Sim, eu morri mil vezes. Atravessei o inferno e fui esmagada pela certeza. Onde encontrei forças para ainda estar? Ninguém pode dizer... havia um talvez excessivo na minha história, manchas de poluição emocional, sujeiras infinitesimais de afetos. Mas a luz, quando veio, foi absoluta lâmina.

Traição, o que é traição? Por acaso sou dono do meu irmão, do meu amigo, do meu amor? Deuses! Quem são os deuses para me julgar? Eu morri, estou morta, é meu corpo que não pedi para usar, me emprestaram com juros. Devolvo agora. Sou muito mais do que ele, sou muito mais do que sorrisos na brisa de setembro, muito mais do que as uvas, cujo sumo escorria no seu queixo aquela sexta-feira. Muito mais do que cada pedaço do nosso cotidiano esfrangalhado. Não quero nada. Nunca desejei nada. Só um gesto de carinho e era tudo. Docemente.

Como tem a coragem de dizer que eu ainda não morri? Estou morta, enterrada, virei pó de estrelas, sumi na poeira dos tempos, eu morri mil anos atrás, me desintegrei, muito antes dos meus sonhos terem se tornado adubo debaixo das árvores de ontem... ouviu? Você me ouviu?

Caronte me olhou frio.

A bruma era espessa e a água se espraiava oleosa, cinzenta. Gotas de silêncio escorriam entre nós.

Sem palavras, ele me estendeu a mão para o barco. Havia uma pequena gentileza no gesto.

Longe, muito longe, Billie gemia rouca: chore-me um rio.

Uma porta bateu.

Passos em direção ao meu corpo, uma mão que me toca devagar, ah, tão docemente...

Mas eu já não era.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Uma porta que bate, despertador, sino tocando ao longe.

Outra porta, sussurros, palmas, grito na rua, carros espirrando água, buzina tardia, o reclamar de um bêbado no túnel solitário.

Molas da cama rangendo, o suave ressonar interrompido, ruído melancólico de pés nus batendo no chão, passos sobre o tapete.

O leve rangido da porta do banheiro, a descarga cortando toscamente o silêncio vago, água escorrendo na pia.

Mais água, som de chuveiro, escorrer úmido no corpo nu, porta, passos, um leve friccionar de toalha ao lado do meu desmaio.

Novos passos, seda sobre a pele, arquejar sutil, meias roçando carne, quase impossível perceber, o tecido escorrendo, encaixar seco de sapatos, plec plec de saltos sobre o tapete, muito leves.

Fricção de escova em cabelos, uma, duas, cem vezes. Tilintar de objetos, um zíper se abrindo, o suave murmúrio do batom nos lábios e do lápis no olho. Zíper outra vez, passos próximos da minha morte matinal.

Um suspiro cansado, leve toque de dedos na mesinha de cabeceira, farfalhar de notas, novo suspiro profundo, tlec na bolsa.

Passos, chave girando, porta se abrindo.

A música no corredor – plec, plec, plec.

Marulhar vago de vozes pela janela até meu enterro na madrugada.

Carro que chega, pneus rangendo ao estacionar bruscamente, uma porta que bate.

O ruído de tiros cortando o vazio, vidros se estilhaçando, aço contra cimento, estrondo, gritos, gritos , gritos.

Silêncio.

A vida é cruel, Stefanie.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Meu rosto está lá.

Mas eu fiquei esquecida na mesa. Não sou esta mulher, com a qual o espelho tenta me enganar.

Estou em algum lugar onde esqueci a bola para que você viesse procurar. E me encontrar perdida, o vestido lívido do desejo, a boca espessa, procurando o conhecer do medo.

Lá na lembrança havia a pele do perigo que perdi nos retalhos do desespero.

E os olhos. Os olhos de pedido que enlouquecem.

Não me procure hoje com olhos de ontem. Não estarei mais lá.

Ficamos os dois na tarde do proibido e nenhum pode seguir caminho. Apenas corpos que se reproduzem através de dias. Apesar da seda que foi se abrindo em fendas, íris em que permanecem brilhos, cujo matiz esquecido já não toca o havido.

Não venha ao meu encontro neste espelho quebrado. Porque também estarei fingindo o dia que não é mais. Estarei outra e outros do não sei. Um homem que pensei entender mas foi tão cedo. Talvez tenha sido de brincar. A vida pode não ser a sério. Escondidas de nós as coisas bravas, mostrando sinais inexistentes.

Quando olho para mim no teu espelho é uma outra mulher que é. Não existimos mais. Nunca existimos. E a saudade na tarde da escondida bola, brincadeira, foi apenas uma falsa memória.

Sentado nesta mesa de um bar qualquer, num dia sem e me esperando, não é mais real do que a tarde cuja memória permanece do que não é.

Está mais profundo no passado do que estou agora neste instante em que a estranha do espelho acaba de chegar.

Sei que houve tudo e de saber vivo. Mas não de te encontrar em bares, ou de espreitar o espelho mentiroso.

De saber que em algum ponto ainda arde. Uma dobra talvez da antiga plenitude. A beleza que foi, tudo é presente.

É sempre hoje onde se quer de todo.

Saio do banheiro e fecho a porta com cuidado. Quero escapar outra vez de mim.

Na mesa você espera com olhos de ontem. Mas eu te apunhalo com a faca de sempre. O estilhaço do espelho que me viu.

Embriagado.

 
     
 
   


 

           

 

 

Maria Helena Cordeiro de Souza Bandeira (bárbara Helena)
Carioca, formada em jornalismo, artista plástica, largou tudo para se dedicar a escrever. Costuma dizer que é muitas e uma delas, bárbara Helena, é colaboradora com crônicas e contos do site Anjos de Prata – a outra, que escreve ficção científica, teve seu conto "Eu mesmo" escolhido Conto Brasileiro do Mês da revista Isaac Asimov Magazine e foi a vencedora no primeiro trimestre de 2001 do Concurso Permanente de minicontos do site português Simetria. Outros textos seus foram publicado na revista Blocos, como o melhor da quinzena em 2001, 2002 e 2003 e 2004, assim como uma mini-série literária de ficção científica. Escolhida pelos leitores da revista como uma das dez melhores na categoria prosa em 2003. Seu conto "O especialista" (do site português E-nigma) foi indicado para o prêmio Argos 2002. Pertence à Oficina de Escritores, ao Projeto Slev de FC e é colaboradora da revista Scarium de Fantástico e FC (onde foi conto de capa do número de lançamento). Escreve em vários gêneros, mas em todos persegue o fantástico. O destino das Helenas é além do real. Poeta inédita, embora com um livro, Borboleta no chapéu, premiado com menção especial (Prêmio Guararapes da União Brasileira de Escritores). Tem um outro para ser lançado, Unicórnios no jardim.