Chomsat me observava a distância e eu não percebi, entretida com os cheiros, as cores e os barulhos do meio de Chinatown, em Bangkok. Na verdade, estava andando sem rumo, tentando achar uma lógica praquilo tudo. Tinha acabado de chegar, malas no hotel e pernas pra rua porque tem muito pra se descobrir por aqui.

– Madame, tuk tuk?

– Me?

– Yes, tuk tuk, Chinatown…

– No, thank you.

(O que será que ele quer comigo)?

E ele foi desenhando na palma da mão algo como um mapa, two hours, vinte mil baths.

(Certo, um passeio de duas horas por Chinatown, custa vinte mil baths... nesse carrinho? Mas aonde diabos vamos durante duas horas num triciclo, praticamente uma tonka?)

– No sir, two hours, too long. One hour?

– Ok madame, one hour, 10.000 bath.

E lá fomos pelas ruas estreitas e poluídas, vendo ouro, vendo seda, comida nos carrinhos sujos, camarão seco, bichinho seco, cabeça de peixe ensopada, cabeça de pato defumada, pato inteiro, pato vivo, sapato e máquina de costura, massagista e esteticista, entalhador, vendedor de relógio falso, gente com cara triste e gente sorrindo. Tudo no quase um metro de calçada, como se andar por ali fosse a última coisa a ser feita. Calçada é pra fazer negócio.

Primeira parada, uma joalheria de cara suspeita, com a máfia ali na porta.

– I don’t want to see shops. I want to see the temples, the Wats… Wat Aron, Wat Poh…

– Go, go, just look, just look.

Fiquei sem graça e entrei por cinco minutos. Atordoei-me com as correntes e penduricalhos, estatuetas e peças de ouro com esmeraldas e brilhantes. Cadê os monges?

Próxima parada, loja de tecidos estampados à mão, Ahmad esperando na porta. Já mais à vontade, me sentei no chão com o vendedor da Cashemira, e abrimos todas as toalhas e panos estampados, de dois, três, quatro, cinco metros. O que alguém faz com um pano de cinco metros? Lindos. Arte nativa. Acabei comprando uma toalha e Ahmad acabou me convidando pra jantar. Saí feliz – duplamente.

– One look more, madam.

(Caramba, não vim até Bangkok pra ver lojas enfiadas em ruelas. Quem mandou eu entrar nesse carrinho?)

– Chomsat, please no more shopping.

– Ok, madam. Only look 15 minutes, look, Chomsat cupom. Gasoline. No buy. Only look interest.

– You are trying to say that you will take me to the shops, I have to look with interest during 15 minutes. You get free coupon for gasoline even if I do not buy… 15 minutes?

– Kop koon kaa!

(Por que não disse antes? Deixa comigo!)

E assim passamos aquela tarde e dois dias passeando por Bangkok, alternando templos, tradições, ruelas, mercados, monges e, claro, as lojas... onde eu apenas olhava com interesse por quinze minutos e a máfia do lado de fora entregava um cupom de gasolina a Chomsat. Meu guia, meu anjo da guarda e meu companheiro de pequenas trapaças do lado de lá do mundo.

– Kop koon kaa!

 
     
 
   


 

           

 

 

Walkiria Malatian
Ituana de berço e de coração. Jornalista, produtora de eventos e, nas horas vagas, uma pretensa cidadã do mundo, buscando os caminhos que estão sempre lá. Na imagem, uma nova paixão: click!