O foco de luz, bem dirigido à minha pessoa, me ofuscava, tornando a sala com confrontações indefinidas. Um cubículo abafado, onde uma voz se fixava em única imposição: – diga! – diga! A cadeira, sem espaldar, onde determinaram que sentasse, me obrigava a descansar os braços na mesa fria de pedra. Descansar? Não, exatamente. Foi o único apoio que encontrei. Não sentia minhas pernas... não tinha pernas! Eram membros de dormências onde cada contato me trazia o testemunho do um arrepio de imobilidade. Braços largados? Havia tentado. Todavia, um peso me puxou para baixo, como se minhas mãos fossem enormes cuias de chumbo fazendo meus braços irem para... onde, além do chão? Alavanquei, então, os ombros e consegui tombar meus braços, que caíram inertes sobre a mesa, duas peças, peladas e sem graça. A voz chegava aos meus ouvidos como pequenos choques, o que aumentava a tensão de minha cabeça que se enchia de pequenos raios prontos a seguir o trajeto do fio de dor que ligava minhas têmporas, juntando-as em peso na minha fronte. Beba! Beba, diga!!! Não queria saber de sons, de vozes, de luzes... Uma repulsa contida invadiu meu corpo, partes dele dilaceradas, outras desprazerosas, outras inertes. Era isso o que eu alcançava sentir, uma repulsa que me levava ao mesmo lugar, à mesma aversão. Estava calada e o que tinha de informações, as marcas do corpo segredavam. Se havia conseguido chegar até lá, perseguiria, eu e meu mundo, eu e o mundo sonhado que levava junto a mim. Sem heroísmo. Silêncio que vinha da absoluta dor sentida. Minha boca permaneceria fechada, selada pelos lábios rachados e ressecados. Tapada pela língua que, grossa, havia tomado conta da cavidade, tendo como limite os meus dentes cerrados. O ardor do sal na pele, que me chegava pelas gotas do suor que escorria pelo rosto, sinalizava que eu estava viva. Via-me não vendo nada. A voz repetida não era uma cantiga, era áspera, impositiva, cheia de animosidade. E oferecia, a voz. Sim... oferecia o copo de água postado à minha frente: beba dessa água fresca, alivie seu calor, seu cansaço e diga, diga, diga, diga... Ah... esses pedidos de voz de asco... Diga, beba, diga, diga, beba. Olhei o copo. A água parecia fresca, envolvente e translúcida. O limite do copo era o limite de meu olhar. Nada além. Não via o rosto da voz que me exigia, beba, diga, beba! A água... que deleite não desfrutaria minha língua em festejos junto ao palato, num grande céu de generosas chuvas... As papilas enchendo-se de água e se contraindo para saborear a umidade, como pequenos dedais de mínimas flores, a flora natural que faz da língua uma fonte de prazer... Que gosto poderia ter de hálito renovado, deixando de lado o acre do sangue ressecado. Um gole e um pequeno rio se formando pelo sulco, espalhando cristais molhados, gotas luminosos de água fresca, inundando a cavidade bucal, escorrendo pelos lábios, pela garganta adentro, reverberando em subtração de calor... A possibilidade da liquidez gostosa que retira o sal ardido e limpa só pelo aparente sentir. Água de correr por entre os dedos, cair entre os seios, molhar a barriga, festejar entre as pernas. Como queria aquela água... Então, bem vagarosamente, estabeleci um plano, ardiloso como a voz. Fui empurrando minha mão direita em direção ao copo. A voz não poderia perceber a minha vontade. Milimetricamente, num tempo esticado e lento, avancei a mão. Mais um pouco, uma miudeza de espaço, e mais, e mais... Somente eu sabia que aquele copo seria meu, sem que ninguém se desse conta. O foco de luz, jogado impiedosamente sobre meu rosto, não se apercebeu da sutil movimentação de meus dedos. Eu estava conseguindo, ninguém via minha mão se mexendo, minha cautela me acobertava. As pálpebras semi-serradas não sinalizavam minha vontade. Ninguém via o que eu queria fazer, eu era o centro, a ação do momento. Beba, isso! Beba a água! O asco novamente! Levantei o braço e antes que me tirassem o copo, bebi, tantas goladas quantas consegui, antes de escutar a voz: – vagabunda, diga! A água entrou mansa e nela mergulhei, profundamente, repousando minha sede, me engolindo, levanto junto minhas idéias, meus pensamentos, minha vida, e fui correndo por um rio interno, calmo e terno. Sem tempo, sem pressa, até o dia em que explodiria num olho d'água, fincando novas raízes na terra, minha liberdade.

 

 
 

Fevereiro de 2003

 
     
 
   


 

           

 

 

Adriana Gragnani
Paulistana, ativista da cidadania.
Uma assumida mulher da net