Estava numa pressa de voltar para casa. Só de imaginar a "filha"
sozinha... Tão novinha. Desde que havia acolhido aquela coisinha
miúda, sentia-se tão responsável... Até voltava mais cedo da
esbórnia.
E foi assim por meses. Até que, um dia, chegou em casa e viu a
pequenina entregue aos prazeres com o malandro. Um gato vizinho,
garanhão, por assim dizer. Estava fazendo a festa pelas varandas dos
apartamentos do prédio. A velha história da "Dama" e o "Vagabundo".
Ou das ex-"damas"...
E, num piscar de olhos, este personagem era dono de uma gatinha ("Gosh,
minha filhinha, tão neném".) mais treze filhotes.
Doze se foram. Eram lindos, apesar do pai, como dizia este
personagem. Um era tão limitado, todo deformado, que ninguém quis.
Logo o filhote enjeitado não resistiu. Cheio de dor na alma,
preparou um "funeral". Digno da filha de sua amada gatinha. Flores,
cova preparada no pequeno jardim, imaginava alguma espécie de ritual
que marcasse esse pobre filhote, tão fugaz.
Ainda estava pensativo quando notou a aproximação de sua "filha".
Nem bem terminou o pensamento e percebeu que sua filha estava
encostada no filhote, já com o corpo inerte. "Coitadinha, vou deixar
ela olhar para o filhinho, deve estar sentindo, ou se despedindo".
Não terminou a frase e percebeu sua tão singela "filha" abocanhando
o pobre animalzinho e... "Meu Deus"... arrancando um pedaço. Foi uma
das pernas na boca de sua filha.
De longe, ainda olhou aquele ser, "inocente", sumir com o pedaço
"vil" na boca. E um olhar quase falante: "Deu trabalho para sair de
linha, agora vai voltar...".
Natureza. Natureza. Natureza. Apressou-se em enterrar o filhote.
Melhor assim...
Dani Sorris Carioca, formada em jornalismo pela
UFF, atualmente trabalha como assessora de imprensa em um museu
carioca. Apreciadora de literatura, já ministrou oficinas nos
eventos Paixão de Ler 2002 e 2003 – Poesia de Viver e Sala de
Histórias e Poesia, além de participar de outras oficinas de
comunicação e literatura. É responsável também pelo blog Um
Personagem.