Resto-me em palavras
e com elas me rasgo
vertendo o jorro literário
como o sangue lânguido
fino, diametral e estático
que ganha minhas veias rompidas
Vejo verbetes e orações cingidas
despedirem-se de mim em tempos gramaticais
formulando simetrias em rimas
escrevendo-se belas em redondilhas
nos arcaicos anais
da mais suja poesia
Do verbo e adverbo fez-se a navalha
em cuja lâmina rebrilha
a última rubra gota
que escapou-me pela pele escotilha
rasgada a fundo pela palavra em calha
Pinga a gota
como uma sílaba
tônica
de uma vida crônica
que curta
nos é pouca
mas muita
nos inunda
de tédio e ócio
ao escrever-lhe
conto
sabendo-o terminar
no certo ponto
A ponto de não transformá-lo
no romance de nosso desgosto
Mesmo a amada nos mata
envenena-nos com palavras meladas
retiradas de seus belos lábios
de absinto embriagante
forjando-nos tolos – e convencidos – em roupagem
de invencível amante
e titulando-nos o mais nobre dos sábios
Muitas vezes mente
podendo-nos enchê-la de bestiais adjetivos
mas basta tachá-la como insolente
para descrever-lhe a
alma (textual)
de forma tórrida
que abriga-se sob sua
antônima pele
E vê-se que ao corpo
(deste morto)
que pertencia ao poeta
deslizam ainda versos pelos olhos
e lhe entram estrofes inteiras pelas narinas
Saindo-lhe poesia
pelas veias abertas
nos pulsos da vida
Marcelo Adifa 25 anos, Poeta, Jornalista e
Economista formado pela Universidade de São Paulo. Reside atualmente
no Rio de Janeiro. Autor de oito livros de poesia, tem obras
publicadas na Irlanda, Portugal e Espanha, entre outros países. Foi
diretor da UEE-SP e da União Nacional dos Estudantes.