Minha vida tem trilha sonora. Não sei quem é o sonoplasta, não
contratei nenhum. Nem, ao que eu saiba, fui agraciada pelo Divino
com um anjo da guarda DJ. Seja lá quem ou o que for o responsável
por essa minha peculiaridade, canções sempre me acompanham.
Não importa onde eu esteja, nem o que faça naquele instante. Posso
estar no supermercado, na rua, no médico, na praia, na fila de
banco. Ou na lida diária: enquanto cozinho, ensino dever a menino,
arrumo casa, tomo banho, escovo os dentes e... Não, melhor não
aprofundar muito a descrição dessas tarefinhas cotidianas, antes que
a finesse seja trucidada pelo chulo.
Não há como impedir. Elas estão sempre aqui, como som de fundo. E
sempre apropriadas ao momento. Edith Piaff, por exemplo, não canta "La
vie en rose" na fila do banco ou do supermercado. Nem minha amada
Nina Simone me brinda com sua voz de contralto e seu piano
magistral, interpretando "I put a spell on you". Para supermercados,
bancos, lojas de departamentos e outros martírios afins a trilha
sonora é mesmo o poema de João Cabral de Melo Neto, musicado por
Chico, Morte e Vida Severina: “... É de bom tamanho / nem
largo nem fundo / é a parte que te cabe / neste latifúndio...”
Esse DJ invisível é independente. Sim. Suponho que ele exista. Do
contrário, teria de admitir o inimaginável! As canções formariam a
mais perfeita das anarquias. Cada uma sabendo exatamente quando
cumprir seu dever, sem nunca interferir no direito de a outra
existir e atuar, dispensando qualquer governo ou norma. Não. Tem
algo ou alguém mandando nessa alucinação musical. E só pode ser esse
Dj invisível, seja ele anjo ou não.
Aliás, sujeitinho muito espaçoso. Não me pede licença nem me
consulta sobre minhas preferências pessoais. Para ser justa, não lhe
posso negar o talento e arrojo. As canções que escolhe nem sempre
são óbvias. É preciso que, por vezes, me detenha nelas para
esmiuçá-las até perceber onde está o sentido, o elo entre canção e
realidade. Pois, como trilha sonora que é, não basta ter melodia
linda e letra inspirada. É preciso interatividade.
Incrível é que o danado sempre acerta. Como sou suscetível ao clima,
se acordo alegre num dia cinza-chumbo, depressivo, ele manda um "Here
comes the sun", com Georde Harrison, antes que o moral escorra ralo
abaixo. E manda muitíssimo bem, o intrometido. Se a melancolia me
toma, o som de fundo escolhido é, nada menos, que "Eleanor Rigby",
dos Beatles. Na guitarra de Stanley Jordan, ele puxa a minha orelha
e manda que desvie meu olhar do próprio umbigo e perceba as pessoas
a minha volta: ... All the lonely people / Where do they all come
from? / All the lonely people / Where do they all belong?/ Ah, look
at all the lonely people... E eu obedeço de pronto. Sem
questionamentos.
Quando escrevo não é diferente. É pior. DJ e canções usam e abusam
do direito autoconcedido de invadir mente, coração, alma e texto. E
ainda chegam acompanhados de imagens. Chove palpite de todo lado.
Agora, nesse momento que escrevo, já vejo desenhos, instrumentos,
tatuagens, partituras, flutuando à minha volta. Ouço, de forma meio
abafada, um burburinho de sons, como se alguém fizesse
experimentações à procura – não desta ou daquela música –, mas da
canção. Já conheço o processo. Sei que, antes do ponto final,
texto, som e imagem estarão de mãos dadas, numa perfeita harmonia
entre eles. Então se revelam a mim na totalidade. E eu que me
conforme com o resultado.
Mas há canções por demais abusadas. Passam dos limites de qualquer
insanidade – até da minha, que é mansa. Certamente à revelia desse
DJ emocional-musical, ficam como disco arranhado em minha cabeça,
girando e girando. É o caso de "Tatuagem", de Chico Buarque de
Hollanda e Ruy Guerra. Ouvi-a, outro dia, enquanto caminhava na rua.
Escutei apenas um pequeno trecho. Tão rápido, tão fugaz, que sequer
pude identificar de onde vinha. Amo a melodia, adoro o poema-letra,
sou tiete da intérprete, no caso Elis Regina. Segui cantarolando bem
baixinho, absorta nas lembranças trazidas por ela. Não poderia
supor, naquele momento, que estava assinando definitivamente meu
próprio laudo psiquiátrico: psicótica musical.
Preciso de música e poesia como preciso de ar. Mas daí a enlouquecer
de vez por causa delas vai uma grande distância. Desde esse dia,
"Tatuagem" está na minha cabeça, soando ininterruptamente. Tentei de
tudo. Ler, escrever, ver tv, gritar menino, discutir com empregada,
passear com cachorro, brigar com a vizinha, dormir. Nada. Até nos
sonhos surge ela, como tema. Eu confesso. Em meu desespero apelei
para o que há de mais vil e repugnante na música. Aos que gostam,
peço perdão. Aos que, como eu, detestam, peço perdão em dobro. Mas
ouvi toda sorte de funk, heavy metal, hip-hop,
duplas neosertanejas, goespell nacional, new age e até
pagode do Belo. Tudo na esperança de exorcizá-la. Em vão.
Agora percebo a razão dessa crônica. É minha última tentativa,
desesperada, de voltar à minha meio-normalidade. Concedendo-lhe
espaço, dando-lhe a devida e merecida importância, admitindo seu
poder sobre mim, quem sabe a satisfaço e ela me deixa em paz? Mas,
se nem assim eu conseguir livrar-me dela, rogo-lhes por
solidariedade. Pois sei que passarei uma boa temporada em descanso
forçado no spazinho da Praia Vermelha – que desavisados e
preconceituosos insistem em chamar de Pinel. Ah... E não esqueçam de
levar cigarros de presente. Hollywood vermelho, por favor.
Pululam por jornais, revistas, sites um sem-número de textos –
poemas, artigos, crônicas, análises feitas e assinadas por gente
abalizada, seja pela clareza de raciocínio ou por um canudo de
psicólogo ou psiquiatra debaixo do braço – sobre o assunto "relações
afetivas e/ou amorosas via internet". Minha caixa postal que o diga.
Sobram teses, multiplicam-se testemunhos, dividem-se opiniões quando
o tema vem à tona. Há até quem se auto-intitule dependente da rede e
proponha a instituição do IA (Internautas Anônimos), nos moldes do
AA (Alcoólicos Anônimos).
A dúvida hamletiana – ser ou não ser?, no caso um dependente virtual
– está em quase todos os texto, relatos em sua maioria de decepções
e desencontros afetivos via net. Com ínfimas diferenças uns de
outros, pecam todos em um ponto: tratar a Internet, o chamado mundo
"virtual", de forma diversa da realidade nossa de cada dia.
Não estou aqui para tirar o mérito artístico dos textos. Não sou
crítica literária. Nem juíza dos sentimentos alheios. É que me
surpreende ver tantas pessoas tratarem a rede como se tivesse ela,
por obrigação e objetivo, ser redentora de todos os nossos males:
nos resgatasse do isolamento, recriasse as relações humanas,
redefinisse o Homem. Por outro lado, a execramos porque nela
mostramos – ao contrário do que se diz – o que de fato somos.
A rede não é redentora nem algoz. Muito menos culpada das
expectativas que as pessoas para ela transferem. Culpar a net, os
chats, é o mesmo que culpar o bar, o restaurante, a boate, o
supermercado, a locadora de vídeo, a fila do banco. Só porque neles
conhecemos aquele(a) que imaginávamos ser o amor de nossas vidas ou
o nosso(a) melhor amigo(a). Amor e amizade que não resistiram a uma
semana de convivência.
Claro que o anonimato das salas de bate-papo, dos grupos de debates,
permite a muitos criarem personagens de acordo com suas fantasias.
Quem nunca esbarrou com nicks tipo: "De bem com a Vida",
"Sinceramente Gostosa", "Coroa Enxuta", "Cigano Sedutor", "Amante
Perfeito", "Amor Discreto"?
Desnecessário dizer que o mais provável é que o "De Bem Com a Vida"
esteja na maior deprê, que a "Gostosona" não passe de uma tremenda
baranga, que a "Enxuta" esteja molhada e caindo aos pedaços, que o
"Amante Perfeito" sofre de ejaculação precoce e jamais ouviu falar
em Ponto G – e, claro, o tal "Discreto" é, justamente, aquele que
contará sua intimidade para todo mundo.
Mentem. De um jeito ou de outro, mentem. A maioria. Como em tudo, há
exceções que confirmam a regra. Mas mentem, principalmente, para si
mesmos, porque devem mentir no seu dia a dia. Ao atenderem o
telefone com voz de riso, quando estão em prantos. Ao dizerem "tudo
ótimo" (o mundo está desabando sobre sua cabeça), quando lhes
perguntam como anda a vida.
Na realidade não passam de "mentiras sinceras" a la Cazuza,
com a justificativa de que é "para não preocupar o outro". E são
aceitas, até louvadas. Porque educadas, civilizadas. Porque mostram
como são fortes, discretos, reservados e passam pelos dissabores da
vida estoicamente.
Traduzindo: é pura e simples hipocrisia social. Mais uma das muitas
cometidas diariamente, em nome da finesse. Ora, se está mal,
diga que está. Ou diga que não deseja falar sobre o assunto. Ou,
então, não diga nada. Melhor assim. Seja "no real" ou "no virtual",
como a maioria dos internautas gosta de subdividir a existência.
A Internet é só uma extensão da vida que levamos. Nada mais. Nada
menos. As pessoas chegam e partem do nosso cotidiano a todo momento.
A rede não é um território imaginário, uma outra dimensão, um mundo
paralelo de filme antigo de ficção científica. Tanto aqui como lá,
mantendo a subdivisão, num dia ganhamos um amigo, no outro deixamos
partir uma amizade mais antiga. As razões são várias. Bobagem
enumerá-las aqui.
Creio que já passou da hora de desmitificarmos esse "virtual" e
encararmos de frente as nossas limitações. Vamos assumir a
responsabilidade pelas frustrações decorrentes das expectativas
criadas por nossas carências. Há motivos e meios de sobra, na rede e
fora dela, para atingirmos nossas metas, obtermos satisfação.
A rede pode e deve ser mais um instrumento para alcançarmos esse
estado de espírito, Com a rede, o Louvre está a dois quarteirões e
os mosteiros do Tibete ficam logo ali, ao dobrar a esquina. Melhor
que isso, só estar "a dois passos do paraíso".
É fato e, contra fato, não há argumento. Existimos num mundo
conturbado. Saímos de casa sem saber se voltaremos. Há guerras e
conflitos em toda parte do globo terrestre. As relações
inter-pessoais mudaram. Os papéis tradicionalmente desempenhados por
homens e mulheres nessa sociedade louca, pós-moderna, contraditória
foram modificados e ainda não os sabemos de cor.
As mulheres queimaram sutiã em praça pública para, décadas depois,
vestirem-se de "tiazinha". Submetem-se à ditadura da beleza do
momento, inflam-se com silicones. Os homens exigem o direito de
chorar e de dizer não, quando uma mulher indesejada os assediam. Mas
ainda desperdiçam horas e suor nas academias para exibir músculos à
Schuarzenegger, coçam o dito cujo em público e cospem no chão.
E o que fazemos nós, as que queimamos sutiã, diante da rejeição
masculina? Taxamos o sujeito de boiola (isso, para mantermos o
mínimo de elegância), pois queremos dele a velha atitude do
garanhão. E o que fazem os homens, quando uma mulher exerce
livremente seu direito à sexualidade? Ainda somos chamadas de
fáceis, de piranhas mesmo.
Vivemos a era do "tudo ao mesmo tempo agora", profetizada na década
de 1980 pela Libelu (Liberdade e Luta, antiqüíssima e já finita, ao
que me conste, facção de esquerda). É difícil viver num mundo onde a
única certeza é a incerteza. Mas o culto ao sofrimento, às lágrimas,
às saudades tristes, às perdas, aos amores não correspondidos, ao
martírio, à infelicidade não me parece solução para nada. Chega de
culpar o outro e a rede por nossas desventuras.
Ambos só podem nos decepcionar, magoar, entristecer se criarmos
fantasias e jogarmos sobre eles a responsabilidade de realizá-las. A
Internet, por exemplo, deixaria de ser um veículo de comunicação
espetacular para transformar-se numa espécie de fada-madrinha do
terceiro milênio.
Francamente! Somos adultos! A maioria dos que se queixam e choram as
mazelas da rede tem bem mais de 30 ou já passou dos 40. Temos
décadas de praia, de janela, de experiência. Para que elegermos a
Internet como bode expiatório de nossas inseguranças, da nossa
preguiça, da nossa indisposição e indisponibilidade para viver a
realidade? A realidade sim, pode nos proporcionar alegria, amizades,
amores. Esteja essa realidade na rede ou fora dela.
Ingenuidade, gente, só fica bem em criança e pré-adolescente. Na
nossa idade, ela ganha outro nome: oligofrenia.
Ao contrário de 99.9% dos nascido nesta terra, nunca tive apreço
especial pelas sextas-feiras. Não ligava muito para ela nos meus
tempos de faculdade. Se todo dia era Dia de Índio (como proclamava
Jorge Ben – agora, Benjor), todas as noites eram noites de sexta
para mim. Depois, trabalhando, sexta-feira passou a ser sinônimo de
tortura.
Dia de trabalho triplicado. Sabia-se a hora em que começava e jamais
tinha-se certeza se, de fato, terminaria. Sexta. Dia de pescoção, de
adiantar o jornal de domingo, fechar as matérias especiais. Assim
eram chamados os textos laudatórios, que eram oferecidos aos
incautos leitores. E ainda deixar na gaveta duas ou três "matérias
frias" para a edição de segunda. Prevenido vale por dois.
Sexta. Dia de ficar até depois da meia-noite, vampiros da palavra,
trancafiados numa redação. Nessa altura, qualquer resquício de
elegância já fora destruído pelas nuvens de fumaça de cigarro e
pelos litros de café tomados, compulsivamente, na ansiedade de
cumprir o horário de fechamento. Indústria é indústria, a linha de
montagem não pode parar.
Dessa forma doida, perdia-se o compasso com o mundo lá fora. Quando
saíamos, a maioria dos amigos antigos estava de volta à paz do lar.
Amizades de infância e adolescência definharam ao longo do tempo,
vitimadas por essa ausência de sincronia. Fazer o quê? Eles tiveram
juízo e optaram por profissões normais.
Agora, diga. Que importância (ou conotação de liberdade) uma
sexta-feira poderia ter para alguém que bateria ponto no sábado e no
domingo? E também na segunda, na terça, na quarta até que o ciclo,
aparentemente interminável, premiasse-nos com uma folga completa:
sexta, sábado e domingo.
Mas aí, também, a sexta se antecipava: acontecia na quinta. Esse
calendário, digno de Lewis Carrol, me afastou definitivamente das
pessoas normais. Das que pegam no escritório às 8 h, têm hora de
almoço determinada e saem para a vida às 18 h. Trabalhar final de
semana, feriados, dias santos, Natal, Ano-Novo, carnaval? Para elas,
nem pensar. Para nós, dias de tédio nos plantões da redação.
Vivíamos os fatos hoje, escrevíamos as matérias usando o ontem,
o que para os outros só seria realidade amanhã. E, quando
escrevíamos, amanhã, seria-aconteria depois de amanhã,
enquanto para resto dos mortais a realidade era amanhã. Deu
para entender? Não? Comemore: você integra, felizmente, o grupo dos
normais.
Diante de tanta confusão, vivendo em um mundo onde o tempo foi
subvertido, o resultado não poderia ser diferente. Caí, admito, sem
muita resistência na marginalidade. Passei a viver uma espécie de
vida paralela, com calendário próprio e hábitos peculiares.
Ingressei numa tribo sui-generis: a dos jornalistas profissionais,
que militam na grande imprensa diária.
Para essa trupe, as noites de sexta aconteciam nas segundas e
terças-feiras. Noites batizadas, não sei por quem, como "dos
profissionais". Do quê? Só Deus sabe. Nessa época, parecia que até
os bandidos tiravam folga nesses dias. Nada de relevante acontecia.
Poucos assaltos, alguns assassinatos de fim de semana, Executivo e
Legislativo ainda na modorra. Tudo parecia conspirar a nosso favor.
Claro, havia exceções: chacinas eventuais em alguma favela distante
ou um crime passional em um bairro nobre, rico. Tudo muito
episódico. Alto lá! Não pense você que falo assim, de forma jocosa,
sobre assassinatos e chacinas, por insensibilidade. Ao contrário.
Quantas e tantas vezes deixei a redação amargurada, com lágrimas a
escorrer-me por dentro. Mas, como guerreiros medievais, nós também
precisamos de armaduras, que nos protejam dos golpes do inimigo. No
caso, a feia e cruel realidade de uma megalópole.
Mas as segundas e terças nos redimiam. Percebia-se que eram dias
especiais pelo frenesi que se apossava de todos. Na segunda, uma
certa discrição ainda era mantida. Na terça, perdia-se a compostura.
A pressa era descarada mesmo. Reinava a solidariedade entre o
reportariado. Um concluía o texto do outro, enquanto o outro
terminava de apurar a matéria do um. O que importava era
datilografar o ponto final, entregar as laudas e correr para a Vida,
embalados pela voz de Cláudio Zoli e da Banda Brilho, que nos
prometiam uma “Noite de prazer”. Saíamos sem olhar para trás, como
Ló ao deixar Sodoma.
Essa minha anomalia, que persiste até hoje, quando já não mais
milito em redação. Isso não impede, porém, que eu perceba o frenesi
dos normais. Dia de batom cintilante, perfume na bolsa, decote
ousado, calça justa, camisa mais elegante, sapato novo e engraxado,
gravata fácil de afrouxar. As mais precavidas, uma muda de roupa na
bolsa. Os mais prevenidos, camisinhas na carteira.
E fico feliz por todos. Sinto a excitação e a alegria incontidas.
Intuo as expectativas que se acumulam com o passar das horas.
Calculo o sem-número de vezes em que olham furtivamente para os
relógios, contando minutos, segundos. As idas e vindas ao toalete e
à copa, numa tentativa de fazer com que o tempo passe mais rápido.
Os ponteiros ficam inexplicamente vagarosos, como se decretassem
operação tartaruga. Pura implicância e inveja, sem dúvida. Mas a
hora do Angelus chega. E aí, é ir para o crime, com salvo-conduto e
carta de alforria. Até segunda-feira, às 8 horas. Pontualmente.
Simone Salles Ligeira autobiografia em linhas
tortas.
Quando nasci, nenhum anjo me disse para "ser gauche" na vida. Nem me
apareceu um "chato de um querubim" para comunicar-me,
diligentemente, que eu estaria fadada a ser errada vida a fora. É o
que dá não ser Drummond ou Chico Buarque de Hollanda. Ser, apenas,
uma mulher comum. Fato é que, até o ano de 2004, com 42 anos anos,
nunca consegui viver em linha reta – nem mesmo sóbria de ilusões,
sonhos, fantasias e pensamentos.
Ninguém me alertou que trilharia estradas tortuosas, em alguns
momentos quase marginais. Nem que esses (des)caminhos da vida seriam
acidentados, com trechos de aclives íngremes e de declives sinuosos.
Sem esquecer os desvios provocados por avalanches existenciais e as
inevitáveis freadas emocionais de arrumação. Um perigoso só. Mas,
como atesta a sabedoria do povo, a mulher que andou na linha, o trem
matou. E eu estou aqui, vivinha da Silva.
Aventurei-me assim pela existência: às cegas, tateando. Mais abusada
e temerária que intrépida e corajosa. Por vezes, impulsionada pelo
faro; outras pelo instinto, a maior parte do tempo pela emoção.
Hoje, quando me perguntam quem sou, nem pisco para responder: mãe
(de um lindíssimo casal de filhos: Laura, fará 10 anos em dezembro;
Victor fez 7 em junho passado); solteira oficialmente e descasada
oficiosamente; jornalista episódica; artesã por hobby e
herança genética; escritora por compulsão e mulher – quando sobra
tempo. Sempre sobra. Afinal, nem só de pão e obrigação vive uma
mulher. Um tanto de carne e circo são fundamentais na vida.
Sim, sou jornalista há 22 anos. Avisei que a perfeição por mim
passou lotada e não parou no ponto. Sorry. Porque, perdoem-me
os mais românticos, ser jornalista neste país, nos dias de hoje, é
tão-somente saber administrar – com as bênçãos dessa nossa sociedade
hipócrita – um desvio de caráter: o interesse pela vida alheia. No
popular, o gosto pela fofoca. Como em toda profissão há, ainda, os
que dela fazem uma arte.
Nisso e disso sobrevivi, direta e indiretamente, dos 22 aos 38 anos.
Até que no final de 2000, recém-chegada de Brasília, após 14 anos de
auto-exílio, abandonei de vez as redações. Digitei meu ponto final
no terminal da Editoria de Política do jornal O Globo, onde
trabalhava no fechamento da edição.
Sem alardes, despedidas ou brigas. Apenas coloquei a bolsa no ombro,
desejei boa-noite a todos e virei as costas a uma etapa da minha
vida. Desde então, dedico-me exclusivamente a escrever. E ler. E
escrever. Pois que escrever é bem mais que inspiração. É compulsão
da alma. É necessidade do espírito. É imposição do Ser. E só os que
padecem desse mal compreendem o quão imprescindível é transmutar em
palavras o que nos vai por dentro. Fiz desse mal, que é bem, meu
prazer, meu ofício, minha profissão de fé. E la vie en rose....
Simone Salles trabalhou no Jornal do Brasil, na Folha de
S.Paulo, na Revista IstoÉ, no Correio Braziliense
e em O Globo. Tem colunas semanais em diversos sites de
Literatura.
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