No meio do caminho tinha uma perda.
Tinha uma perda no meio do caminho.
Tinha uma perda.
No meio do caminho tinha uma perda.
Primeiro a irmã depois o pai.
Não sabia que no meio do caminho
tinha a perda do paraíso
que me fez bravo.
Fui só, fui eu,
fui vida a partir da perda
que me estava destinada
no meio do carinho
de minha mãe solitária.
Fui perda de mim mesmo
procurado por toda a vida
até que achado no poema
do meu hoje encanecido.
Tudo porque
no meio do caminho tinha uma perda.
Tinha uma perda no meio do carinho.
Sou o que fui falado
A gente é
o que foi falado
ou o que aprendeu a calar
no momento (qual?)
em que se perdeu de si.
Salvar-se é descobrir
o trágico e derrisório instante
em que a criança se perde de si mesma,
para ser o que dela os demais pretendem.
Missa de Réquiem
para o que poderiam ter sido
A elas, como a nós,
ternura e compreensão.
Não quero ser faca ou espelho
antes vidro, varado, transparente,
pretendo nada significar, só ver.
Talvez nem isso: sorver.
Ou apenas estar, como aquela folha de couve
parte do real e não seu juiz ou cantor.
Fabrico o polietileno
na unidade de separação
etano, propano, eterno.
O tédio.
Busco, aflito, a unidade
de pirólise e polímeros.
Sou dipirólise ou simbiose.
Gnose.
Preciso de empréstimo
pois sou carência
de cinco a dez anos.
De amor.
Meu pólo de transformação
é diferencial de alíquotas
em parcerias bi-unívocas.
Do ser.
Preciso regularizar urgente
áreas interiores desapropriadas
Urge arrecadar meu ISS.
Imposto sobre salvação.
Passeio-me o eu
pelas calçadas da memória
onde a decadência não chegou
e aquele rapaz amoroso e bom
ainda faz serão e vestibular
para viver a vida ou morte
mas desafiar interrogações
básicas do ser.
Passeio-me o mim
deambular fugidio
de tanta vida não vivida
exceto nas paralelas
onde o ser se revela
e faz o que não viveu
ser memória ram
oculta no computador biografia
mas impressa no cine saudade
e na pulsação esta
que agora me asfalta o peito
e povoa o estro ordinário.
Paulo Alberto Artur da Távola
Moretzsohn Monteiro de Barros Carioca, nascido em 3 de janeiro de
1936, o advogado, jornalista, radialista, escritor e professor Artur
da Távola tem também uma longa trajetória política, tendo sido
deputado, senador e líder do PSDB. Editou a revista trimestral de
comunicação, arte e educação, Contato que era distribuída
graciosamente para as instituições culturais de todo o Brasil e
destaca-se como articulista e cronista em diversos órgãos de
imprensa no Brasil.
www.arturdatavola.com/