O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente.

E disse: "Não é bom que o homem esteja só”

Fez cair um sono profundo sobre o homem e ele adormeceu. Tirou-lhe uma das costelas e fechou o lugar com carne. Depois, da costela tirada do homem, o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem.

Ambos estavam nus, o homem e a mulher, mas não se envergonhavam.
Gênesis 2.18

 

Todo pecado foi antes um ato religioso.
Câmara Cascudo

 
     
 
   

 

     
     leito de rio  
 
 

que sombra
    eu sinto
    aberta ao corpo
abismo estreito
    sede
    em meu peito?

é a boca do rio
óleo absinto
que traga
           verde
a fonte amarga
(interna
      e vaga)

rio de água
           branca
ilharga em flor
bebe-me a cor
estanca
           o cio
sorve a corrente

dor que embriaga
torrente
       eterna
verso desfeito
no barro do rio
rema-me
           leva-me
rola-me líquida
    sobre
          teu leito?

 
 
     pele  
 
 

sem pecado
ainda
no despudor da história
a vergonha do verbo
rende-se
ao papel despido

sem tecido entre corpos
a pele inteira
cola-se a ti

desnudam-se vozes

vem à tona
a rima deflorada

e as palavras
          se revestem
                   de outros
                                  nus

 
 
 

   bê-á-bá do beijo-bocas

 
 
 

eu vejo
às loucas
teu lábio
    ailar

      nas asas
      da língua
      a rima
      encaixo

      líquidas
      letras
      de corpo
             amar

               e o b
               do beijo
               baila
               no ar
                   em ocas
                        bocas

               em cima
                   em
                       baixo

 
 
 

   gênese

 
 
 

aprendiz de bocas
e furos
entre braços de rio
e lama desvairada
o amor reluz
na embocadura
do mundo

arrancada do homem
ao sopro original
retorna nua
ao leito movediço
e pura
abre-se em angra
fecunda

o grito molda a argila
do seu êxtase

 
 
     humus  
 
 

os teus
lábios de vento
revisitam a orla
da origem
vivem
o descampado
rompem-me
a folhagem

os meus
feitos de voragem
devoram
o luco
       lento
e roubam a seiva
o jorro
o humus
que te arvora
o corpo

 
 
     tabatinga  
 
 

leve
untuosa
a tabatinga
rola na margem
       do rio
       e da carne
pinga ao gozo da
                     tarde
às mãos
do tempo
moldam-se
corpos em terra
                     e lama

toma desta água
e enrola ao teu
    o barro
    o gosto
    o rojo crescente
              do meu
                        lastro

 
 
     cópula  
 
 

de
início
em mim e ti

ínti-
      mos
            -aico

de palavra
   e
   gozo

 
 
     reboco  
 
 

de permeio
nas paredes
de pele e esteio
rebocados

    secretamos
    nosso saibro
        entre relâmpagos

                   a recompor
                       gemidos

 
 
     dilúvio  
 
 

obscena flor do verbo
palavra aberta
à língua
nua
em curso de áspera
                água de desejo

consentidos lábios (duplos)
à míngua líquida
ávida

   fluem
       jazem

  (a espera
          inunda
          o beijo
                    -lúvio)

 
 
     ecos  
 
 

parcelo o corpo
sucessivamente
mistério a mistério
sentido a sentido

                       – aspiro o desejo triunfante
                       – vislumbro sons corrompidos
                       – apalpo trevas e delírios
                       – ouço fontes

e nomeio
língua a língua
reconstituindo a totalidade
                                    irredutível
                                          do gozo

 
 
     baixamar  
 
 

amávamos
no arco da chuva
na areia do rio
no entremeio
das quilhas
no tateio do tempo
perna-ante-perna
roçávamos ventos
de barcos vivos
e cais virtuais

     preamávamos
     na maré maria
     do rio de areia pele
     nos leves dorsos de onda
     e nas proas dos corpos
     gemíamos velames
     em barcos loucos
     de realidade

 
 
     mangal  
 
 

no teu riso o paraíso aflora
a pele espelha garças de perfil
flaminga escolha de guarás maduros
ramas de rio sedento

régia a cor do sangue das aningas
no baixio a promessa impura
de refluxo caboclo e vigoroso
na transparência prenhe das asas
sopros de pássaros a beijarem pedras

no mangue dos lençóis
brame o cio na pesca das andanças
entre marinhas vôos tempestades
e faróis de terra renascida

 
 
     foz  
 
 

segue somente a memória
desgrenhada
como a vaga do amor
sombrio

da represa o sonho
descabela-se
no rio

 
 
     destroços  
 
 

o estilhaço invisível
da vida
no estilete a infância
na lâmina do lábio
         toques lábeis

quem juntará as estilhas
quem rumará as quilhas
arrimará as estrelas
estéreis?

na lâmina da flor
desdém de água manchada

         que pétala infiel
         tocará algum perdão?

 
 
     um gosto de poema  
 
 

era um gosto de poema
na impaciência dos dias
um anseio de argila
ao moldar encontros
e marés sem medo da partida

agora
a noite estende o seu velame
no auge da distância
enquanto a vida cintila
entre crepúsculos
e oscila a onda
nos escombros da idade

       ah se amarga a rima se partisse
       nos estilhaços das palavras
       que eu não disse

 
 
 
   


 

           

 

 

Lilia Silvestre Chaves
Poeta, professora de Literatura Francesa, autora de ensaios sobre teoria literária e do livro de poemas "E todas as orquestras acenderam a lua".