Meu corpo etéreo transpõe a porta da
Velha Capela...
Cripta medieval contemporânea...
Ar frio!... Frio Mármore!...
Luzes e sombras arrastando-se e beijando-se em raros afrescos
De um autor romeno...
...
O Jardim solitário em frente!...
Se eu estivesse doente ou à beira da morte talvez...
Talvez num íntimo ato cínico... um último ato...
(Serei assim tão Cão Andaluz?!...)
Eu cuspiria meu último escarro, meu último sarcasmo,
Não abutre que me viesse a tomar-me a extrema unção!...
– Augusto tens um cigarro?...
Miro "O Sopro Divino"!...
Lúcifer ou Adão Cadmom?..
O barbudo velho no teto!...
Quem é?...
Não me diz nada!...
Ameaça-me com sua severa cara!...
...
Nietzsche!... Eu sou dos seus...
O "Judas Enforcado" me diz tanto... nada... tudo... muito...
E silencia!...
Odeio-te, Cristo!... assim crucificado...
Eficaz marketing da submissão...
Vencido... Prometeu...
Judas... Eu sou dos seus... Mas não me enforcarei!...
Os bárbaros cristãos invadiram o Templo de Ísis!...
Sacrilégio dos sacrilégios...
Não peço a bênção... Nem imploro perdão...
Mas todos os seus "mártires" não valem um livro queimado da
Biblioteca de
Alexandria!...
– Salomé! Por favor, traga-me um cordeiro assado e uma jarra de
vinho.
...
Pilatos, lavemos as mãos!...
Vamos à farra, Barrabás!...
Pois tal como Nietzsche só poderemos amar Um Deus que dance!...
Deixo a caverna dos mortos...
Prefiro a luz do verde jardim!...
O que mata o morro é não saber a sua história,
É não guardar suas memórias,
A riqueza da cidade vem do morro,
São pretos, pedros, pedreiros,
São costureiras e enfermeiras,
São operários e batuqueiros,
São putas e madames mandando o pé
Na bunda dos canalhas.
É São Jorge e Jesus Cristo tomando porres,
Estendendo as mãos a malandros e otários
Aos sobreviventes de salários.
O morro é um porco gordo
Fatiado e devorado por estômagos delicados
No banquete das negociatas.
O morro é velha Babilônia resistindo,
É estúpida idéia ariana,
É o caos antropofágico,
Caldeirão de mouros, nordestinos e afro-europeus
Ou o que o diabo ou deus, o sacaneando, lhe mandou.
O morro é América católica estoicista
Negando-se todos os dias.
Que engenheiros.
Que carpinteiros,
Senão os intuitivos do morro,
Construiriam tais palácios, palafitas, barracos (?).
Onde tal solidariedade e festas dionisíacas?...
... O morro pede socorro?...
Ah!... nasceste um narciso em teu umbigo.
Quero possuí-la sobre a pedra tumular
da menina recentemente assassinada
violada brutalmente em sua inocência
cordeiro sacrificado no altar do breve prazer
odiento da escória humana.
quero despi-la e exibi-la nua
ao lúdico brilho das estrelas!...
ao lúbrico clarão da lua!...
ao tétrico riso lascivo da noite
e dos girassóis noturnos!...
quero passear mãos e línguas
sobre a maravilhosa geografia estrangeira de teu corpo
brincando por indeterminados instantes
em suas dunas, curvas, cavernas
arrancando do fundo do seu ser
orgásticos ais, que jorrarão de sua garganta
na mais perfeita sinfonia profana!...
acordando a menina de seu leito de pedra e grama
e despertando o "campo santo" e os vermes
(lesmas, sapos, corujas, grilos, libélulas,
morcegos, corvos, borboletas, salamandras)
e a menina observando-nos,
como se não houvesse amanhã!...
guarde no coração esse sonho e
sonhe também seus amores podados.
e sonhando – dormindo ainda,
reconstrua seu mundo encantado
e que na travessia perdoe
a escória humana.
Sob o banco de pedra dormita o cão,
Encolhido, esquecido, desprezado.
Algemado à bíblia e ao terno batido
O idiota de plantão vocifera preceitos cristãos.
Camelôs marretam seus produtos.
Operários pisam o chão em passos brutos e velozes.
Estudantes estacam em papos bem humorados.
Discretas mariposas volteiam risos cálidos,
Oferecendo-se no difícil sacrifício do ofício.
Pombos doentes e intoxicados
Disputam com os transeuntes os espaços arborizados.
Meninos brincam na fonte.
As lojas gritam promoções e novidades.
Periódicos enxames humanos
Descidos dos trens ou da estação central.
"Aeroporto de baiano", como disse um dia, sorrindo,
A poeta Lea Aparecida de Oliveira.
Rasgam apressados a praça,
Olhos vazios, anônimos, pousam por instantes
Sobre saborosos seios, coxas deliciosas,
Inclusive os meus!...
Pago os livros, deixo a banca do Tiozinho
Lanço um derradeiro olhar ao cão abandonado...
Atravesso a praça tantas vezes perdida e conquistada.
O sol a beija.
– Pô, mano, ó... o mundo tá cabando...
As pessoa não acredita...
Mas o mundo tá cabando...
Tudo que tá acontecendo...
o dilúvio, tudo...
já aconteceu faz séculos, ó...
– Eu já li a bíblia uma pá de veiz, ó... de cabo a rabo...
As pessoa as veiz vê eu fala assim imissarreiam, ó...
Mas eu não sou crente nem porra nenhuma...
Só busco a sabedoria; cêtasacando?...
– As pessoa riram pra caraio di Adão e Eva também, bró, tá lá na
bíblia,
ó...
Tavalá os dois construindo o barco..
Porque rolou um papo
Que eles tavatransando no paraíso, ó...
Na mó foda, mano...
Só que Cristo surpreendeu os dois...
Ai o bicho pegou, Cristo gritou prus dois:
Cês dois constrói um barco
e sumam do meu jardim
qu'euvômandá água, ó...
Porra!... nessa parte eu sô contra deus,
deixa os cara...
É proibido transá agora?
Mas deus foi radical, mano...
Choveu pra caraio... um pá de tempo, ó...
Todo mundo que rio di Adão e Eva morreu afogado, ó...
– Tá lá também a treta dos dois manos que sistranharo, ó...
Eles tavam oferecendo um bagulho pra deus...
Só que deus curtiu mais o bagulho dotro cêliga?..
Aí os manos sidisintendeu,
vai vendo, quebraram o pau, mano...
Notro dia deus encontrô um caboca cheia difurmiga, ó...
– Pô, mano!... essa noite eu sonhei com Jesus Cristo, ó...
Cristo apareceu pra mim em sonho...
Módoidão di tamanco e vestidão branco, ó...
Cabeleira poraqui, ó... (aponta as costas)
barbão estilo Raul Seixas...
Cêliga Raul Seixas?...
– Pô! Mó roqueiro filosófico brasileiro!...
– Pô, mano!... Cristo tava fudido comigo, ó...
Apontou o dedo prá minha cara e falou:
Você num vai chega a vinteum ano, ó...
Cê vai morrê dioverdose...
É, mano, Cristo falo qu'euia morrê dioverdose
e virô as costas pramim...
Eu ainda gritei, pedipraelesperá...
Qu'euqueria levá um lero cum ele, ó...
Mas Cristo num tava nem aí, ó...
Me deu as costas e foimbora.
É, mano, Cristo virô as costas prámim!..
– É, deus é um cara imprevisível!..
Também o que fizeram cum ele...
Uma puta sacanage esse papão da cruz.
– Porra, mano...
Aquilo midexô grilado, ó...
Esse papo de Cristo virá as costas prámim...
Aí eu parei dibebê,
parei casdrogas icuntudo...
durante uma semana.
Aquele léro cum Cristo
ficô girando em minha mente...
mó fissura.
Aí eu resolvi ipaigreja...
Eu deviatá completamente insano,
Praentrá num lugádesse, ó...
Aí eu cumecei ipaigreja...
Sóqu'euiadoidão...
Viajandão... calibrado...
Cuntodas naveia, ó...
De repente, sacasó!..
eu percebi quiupastô tinha sumido...
Tasacando?...
Os fiéis ajoelhado rezando,
e eu doidão andando paláipacá, ó...
todos miolhando, mano...
e eu pensando cumigomesmo;
esse filhodapuita vai apronta alguma cumigo...
Numdeotra.
Numa das voltas quand'euia em direção da porta...
Parou uma barca da rota, ó...
Aí os policial miganhô imitiraram daigreja, mano...
Também nuncamais voltei...
Pastô é tudo falso, mano...
Crentiétudofilhodaputa, ó...
Macário Ohana Vangélis Nasceu José Aparecido Evangelista, na
cidade de São Caetano, SP, no ano de 1963; em suas andanças poéticas
e filosóficas acabou se fixando na cidade de Mauá, SP. Publica junto
com os amigos escritores da Oficina Aberta da Palavra, grupo de
Mauá, SP, o fanzine aperiódico Taba de Corumbé. No presente
momento participa de projetos elaborados a partir da Secretaria
Municipal de Educação Cultura e Esportes da Prefeitura de Mauá, SP,
em especial do Núcleo de Literatura e da Oficina Aberta da Palavra –
Inventário Poético da Cidade de Mauá.