Era a tarde mais longa de todas as tardes que eu já passara.
Esperava, ansiosamente, por ti e tu não aparecias. Meu coração
disparava, como se fosse pular do peito; meus olhos te buscavam a
cada segundo. Qualquer ruído me sobressaltava de alegria e, logo em
seguida, de dor e tristeza. Junto com a tarde, eu entardecia.
Era tarde. Minha boca, garganta e meu beijo morriam. Eu olhava, e
não vinhas. Que tarde tão fria. Que dor eu sentia.
De repente, surgiste. Do nada. Como uma flor que nascia sem que
ninguém a tivesse plantado e que era a mais bela dentre todas do
jardim.
Ao nos avistarmos, nos quedamos paralisados pela emoção. Então,
lançamo-nos ao beijo que as bocas, ansiosas, há muito pediam. E na
tarde ficamos, com os corpos ardendo, ai que grande agonia.
Nessa tarde em que tanto tardaste, meu corpo sofria. E ao te ter em
meus braços eu nada mais via e nada mais sentia do que tua presença.
Do que teu amor. Sequer percebera que a tarde se fora e o sol já
morria. E agora? Era tarde demais para ter outra tarde, outra
espera. Que fazer? Por que tardaste tanto, amor? Sabias que era
nossa última chance. Nossa despedida.
Minha estrela da tarde, te amo tanto. Já não vivo sem ti, vivo tão
só para amar-te. E agora, depois de tanta espera, deixaste escoar-se
o filete de tempo que restava para amar-nos e para deixarmos nossos
corpos indelevelmente marcados pelo sinal de tão grande sentimento.
Foi a noite mais bela de todas as noites que nós dois tivemos. Que
os aromas das flores de todos jardins aquele quarto encheram.
Decidimos, os dois, não podermos partir sem que nossos corpos
ficassem, pela última vez, unidos, para despedirem-se, pois isso
seria, para nós, muito pior do que a morte.
Nessa noite, os nossos dois corpos entraram em comunhão. Era um só
corpo. Não adormeceram. Trilharam, juntos, uma estrada, forrada pela
paixão e beijos molhados há muito contidos. Transformamos esse
momento único em noites e noites, sonhadas e desejadas. Era o nosso
momento. Ninguém, nem coisa alguma, poderia tirar-nos desse mundo à
parte criado por essa nova alma e esse novo corpo, vindo do mais
profundo de nós dois.
Era a nossa noite. A mais iluminada de todas. Todos os amantes, que
naquele instante, como nós, entregavam-se, de corpo e alma um ao
outro, perceberam que havia algo diferente no ar. Jamais seus corpos
sentiram tanta dor e tanto prazer, tanto desejo carnal misturado à
tanta pureza de sentimentos.
Eu não sei, minha estrela, se o que eu te falo é dor, é ternura, se
é riso ou se é pranto. Não chego a concluir se choro de alegria ou
se rio de tristeza. Só o que sei é que é por ti que eu vivo, que é
pensando em ti que adormeço e acordo em todos os dias de minha vida.
Levarei para sempre, comigo, cada detalhe deste quarto que nos
abrigou nesta tarde-noite de nossa despedida. Cada gesto, cada
sorriso, palavra, olhar, toda a entrega. Teu corpo despido, unido ao
meu, como se um só fôssemos, repito.
Olhas-me nos olhos, antes de nosso derradeiro adeus, com um misto de
dor e de felicidade. Já não há mais que dizer. É chegada a hora.
Vejo-te, pela janela, pela última vez. E, só então, deixo rolar meu
pranto.
Numa tarde de primavera, ouvindo o som do piano de Ernesto Cortazar,
senti-me transportada para o Éden. Lá, encontrei-me com pessoas
iluminadas, que sentiam o mesmo prazer que eu ao ouvir aquele som
maravilhoso e embriagante. Aproximou-se de mim uma linda jovem, com
longos cabelos dourados, olhos de um azul brilhante e perguntou-me:
– Ele também te trouxe para cá?
Não houve necessidade de que ela pronunciasse o nome dele.
Respondi-lhe, imediatamente:
– Sim.
– É encantador, não? – disse-me.
– É maravilhoso! Nunca estive em um lugar tão lindo,ouvindo uma
melodia tão maravilhosa! Sinto-me como um pássaro, voando livremente
pelo céu.
O céu era de um azul como jamais eu vira. As aves, com suas penas
coloridas, voando, formando desenhos, tal qual malabaristas de um
circo, ou um show de fogos de artifício. Que dom maravilhoso foi
dado a esta criatura, que faz com que eu, sem sequer mover um dedo,
ou sair de minha cadeira, viaje por todo o universo, com a leveza de
um pássaro, sentindo em meu rosto bater uma brisa tão suave quanto o
som de sua melodia?, pensei.
– Ele tem esse poder! Aproxima-nos de Deus. Nos transporta pelo mais
belo que há no universo e nos mostra o quanto a música pode falar de
amor. – responde ao meu pensamento, em voz alta, uma das criaturas
que compartilham comigo este momento mágico.
Seria maravilhoso, pensei, se todas as pessoas pudessem ver e sentir
o que estamos sentindo.
– Você pode fazer isso, se quiser. Basta desejar. Aqui, tudo o que
você imaginar, pode realizar. Veja o mundo todo desfrutando deste
mesmo sentimento de felicidade e você encontrar-se-á com todas as
pessoas que conhece e com aquelas que jamais viu, todos juntos,
flutuando, inebriando-se e voando ao som maravilhoso desta melodia.
– A vida deveria ser sempre assim – disse-lhe.
– E pode ser – respondeu-me. – Basta sabermos sonhar e nos
entregarmos ao sonho. Deixar penetrar em nossos ouvidos e em nosso
coração o som encantador de uma canção como esta, fecharmos nossos
olhos e flutuarmos em direção a toda esta maravilha.
De repente, fui tomada por uma dúvida que encheu– me de pavor:
– E se por acaso o som acabar?
A resposta não se fez esperar:
– Ele só acabará se você permitir. Se você abandonar o sonho,
embrutecer seu coração, fechá-lo para o amor e para a felicidade,
dando espaço tão-somente para a mágoa e a tristeza. Então seus
ouvidos não conseguirão mais ouvir o som, por mais próximo que ele
possa estar de você.
– Oh! Não! – falei, alto e desesperada. – Tudo farei para que ele
permaneça sempre comigo, num tom cada vez mais alto, para que eu não
perca o rumo, nem deixe de ouvi-lo, nem mesmos em meus vôos mais
distantes e complicados.
A cada dia, desde então, assim que acordo, sintonizo-me à música e
ao sonho. E se, por vezes, dá-me a impressão de que o estou ouvindo
mal, rouco ou muito baixo, lembro-me imediatamente das palavras que
ouvi:
– Não é a distância que fará você deixar de ouvi-lo e de sentir sua
magia, mas, sim, os sentimentos que brotarem de seu interior.
Tania Melo Mora em Porto Alegre, RS. É bióloga,
tendo atuado sempre na área educacional. Escreve porque gosta. Não
se considera dona de um estilo já totalmente definido, mas mostra
uma tendência a falar de sonhos, do amor e dos sentimentos. De
acordo com o dia, pode escrever algo intensamente romântico ou muito
triste, por vezes cômico, mas sempre prevalece o amor, mesmo que
subliminarmente, em seus escritos.