I

Sou dragão montês!
Sou poeta perdigueiro
Cuspidor de verbo
Luso-sino-brasileiro!

II

Nasci no Amazonas!
Sou dinasta de Vieira
De Barbosa Castro Alves
Bilac d'Andrade e Bandeira!

Nadei no Rio das Pérolas!
Sou discípulo de Tsé,
Sun-Tzu, Krishna, Buddha
E do silêncio do Tibete!

Bebi d'água do Tejo!
Sou herdeiro de Camões,
De Queiroz e de Pessoa
E Sá-Carneiro de Lisboa!

III

Eu vôo, num mesmo verso,
Do Brasil a Portugal,
Com escala em Macau,
Sem tropeço nem recesso.
Não há cá neste Universo
Palavra que eu não faça
Arder, queimar, virar fumaça
Em Poesia de suma beleza!
Salve, oh! Língua Portuguesa!
A ti, um brinde de saquê, vinho do porto e Ayuasca!...
 

 
 

Recife, PE, 9.2.05

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Ou alternada ou cruzada,
Coroada ou consoante,
Emparelhada, encadeada,
Rica ou pobre ou toante;
Sendo de uva é feminina,
Já de cajá é masculina:

Rima é Rima porque rima,
Não porque arrima nada.

Rimando qualquer palavra
Seca ou cheia ou esvaziada,
Mineral no papel, ex vi verborum,
Com ou sem tento,
Sem Ser no tempo,
Per sæcula sæculorum,

Em toda língua escrita ou falada,
De Samarcanda, Pasárgada ou Mansarda,
Em latim ou português,
Em mandarim ou ugro-finês,
Mesmo a esmo, com cem, sem nada,
É surda, é cega, é muda, mas fala.
 

 
 

Recife, PE, 6.12.04

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Poeta em início de guerra
É condor que s'arrasta na terra,
É dragão que queima a língua,
É soldado que atira no pé,
É anjo que é cheio de malícia,
É homem que sonha não ser o que é
Pra ser, quem sabe um dia,
o Poeta que ainda não é.
 

 
 

Recife, PE, 17.12.04

 
     
 
   
     
   

 

     
 

De quando o Sol nasce
A quando as estrelas morrem,
A Cidade é colônia do homem;

Do fim da noite
Ao fim da madrugada,
A Cidade é toda só da passarada;

Do início do dia
Ao início do dia,
A Cidade é amante da Poesia;

E os Poetas, dos pássaros, os tradutores,
São, da Cidade, aliados contra os invasores –

Homens de poucos valores, mulheres de muitas pudores –;
E destes todos, os Poetas são sempre os salvadores.
 

 
 

Recife, PE, 9.1.05

 
     
 
   
     
   

 

     
 

O zen-buddhista Jabuti
Foge, sem velocidade,
Do matreiro do Saci,
Que desafia a gravidade.

E a Alface é verde-oliva
Do marrom da cor da terra;
E a intrépida Formiga
É menor do que a Pantera.

E a Pantera comeu o Saci
Que buliu com o Jabuti,
Que comeu a formiguinha.

E a Formiga comeu a Alface
Que cresceu verde da terra,
Que comeu, no fim, a Pantera.
 

 
 

Recife, PE, 12.1.05

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Somos míticos ao fim
Equilibrando-nos no pêndulo de Foucault
Na confluência das interrogações
Na rotação das reticências
Em bando ou em comboio
Em suspensos e esféricos
Usurpadores da Razão
A viver ameaçados
Pela dúvida divina d'existência
Da mefistofélica Metafísica

Somos místicos ao fim
Equilibrando-nos no pêndulo de Foucault
Seja à noite ou infinito
Seja na luz ou Via Láctea
Em bando ou em comboio
A ponto sempre de, apáticos, cairmos
Na abissal fossa do oceânico leito da Ignorância
Ou prontos sempre p'ra, exáticos, partirmos
Alçando vôo p'ra romper a tensão superficial do Sol
Da mefistofélica Metafísica

Nós, místicos e míticos
Pendurados no pêndulo de Foucault
Péssimos equilibristas que somos
Sempre iludidos co'as cores da primavera da Razão
E os teoremas heliocêntricos
E da prudência a hibernação
Enquanto, em sono, caímos
Da pontezinha do jardim mais florescido
E impressionista em explosão
De Monet

E enquanto, aos gritos, findamos
Angustiados e rugados
Mais mvnchianos que o impossível
Somos míticos e místicos ao fim
Somos arquejos, não arcanjos
Se verbos, inexeqüíveis
Em tempo, inconjugáveis
Nem pessoas nem arquétipos
Somos místicos mitos, enfim
Desequilibrados tal e qual Foucault
 

 
 

Recife, PE, 22.11.04

 
     
 
   


 

           

 

 

Geraldo S. de Vasconcelos
Nasceu em Jataí (GO), em 1984. Estudante universitário, cursa Direito em Recife (PE). Influenciado por leituras de Friedrich Nietzsche, Castro Alves, Augusto dos Anjos e Fernando Pessoa, começou a escrever em 1998 e desde então continua aprendendo a fazê-lo. Leitor de Pablo Neruda, Georg Trakl, Paul Celan, Friedrich Hölderlin e Heinrich Heine, nada ainda publicou de seus poemas, mas já trabalha em seu primeiro livro, Primeiros cadernos (lançamento previsto para o inverno de 2005). Sua escrita é marcada, particularmente, pelo lirismo, pela metalinguagem e pela exploração de temas filosóficos (existenciais e lingüísticos), sempre atento aos aspectos estéticos e técnicos do texto.