Oi! Está me ouvindo? Ora, eu sei que está! Acorda, vai! Você vive
pedindo coisas, fazendo exigências, questionamentos... Como assim,
não sabe quem sou eu? Não foi você mesmo quem me criou? Ou fui eu
quem criou você? Sei lá! Bem, mas você me deu um nome! Não sabia
exatamente o que era, então resolveram chamar de Deus. Belo nome!
Não, você não está ficando maluco! Quer dizer que você pode falar
comigo a hora que quiser e quando eu tento levar um papo, sei lá,
jogar conversa fora, você acha que está ficando maluco? Ah, qual é!
Eu falo com você o tempo todo, sabia?... Não, não é uma piada! Ah,
você gosta de piadas? OK, conhece aquela que os adultos contam para
as crianças para justificar por que não tem aula no Domingo? OK, lá
vai: “Então ele... ah, Ele, com letra maiúscula! Então Ele criou o
mundo em seis dias. Fez o céu, o firmamento, a água, o fogo, o ar,
os bichos, o homem, a mulher, blablablá! Depois descansou ao sétimo
dia!”Ah, há, há...Que é? Não achou graça! Que mania de levar a vida
a sério! Seus dentes não vão cair se você rir um pouco! Aposto que
tem gente que nem sabe que você tem dentes! Devia fazer um curso de
bom humor com seus filhos. Eles são especialistas nisso. Aliás, você
também era, lembra? Como é? Você cresceu e agora é responsável? Você
está certo, é responsável sim, pela alegria e pelo prazer em sua
vida. É isso que determina cada segundo do seu dia. Viu só, você
confunde tanto bom humor com irresponsabilidade que vou ter que
explicar a piada da criação cósmica: primeiro, eu não fiz nada! Só
fiquei visível aos seus olhos... por mais que vocês digam que não
podem me ver! E essa história de seis, sete dias... tem a ver com o
tempo! Aliás, o tempo foi um presente fabuloso para você se
organizar melhor. Modéstia à parte, foi a maior ilusão que eu já
criei! Aí, você tratou logo de dividir o presente: chamaram de
agora, depois, daqui a pouco, manhã, tarde, noite, ontem, hoje,
amanhã, passado, futuro... Tolinhos! Dividiram tanto que esqueceram
que só existe o presente! Todos esses nomes são apenas palavras! Ah,
as palavras! Formidáveis veículos de comunicação que vocês usam para
interagir uns com os outros. Aliás, o “outro” foi mais um presente.
Percebi que você era extremamente vaidoso e precisava de um espelho
para se conhecer melhor. Como é? Mais fácil olhar para fora do que
para dentro! Difícil encarar a si mesmo, não é? Eu sei, foi por isso
que eu achei melhor mudar a moldura e chamar de “outro” o seu
espelho! Assim vocês poderiam reconhecer no outro aquilo é comum
entre você, ele e eu. Estou falando da sua centelha Divina. Alguns
preferem chamar de alma. Há quem diga que “a alma é a parte de Deus
que está mais próxima de você”. Estou de pleno acordo. Há mais uma
razão para que eu criasse o outro-espelho: foi mais uma forma de me
tornar visível aos seus olhos. Aliás, quer saber qual é uma das suas
maiores frustrações? Seus olhos podem ver o mundo, seu nariz pode
sorver o aroma da vida, seus ouvidos podem decifrar os sons mais
diversos, sua boca pode perceber tantos sabores diferentes, suas
mãos podem tocar tudo o que receber o nome de matéria. Mas nem um
destes sentidos são capazes de ler um pensamento como seus olhos
lêem a um livro. Nem os sentimentos descrevem palavras possíveis de
se escutar. Fiz isso de propósito. Foi só para você aprender que
para conhecer e perceber o mundo dentro e fora do ser era preciso
muito mais do que ver, cheirar, ouvir, degustar, tocar. Era preciso
sentir. Ver onde seus olhos não alcançam, sentir o aroma da paz,
respirar o amor, falar a linguagem da alma... Sabe, parece romântico
e poético, mas sentir é isso. Crer, não no mundo que você pode
tocar, mas no universo de sensações que podem tocar você. Sim, o ser
humano é maravilhoso e completo, por mais que você ache que sempre
falta alguma coisa. Aliás a falta é uma ilusão fantástica! Foi outro
presente, para que você pudesse se levantar e buscar o que deseja. É
como o horizonte! Você nunca vai chegar onde ele está. Para quê ele
existe? Ora, para te fazer caminhar. Sabe, mais importante do que
alcançar o lugar onde você quer chegar é viver intensamente cada
passo seu ao longo da estrada. Mais do que isso, o que importa mesmo
é como e com quem você vai dividir os presentes do seu presente. Seu
tempo, seu espaço, seus sentidos (tantos quanto você acreditar que
tem), seu horizonte. É, amigo, ainda acha que lhe falta alguma
coisa? Você tem a terra, o ar, o céu, o firmamento. Tem o corpo e a
alma para perceber o mundo. As palavras para se expressar, as
sensações para se descobrir, o outro para se reconhecer, o horizonte
para caminhar, as trevas para perceber o valor da luz, os problemas
para exercitarem o seu poder de encontrar soluções, a guerra para
conquistar a paz, o tempo para dividir com quem se ama, amigos e
amantes para sorver o melhor da vida, pais e filhos para
compartilhar experiências e descobrir a força do amor. O quê? Quer
saber o que vai fazer com tudo isso? Aí é que está o segredo!
Descobrir que nasceu para ser feliz, e que esta felicidade só irá
depender de uma coisa: do que você vai fazer do maior presente que
você já recebeu e deu o nome de VIDA. Vida, para ensinar a viver.
Viviane Pascoal Dantas 26 anos, natural de São Paulo,
poetisa, escritora, turismóloga, professora de Inglês com
experiência no exterior. Estudante de jornalismo na Universidade
Potiguar em Natal/RN, repórter da revista Natal Noite & Dia.