Com toda a razão! Este é o primeiro Severino a chegar lá em cima.

Severino no fundo já sabia do seu destino. Ele se achava a imagem especular do padre Ciço, principalmente quando segurava um chapéu rente à perna. Igualzinho a estátua. Mesmo não sendo cearense, não podia esconder a devoção, porém escondia a premonição de que aquela semelhança com santo não seria inconseqüente.

Telefonou para a filha.

– Neguinha, acho que vou me candidatar à presidência da Câmara.

– Mas o que é isso, painho?!

– Foi um sonho que tive. Padre Ciço me olhava com aqueles olhos de santidade e apontava a bengala na direção da Câmara, que aparecia no fundo do sonho. Ora, se eu já estou lá, então ele está querendo é me dar uma missão.

– Painho, já te falei para não comer buchada de bode à noite. Toda vez tu passa mal.

– Mas...

– Lembra da última vez? Tu queria se candidatar para a Academia Brasileira de Letras, logo tu que nunca escreveu nada.

– E pra quê? Até Sarney tá lá.

– Mas painho, o bigodudo escreveu um livro sobre formigas... formigas, não, abelhas, não, marimbondos. Acho que foi isso.

– Besteira, filha. Pena que tu não deixou, pois o que manda mesmo é o jeito de arrumar votos, e nisso eu sou bom.

– Meu bichinho, tu vai enfrentar barra pesada. O pessoal lá não gosta de padre, só de bispo para cima.

– Gosta mesmo. De bispo e dinheiro, duas coisas que andam juntas. Vou dar aumento para todos nós, do sacristão ao cardeal. É a unificação do clero.

– E se tu tiver que palpitar sobre essa tal de célula tronco?

– Se for para fazer tecidos, como estão dizendo por aí, sou contra. Agora, se for para melhorar meu tronco e nascer pescoço, vou para o plenário votar a favor. Aí vou poder botar aquela gravata que tu me deu no aniversário. Tudo vai depender do encaminhamento.

– Painho, não se precipite. Pensa mais.

– Tá certo. Vou dormir no assunto.

Não só dormiu como sonhou. Sonhou que chegava no Recife no avião da Aero Lulas, saindo dele já instalado no Rolls Royce do Presidente em exercício. De pé, na parte traseira do carro, ostentando uma larga faixa verde-amarela, acenava para mais de um milhão de nordestinos, que se manifestavam com blocos de frevo, trios de forró, desfile de vaqueiros, bumba-meu-boi, bonecos gigantes e políticos de todos os recantos.

“Qual o grande Alexandre, sua excelência Severino vem imperar em todo o Nordeste montado em seu cavalo motorizado”, filosofou o deputado Nonato para os microfones e câmeras de TV.

Severino acordou com o rosto molhado pelas lágrimas e o corpo ensopado pelo suor.

– Sim, meu padre Ciço. Seja como vosmecê quiser. Vou cumprir minha missão.

Conformado com o seu glorioso destino, agora a única coisa a incomodá-lo era uma infecção no dedo mínimo da mão direita, provocada por uma espetada de espinho de roseira coroa-de-cristo. Essa roseira é profética. Resolveu não procurar o médico e fosse o que Deus quisesse. Se o dedinho caísse seria o Sinal dos sinais. Alea jacta est, como dizia FHC, sem nunca ter explicado aquele ditado francês, mas que devia significar “vamos a jato”.

Ficou arrepiado.

 
     
 
   


 

           

 

 

Heitor Rosa
Nasceu em Urutai (GO) e reside em Goiânia. Médico, professor titular de Gastroenterologia na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás. Residiu alguns anos na Europa (Londres e Paris), onde fez pós-graduação. Foi colunista do Jornal da Associação Médica Brasileira (SP), para o qual escrevia crônicas sobre a vida universitária. Seu primeiro livro foi Histórias agudas e crônicas: do apêndice ao avião (1996). A seguir publicou Os ossos do coronel Azambuja e outras mentiras (1997), pela editora Fábrica do Livro, com prefácio de Moacyr Scliar. Em 2000 publicou O enigma da Quinta Sinfonia, pela editora Escrituras. No prelo, pela Prêmio Editorial, encontra-se o último livro Memórias de um cirurgião-barbeiro.