Sou interrompido da minha leitura.

– Tá ouvindo esse passarinho?

Levanto os olhos, aturdido.

– Que passarinho? – pergunto com o desprezo de quem não quer assunto e quer encerrar esse que se iniciou.

– Esse, ó! – diz, com o indicador ao alto, apontando o nada. Olho acima, procuro nos galhos, não acho. Um canto de três notas curtas soa sobre nossas cabeças. Abre um sorriso.

– Viu? Sabe o que ele diz?

Furtivos, meus olhos procuram resposta.

– Ele tá dizendo “Jesus nasceu, viu?”

– Em aramaico? – debocho, secamente.

– Não, em português.

– Ahn...

O animal volta a soar.

– Ó, viu? “Jesus nasceu, viu?” – Canta num dueto com o pássaro. – Ele só aparece nessa época do ano, pra avisar que Jesus nasceu – completa.

Queixo franzido, boca arqueada, confirmo. Caio sobre o livro, onde pássaros não falam com pessoas e não anunciam o nascimento de carpinteiros judeus.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Acordou e o braço doía. Dormiu tenso sobre um lado do corpo. A manhã estava quente e pegajosa, escorrendo pela testa e grudando no lençol. Detestava dias quentes.

A bateção no apartamento acima logo começou. BAM BAM BAM. Há muitas manhãs os martelos e as furadeiras do 402 o acordavam, ofuscando a rádio AM da vizinha abaixo, que insistia em cantarolar os antigos sucessos da Jovem Guarda enquanto lavava a louça, esbanjando água e esnobando a torneira. A basculante da cozinha abria para um fosso que comunicava todos os pequenos apartamentos do edifício. Era por ali que entravam, além dos ruidosos e típicos sons da cidade acordando, os ratos gordos e as baratas fugidias – sua basculante estava emperrada desde que alugara o JK, há três meses.

BAM BAM BAM.

Sentou na cama com esforço, “a idade começou a pesar”, pensou. Dormiu com 59, acordou com 60. Não havia nada para celebrar, não receberia ligações de feliz aniversário, nem parabéns a você, nem aquelas tele-mensagens cretinas de clichês que qualquer um que sabe enfileirar palavras numa frase pode elaborar. A saudação de aniversário era a bateção do andar acima e a manhã pegajosa da fronha quente e úmida.

BAM BAM BAM.

Aniversários são todos iguais, além de banais. Todo mundo faz aniversário, não há nada de especial. Não há porque sentir-se feliz por dormir com 59 e acordar com 60. Sabe que quando chegar a manhã em que acordar com 70, depois de dormir com 69, será igual a todas as outras manhãs pegajosas de verão. Só espera que então não seja acordado pela bateção do andar acima, já que não pode evitar as manhãs quentes do mês de janeiro.

BAM BAM BAM.

O braço doía. E vai continuar assim pelo resto do dia. A sexta década de vida é inaugurada com dor e suor. Nada de festa, abraços e risadas. “Para um velho, presente bom é relaxante muscular.” Desistiu. Deitou e fechou os olhos. “Quem sabe a bateção me faz dormir de novo.”

BAM BAM BAM.

A reforma durou mais dois dias. O velho também.

 
     
 
   


 

           

 

 

Vitor Diel
Autor de contos, crônicas e artigos, tem trabalhos publicados em diversos sites, entre eles o www.pessoasdoseculopassado.com.br, www.sarcastico.com.br e www.bestiario.com.br, além de ter artigos e contos publicados na edição número 17 de O Caixote. Seu conto “Um dia na vida” foi publicado na antologia de contos 101 que Contam, organizada pelo escritor Charles Kiefer. Outros textos do autor podem ser conferidos no seu blog:
http://bumerangue.pitas.com.