
Vem afagar
o meu desejo,
calar o meu grito,
acender-me chamas.
Vem colher
o meu canto,
transfigurar a face
da minha saudade.
Deixa-me rebentar
em brotação,
deixa-me ser perene
em teu abraço,
estival no teu carinho.
Planta em mim
tuas sementes,
tuas estações.
Eu me faço ampla,
eu me faço plena,
eu me faço terra,
para acolher-te
inteiro
e te guardar
sereno,
no meu peito
apaziguado.

 
     
 
   


 

           

 

 

Míriam Monteiro
Nasci numa cidade do interior de São Paulo, onde cresci, criei raízes e permaneço até hoje. Terapeuta Ocupacional, escolhi a área da Saúde Mental, onde convivo, cotidianamente, com Deus e Demônios, Sábios e Aprendizes, que residem no íntimo daqueles a quem chamamos "insanos" por terem ousado viver "(d)o outro lado".
Desde cedo, encantei-me com a magia da Palavra, mas só me entreguei ao encanto delas há pouco tempo. E a Poesia enredou-me em suas tramas, mostrou-me a sua face, nem sempre bela. A poesia desafiou-me a mostrar todas as minhas faces, a sangrar os sentimentos todos através dela. E, quando sangro, ela me toma pelas mãos e me acolhe, conforta, para, novamente, depois, postar-se em duelo.
Empunhando como arma, a palavra, a Poesia me rasga, me expõe, me desnuda, extraindo o que há de mais belo, de mais doloroso e mais suave, em mim.
Ainda não pude decifrar-lhe todas as faces, tampouco pude conhecê-la por inteiro. Mas numa mágica que não decifro, à medida em que tento traduzi-la, é a mim que descubro, são as minhas faces que se mostram todas.
Nada tenho publicado. Um pouco mais de minhas letras, podem ser vistas no Blog Meu porto (http://migram.blog.uol.com.br), que foi o início desse meu quase vício de rabiscar sentimentos.