As deixar de lado as certezas absolutas sentiu uma leveza incomum
Não saboreava mais o gosto amargo da melancolia em sua boca
Não tinha mais o peso maciço da cobrança em suas costas
Compreendeu naquele momento ímpar
Que a disparidade é de uma beleza rara
E que a igualdade não é um sonho, mas sim uma prisão

Mais calmo caminhava pela rua escura
Quando olhando para o nada enxergou um movimento
Era sua alma que passeava pelo parque
Alegre e viva flutuando sobre o mar revolto
De ondas de culpas e negativismos humanos
Ao ver tão singela cena parou...
Por instantes temeu por sua sanidade
Não poderia ser tão simples...
Por toda sua vida sofreu...
Sofreu por si... sofreu pelos outros
Pelo amor, pela saudade, pela morte...
Por tantas coisas que nem lembrava mais
E agora que estava desapegado de tudo
Cabeça erguida ao céu estrelado
Uma lágrima corria em seu rosto
Não era mais uma dor...
Nem outra forma de lamento...
Era a última gota de um sentimento negro
Que deixava de existir frente à luz
Incandescente da existência plena
Daqueles que aceitam a trilha da imperfeição
Como única rota de fuga da obsessão doente
Que é ser de tudo um pouco, ou ser de tudo um muito...
Tudo menos si mesmo

 
 

Janeiro de 2005

 
     
 
   
     
 

 

 

     
 

Entre um gole e outro do copo amarelo
Ele levanta os olhos marejados e embaçados
Parece procurar algo... algo que não está mais lá
Sua mente distante rodopia em velocidade frenética
Voando e dando saltos explosivos
Um misto embolado de euforia e repúdio
Que hora corta sua carne
Hora enaltece sua esperança
Ele mesmo censura firmemente a auto-censura
Para logo depois pedir mais uma dose
Ele quer esquecer...
Esquecer que tem sempre algo para lembrar
E que a lembrança é quase sempre perigosa
Pensamentos cortantes como facas
Promessas esperançosas de um ontem perdido
Dissolvido na realidade ácida do presente
Um grito: NÃO!
Ele não quer mais saber seu nome
Seu endereço, seu destino...
Diz que agora a vida vai fazer mais sentido assim...
Como um clipe filmado por um câmera bêbado
Como uma história inacabada de um autor lunático
Como trechos de uma partitura voando ao vento...
O mundo é seu... é seu o mundo...
Sentindo a potência de seus pensamentos
Levanta, dá um passo, cambaleia e cai...
Recompõem-se, senta novamente
Por um instante ainda lembra do que tinha que esquecer
Logo depois esquece do que tinha que lembrar
Olha o copo amarelo em sua frente
Onipresente... Onipotente...
Bebendo tudo num só gole
Desiste por fim de pensar

 
 

Janeiro de 2005

 
     
 
   
     
 

 

 

     
 

Hoje vivo intensamente sensações aleatórias...

Viajando por dimensões cósmicas do além-mundo
Soltei as amarras que se insinuavam em minha volta
As mesmas que prendem ao estigma do cotidiano
Homens sem vontade... corpos sem coragem

Ignição... partida!

Aprendi a exercer a potência de minhas sinapses
No máximo oculto da intensidade de minha alma
Que se movimenta e se expande
Quando vivencio uma nova realidade
Através dos sentidos...

As variações do mesmo tema são infindáveis
Desdobram-se umas sobre as outras no vácuo da existência
Elevando minha consciência a um estado de inconsciência...

No torpor das névoas enxergo com clareza
Vejo com os olhos de minha plenitude...
Aqueles que desconhecem as formas
Mas percebem os conteúdos

 
     
 
   


 

           

 

 

Paulo Ricardo Zílio Abdala
Sou formado em administração de empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pesquisador com interesse na área de cibercultura, trabalho com marketing e acabei de entrar no mestrado de comunicação social da PUC – RS. Tenho 25 anos e escrevo desde os 14. Minha referência poética é o onipresente Fernando Pessoa e meu estilo tem muito a ver com os escritores contemporâneos (textos curtos, densos e cheios de simbologias, metáforas...) Sou um "viajante" mental e espiritual. Creio no poder das energias, na dança das almas, na paisagem que os olhos não vêem. Escrevo compulsivamente dois, três, quatro textos, como quem cospe, aí fico dias sem escrever nada... aí faço de supetão mais cinco... Funciono assim em pulsões criativas... efervescência pura.