Que mulher nunca teve o desejo histérico de entrar em casa, arrumar
as malas, vestir a roupa que melhor a conforta e simplesmente
partir? No dia seguinte, acordar num quarto todo branco de um vazio
imenso, mas confortável. Sentir-se estar descabelada e feliz,
sozinha. Esse quarto poderia estar na Itália, na Nova Zelândia, no
Amazonas ou em algum canto direito do nosso cérebro, contudo sem
localização precisa para qualquer pessoa conhecida. A Conchinchina
imaginária aonde toda mulher quer ir a cada nova desilusão. Às
vezes, por nada, se quer ir para a Conchinchina e sumir.
Ontem, eu mesma, por algum desvio sensível que não sei explicar,
arrumei as malas e parti. Minha cabeça não doía, nada demais
acontecia, mas e daí? Eu estava chorando.
Acionei o botão, e fui.
Ocupei uma cama arrumada com lençóis de cetim no quarto todo branco
de um vazio imenso. Eu estava desarrumada e havia dormido
profundamente no branco daquele lugar. Na manhã seguinte, Gabriel
não me acordou com beijos de bom-dia, nem ouvi a Pitchuquinha pedir
seu leite com Nescau aos berros. Nenhum pêlo de gato no amplo
quarto, apenas o branco e o vazio: eu. Estendi os braços para essa
solidão e a abracei com tanta força que logo não sabia mais o que
fazer. Para onde ir? No que pensar? Acabou? Levantei-me devagar,
caminhei pelo quarto e fui olhar a paisagem da janela. Um emaranhado
de prédios cinzentos, altos e baixos, coberturas, antenas de tv nos
prédios, a rua lá embaixo, bem lá embaixo, muito abaixo de mim,
pequena, tímida rua estreita em que eu agora me localizava. "Quero
passear", decidi. Mas que rua era aquela? Tão apertada e
desconhecida a rua em que estava. Larga, apenas, a minha disposição.
"Melhor ficar no quarto e não fazer absolutamente nada", pensei. E
assim fiz. Não tinha nada acontecendo nesse momento de estupor
calmo, silencioso e solitário quando alguém me chutou. Ora, o meu
filho me chutou!
E de dentro da minha barriga ele sorriu sem saber que sorria.
O quarto todo branco ficou vermelho de vida quando nos meus braços e
pensamentos nasceu um bebê. Dadas às minhas, as mãos de Gabriel.
Parto.
Alessandra Archer Carioca, graduada em jornalismo e
escritora por paixão.