Eu estava cagando quando tocou o telefone. Levantei-me procurando na
privada o sensor. Tem que haver um sensor. Sempre que sento pra
cagar o telefone toca.
Atendi.
– Boa tarde. – Voz de mulher.
– Boa.
– Posso falar com o responsável pela residência?
E se eu dissesse não? E se eu dissesse que não sou responsável?
– Sou eu.
– Oi. Sou representante de uma organização ... – Vendedora, que
porre! – ... ajudar pacientes com câncer... – Vendedora
filantrópica, pior ainda. – ... sacos de lixo de quinze litros por
quinze reais ... – Uau, um real por saco de lixo. – ... sacos de
trinta litros por... – Eu queria me livrar dela sem ser muito
grosseiro.
– Aqui é um apartamento, senhora.
Silêncio. Depois:
– Ué, mas vocês não usam saco de lixo?
– Quinze litros é muito grande.
– Ah, então tá, obrigada.
Encuquei. Quantos litros tem um saco de lixo? Procurei na despensa.
Não encontrei sacos de lixo. Lembrei que usamos apenas sacos de
supermercado como lixo. Até compramos a lixeira já no tamanho dos
sacos de supermercado.
Fiquei pensando por que o resto do mundo não fazia o mesmo.
Compravam sacos de lixo que vinham ensacados, depois os colocavam no
saco de supermercado e os levavam para casa. Abriam o saco de
supermercado, pegavam o saco onde estavam os sacos de lixo,
rasgavam-no, pegavam um saco e o colocavam na lixeira. Depois
jogavam fora o saco de supermercado e o saco onde estavam os sacos
de lixo.
Não seria muito mais fácil comprar seis cervejas, botar o saco de
supermercado na lixeira e jogar as latas nela depois de vazias? As
pessoas são estranhas.
Uma coisa que adoro é o desatento.
Eu mesmo sou um desatento. Vivo comendo mosca. Quando vejo um irmão,
consolo-me. Ontem o Berbs estava me contando uma história.
– Resolvemos ir pro Rio. Meus dois pneus estavam meio carecas.
– Os da barriga?
– Aí coloquei o estepe no lugar de um pneu e resolvemos pegar o
outro pneu no carro do Batata.
– Tem sempre um Batata na história.
– Parei meu carro atrás do carro do Batata, um Gol quase igual ao
meu. Como só tínhamos um macaco, tiramos a roda dele, colocamos o
meu pneu velho, tirei outro pneu careca e botei a roda dele no meu
carro. Quando tava tudo pronto, o Batata resolveu pegar um não sei o
quê dentro do carro. Tentou abrir o carro mas não conseguiu.
– Já vi tudo.
– Tentou até que abriu o carro. Entrou, olhou lá dentro e saiu.
"Porra, esse não é o meu carro, é o da minha vizinha. Aquela babaca
que enche meu saco".
– Vocês ficaram com a roda, não é?
– Se a gente ficou? Não, cara, a gente destrocou tudo de volta. E
foi foda pois era mais de meia-noite. Trocamos na surdina para a
mulher não aparecer.
– Vocês já tinham afanado a roda e depois a devolveram com medo de
serem apanhados com a mão na roda?
– É.
Adoro os desatentos. Pegaram a roda do carro errado e quando a
tinham em mãos se arriscaram novamente para devolvê-la. Desatentos
em dobro.
– Aí foram pro Rio?
– Que nada. Era de noite. A gente foi dormir.
– E por que resolveram trocar os pneus do carro de noite?
– Porque...
Adoro-os.
Giovani Iemini É escritor, peladeiro, motoqueiro,
cachaceiro, leitor voraz, cactólogo, historiador, gibizeiro,
roqueiro, (ex) cabeludo, marido, enxadrista, pintor, músico
(frustrado), crítico de tudo e todos, tem o nariz grande e é
conhecido nas redondezas como o amigão de todas as horas.