ao cair os restos da tarde
em trapos de bandeira
espalma a fina poeira
recolhe-os na palma aberta
contrários entre si são os jogos
auto-sedução e comiseração
perdidos em auto-flagelo
os dados atirados ao acaso
ricocheteiam no tampo da mesa
observo bolas pretas
sulcadas em velho marfim
(amarelo e com microtrincas)
se confundem ao buscar
o pano verde e horizonte
não há amigos
quem são os que se vislumbram
nos outros cômodos
escondidos que estão
nas frinchas do assoalho
no smog da noite e cigarros
repleto de olhos tristes
ao mesmo tempo vingativos
neblinas acusadoras
a esses
servimos adagas e garfos
fôrma de peixe e cabos de ágatas azuis
sobre baixelas de prata e gelo
(o gelo fino dos trópicos)
as cartas se abrir
e sem resposta
sussurram arengas antigas
(guardadas num baú
ainda sob a cama)
tenho vivido como que morto todos os dias
ressuscito a fórceps todas a manhãs
remorro de novo ao escurecer
não há gozo sobre a glória efêmera
não o menor prazer sem conseqüências
remorsos com pontas de diamantes
eu que tenho todas as respostas
procuro perguntas aos forasteiros
e monges mendicantes de pés feridos
folheio um novo livro
o Oráculo Pessoal
de Baltazar Gracián
o prudente é invisível
aos olhos de todo o Mal
andar pela casa vazia
em outra noite com areia nos olhos
e grilos nos ouvidos
se fazer de sonâmbulo
no tropeço no escuro
copos abandonados sobre a mesa
poeira sobre os livros
arrepio ao olhar para o escuro
sabe-se
no canto obscuro
as aranhas tecendo em linho
com teia, destino e vítimas
para que o usemos como mortalha
dormir na cama sozinho
depois do tempo remoto
andar sobre o vidro moído
de verde e ressentimento
é como alugar o corpo
e viver a ausência
acordar de sobressalto
suando e sem memória
com
o uivo dos lobos
que circunda a casa
esta, que sem você
passa a ser meu eterno pesadelo
restaram os fósseis
da ilusão do paraíso
livros no canto da sala
pérolas presas em pérgulas
clowns assustando crianças
nas esquinas
de uma Londres sombria
(assisti a tudo pela vidraça
embaçada de fuligem carvão)
sobraram os fósforos
do incêndio na torre
a ponte agoniza
tijolos carbonizados
touros de chifres ensangüentados
em ruas de São Firmin
(Hemingway lamenta ainda os sinos que dobram)
um peregrino desfia contas e vieiras
Santiago terá de esperar mais uns anos
o toco do último cigarro
pigarro de nicotina (esta neblina dá para se cortar com uma faca)
na torre a troca da guarda
sobre o Tâmisa
acendem-se as luzes de popa
o fog se espessa
da passarela encoberta no Alto da Serra
se ouvem sirenes de barcos sob a ponte “London Bridge falling down, falling down, falling down...”
1
preso à guelra do peixe
onde o azul é mais lento
esforço-me para respirar
tanto fundo como turvo
toda água dos pulmões
será a memória
que não se desapega
quem nos atraiçoa
tentar respirar líquido
quando tudo que nos resta é ar
2
a fauna de minha narina esquerda
morre a todo amanhecer
quando se avermelha o ferro
e borbulha a água
e os velhos se vestem de luto
tragam a dor
e cospem no chão
para me escarnecer
3
reconheço ainda mais este meu erro
um jorro de paixão impoluta
todo o pecado de um lençol
4
Eros e Tanatos
são irmão de sangue
compartilham o mesmo pai
um dia
quando menos se espera
um matará o outro
afogados no lago do jardim
(narcisos observam com certo receio)
neste dia se servirá um banquete
quando aos pés dos convivas
se servirá a minha carne
5
Caim matou em Abel
aquilo que mais amara
não suportou ter de ter ciúmes de seu Deus
(depois fundou a civilização
a cidade de nome de seu filho)
também não O tenho suportado
assim como
Lúcifer traiu Deus por ciúmes
traiu Judas
a Cristo
sempre por amor
se matou e se deixou matar
e assim será por séculos e séculos
6
que vale desengonçado
tenho por ver
em minha frente
morrerei mais um pouco hoje
mais do que ontem
o resto será por amanhã
a voz de teus filhos
nunca será a tua voz
pássaros que deixam o ninho
o fazem para não mais voltar
7
as trombetas que
derrubaram as muralhas de Jericó
agora soam em meus ouvidos
hoje visto os fiapos
daqueles panos que me cobriram o corpo
corvos voam em círculos
por meu novo jardim
todas as tardes, guarda os filhos numa gaveta, como quem guarda os
filhos em uma gaveta, todo seu carinho de mãe para o retrato,
a de ter sobrado
amor para outro homem
mas como encontrá-lo
em um mar de pernas e braços
o risco do céu se esmaece, todo o contorno em rosa e sangue,
a lágrima
coletada com lenços de papel
a noite
vê dormir os filhos do retrato
às vezes a mais velha teima acordada
e dorme em seus braços
assim que a abraça
todas as manhãs ao chegar ao trabalho, tira os filhos da gaveta,
como quem tira os filhos da gaveta e observa o retrato com todo seu
carinho de mãe
tragam as maçanetas e os gonzos das portas
arranque os pregos das janelas e portas
os ferrolhos dos armários
amontoem o bronze e o ferro em frente a porta de minha casa
a forja já muito está sendo preparada
alimentada a suor e carvão
na casa de minha bem amada
fui colher umas lágrimas (e margaridas brancas)
num êmbolo de cristal
havia um peixe servido à mesa
como o ventre amarelo e aberto
que se destacava entre as pratas
mandem buscar mais água
o pequeno regato já não dá mais conta
das sedes
o braseiro consome e consome
carretas de carvão de pedra entopem a estrada
da casa da bem amada
vieram as pedras para esta escada
uma tonelada de jade
do verde esculpido e puro transparente
ainda não era nascido o Sol
quando começaram novamente os martelos e as bigornas
bem cedo
a hulha queimando vermelho de uma estrela
sob as colunas de fumaça negra
este fogo
devora quimeras natimortas e recém-nascidas
neste poema prosaico e sem sentido
Edson Bueno de Camargo Nasceu em Santo André, SP, em 24 de
julho de 1962, mora a partir de seu segundo dia de nascimento em
Mauá, SP. Publicou: Poemas do século passado – 1982-2000,
edição de autor; Cortinas, com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi;
participou das antologias poéticas As cidades cantam o
Tamanduateí que passa, da Prefeitura do Município de Mauá e
Poesia só poesia, Editora Novas Letras. Junto com os amigos
escritores da Oficina Aberta da Palavra, grupo de Mauá, SP, edita o
fanzine aperiódico Taba de Corumbé. Coordena projetos
elaborados a partir da Secretaria Municipal de Educação Cultura e
Esportes da Prefeitura de Mauá, SP, Núcleo de Literatura: Oficina
Aberta da Palavra – Inventário Poético da Cidade de Mauá; Sarau
Soltando o Verso e Encontro de Escritores do ABC – Usina de
Escritores.
www.secrel.com.br/jpoesia/ebcamargo.html
www.paralerepensar.com.br/link_edsoncamargo.htm