“Nada do que foi será
do jeito que já foi um dia...”
Lulu Santos e Nelson Motta
A culpa é de Deus
(provoca Voltaire).
O homem é o culpado
(rebate Rousseau),
ignorando que a morte
de 160 mil pessoas
na Indonésia, Tailândia,
Índia e Sri Lanka
foi conseqüência de
um fenômeno geológico
por excelência, aliás
bem explicado pela ciência.
Portanto não vamos
confundir as ondas
(ou melhor, as bolas).
Oceano é coisa séria.
A onda não é sentimental.
E não costuma levar
nada pro lado pessoal,
não se revolta, não
se emociona, a onda
não pode aparecer
na novela da Globo
tampouco meditar ou
levar desaforo pra casa
a onda a onda a onda.
Mas os dois intelectuais
são os caras tais e
resolvem pegar
a onda gigante a onda
pela força do verbo
ou pelo engenho da
vil pretensão humana...
“Eu quero domar com
ânimo e sentimento a
onda selvagem e bravia.
Depois vou desvendar
a bondade, a cólera do
mar faceiro e irracional” –
“Pretendo marcar a onda
com o ferro da razão!
Sou o trágico Fausto e
almejo atravessá-la
por bem ou por mal” –
Ingênuo Rousseau!
Patético Voltaire!
A onda não tem coração
(e não dá a mínima para
a festa mítico-verbal
da mídia internacional).
Se bem que, de tão
humanizada, ela vai e
vem, volta e se esvai
para ressurgir atônita –
qual peido apocalíptico
liberado pela bunda
tectônica da mãe
natureza.
A. Zarfeg É jornalista, poeta e ficcionista.
Vive no extremo sul da Bahia.