meu deus é sem-reino
sem-templo
sem-teto;
não sabe escrever
nem torto
nem certo –
é analfabeto.
meu deus não tem dentes
nem barba
nem manto;
meu deus não é pai
não é filho
ou
espírito santo.
meu deus não se importa
se penso
ou existo;
não crê em maria
despreza a paixão
de um tal
jesus cristo.
meu deus é mulato
é pobre
tem fome;
assalta nas ruas
e mata
em Seu nome.
A poesia está posta sobre a mesa:
indigesto prato,
repasto
aos eruditos;
e assim
fica
o dito
e o não-dito
pelo escrito.
E a sobremesa
é goiabada Cascão.
Perdoa se
mascaro meu enfado.
A vida é breve
no ritmo de um fado.
Perdoa se
não digo o que quero.
O mundo gira
em passos de bolero.
Feriu-se
o ventre das águas
na fúria insana
do solo –
quebrando
o encanto
do verde,
jogando sal
sobre os corpos;
rasgando
velas e sonhos,
semeando
valas nos portos;
vertendo
rubros na areia,
secando
a vida nos olhos.
Marcelo Domingues D'Ávila É médico, tem 34 anos e vive em
Sant´Ana do Livramento, na fronteira do RS com o Uruguai. É membro
da Academia Santanense de Letras e, no prelo, tem o primeiro livro,
um trabalho em contos chamado Encont(r)os e outras histórias,
com apresentação de Flávio Moreira da Costa. É casado com a advogada
Cláudia e pai da Bruna, que aos 8 anos já começa a escrever seus
primeiros contos.