Uma das maiores invenções do mundo moderno é o sexo casual. Com seu
advento, as relações entre homens e mulheres tornaram-se
igualitárias. Ambos passaram a reconhecer que o sexo pelo sexo é uma
opção madura e responsável de quem sabe o que quer e sabe que alguém
também quer. Duas pessoas com objetivos afins se encontram e se
entendem, naqueles momentos. Porque só o que lhes interessa, naquele
momento, é aquele momento. É preciso um amadurecimento pessoal
concreto e amplo para levantar o sexo casual como possibilidade de
relacionamento.
A sociedade contemporânea, perdendo-se em sua hipocrisia puritana e
ilusória, procura reduzir o valor do sexo pelo sexo e exaltar a
importância do amor, da paixão, do estar enamorado. Como se o amor
fosse algo comum, disponível em qualquer esquina, em qualquer festa,
em qualquer sábado à noite. A sociedade contemporânea, insegura que
é, ainda teme o sexo casual. Tem medo de levantar reais
possibilidades de envolvimento – porque o sexo pelo sexo abre reais
possibilidades de relacionamento. Desse medo, resulta a banalização
do amor. Todo mundo se apaixona o tempo todo, por pessoas que sequer
beijamos, tocamos, comemos. Amor tem sexo no meio, também. E quem
vai pra cama só por amor, vai pra cama muito pouco na vida.
Não estou pregando o fim do amor romântico, porque esse, pobre
coitado, foi tão banalizado pela música pop, pelo cinema e pelas
novelas que parece que ele está à mão de qualquer um com dois braços
e duas pernas. Essa banalização do amor gera uma frustração, uma
desconsideração pelo humano. Amor não é produto à venda em
mercadinho de bairro. É raro; se esconde entre uma trepada e outra.
E o sexo casual faz parte dessa busca eterna pelo grande amor de
nossas vidas.
E daí que a fulana tem um jeitinho de mexer no cabelo que te deixa
louco? E daí que o beltrano sabe ser sensualmente eloqüente? Tem
muita coisa por trás daquele gestual e daquela articulação verbal. O
sexo casual tenta descobrir isso. A contemplação romântica perdeu
espaço e função em uma época em que somos mais visuais, objetivos e
sofisticados. Amor platônico não é amor, é carência. Por isso afirmo
que sexo casual é coisa de gente bem resolvida consigo e com suas
inúmeras opções. É muito fácil ostentar um amor platônico, quero ver
você segurar um amor real, com sexo e tudo.
Me lembrei agora de uma tirada brilhante da também brilhante Márcia
Denser, no seu conto "Tigresa". "Se ama tira a roupa", ela diz,
provocando a mulher e o homem contemporâneos, exaltando a fraqueza
de apaixonar-se como meio e o sexo como fim. É uma hipérbole das
relações afetivas atuais, mas dá margem à reflexão. "Se tu me amas,
tira a roupa que eu quero ver se tens colhão pra me aguentar – ao
meu corpo e às minhas neuroses, inseguranças, paranóias, medos e
hesitações." Porque o amor é assim mesmo, dá um trabalho do cão. O
sexo casual, esperto que é, sabe disso e não exclui o amor como
hipótese que a trepada de uma noite pós-festa pode revelar. Quer
amor? Então trepa.
Sexo casual não é coisa de gente superficial e que tem dificudade de
envolvimento, como a hipocrisia contemporânea tanto alardeia. Sexo
casual é sincero, honesto, joga limpo. E nesse jogo, quem sabe, o
vencedor pode até ser o amor. Se não for, beleza, parte pra outra.
Porque, como diz a sabedoria popular, a fila anda. E é fila bem
longa, de serviço público. Deus salve a burocracia do amor.
Vitor Diel Autor de contos, crônicas e artigos,
tem trabalhos publicados em diversos sites, entre eles o
www.pessoasdoseculopassado.com.br,
www.sarcastico.com.br e
www.bestiario.com.br, além de ter artigos e contos publicados na
edição número 17 de O Caixote. Seu conto “Um dia na vida” foi
publicado na antologia de contos 101 que Contam, organizada
pelo escritor Charles Kiefer. Outros textos do autor podem ser
conferidos no seu blog:
http://bumerangue.pitas.com.